Cavalos Selvagens
11 11 "Sorte de iniciante"
Notas iniciais

Capítulo 11 — Sorte de iniciante
A porta se fechou com um baque surdo, logo após uma nada sutil ameaça de tentativa de morte. Simon espalmou as mãos no rosto e suspirou de maneira pesada ao jogar o corpo no sofá.
Havia sido frustrante. Aquele era um dos piores dias e ele realmente se sentia sozinho. Pamela o tinha recebido com um almoço caro e refinado, uma refeição italiana e vinho branco com sua sobremesa favorita. Parecia que teriam um momento de paz, mas em uma distração, ela conseguiu pegar o celular sobre a mesa, e ler a mensagem que havia trocado com alguém que tinha apenas um S para identificar o contato. A partir daí, o almoço de aniversário de noivado, escorreu feito água.
Pamela não era boba, não como Simon pensava que ela fosse. Ela vinha desconfiando sobre uma possível amante, apenas confirmou ao ler as mensagens, entendendo que o noivo queria retomar alguma coisa com a tal mulherzinha descarada que se fazia de difícil. Acabou surtando e quebrou o celular, lançando uma chuva de ofensas contra o loiro. Como ele podia? Iam se casar! Ter uma família juntos, viajar o mundo e ter um casal de poodles. Ele não podia. E depois de uma crise de choro, ela aceitou que ele tivesse uma amante, contanto que continuassem juntos, afinal, ela não podia viver sem ele.
E Simon sabia o quanto ela era desequilibrada quando o assunto era o término da relação. Não pensou duas vezes antes de pegar o telefone e ligar para a casa e para as amigas da noiva, pedindo que tomassem conta dela e que não a deixassem só. Ela havia tentado se matar uma vez, quando tinha se envolvido com Sebastian. Havia sido um filho da puta com os dois, e a maneira como as coisas terminaram, ele se lembrava como se fosse ontem. E remoía o episódio, sempre que estava só.
Não havia desistido da ideia de ir para Santa Luz, mas deixar uma mulher com os nervos a flor da pele, a mesma que havia tentado suicídio e que retornara com a ameaça, era um problema que ele não sabia se queria enfrentar. Mas simplesmente não podia terminar as coisas assim. Queria que Pamela aceitasse a separação e seguisse em frente, queria ver Sebastian e matar a saudade, queria fazer as pazes com o pai, voltar no tempo e não ter dito aquelas coisas ofensivas a Cecília, ser um tio presente e um irmão melhor, ele queria tantas coisas, mas sentia como se tudo escapasse feito fumaça pelos dedos. Não dava simplesmente para pedir desculpas e achar que ficaria tudo bem, dar presentes caros e tentar consertar o passado dessa maneira fútil.
Tinha tantos problemas, e nenhuma porcaria de manual que desse para seguir. A vida era mesmo uma montanha-russa, até o dia anterior, achou que estava por cima, que os planos de retomar uma relação com quem realmente queria ao seu lado, estavam mais próximos do que sequer havia imaginado, mas agora, pensando em como tudo estava fora de controle, ele estava novamente por baixo, sem saber o que fazer.
Sebastian jamais aceitaria ficar com ele, com a promessa de uma ex suicida pairando sobre eles, e tudo o que havia pensado até agora, seria impossível de ser levado adiante. Estava ferrado. Era como Victor sempre dizia, tinha tudo e nada ao mesmo tempo.
Victor…
O irmão, era o único com quem podia contar, mas pensar que estragaria o dia dele com seus dramas, não era justo. Era mais velho, precisava consertar as coisas sozinho.
Mas talvez, o amor não fosse para ele.
* * *
Victor ainda se questionava sobre o motivo de ser chamado para um encontro. Ele tinha a certeza de que o cowboy havia pirado de vez, pois não era normal que um cara hétero e seguro sobre a orientação sexual, o chamasse para sair, ainda mais daquela maneira, com a conotação romântica da palavra bem exposta. Era relativamente cedo e até um tanto inesperado aquele convite, e não escondia o fato de estar com o pé atrás sobre as intenções de um homem que podia estar apenas curioso em relação a sair com outro homem. Droga de insegurança!
Não que esperasse se envolver romântica ou sexualmente com aquele homem, mas o jeito, o clima, os casais que passavam de mãos dadas pelas calçadas ou ruas, faziam somente seu nervosismo e ansiedade triplicarem. Talvez não devesse ter aceitado. Talvez, no final, ele fosse apenas a cobaia de um Jackie confuso.
— Se eu fosse você, ganhava um desses prêmios pra essa moça bonita. — O dono da barraca de tiro ao alvo, abriu um sorriso luminoso para o jovem casal, convidando-os a se aventurarem em seu comércio.
A praça estava toda enfeitada para a comemoração ao aniversário de Santa Luz e a rua principal fechada para que nenhum acidente ocorresse. A música animada vinha de uma banda de baile com direito a mariachis, dispostos em um dos três palcos. O cheiro das comidas típicas, causava alvoroço nos famintos e naqueles que visitavam a cidade pela primeira vez.
Fazia muito tempo desde o dia em que Victor tinha ido em uma daquelas festas, o loiro mal se lembrava de como tudo era bonito e alegre. Era bom sair e ver gente, se distrair do trabalho e dos problemas pessoais. Estava animado como os sobrinhos ficariam caso vissem a estrutura minuciosamente montada no centro da cidade. O interior parecia tão agitado quanto a capital naquela noite.
No entanto, a animação, somente perdia força para a timidez. A velha timidez que não o abandonava nunca. E o único culpado era o cowboy atraente que vestia jeans e camiseta preta. Ele ficava ótimo com aquela combinação, sem as típicas camisas xadrez e o chapéu.
— Você deve ser péssimo. — Victor comentou por implicância, pois Jackie sorria como se estivesse com uma arma de verdade e fosse o próprio Sniper Americano.
— O que eu ganho se eu acertar na primeira?
Victor teve a certeza de que o pensamento de Jackie ia muito além do que ele estava disposto a imaginar, principalmente porque o sorriso de lado estava presente quando ele fez a pergunta. Estava sim expectante em relação à noite que teriam juntos, e isso já era suficiente para deixá-lo dez vezes mais atrapalhado e ansioso do que já era normalmente, mas ele se esforçava para deixar um pouquinho da vergonha de lado. Mas no momento ele estava mais do que vermelho, combinando com o gorro de lã que usava na cabeça.
— E o que você quer? — Morder o lábio era outra mania, mas não percebeu que o gesto passava uma informação contrária a como realmente se sentia. Não estava tentando seduzir ninguém. E mesmo que tentasse, provavelmente, passaria vergonha e faria o parceiro rir. Era tão sexy quanto um ganso de sapatos. Mas talvez, Jackie não tivesse essa opinião… — As minhas congratulações? — Arriscou, sabendo que não era nada disso e que podia sim dar outra coisa.
Jackie o analisou por uns momentos, antes de voltar a atenção para o alvo, mirar com a espingarda e acertar.
Victor franziu as sobrancelhas e escondeu a surpresa. Devia ser mais fácil do que havia imaginado, não era para aquele cowboy ficar se achando com aquele risinho debochado no canto dos lábios.
— Sorte de iniciante. — Afirmou, mas mal terminou a fala e outro tiro certeiro atingiu o pequeno balão ao fundo da barraca, fazendo-o quase morder a língua.
— Quer testar a sua sorte de iniciante? — Jackie o provocou, entregando a arma de pressão e dando espaço para ele se posicionar.
— E o que eu ganho se eu acertar? — Resolveu imitar a postura cheia de provocação, embora estivesse mais vermelho que um morango.
— Os meus mais sinceros parabéns. — O cowboy se ajeitou às costas do loiro somente para intimidá-lo.
O arrepio que surgiu foi solenemente ignorado, mas foi impossível conseguir se concentrar. Aquilo era golpe baixo e Jackie sabia como desestabilizá-lo. Que infeliz! Havia ficado exatamente assim quando ele sussurrou ao pé de seu ouvido que seria um encontro.
— Sorte de iniciante, você disse. — Zombou ao vê-lo frustrado ao errar feio o alvo.
— Ah, claro como se fosse fácil. Não com um cara farejando o meu cangote! — Victor torceu os lábios, mal se dando conta do que falava, devolvendo a arma de brinquedo ao dono da barraca que parecia se divertir com os dois.
— É que eu gostei do seu perfume. — Se Victor não percebia o que dizia, Jackie estava ali para isso. E bem, não era nenhuma mentira. Quando pensou que gostaria do cheiro de outro homem?! Pois é, não pensava em muita coisa antes daquele loiro.
Victor sentiu o rosto queimar e resmungou algo que o cowboy não entendeu, mas ao ouvir o dono da barraca o cumprimentando por ter acertado o alvo, se interessou pela parte em que Jackie deveria escolher um dos prêmios para a “namorada”.
— Um… Panda? — Questionou com a sobrancelha arqueada ao ver a escolha do cowboy. — Com corações e laço vermelho…? — Acabava de ganhar a maior pelúcia da barraca de tiro ao alvo. As bochechas esquentaram, mesmo com o friozinho que arrepiava a pele e assoprava os cabelos, o calor no rosto também não o deixava em paz.
Jackie observou a pelúcia e se perguntou se combinava com o loiro. O urso tinha as bochechas rosadas e um coração em cada uma delas, era fofo, porque, bem, era um panda e esses animais eram fofos por natureza.
— Combina com você. — Falou simplesmente e ainda fez questão de compará-los.
— Por que são engraçados e desajeitados? — Victor franziu o cenho e estreitou os olhos. A comparação não parecia muito sensata ou lisonjeira.
— Você não é engraçado, é só desajeitado mesmo. — Implicou e entregou a pelúcia, sorrindo da expressão emburrada do loiro. — Mas os dois são bonitinhos.
— Bonitinhos? — Victor acabou rindo com certa presunção. — Você me acha muito mais que bonitinho, cowboy.
— Essa é uma acusação muito grave. Tem provas? — Jackie o puxou para caminharem.
— “Se você cozinhasse tão bem quanto é bonito, seria o chef de algum restaurante renomado.” — Ele fez uma péssima imitação de voz. — Foi você quem disse.
— Usando o que eu disse contra mim… — O cowboy murmurou, mas não tinha como desmentir. Adorava implicar com ele e ouvi-lo até mesmo gaguejar e não completar as frases. Era uma graça. — Não esperava isso de você.
Não precisava ser nenhum gênio para saber que Victor estava completamente inseguro em relação às suas intenções, mas estava sério com elas. Queria conhecer melhor o filho do patrão e entender se era apenas atração física ou algo que valia a pena investir. Segundo Sebastian, o quase puro e o cowboy indomável, tinham que se beijar essa noite.
— Quem manda ser língua solta? — Victor também podia ser implicante. Não estava jogando nada na cara dele, mas não deixaria passar o fato de que ele o achava sim, muito bonito. E era bonito mesmo, no masculino.
Jackie concordava. Não conseguia guardar muito o que pensava e sempre acabava soltando algum elogio. Não que se importasse. Não depois de chamá-lo para sair. Naquela noite, ele não se importava com muita coisa, só deixaria rolar o que quer que tivesse que rolar. Em dado momento da caminhada, aproveitou para passar um braço pelos ombros de Victor, trazendo-o mais para perto, estavam longe demais e estava um pouco frio.
— Sabe, eu só mordo se você pedir. — Gracejou quando encontrou os olhos verdes bem presos em si. — E que eu saiba, eu não 'tô fedendo pra você ficar tão longe.
Victor sentiu o rosto em ebulição e o coração dançar a conga dentro do peito. Quis afastar o cowboy, mas ia parecer muito rude e infantil, e não é como se ali estivesse ruim. Jackie era sim, muito cheiroso e quente. Ele quase ronronou com o contato, mas deixou apenas uma careta fechar a expressão. Imaginar que seria mordido, não era muito apropriado para o momento. E se fosse um pouquinho ousado, perguntaria onde exatamente ele morderia.
— Sabe, você não precisa se agarrar desse jeito em mim. — Claro, mas não fez questão de se afastar. Além do mais, tinha muita gente por ali e, distraído e atrapalhado como era, se perderia facilmente. E não sabia andar por aquelas ruas, o senso de direção se equiparava ao dos sobrinhos.
— De que jeito eu te agarro, então?
— Você não é nada sutil… — Victor acusou, dessa vez, tentando se afastar, mas sendo impedido pelo cowboy.
— Eu sou sincero. — Jackie deu de ombros, quase levando a mão ao chapéu, esquecendo-se que não usava o acessório. E não tinha nada a ver com o fato de Victor gostar de como seus cabelos ficavam sem ele.
Fez-se um momento de silêncio, com Victor tentando encontrar algo para dizer. Era mesmo péssimo naquilo de encontro e tinha a certeza de que estava aborrecendo um cara tão bacana e divertido quanto Jackie.
— E por que isso de repente? — Os olhos se desviaram de uma garotinha que ajudava a mãe a empurrar um carrinho de bebê, e encararam os castanhos escuros.
— Isso de te chamar pra sair? — O cowboy o apertou um pouco mais. — Não foi de repente. — Deu de ombros. Ele não era um poço de timidez como o rapaz ao lado, mas admitia que falar sobre aquilo, era sim um tantinho constrangedor por ser a primeira vez que se encontrava naquela situação. Em uma situação com um homem escandalosamente atraente e que havia sido o culpado de um certo sonho que, no momento, não vinha ao caso.
— Você me chamou essa tarde, acho que foi bem de repente, sim. — Victor argumentou. Ao menos ele, não se decidia assim, do nada. Na verdade, ele era a indecisão em pessoa para certos assuntos. Ainda não sabia se havia aceitado aquele encontro com influência no maluco do Sebastian ou se realmente queria passar um tempo com o cowboy. Talvez um pouco dos dois.
Jackie o analisou por alguns momentos em silêncio, pensando em como aquele rapaz, bonito e inteligente, tinha pouca segurança para acreditar que ele o havia chamado porque se sentia realmente atraído. E por que outra razão teria inventado aquela ideia de encontro? Victor era agradável aos olhos e lhe dava uma sensação boa, de querer proteger e passar horas a fio conversando sobre os mais variados assuntos. Aquilo certamente significava alguma coisa.
— O problema é que você acredita que todos vão fazer igual ao safado do seu ex. — Comentou casual. Não queria atacar ou lembrá-lo de acontecimentos do passado, só queria esclarecer as coisas. Não era um cafajeste e muito menos brincaria com os sentimentos de outra pessoa.
Victor comprimiu os lábios por não saber o que responder. Era exatamente o que vinha martelando a cabeça, pensar que o cowboy só estava curioso e que depois de conseguir o que queria, provavelmente o deixaria a ver navios e ele passaria por todo aquele desgosto e decepção novamente. E estava deixando a porcaria do medo e insegurança, tornar a noite divertida, em algo extremamente chato. Que bela companhia ele era. Estava sendo um idiota por não aproveitar o cara bonitão ao lado.
— Você não é igual ao meu ex. — Falou por fim, agradecendo mentalmente pela diferença gritante entre aqueles dois. — E é mais bonito… — Quase mordeu a língua e engoliu um palavrão ao perceber o que ia falar, mas já que havia começado… — Você fica bonito assim… Mais. — Puxou o gorro um pouco para baixo, assemelhando-se a um dos sobrinhos.
Jackie não conteve o sorrisinho de lado ao vê-lo todo atrapalhado e vermelho. E não era como se não soubesse que era sim, atraente, mas ouvir do loiro, pareceu uma massagem muito melhor em seu ego do que ouvir de qualquer mulher com a qual já havia se envolvido. E aquele era um avanço e tanto por parte do loiro!
Pararam um pouco, quando Victor percebeu um dos cadarços do coturno desamarrado. Do jeito que era estabanado, acabaria tropeçando e era bem capaz de quebrar um dos dentes da frente.
— Segura. — Entregou o panda ao cowboy e se abaixou, percebendo que as mãos tremiam quando começou a laçar o sapato. Quando se ergueu, notou o quanto estavam próximos e disfarçou o constrangimento ao pegar de volta o prêmio. Prêmio pelo qual ainda não havia agradecido.
Era um ponto um pouco afastado, na pracinha onde algumas pessoas usavam os banquinhos e as mesas para tomarem o lanche. O vento frio espantou os cabelos de Victor e fez uma bagunça com os fios claros, bagunça que Jackie se prontificou em ajeitar, roçando os dedos pela bochecha macia e corada do loiro.
— É… Obrigado pelo urso. — Um sorriso sem graça surgiu nos lábios de Victor por não ter nada melhor para dizer no momento. Sentia os batimentos cardíacos retumbarem nos ouvidos e culpava-se por ser sempre tão nervoso e ansioso. — Ele vai ser minha companhia na hora de dormir. — Apertou a pelúcia contra o peito. Jackie havia feito o mesmo antes, e o bichinho era uma mistura do perfume do cowboy com o seu, o que só contribuiu para que o rosto pegasse fogo.
Jackie nunca havia usado tanto a palavra “fofo”, mas Victor era um cara adulto e extremamente “gracinha” em sua visão. Queria mordê-lo e queria outras coisas que jamais pensou querer com outro homem. E sobre o panda ser a companhia do loiro, foi uma informação que o agradou por vários motivos.
— E eu só recebo um 'obrigado' por ter te arranjado uma companhia pra dormir? — Sim, ele estava cobrando e não sentia nenhum remorso por isso.
Victor deu um passo para trás e sentiu as costas baterem contra o tronco de uma das árvores. Não que estivesse fugindo ou algo do tipo, era só o velho e costumeiro nervosismo. Eram dois homens muito próximos e em um lugar repleto de desconhecidos que podiam muito bem nutrir algum tipo de preconceito, mas ele sabia que todos que viam a cena, acreditavam que eram apenas um casal “comum”, dentro das “regras” da sociedade, por terem a certeza de que ele era uma mulher.
— Eu estou meio sem ideia… — Murmurou com certo constrangimento, sustentando o olhar no castanho escuro e brilhante.
— Eu tenho várias ideias. — Jackie desceu a mão pelos fios loiros, enrolando uma mecha nos dedos e apoiando um dos cotovelos na árvore.
— Quer comprovar se o meu beijo é mágico? — Victor teve uma súbita onda de coragem saída dos confins da alma ao fazer a pergunta boba. — É… Isso? — Porque se não fosse, ele já procurava por um lugar onde poderia enfiar a cabeça.
Jackie queria sim e muito comprovar, provar e repetir. Estava a ponto de agarrar aquele loiro e tirar algumas dúvidas, mas Victor não lhe dava o espaço desejado e sempre fugia de tudo que remetesse a eles dois e beijos sob uma árvore florida.
— É isso, sim, loiro. — O toque no cabelo desceu pelo ombro e foi para a cintura alheia, apertando os dedos levemente no local e sorrindo com a expectativa bem evidente nos olhos verdes. Olhos realmente lindos naquele rosto igualmente atraente.
Victor chegou a fechar os olhos quando a respiração do cowboy o tocou nos lábios. Certo, havia conferido o hálito umas quatro vezes, estava tudo ok, mas quando a barba curta arranhou o rosto e as bocas estavam a milímetros uma da outra, uma das mãos o segurou pelo ombro, afastando-o para virar a cabeça para o lado e franzir o cenho.
Jackie pensou que o loiro houvesse mudado de ideia e já esperava pelo fora do século, mas ao buscar pelo que Victor encarava, entendeu que teriam que interferir e deixar o beijo mágico para mais tarde ou quem sabe, até mesmo outro dia.
* * *
Martin revirou os olhos pela vigésima vez naquela noite. O casal ao lado era um saco. Ainda mais quando o cowboy idiota o chamava de criança a cada meio segundo.
— A criança não parece muito feliz. — Nestor comentou com ar de deboche. Ele estava com um braço sobre os ombros de Sebastian enquanto caminhavam em meio as pessoas agitadas. — Quer ir no bate-bate? Quer comer algodão-doce ou pipoca?
— Deixa de implicar com o menino. — Sebastian não achava que estava ajudando, mas irritar o primo era mesmo um ótimo passatempo, assim como deixar Victor constrangido. — Quer ir no trenzinho fantasma, bebê?
— Mas 'cêis são chatos, ein? — Martin retrucou e cruzou os braços. Era uma péssima ideia ter saído com o par de patetas, mas não tinha muito o que fazer naquela cidade. — Eu devia ter ficado assistindo novela com a vó. — Qualquer coisa era melhor do que ficar ali sofrendo bullying pela pouca idade. Até mesmo ouvir a avó xingar as mocinhas das telenovelas dos piores nomes possíveis.
— Vão os dois comprar alguma coisa pra comer. — Sebastian empurrou o cowboy com os quadris, fazendo-o quase cair sobre o primo. — 'Tô com fome e 'tô cansado.
Já haviam explorado tudo por ali e ele queria comer e ir embora aprontar tudo o que tinha direito com aquele moreno de cabelos cacheados e olhos cor de mel. Quem lhe dera gostar de Nestor como ele merecia.
— Vem abanando o rabinho! — Martin bateu palmas e adorou implicar um pouco. — Vem cãozinho!
— Vocês já tem até apelidos, é? — Sebastian torceu os lábios e estreitou os olhos. — Vou ficar com ciúmes… — Fez bico, achando graça. O apelido até que combinava. E não, ele não tinha ciúmes.
— Esse moleque folgado. — Nestor estapeou a cabeça do adolescente. Não era cãozinho de ninguém e já havia deixado isso bem claro!
Martin bufou e desviou os olhos ao ver a melação do “casal”. Eles não se tocavam não? Estavam em público! Ele até se afastou um pouco para não ouvir o que o cowboy sussurrava no ouvido do primo. Imagina, não havia motivo para ninguém ter ciúmes… Se ele gostasse de pessoas do mesmo sexo, certamente nem olharia para aquele homem idiota que não passava de um capacho.
— Cão é o seu passado. — Nestor resmungou. Se o garoto fosse seu parente, teria modos muito melhores e saberia respeitar os mais velhos.
— Assume logo. Sabe que meu primo não gosta de você. — Martin atacou quando se afastaram. Todo mundo sabia daquilo. — Vai fazer o quê quando ele te chutar pelo boyzinho da cidade?
— Era mesmo melhor você ter ficado com a dona Emma. Deixa de ser insuportável! — E o pior que a ideia de trazer o pirralho, havia sido em parte, sua. Se arrependimento matasse...
Sebastian se jogou em um dos bancos dispostos na praça e esticou as pernas, observando as rinhas entre o amante e o primo. Era bonitinha a implicância entre eles e não quis pensar muito nas ideias que se desenrolaram na mente. Só esperaria mesmo a comida para ir embora.
Dali de onde estava, tinha uma visão privilegiada da festa popular. Ficou reparando nas roupas, em algumas falas e nos casais que passavam pela rua. Algumas crianças estavam fantasiadas e ele se lembrou do trio maravilha que era bem capaz de destruir a fazenda. Tinha certo pavor de crianças terroristas, mas os loirinhos eram até simpáticos, no fim das contas.
Enquanto fazia uma anotação mental dos poucos rapazes bonitos que passaram por ele, recolheu as pernas e puxou a lapela do sobretudo preto. Os olhos se desviaram do movimento e caíram sobre duas pessoas que ele conhecia muito bem. Um sorriso enorme surgiu ao ver que Victor finalmente estava disposto a se deixar envolver. Jackie estava tão perto do loiro, que eles obviamente se beijariam. Até que enfim! Deixou de sondar os amigos e enfiou as mãos nos bolsos. A noite começava a ficar mais fria para quem estava parado. Mas ele estava com mais fome que frio. Comeria um cavalo inteiro e completaria com um x-bacon duplo.
Mas a fome, o frio ou a vontade de se enroscar nos braços de certo cowboy, escorreram feito água quando avistou o que mais parecia uma miragem em meio ao mar de gente que caminhava de um lado para o outro. Quando foi que havia começado a fantasiar em público?
Era impossível não notar aquele homem; cabelos loiros e perfeitamente penteados com gel, o rosto de algum modelo com fama internacional e as roupas despojadas que combinavam tão perfeitamente com a aura que ele exibia, caminhando em câmera lenta, parecendo ainda mais irreal que todas as outras vezes que se viram.
Sebastian quis correr e se confundir entre as pessoas a ponto de fazê-lo desistir de continuar avançando. Seria infantil demais fugir, mas não se sentia preparado para a presença dele. Também não estava preparado para conversa alguma, até porquê, não haveria conversa, pois os dois a sós em algum lugar, não daria em outra coisa a não ser em corpos suados e nus e respirações ofegantes. E ele se conhecia bem demais para saber que seu autocontrole quando estava com aquele loiro, era reduzido a zero.
Mordeu o lábio inferior e puxou o capuz da blusa que usava por baixo, escondendo parcialmente o rosto e pedindo paciência aos céus. Era só tratá-lo como um velho conhecido, não seria tão difícil assim. Ele era bom em dissimular. Puxou um pouco do ar frio da noite e permaneceu na mesma posição, controlando os dedos que insistiam em batucar no concreto do banco.
— Oi.
Oi. Depois de todo aquele tempo aquele cosplay de Brad Pitt, vinha com um simples oi… E mesmo assim, aquela palavrinha, foi capaz de fazer seu coração dançar no peito.
Como é que se respirava mesmo?
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