Cavalos Selvagens
1 1 "É senhorita ou senhor?"
Notas iniciais

Capítulo 1 — É senhorita ou senhor?
As várias horas dentro daquele ônibus formaram bolsas de cansaço debaixo dos olhos de Victor Green. O que consolava o jovem loiro, é que em alguns minutos chegaria a cidadezinha pacata do interior. Havia dado uma pausa na vida da cidade grande para passar um tempo ao lado do pai que não se encontrava bem de saúde. Era o único dos filhos que realmente se preocupava com o “velho” e aquilo o deixava magoado.
Ele havia passado a infância em Santa Luz, mas quando a mãe se separou do pai ele a acompanhou. Morou na Espanha por treze anos e só agora retornava as raízes. Tinha até mesmo se vestido a caráter. Não queria dar nas vistas que não pertencia ao lugar.
Os olhos verdes estavam quase se fechando quando o ônibus parou bruscamente, fazendo-o ir de testa ao ferro do banco da frente. Um chiado de dor escapou dos lábios, mas ele teve que se apressar antes que o veículo arrancasse e o levasse para um novo e entediante passeio.
A rodoviária estava movimentada naquela manhã de domingo. Victor desceu do ônibus ainda atordoado com uma mala de mão e uma bolsa de carrinho preta. Quase foi ao chão ao ser empurrado por uma mulher que alegava estar com pressa e ele era lerdo demais.
— Ótima recepção, Santa Luz. – Falou baixo, lutando com a bolsa de carrinho que havia se prendido em uma guia. — Droga!
— Precisando de ajuda? – Uma voz grossa se pronunciou ao lado e os olhos verdes encontraram seu dono com nada menos que felicidade.
— Bart! – Victor exclamou, sorrindo feito uma criança que acabava de ganhar um brinquedo. — A minha mala…
O homem chamava-se Bartholomew, era o braço direito do pai do loiro e gerente da fazenda. Conhecia Victor desde que ele era um menininho mimado e chorão. Com facilidade, ele conseguiu desprender as rodas da guia e pegou também a mala da mão do garoto, seguindo uma caminhada por entre as pessoas que andavam de um lado para o outro, cumprimentando quase todas.
Victor correu para acompanhá-lo, resmungando quando algum corpo maior vinha de encontro ao seu.
— É, você cresceu! – Bart falou ao chegar na pickup vermelha, enfiando as bagagens no porta-malas. — Foram quantos anos?
— Treze anos, seu velho! – Victor sorriu e abraçou o homem de bigodes e cabelos grisalhos. — É bom estar de volta.
— Vamos, antes que você comece a chorar feito o bebezão mimado que é. – Bart bateu nas costas do menino e o empurrou para entrar no veículo, ouvindo um 'velho idiota!' vindo do loiro.
O caminho foi seguido com uma trilha sonora que agradava ao passageiro. Victor amava a banda Bon Jovi e as músicas eram a trilha sonora de sua vida. A fazenda não era longe e logo uma placa já informava que tinham chegado à Flor de Ouro.
Victor disse que seguiria sozinho até o estábulo e pediu para que Bart levasse suas malas para o casarão. Ele queria dar uma volta de cavalo e entrar no clima country do lugar.
Os pés o levaram direto para o estábulo. Estava surpreso por ainda se lembrar do caminho. Não era a toa que aquele era o seu lugar favorito de toda a fazenda.
— Fumaça! – Os olhos verdes brilharam ao focarem no cavalo castanho com uma mancha em volta do olho esquerdo. Ele havia ganhado o animal no aniversário de nove anos, pouco antes de ir para fora do país. Ele era apenas um potrinho na época, mas o reconhecia pela marca escura e singular que ele tinha no olho esquerdo. — Lembra de mim, garotão? – Perguntou ao se aproximar, levando a mão para acariciar a cabeça do cavalo.
— Não acredito que é você! – Uma figura que também usava xadrez se aproximou. Era um garoto que deveria ter a idade de Victor. Os cabelos negros desciam um pouco abaixo dos ombros e a pele era morena como a dos índios, claro, Sebastian era um descendente deles, afinal. — É você, não é?
— É, sou eu! – Quase perdeu o ar quando o amigo o abraçou com força. — Meu Deus! Você está enorme e… Vai me quebrar se continuar me apertando assim.
— Perdão! – Sebastian se apressou em soltar o loiro e suas mãos começaram a desamassar a camisa de flanela que ele usava. — Por que não está lá no casarão? O patrão não se aguenta de ansiedade. — Deu um leve chacoalhão nos ombros de Victor e pegou uma mecha do cabelo longo e dourado.
— Eu já vou pra lá! Pode, por favor, selar o Fumaça pra mim? — Perguntou ao se recuperar do abraço de urso que havia ganhado. — Depois que eu descansar da longa viagem, eu volto pra você me contar as novidades. — Falou de maneira sugestiva. Algo que Sebastian entendeu muito bem, pois a pele morena se avermelhou.
— Vou fazer logo o que me pediu pra você sumir daqui! — O tom falsamente zangado fez o loiro rir.
— Ele perguntou de você... — Victor comentou depois de uns momentos de silêncio e não tinha a menor pretensão de realmente deixar Sebastian nervoso.
— Já está selado. — Falou seco, abrindo a portinhola e levando Fumaça pelas rédeas para fora do estábulo, sendo seguido pelo loiro. — Não estrague nossas conversas falando dele. — A voz soou baixa e em advertência. — Não quero brigar com um amigo que eu não vejo há anos.
Victor assentiu. Não falaria no assunto que causava mágoa em Sebastian. Enfiou o pé no estribo e montou no cavalo. Um sorriso enorme se abriu e ele acariciou a crina macia de Fumaça.
— Faz tempo que não monta. — Sebastian observou, rodeando o cavalo com os olhos naturalmente pequenos ainda mais estreitos. — Fumaça é um cavalo bonzinho, mas pode te derrubar se você não souber como guiá-lo. O Jackie quem vem cuidando dele e as vezes cavalga com ele por aí.
O cenho do loiro se franziu e ele afastou os cabelos para longe do rosto. Como assim alguém montava o seu cavalo?
— Ele é o capataz aqui da fazenda. — Sebastian continuou ao ver a expressão do amigo. — Fumaça se dá muito bem com ele.
— Hm. — Foi o que respondeu. Sentia ciúmes do cavalo. Era dele e ninguém deveria montá-lo. — Vou indo.
Logo o cavalo já galopava pela estrada de terra batida. O cabelo comprido voava pelas costas e a sensação de liberdade, era, sem dúvidas, a melhor que sentira em anos.
*
— O filho do patrão chega a qualquer momento. Não vá estragar a surpresa! – Tulipa bradou. Tudo estava perfeito, somente esperando seu menino chegar. — Não vá sujar o chão, Jackie! – Mais um aviso e o cowboy sorriu, dando de ombros. Havia chovido na noite anterior e ele estava com as botas sujas de lama.
— Vou seguir as regras, Lipa! – Piscou um olho para a mulher baixinha e foi caminhando para fora. Estava curioso para conhecer o caçula do patrão. O homem falava tanto desse filho que Jackie imaginava que o garoto fosse a perfeição em carne e osso. Ia acender um cigarro, mas a chegada de alguém o distraiu.
Victor puxou as rédeas de Fumaça e o cavalo parou. Havia chegado ao casarão. Estava louco por um banho e por uma cama macia, mas estava ainda mais louco para ver o pai. Ao avistar um homem ali, ele acenou com a cabeça cordialmente e prendeu os cabelos longos com um elástico. Estava suado e os fios começavam a grudar na pele.
O jovem ia descer do cavalo, mas paralisou ao sentir duas mãos grandes segurando-o pela cintura, ajudando-o a descer como se ele fosse uma mocinha. Os olhos verdes se arregalaram o máximo que as órbitas permitiam. O que diabos estava acontecendo ali?
Ainda atrapalhado, Victor encarou o rosto moreno e com barba por fazer do homem maluco que ainda segurava sua cintura com possessão. Ele era uns vários centímetros maior e – ele pôde reparar – muito mais malhado e forte também.
— O patrão não me avisou que chegaria uma senhorita tão bonita! – O cowboy exclamou. Um sorriso enorme se abriu e só então ele percebeu que ainda segurava descaradamente a cintura da moça. — Não pense mal de mim. Eu só achei que seria educado ajudá-la a descer do Fumaça. – A mão grande foi alisar a crina do animal de pelagem castanha, ocasionando um relinche animado do corcel.
Victor ainda estava descrente do que havia acabado de acontecer. Havia sido confundido com uma mulher por um dos homens da fazenda do pai. Aquilo sim era uma recepção inusitada. Ele estava surpreso.
— Eu achei que fosse o filho do patrão o primeiro a chegar. – O homem comentou, direcionando os olhos escuros aos esverdeados da moça. — A senhorita é a filha do patrão, não é? Ah! Meu nome é Jackie! – Se apresentou, estendendo a mão para a loira.
Antes que Victor pudesse responder, Tulipa apareceu ali na entrada, deixando a vassoura cair ao se deparar com a figura de seu menino. Ele estava tão bonito!
— Victor! – Ela exclamou, chamando a atenção dos dois ali presente. — Menino! Chega aqui pra me abraçar!
O loiro sorriu e correu até a mulher baixinha, apertando-a em um abraço saudoso, erguendo Tulipa do chão.
Jackie continuou estancado no lugar, parecia um tronco de árvore. Ele havia ouvido direito? Tulipa tratou a moça no masculino? Não, algo ali não estava certo.
— Você conhece essa senhorita, Lipa? — Perguntou ao se recompor, olhando da mulher para a moça loira e bonita.
Tulipa encarou Victor por um momento antes de dizer qualquer coisa. De que senhorita Jackie estava falando?
— Não tem senhorita nenhuma aqui, rapaz! — Falou e enlaçou o braço ao do menino. — Esse senhor, é o filho do seu patrão e o nome dele é Victor. — Ela pareceu extremamente ofendida por terem confundido seu menino com uma mulher.
Victor odiava ser chamado de mulher, mas estava se divertindo internamente com a confusão daquele homem. Ele realmente achava que era uma garota ali…
Os olhos do cowboy desceram descaradamente pelo corpo da moça loira, porque sim, era uma moça ali. E mesmo depois da análise, ele ainda achava que era ela, e não ele.
Por que homens da cidade não eram tão diferentes de homens da fazenda, eram?
— Não liga pra ele, menino! Venha, conte-me todas as novidades. – Tulipa saiu arrastando o jovem para dentro do casarão.
Jackie ficou ali por um tempo indeterminado, tentando entender se havia segurado a cintura de uma senhorita ou de um senhor. Porque dependendo da resposta, poderia ser algo extremamente constrangedor.
Fale com o autor