Cavalos Selvagens

13 13 "Fazendo as pazes com o passado"


Notas iniciais
Boa noite! Galera, eu demorei pelo motivo de sempre, então, desculpa, mas estou superando as bad's. Antes de mais nada, eu quero agradecer ao carinho e preocupação que vocês tiveram com essa autora cheia de dramas. Sério, vocês me ajudam muito e me passam muita segurança. Cêis são mais que lindos ♥ Agradeço a maravilhosa da Gowther por presentear a história com a segunda recomendação. Muito obrigada, leitora linda! Amei ♥ E agradeço a todos que acompanham, favoritam e comentam, cêis me deixam muito feliz; quimera, HealingMoon, Olive, Laurell Lovegood, Madame Górgona, ShalaNala, Deby Costa, Lolita, Lari, Aurora Boreal, Mariejane, hinatinha05, Fujoshi n alma, Angel Leto, Zero Shizuo, konichiwaclara, nilla, Babissf, Gowther, Naine, Maga Estelar, Manvil Estrelm, YuliScarlet, Lari Mello, Snow Queen e ao Rin que me mandou uma mensagem linda ♥ Estamos cheios de leitores novos! Espero que gostem desse capítulo mais focado no Simon e no Sebby. O comecinho é um pedaço do passado. Boa leitura!

Capítulo 13 — Fazendo as pazes com o passado

A praça estava pouco movimentada naquele fim de tarde. Algumas crianças brincavam por ali, rindo alegres enquanto as mães conversavam sobre o cotidiano.

Era um ótimo dia para um piquenique. O outono havia chegado e folhas douradas e vermelhas, caiam pelo manto verde e gramado. E era também uma bela paisagem, apreciada por olhos negros e puxados.

Um adolescente trajado em roupas de moletom, estava sentado de maneira relaxada sobre um dos bancos debaixo das árvores. O céu era contemplado com afinco enquanto os dedos brincavam despreocupados com os cordões da blusa.

Aquele era um bom lugar para refletir sobre a vida jovem e cheia de problemas. Havia uma mochila ao lado, com roupas e itens de sobrevivência para um garoto estúpido que resolvera fugir de casa por desavenças com a mãe. Estava em Santa Luz, na cidade onde chegou a trabalhar em uma fazenda por alguns anos, quando ainda era só um menino. O fato é que precisava voltar para lá, mas era uma longa caminhada. A avó tinha que morar tão longe? Se ele ao menos tivesse um carro velho ou uma bicicleta, não ficaria esperando uma carona cair dos céus.

Enquanto refletia sobre ser um péssimo filho por simplesmente ter uma orientação sexual oposta ao que a mãe e o padrasto desejavam, observou um carro de luxo que parou próximo ao banco em que estava sentado. Ele nunca havia visto algo tão caro e tão chamativo. Aquilo era uma nave espacial! Provavelmente o dono era um velho exibido e milionário que tinha como passageira, uma mocinha de dezoito anos que queria apenas gastar o dinheiro do magnata.

No entanto, quando a janela se abaixou, o que viu não foi um velho e sim, alguém jovem e que poderia muito bem ser um modelo famoso com um daqueles nomes estranhos que via nas revistas de moda.

— Garoto, eu estou meio perdido aqui. — O rapaz pareceu levemente sem graça ao admitir não saber o caminho que devia seguir. — Sabe me informar como eu chego na fazenda Flor de Ouro?

Que coincidência! Ele ia exatamente para lá. Aquele poderia ser um sinal! Rapidamente pegou a mochila e caminhou estabanado até o veículo.

— Eu sei onde é, mas só falo se me der uma carona. 'Tô indo pra lá. — Debruçou-se na janela, levemente atrapalhado ao conseguir visualizar com clareza como o outro era bonito. Não era mesmo eufemismo compará-lo a um ator de Hollywood ou a algum modelo internacional. O cara era o próprio pecado andando nessa terra de meu Deus! Ou melhor, dirigindo.

O loiro fez o mesmo e encarou o adolescente com certa minúcia. O garoto podia ser algum trombadinha prestes a roubar-lhe os pertences, mas parecia um pouco desajeitado e até mesmo sincero. Se estavam indo para o mesmo lugar, não custaria levá-lo.

— Seu nome? — Perguntou apenas para ter algum conhecimento de quem enfiaria dentro do carro.

— Sebastian. — O garoto respondeu, parecendo pensar se deveria ou não contar o nome ou inventar algum mais interessante. — E o seu? — Se o mauricinho podia saber, ele também podia.

— Entra, Sebastian. — Falou ao destravar a porta, ainda observando com cautela o passageiro. — Simon.

Sebastian entrou e se ajeitou no banco, colocando a mochila nos pés e prendendo o cinto. Novamente reparou no rosto e nas roupas do dono daquele carro importado. O perfume caro e almiscarado, foi logo presenteando o olfato com o melhor aroma que já havia sentido. O pensamento de que até o gel que aquele loiro usava para deixar os fios no lugar, pagaria por um mês de seu salário, passou pela mente enquanto fazia uma análise do porte altivo e…

— Sexy… — Foi somente o tempo de arregalar os olhos e cobrir os lábios com as mãos, ao perceber que havia dito aquela vergonha em voz alta. Céus! Onde estava com a cabeça? Mal sabia o nome do homem e já soltava aquele elogio que, o loiro podia muito bem se ofender, simplesmente por serem do mesmo sexo. E o que fez foi somente corar quando as íris de um verde muito claro o encararam de volta.

Simon sentiu os músculos relaxarem e quase sorriu da apreensão estampada no rosto do adolescente. Não era como se não soubesse da própria beleza, mas era sim muito bom ouvir de outras bocas. Só não esperava que aquele garoto que não devia ter mais que quinze anos, fosse deixar escapar justo aquela palavra. E inconscientemente, a mesma palavra surgiu para descrever o gesto de Sebastian ao passar a língua pelo lábio inferior e ter as bochechas coradas. Belezas como aquelas, eram exóticas. E ele era atraído por uma boa parcela de olhos puxados e cabelos negros.

— Já me disseram isso. — A frase pretensiosa somente aumentou o constrangimento do garoto ao lado, e serviu para deixá-lo ainda mais vermelho. — Várias vezes.

— Que bom, então. Me sinto menos idiota por não ser o primeiro. — Embora a frase fosse sarcástica, o rosto ainda queimava. Mas bem, um pouco de sinceridade não matava ninguém. — E então, Simon, de onde você é? — Sim, estava curioso e conversar diminuía o constrangimento.

— Capital.

Sebastian desejou que o loiro fosse menos direto ou se interessasse por saber algo a seu respeito também, mas era apenas sua ansiedade adolescente gritando ao encontrar um desconhecido tão atraente quanto aquele.

E depois da resposta breve veio o silêncio que perdurou por todo o caminho.

E nenhum dos dois saberia dizer como acabaram se beijando ao fim do percurso.

* * *

O silêncio era incômodo, pesado e quase palpável entre eles, mas não pareciam muito dispostos a quebrá-lo. Ao menos um deles não parecia disposto a conversar. E dessa vez não haveria beijo algum para amenizar a situação.

Estavam no carro importado de Simon, muito próximos, enquanto Sebastian dava um jeito de limpar o rosto do loiro com o kit de primeiros socorros que haviam comprado na farmácia.

Achava-se tão ridículo por estar ali, cuidando do idiota que havia fodido com sua vida, não somente com a vida… Devia tê-lo deixado e ido com o primo e o cowboy, pois sentia-se culpado por ter deixado Nestor e o ter claramente trocado por aquele loiro infeliz. De todas as vezes que imaginou um reencontro, em nenhuma delas, acontecia assim. Geralmente, sentia-se ansioso, com borboletas no estômago e louco de vontade de ouvir um pedido de…

— Desculpa.

Os olhos puxados se desviaram para os verdes. Claro, como se fosse fácil. Como se tudo fosse se resolver depois de uma simples palavra. Quis rir, mas se concentrou em terminar, passando o anti séptico, desejando ele mesmo ter quebrado a cara do mais velho.

— Sebastian, por favor. — A voz baixa implorava para que tivesse as desculpas aceitas.

— Não é um pedido assim que vai mudar as coisas entre a gente. — Sebastian se pronunciou, cheio de rancor. — É um saco ficar jogando na sua cara o quanto você foi um filho da puta comigo, mas é a verdade. E sabe, ainda dói pra caralho lembrar que você usou e abusou de um adolescente, pra no final, deixar ele como se fosse um objeto. — E sim, precisava dizer aquelas palavras ou morreria engasgado.

— Não foi assim que—

— Ah, não? — A indignação também era evidente no tom. — E como é que foi? — Ele teria cruzado os braços e arqueado a sobrancelha para evidenciar o sarcasmo, mas se ocupou em praticamente deitar no banco e ouvir o que o outro tinha a dizer. Parecia interessante a visão do loiro sobre os fatos. Era tão mais fácil distorcer os acontecimentos do que assumir os erros.

— Eu estava confuso…

— Confuso? Ah, por favor, senhor Green! — Sebastian ironizou o pronome de tratamento, jogando a cabeça para trás e rindo como se tivesse ouvido alguma piada. Rir ou chorar, parecia tudo muito próximo de tudo o que sentia no momento. — Você era um adulto que sabia muito bem o que estava fazendo! — E não era uma acusação, era só a constatação da realidade. — Sabia o quanto eu estava envolvido e se aproveitou disso. Eu fui só o garoto caipira que você fodeu pra se aliviar dos problemas dessa sua vida perfeita! — Teve que se controlar para não continuar, pois os olhos arderam e ele se sentiu a criatura estúpida que realmente era ao querer chorar. Choraria de raiva, de mágoa, de tristeza, mas, principalmente, choraria porque o sentimento continuava ali, bem cravado em seu peito feito tatuagem na pele. E mesmo com a distância e todo o pesar do passado, não era capaz de odiar aquele homem.

Os olhos se fecharam com força, impedindo que as lágrimas viessem. Era muita humilhação e falta de amor-próprio chorar nas vistas de quem menos merecia suas lágrimas.

— Se você veio aqui, acreditando que vai conseguir me levar na conversa uma segunda vez, é melhor pegar a sua pose de riquinho mimado e voltar pra capital, porque 'tá perdendo o seu tempo. — Tentou sair do carro, mas a porta estava travada e ele só conseguiu ficar com mais raiva daquela situação. — Vai me obrigar a ouvir a porcaria do seu discurso? — Esbravejou, levando as mãos ao rosto e respirando fundo.

— Se não quisesse me ouvir, não teria vindo comigo. — Simon o conhecia muito bem para saber que ele não fazia nada do que não tivesse vontade. Não o havia obrigado a segui-lo, embora tivesse tentado...

— E mais uma vez eu fiz uma burrada. — Suspirou com ar dramático, a despeito da enxurrada de sentimentos que estavam quase explodindo em seu peito. Acabou aumentando o tom ao se descontrolar. — Porque nada do que você me disser me interessa. Eu não quero as suas desculpas, não quero ouvir sobre a louca da sua noiva e muito menos e sobre os seus falsos sentimentos!

— Não é falso, Sebastian! — Simon também elevou a voz. Precisava se fazer ouvir, nem que para isso tivesse que gritar. — Nunca foi! E você sabe.

— Na época eu até acreditei, mas a gente cresce e aprende que os sentimentos são só palavras jogadas ao vento, esperando o primeiro idiota acreditar. — E ele pensou assim durante muito tempo. Ainda pensava, por isso não se relacionava a sério com ninguém. Preferia viver sem preocupações, ter alguém para esquentar sua cama, mas não ter cobranças, não sentir ciúmes ou ter que se perguntar se o sentimento era recíproco.

Simon encostou a cabeça no banco. Tudo no momento doía, inclusive o fato de tê-lo machucado a ponto de fazê-lo desacreditar do amor. Era sua culpa por ser tão impulsivo e ser um maldito covarde, incapaz de assumir os sentimentos ou de largar a vida fantasiosa que levava. Durante todo aquele tempo, pensou em como teria sido ao lado dele, com alguém que o entendia, que era uma ótima companhia e que sentia o mesmo por si. Alguém que não precisava fazer nada para ter sua atenção, alguém que o ouvia, que era um amigo e um amante perfeito, alguém que estaria ao seu lado, nos bons e nos maus momentos. E foi só com ele que encontrou o que buscava, mas jogou tudo para o alto, incapaz de ser quem ele realmente era, porque simplesmente se preocupava demais com o que iriam pensar. E tudo, para no final, se descobrir tão rico e cheio de prestígio, mas tão infeliz.

— Você não tem argumentos. — Sebastian murmurou, cansado de se iludir. — Por que mesmo você quis conversar? — Porque calados, não chegariam a lugar algum.

— Porque eu sou o cara mais estúpido e o mais covarde. — Simon soou amargurado. Também estava cansado, mas cansado de suas próprias atitudes. — E também porque eu demorei tempo demais pra perceber que eu te amo.

Foi tão natural quanto comentar sobre o tempo. As palavras fluíram, sem que ao menos se desse conta de dizê-las, fazendo-o pensar no quanto aquilo era real. E durante todo aquele tempo, quis negar ou reprimir aquele sentimento, fingindo que não era nada demais e que poderia seguir sem a lembrança do sabor dos lábios, do cheiro da pele ou das conversas bobas e despreocupadas às escondidas.

Com a fala, Sebastian sentiu a euforia tomar conta de todos os outros sentidos. Era a primeira vez que Simon se declarava e que se mostrava tão arrependido, parecendo mesmo disposto a consertar o passado. Mas ele não podia simplesmente voltar e lançar aquela bomba sobre si. Não era justo, era melhor que rompessem qualquer ligação, pois era um fato de que aquilo não daria em nada. Não daria certo e ele não queria se machucar, não mais do que já havia se machucado. Nem mesmo havia se recuperado e não parecia que chegaria a conseguir.

— Não, não ama… — Balbuciou, odiando-se por se mostrar tão frágil, atingido por aquelas palavras. Até mesmo as mãos tremiam e a voz soou como algo frágil e prestes a quebrar.

— Amo, sempre amei. — Simon se desencostou do banco, encarando-o na penumbra do carro, tocando-o no queixo.

— Não acredito. — Sebastian retorquiu, afastando a mão que o tocava com um tapa. — Amar um moleque caipira que, segundo você, só queria o seu dinheiro? Tenho certeza que não. — Balançou a cabeça, permitindo os cabelos negros caírem para o rosto.

— Esquece as coisas que eu disse. Eu fiz tudo errado. Foca no presente e deixa eu te mostrar que eu mudei. — Ele nunca havia se mostrado tão sincero e muito menos suas palavras eram ensaiadas, era o que sentia, o que desejava desesperadamente. — Uma chance. É o que eu peço.

Sebastian ficou novamente em silêncio. A razão gritava para que ele mandasse o loiro à merda e voltasse para casa, mas o coração ainda era o mesmo bobo apaixonado de sempre, que batia descompassado a cada palavra, fazendo o peito doer e disparando uma enxurrada de sentimentos sobre ele. Não queria acreditar, mas havia crescido e entendia quando alguém falava a verdade. Simon sempre se comunicou por mensagens, dizendo que sentia saudades, que queria vê-lo, mas nunca sequer tocou no assunto “amor”, era sempre a mesma frase decorada e, mesmo que se abalasse a cada mensagem recebida, não dispensava tanta importância ao que lia. Mas agora, ouvindo-o dizer com todas as letras que estava disposto a consertar os erros e a ter um futuro ao seu lado, deixava-o confuso, sem coragem para mandá-lo embora.

E lembrou-se do motivo de ter beijado um homem desconhecido em um carro de luxo. Naquela época, foi somente um beijo para passar por cima das palavras da mãe, nada que seria levado a sério. Fora só uma atitude infantil de um adolescente magoado. Uma atitude que no momento, desdobrou-se em algo maior que envolvia promessas no calor de uma lareira e um futuro que não passava de simples pensamentos que pareciam ser compartilhados por ambos.

Um suspiro alto partiu os lábios e as mãos cobriram o rosto. Estava perdido, esperançoso e cheio de um sentimento adolescente que parecia mais forte naquela noite. Os cabelos foram jogados para trás e ele se virou de lado, amaldiçoando a pouca luz por não conseguir ver com clareza os olhos verdes que gostava tanto.

— E isso quer dizer o quê? Que vai largar aquela maluca e assumir um compromisso com o caipira aqui? — Perguntou cheio de um humor amargo, sorrindo em descrença. Era óbvio que não, afinal, Simon Green não tinha coragem para sair do armário e assumir um relacionamento homossexual com um garoto humilde e fora dos tão preciosos padrões que o loiro tanto buscava.

Pamela tinha claramente um desequilíbrio emocional, mas era culta, rica e muito bonita. Era mulher.

— É isso, Simon? Vai romper com a sua bonequinha de luxo?

Era isso o que devia ter feito no passado. Simon se culpava a cada dia por tê-lo afastado devido as inseguranças e ao próprio preconceito, preferindo a filha de um importante empresário ao garoto simples do campo. Havia sido um canalha, usado um adolescente, acreditando que seria apenas sexo casual e que logo voltaria para a cidade e tudo ocorreria normalmente. Mas quando o deixou, nada foi como antes. A vida tinha perdido parte da graça, não havia motivos para sorrir e nem com quem dividir os sonhos e ideais. E foi aí que percebeu o que havia feito; Pamela já não o atraía como antes, ele não a suportava, mas sentia-se culpado pela tentativa de suicídio e continuava com ela, buscando escape nas mensagens que enviava ao garoto de Santa Luz.

Não havia um dia que não pensasse nele, mas eram tantas complicações, conflitos internos e o relacionamento com a noiva, que adiou até o último segundo aquele encontro, mas sem mesmo pensar, aquela era a melhor decisão que já havia tomado.

Dessa vez, iria até o fim.

— Você nem sabe o que quer. — Sebastian cortou o silêncio, tentando uma segunda vez destravar a porta. Iria embora e dormiria por um mês, até esquecer aquela noite ridícula.

Ele bem que tentou, mas foi mantido bem firme onde estava, seguro por um dos pulsos.

— Eu sei exatamente o que eu quero. — Simon afirmou, afrouxando os dedos para subir em um toque saudoso para o ombro até alcançar os cabelos negros e envolver as mechas macias. — Eu quero você.

E como se uma frase resolvesse todos os problemas naquela curta distância em que se encontravam, os lábios de Sebastian se entreabriram, recebendo os de Simon de maneira saudosa. Não era uma confirmação, era o desejo, a saudade, a vontade de tocar e de ser correspondido, mas não era uma confirmação sobre um futuro juntos. Era evidente que os sentimentos continuavam os mesmos, que os corações batiam desordenados e que a saudade doía naquele amor reprimido por tanto tempo.

As línguas se tocaram com vontade, compartilhando o gosto conhecido e nunca esquecido, lavando-os com memórias e promessas de um passado ainda muito vivo. Respirações alteradas se mesclaram e o som úmido do beijo, foi o que preencheu o silêncio do carro, enquanto as mãos voltavam a se tocar, reconhecendo os corpos de dois velhos amantes.

Os toques encontraram a pele, marcando e arranhando, relembrando a textura e a temperatura sempre tão peculiar, mas tão fugaz quanto o encontro de lábios veio, o contato se findou. Os dedos de Sebastian tocaram o rosto de Simon e a testa se apoiou no ombro do loiro enquanto sentia as mãos dele subirem e descerem por suas costas de maneira aquecida.

E ficaram assim por longos minutos, em um silêncio agora reconfortante, partilhando de emoções e promessas mudas.

Era como da primeira vez, mas ambos haviam mudado.

Sebastian sentiu o calor da respiração do loiro tocá-lo no ouvido e mordeu o lábio inferior ao sentir beijos pela região sensível, permitindo que os toques descessem pelo pescoço, voltando até a boca e compartilhando mais um beijo.

Um, dois, três, seriam poucos e impossíveis para expressar ou sanar um pouco da falta que sentiam um do outro.

Quando se afastaram, o pingente que Sebastian sempre carregava no pescoço, foi retirado e colocado em uma das mãos do loiro em uma confirmação muda. A joia brilhou, fazendo-o se lembrar do dia em que foi presenteado com algo tão caro e que, desde então, nunca mais retirou do pescoço.

— Quando você se decidir... E descobrir o que quer de verdade, pode me devolver. — Murmurou antes de abrir a porta e sair do carro.

— Sebastian...

— Eu não vou ser a segunda opção dessa vez. — E repetiria a frase para que ficasse claro que jamais se prestaria a ser o amante. — E caso não saiba o que fazer, é só jogar fora e esquecer. — Deu um tapinha no teto do carro. — Vai ajeitar as coisas com o seu pai, é o melhor que você faz por agora. A gente se vê.

Com a frase, deu as costas ao loiro e foi para a casa que dividia com a avó.

Simon teria que fazer muito mais do que beijá-lo ou se declarar. Se o filho do patrão quisesse mesmo se mostrar arrependido e ter um futuro ao seu lado, precisaria, antes de mais nada, resolver a situação com a noiva e deixar de se esconder.

Mas o beijo…

Céus! Aquele beijo o deixava de pernas bambas e coração acelerado. Ainda não havia se recuperado e provavelmente nem conseguiria dormir. Precisava de um banho relaxante e uma cama macia. E precisava colocar os pensamentos em ordem.

Quando adentrou o quarto, encontrou o primo ainda acordado, mexendo no celular.

— Tudo bem…? — Martin perguntou ao erguer os olhos do aparelho que havia acabado de pegar. Os olhos se apertaram devido à claridade que tomou conta do cômodo. Sebastian havia acendido a luz e não estava com a melhor das expressões. — Você não matou ele, né? — Parecia uma pergunta bem-humorada, mas havia uma real preocupação no tom de voz.

— Quase. — Um sorriso sutil ergueu o canto dos lábios. Os sapatos foram jogados para um canto e o corpo desabou na cama. Gostaria de falar com Victor, mas o loiro estava ocupado, e Sebastian esperava que a tal ocupação se resumisse em uma briga de línguas com certo cowboy… — Mas eu sou jovem e bonito demais pra passar a vida na cadeia. — Os pés se apoiaram na parede e os braços estavam jogados acima da cabeça enquanto ele pensava mais que o habitual. — E o Nestor?

— O cara tá arrasado. — Martin abandonou o celular e virou na cama, ficando de bruços. Havia “cuidado” dos ferimentos do cowboy e ouvido as lamúrias do mais velho por minutos a fio. — Fiquei com pena, mas são coisas da vida. — Murmurou, a voz saindo abafada devido a pressão do travesseiro. — Adultos e seus problemas do coração…

— Não é exclusivamente um problema adulto, nenê. — Sebastian suspirou. As mãos agora batucavam sobre a barriga. Ele próprio era adulto há pouco tempo e já queria regredir para a infância. Era tudo muito mais simples quando tinha a idade do trio de sobrinhos mais terríveis do estado.

— Eu poderia te dar uns conselhos do tipo; deixa de ser trouxa e segue a vida sem esse loiro embonecado, mas o buraco é mais embaixo. Você decidiu o quê? — Curiosidade era seu nome do meio e ele até se apoiou no cotovelo para olhar melhor para o primo.

— Ele me beijou e disse que me ama. — O tom neutro passava bem longe de como se sentia. Um rebuliço de sensações, uma verdadeira tempestade de confusões que não pararia tão cedo de chover e ventar.

— Hm. — O adolescente não era a melhor pessoa para dar conselhos amorosos, ele só queria entender o que acontecia com o mais velho. — Então, nada mais de cowboy dramático na sua vida?

— Eu ainda vou conversar com o Nestor, só pra não ficar um clima estranho. Com o Simon as coisas vão ser bem diferentes. — Infelizmente com Simon, tudo era diferente.

Um bocejo e eles entenderam que precisavam dormir.

Mas naquela noite, Sebastian seria trouxa o suficiente para idealizar uma vida inteira com certo playboy loiro.

* * *

Quando Simon chegou ao casarão, encontrou a porta da cozinha aberta. Ouviu o barulho de panelas e uma voz que tentava cantarolar alguma música irreconhecível em um péssimo inglês. Há tempos não via aquela mulher baixinha de vestidos coloridos e tranças. Há tempos que não pisava ali.

Arrependido e por vontade própria, era uma cena inédita.

Memórias da infância o fizeram se sentir ainda mais abalado do que já estava. Lembrou-se dos amigos, das brincadeiras com o pai e a mãe e das risadas sob a árvore onde costumava balançar em um pneu.

Depois da conversa com Sebastian, deu uma volta de carro para colocar os pensamentos no lugar e esperou que o dia clareasse para chegar até ali e terminar o que havia ido fazer. Não era apenas com o garoto que cuidava dos cavalos com quem devia se desculpar.

Para que não assustasse a jovem senhora que em vez de usar a frigideira no fogão a usava como um microfone, ele bateu palmas na entrada, sorrindo quando o barulho de alguma coisa caindo, chegou aos ouvidos. Tulipa ainda era a mesma estabanada de sempre. Algumas coisas não mudavam por ali.

Os utensílios foram recolhidos e, refeita do susto, Tulipa passou as mãos pelos cabelos e seguiu para a porta. Se fosse Bartholomew tentando lhe assustar, ele sentiria a fúria de sua vassoura. Porém, quando chegou ao destino, encontrou um rapaz bonito e... Loiro... E de olhos claros...

— Bom dia, Tulipa.

O cenho da mulher se franziu e ela demorou alguns segundos para entender quem era o homem bonitão e com ares de galã que estava à porta de sua cozinha.

Mas alguém com aquelas características só podia ser...

— Simon, o filho do Ivan, lembra?

Tulipa piscou algumas vezes e fez uma análise nada discreta do filho do patrão. Beleza era mesmo de família. Ah, se ela fosse uns vinte anos mais jovem...

— Tulipa?

— Eu só não esperava por essa surpresa. — O corpo pequeno deu espaço para que o loiro entrasse. Ela sabia sobre as desavenças entre Ivan e o filho do meio, mas era uma grata surpresa que Simon estivesse ali. Só não seria mais chocante do que Cecília chegar na fazenda. De qualquer forma, a esperança continuava viva. — Mas que saudades, menino! — Foi então que os ataques finalmente surgiram e ela se pendurou no pescoço do loiro. — Ivan vai ficar tão feliz! — Ao lado de Victor, o trio maravilha e agora do empresário. Isso merecia uma comemoração! Só ficaria mais feliz no dia em que Ivan se casasse com ela.

Simon a abraçou em retorno e acabou sorrindo pela euforia de Tulipa, quase a tirando do chão. Não era tão bom em demonstrar afeto quanto Victor, mas podia melhorar. Podia melhorar em muitos aspectos ainda. Por isso estava ali.

— Devia ter avisado que ia chegar. Eu teria feito um café da manhã especial e o seu bolo preferido. — Ela colocou as mãos na cintura, levemente chateada por não ter nada fora dos padrões diários para oferecer ao... Enteado? Ainda se lembrava das comidas favoritas de cada um dos irmãos Green. Ela era ou não uma ótima mãedrasta?

— Não conheço ninguém que cozinhe igual a você, então, qualquer coisa está perfeito. — Inclusive o cheiro do café preto, era um dos melhores que já havia sentido. E pensar que antes, comeria qualquer coisa que não fosse a comida simples de Santa Luz. O mundo dava voltas e mais voltas.

— Sei... — Tulipa estreitou os olhos, observando somente naquele momento que havia algo estranho no rosto do loiro. — Onde foi que você se machucou?

Antes que Simon respondesse, três figuras baixinhas e rápidas feito o vento, entraram no cômodo aos gritos, correndo em volta da mesa duas vezes antes de pararem e encararem o homem que estava com Tulipa. Eles ainda usavam pijamas e tinham os cabelos despenteados, mas se acordassem com o galo, teriam mais tempo para gastar e desbravar Flor de Ouro.

— É o tio Simon! — Denver apontou, fazendo a melhor expressão espantada que conseguia. Ainda estava com sono, por isso correr ajudava a despertar todos os sentidos para iniciarem logo as brincadeiras.

— Não, é o Capitão América... — Dilan rodou os olhos. Eram tão parecidos, mas não em inteligência. No quesito QI, ele estava muito além dos gêmeos que sempre diziam coisas óbvias.

Denver e Daniel se entreolharam, absorvendo as palavras do irmão e olhando novamente para o homem loiro e de topete. Será...

— Mas cadê o uniforme azul? — Daniel perguntou. A mão estava sob o queixo enquanto ele fazia uma análise demorada do super-herói.

— Ele deve 'tá de férias, gênio. — Denver retrucou. Parecia óbvio que Steve Rogers também merecia um descanso e Santa Luz era um ótimo lugar para descansar de qualquer missão.

— Mas parece mesmo o tio Simon...

Tulipa não estava entendendo nada sobre o tal capitão-alguma-coisa, por isso deu de ombros e foi dar atenção para o café. Os loiros que se entendessem.

Quem dera se ele fosse ao menos o ator que interpretava o herói favorito do trio, se bem que era muito mais bonito que o talzinho. Simon se abaixou e bagunçou ainda mais os cabelos dos sobrinhos. Certo, mais uma decepção para preencher sua lista.

— Só o irmão da mãe de vocês mesmo. Nada de herói. — Apertou as cinturas dos três por implicância.

— Viu? — Daniel empinou o nariz para os irmãos. — Eles precisam de óculos, tio. — E foi logo pedindo colo quando o mais velho se ergueu.

— Vai morar aqui também? — Dilan perguntou. A família toda devia ir viver ali com o avô e o tio Victor. — Isso aí 'tá doendo? — Apontou para o próprio rosto no local onde a face de Simon estava marcada.

— A gente tem um tio novo! — Daniel interrompeu a resposta de Simon, eufórico ao dar aquela notícia.

— Tio novo? — Simon estranhou a fala do sobrinho mais fofo, tentando mentalizar a figura de alguém que pudesse servir de tio para aqueles três.

— É! O tio Jackie! — Denver tentou pegar o pé do irmão, mas foi chutado por um Daniel emburrado por não ter conseguido dar a notícia completa.

— Ele é muito legal.

— Vai levar a gente pra passear de cavalo e pro parquinho também.

— Vai namorar com o tio Victor e adotar a gente!

— Não vai adotar nada!

— Não acredite em nada do que eles disserem. — Como dormir com toda aquela bagunça e falatório? Nem mesmo o galo tinha culpa dessa vez, mas era fato que o trio e o irmão, também não tinham culpa de ter praticamente caído da cama.

Victor estava de moletom, cabelos amarrados e com a melhor cara amassada de uma ótima noite de sono. Fora um viço na pele e um brilho no olhar que há tempos o irmão mais velho não via.

Ah, claro. Simon havia visto o caçula junto ao cowboy na noite anterior. Precisaria fazer algumas perguntas a Jackie depois...

— E por favor, deixem o tio de vocês descansar. — Pegou Daniel do colo de Simon. — Tudo bem com você? — Perguntou baixinho, preocupado com o irmão, mas sem querer ser invasivo demais, embora a pergunta se referisse a situação entre o mais velho e o melhor amigo.

— A gente conversa depois. — Simon murmurou de volta em tom implicante. E não estava falando sobre Sebastian e ele, e sim sobre o caçula e Jackie. Seu lado ciumento não dava descanso.

— Não começa... — Victor devolveu a implicância, mas seria mentira se dissesse que não apreciava todo aquele ciúme de irmão.

— Simon...

A voz de Ivan chamou a atenção de todos. Os netos estavam mais falantes que o normal, Tulipa terminava de colocar a mesa, parecendo admirar a cena com um sorriso bobo e os olhos brilhando de emoção, e os filhos, estavam próximos, trocando confidências mudas com o olhar, como sempre faziam desde a infância.

De todas as pessoas que Ivan imaginou encontrar na cozinha, seu filho do meio era a última delas. E ele estava tão bonito, tão parecido com ele próprio quando era jovem. Os olhos castanhos brilharam e quase deixaram lágrimas rolarem ao ter o corpo do filho abraçado ao seu. Sem que ao menos precisasse pedir por um abraço ou dizer algo mais que o nome do loiro.

Fazia tanto tempo...

— Pai, perdão.

Havia esperado tempo demais para dizer algo tão importante a alguém que amava com todas as forças. E não precisou de uma resposta verbalizada, somente do afago em seus cabelos e dos tapinhas de confirmação em suas costas.

As cores, o perfume que ele usava desde sua infância e o sorriso que alcançava os olhos. Ivan não mudava e mesmo com as desavenças do passado, foi tão simples e natural dizer que não havia nada para perdoar. Foi tão reconfortante o calor daquele abraço, que era tudo o que Simon precisava no momento.

Victor abraçou os ombros de Tulipa e sorriu da surpresa do cowboy que acabava de chegar, estarrecido com a cena, mas feliz por aqueles dois, devolvendo o sorriso e se apoiando no batente da porta.

Aquele era o início de uma nova etapa para a família Green.

Notas finais
Parece até final de temporada de série :D Eu gosto tanto de mostrar esse relacionamento entre a família, espero que tenha conseguido passar um pouco dos sentimentos dos personagens. O que acharam da conversa do Simon e do Sebastian? Prometo que no próximo capítulo, cêis vão enjoar de Victor e Jackie. Bjuss galera! Tô repondendo os comentários aos poucos. Como sempre, perdoa e não desistam de mim!