Caution: Wolves

4 Capítulo 4 - Sem saídas


Notas iniciais
No capítulo anterior:
Algo realmente o devorou, e os fatos começavam a mudar de lado, começavam a me fazer acreditar que esse "algo" não era um lobo e nem mesmo um humano, era algo ainda pior.


SEM SAÍDAS


Assim que chegamos em casa eu sabia que algo muito ruim estava pra acontecer e precisava fazer alguma coisa antes que fosse tarde demais. O problema é que já era tarde demais, eu deveria ter acreditado na Hana no momento em que ela me falou sobre o tal poço, isso teria me poupado um precioso tempo, e quem sabe com ele poderia ter feito algo.


– Hana! Vá para seu quarto, e fica lá até eu voltar, não saia por nada, não importa o que aconteça! — Eu estava com muita pressa, se não fizesse algo naquele exato momento, as coisas iriam acabar ficando piores do que acabaram ficando, eu precisava avisar sobre a coisa que nesse momento estava indo para a cidade.


– Ahn?! Você está louco?! Não pode me deixar aqui sozinha! — Ela estava certa, eu não deveria deixá-la só em casa com seja lá o que for solto por aí. Entretanto, eu não tinha outra opção, acreditava que deixá-la em casa era a melhor opção, até porque ele estava indo em direção à cidade e a nossa casa fica um pouco antes da entrada da cidade.


– Hana dá para você me obedecer uma vez na vida?! Só faz o que eu estou mandando, é pro seu próprio bem! Não consegue entender isso?! — Eu fui rude com a Hana, ela só estava com medo, eu não deveria ter falado desse jeito com ela. Percebi no seu olhar que ficou assustada, que ficou com medo de mim, eu gritava e estava agitado, eu nunca fui desse jeito, ela logo notou que algo errado estava acontecendo e resolveu consentir.


T-tudo bem... Desculpe-me...


Eu saí com uma pressa absurda, bati a porta sem nem pedir desculpas a Hana pelo meu jeito de falar, eu não tinha outra opção, precisava alertar a população que havia uma fera na cidade. Peguei a minha bicicleta que ficava encostada no muro da entrada da casa, e pedalei até a cidade. O tempo era chuvoso, ventava muito, e os rastros de sangue já tinham sido apagados pela chuva, eu precisava correr o risco de encontrar com a coisa enquanto ia até a cidade, era a única opção afinal. Ao passar pelo cervo senti um embrulho no estômago, o cheiro do corpo em decomposição já estava se espalhando por toda a estrada, eu precisava me concentrar, não tinha tempo para ter um enjoo.


Ao chegar à cidade, tentei encontrar alguém, para contar o que estava acontecendo, para que me ajudassem a fazer algo. A cidade estava deserta, não entendia o ocorrido, era como se todas as pessoas já tivessem notado algo errado e se abrigassem em suas casas. Foi quando eu vi um homem, ele trabalhava no posto de gasolina e como sempre estava com seu uniforme azul e seu crachá, seu nome era Hiruko e eu nunca havia falado com ele antes, mas já sabia seu nome por conta do crachá que usava em seu uniforme.


Ele estava parado em frente a um dos quatro tanques de gasolina que tinham naquele posto. Sem pensar duas vezes fui até ele. Ele estava de costas parado como se observasse algo, eu parei a bicicleta toquei em seu ombro e disse seu nome. Hiruko se virou e ficou olhando em meus olhos por cerca de vinte segundos, eu senti a mesma sensação ao olhá-lo nos olhos que senti ao me aproximar do poço na floresta, seus olhos eram fundos, e a sua íris tinha uma cor diferente do normal, estava quase que dourada, e passava uma péssima sensação só de ser vista.


Após isso, sem falar absolutamente nada, Hiruko segurou em meu braço e inclinou sua cabeça para perto da minha com muita agressividade. Com o intuito de me proteger do que ele estava tentando fazer, eu puxei meu braço com força para soltá-lo e dei alguns passos pra trás em direção a minha bicicleta. Eu queria chegar até ela, mas sem demonstrar medo.


Ao andar para trás esbarrei em minha bicicleta que eu havia encostado em uma pequena mureta. Ao esbarrar eu a derrubei, com a queda seu sino tocou ao chão e fez um pequeno som extremamente agudo. Com o fim do toque do sino, notei que três homens que também trabalhavam no posto e estavam um pouco mais no fundo, perto da entrada da loja de conveniências que havia no posto, se viraram pra mim, seus rostos estavam magros e pálidos, seus olhos fundos e da mesma cor dos olhos de Hiruko, suas bocas pálidas e sem vida, eles tinham o mesmo aspecto de um cadáver.


Os homens começaram a se movimentar até mim, eles pareciam não ter muita coordenação motora, eles estavam mancando e andando muito estranho. Quando o terceiro homem se virou percebi uma coisa que me deixou muito atormentado. Uma parte de seu braço não estava ali, simplesmente tinha sido arrancado ou devorado, e o homem continuava vindo em minha direção, como se nem percebesse o problema em seu braço.


Sem pensar duas vezes, subi em minha bicicleta e tentei pedalar o mais rápido possível de volta para casa. O chão estava úmido e uma parte do posto de gasolina tinha pisos extremamente escorregadios, eu na pressa não os evitei e acabei sendo derrubado da bicicleta. Ao cair senti uma forte dor na perna, o que dificultava minha movimentação. Tentei me arrastar, chegar perto de meu celular que tinha caído um pouco longe de mim, pretendia salvá-lo da chuva, pois sabia que iria precisar dele. Eu consegui alcançá-lo e pegá-lo.


Quando me virei para ir até a minha bicicleta, um dos homens estava absurdamente perto de mim, menos de um metro. Ele berrava como um animal enfurecido, logo percebi do que se tratava a criatura no poço, era um deles, e pelo jeito havia mais de um. Infelizmente não havia mais chance, eu iria morrer ali, morrer após ter gritado com a Hana, após tê-la deixado com medo de mim, após tê-la magoado e não ter me desculpado, teria falhado na minha promessa de protegê-la, eu não poderia morrer ali, não podia deixar a Hana sozinha, mas não tinha mais saída, minha perna doía muito e eu estava congelando de frio mesmo com toda aquela adrenalina que corria em meu corpo.


Foi quando eu já estava perdendo minhas esperanças, um garoto ruivo vinha correndo da loja de conveniências que tinha no posto de gasolina, ele corria entre aquelas coisas sem nem olhar para o lado, estava com o olhar fixado em mim, ele era sério e tinha olhos verdes, com isso pude saber que não era um deles, pois os olhos destas coisas me deixavam extremamente enjoado. Ele estudava comigo, mas eu nunca havia falado com ele, como já disse não sou de muitos amigos, ele me pegou no colo e me pôs em suas costas sem falar nada, apenas correu comigo nas costas em direção a sua casa.


Ele era jogador do time de futebol, o capitão deles se não me engano, era alto e muito forte por isso não teve problemas para me carregar. Ao chegar na casa ele chutou a porta para abri-la me pôs no chão dentro da casa e voltou para a porta para fechá-la. Ele a trancou e arrastou um armário para frente dela desse jeito selando-a. Ele parou em frente à porta, pôs a mão nos joelhos, ele estava muito ofegante, foi quando olhou pra mim e percebeu que já tinha me visto antes.


– Você é o garoto órfão da primeira série do médio, estou certo? — Ele parecia muito despreocupado, parecia que tudo que tinha ocorrido lá fora não passava de uma brincadeira, ele estava sério e frio, já não estava mais ofegante e me olhava com um olhar de pena.


– S-sim... — Eu estava muito surpreso nesse momento, não com o fato daquelas coisas lá fora, e sim por ele ter me chamado de órfão assim tão na cara de pau, ele realmente era um cara bem despreocupado.


– Entendo... Então não sabe o que está havendo, ou será que sabe? — Ele passou a mão no queixo e voltou a me olhar com pena.


– N-não exatamente... V-você sabe? — Eu não parava de tremer por conta do frio que estava ali, eu estava completamente molhado e minhas roupas grudadas em meu corpo, foi quando senti uma corrente de ar que parecia congelar meu corpo, eu olhei para o lado do garoto e ali estava uma passagem de ar, uma pequena janela aberta.


– Sabe, meu pai era chefe de segurança do Laboratório de Estudos e Pesquisas Orientais, ele simplesmente tinha o dever de não deixar nenhuma pessoa desautorizada entrar no prédio. Ele decidiu largar seu emprego de uma hora para outra, e tinha que me dar uma explicação, afinal nós morávamos sozinhos, minha mãe morreu em meu parto.


Então ele me explicou que não poderia trabalhar em um lugar como esses, um lugar onde usam pessoas inocentes como... — Nesse momento, quando iria me falar, falar o porquê de isso tudo, o que diabos eram aquelas coisas, um braço apareceu na janela, eu vi que o braço era de alguém do posto, pois usava o macacão azul. Ele rasgou o pescoço do garoto com suas garras sujas e escuras impedindo que ele terminasse de contar.


Eu fiquei em choque, fiquei paralisado, mesmo sabendo que precisava sair dali já, eu não conseguia me mexer... A coisa que o atacou começava a entrar pela janela, sua cabeça e metade de seu tronco já havia passado por ela, a coisa parecia tentar morder o garoto, mesmo com ele obviamente já morto.


Levantei-me ignorando o frio que corria por todo meu corpo, peguei um abajur que estava em cima do armário que havia sido arrastado para a porta e atingi a cabeça daquela coisa assim que ela se distraiu enquanto tentava morder o garoto.


Tudo ficou calmo, um silêncio profundo, o garoto estava morto, eu tinha sangue no rosto e nas mãos. Eu precisava sair dali agora mesmo, não que eu tivesse medo daquelas coisas, eu já não sentia mais nada, era como se eu estivesse morto assim que vi aquele garoto ter seu pescoço cortado, eu só pensava em voltar para casa e ver se estava tudo bem com a Hana. Eu empurrei o armário que selava a porta. Estava tomando fôlego para abrir aquela porta e correr como nunca tinha corrido antes.


Foi quando o garoto que tinha acabado de ter seu pescoço rasgado segurou meu braço, ele não era mais despreocupado, não tinha aqueles olhos, seus olhos agora eram como o deles, dourados e enjoativos. Ele agora era como eles, foi quando percebi, foi quando liguei todas as informações que obtive até ali, não tinham vários deles e sim um transmissor, aparentemente trazendo as pessoas de volta a vida de uma maneira irracional. Aquela coisa da floresta! Ela criou os outros!


Eu não queria ficar ali para saber como era que isso acontecia. Dei um chute em seu rosto fazendo com que me largasse, não tinha tempo para tomar mais fôlego, era agora ou nunca. Abri a porta e corri, ignorei tudo apenas corri em direção a minha casa, em direção onde estava Hana, eu precisava salvá-la dessas coisas não importa o que custasse. Enquanto corria pela estrada me lembrei de ter conseguido recuperar meu celular, olhei em meu bolso e para minha sorte ele ainda ligava, ao ligá-lo, percebi que tinham três chamadas perdidas. Eram do celular da Hana.


CONTINUA...


Notas finais
No próximo capítulo:
Ela era uma jovem garota, cabelos castanhos escuros e uma pele extremamente clara, ainda mais clara que minha pele, seus olhos eram lindos, os mais lindos olhos que já tinha visto em minha vida, eram castanho claro e me passavam uma enorme calma, era como se eu fosse ser sugado por esses belos olhos.