Catharsis Garden
1 01-01 One of these Nights
A noite não estava tão receptiva quanto Asher esperava. Claro, poderia ser pior, poderia estar chovendo e trovejando, mas ainda assim, estava incômodo. Os ventos estavam bastante agitados, algumas janelas batiam. Para alguém que planejava entrar pela janela, podia ser o fim. Especialmente por eles provavelmente estarem passeando pela abadia.
Sim, uma abadia. Supostamente abandonada mas que, se as informações do contratante estiverem corretas, está secretamente funcional em algum projeto mirabolante da digníssima Igreja Católica Apostólica Romana. Ao menos, de acordo com eles. Talvez sim, talvez seja um grupinho mixuruca desses aí para tentar incriminar a igreja. De fato, nunca conseguiram provar algo contra a igreja nestes últimos dois anos, por mais que indícios não faltem. Assim como motivos. Mas isso é para outro momento.
Asher observava das sombras de uma árvore, bem próximo de uma das grandes janelas abertas da Abadia de Granhope, na Irlanda do Norte. Estava abandonada pelo tempo, com seu exterior lacrado por diversas toras e tábuas. Suas janelas, no entanto, estavam misteriosamente no lugar, exceto algumas quebradas que estavam devidamente lacradas com as tábuas.
Nada. Ausência total de pessoas ao redor, o silêncio só consegue ser cortado pelo vento que faz as folhas farfalharem naquele outono. Eram mais de 23:00, não tinha muito tempo até seu objetivo. De fato, estava perdendo tempo ali ao tentar pensar no que havia por trás de tudo isso. Nem estava sendo pago para pensar, era apenas um mercenário que havia aceito um trabalho nobre. Nobre até demais.
Uma menina foi levada por um grupo de homens trajando batas e grandes cruzes no pescoço. De acordo com alguns observadores, ela foi levada até a dita abadia e todos os que tentaram invadir acabaram \"desaparecendo\". Não voltaram, ao menos. Foi então que Asher se ofereceu para o trabalho, mesmo estando ali apenas de passagem. Era uma coisa rápida, não teria problema em desviar um pouco. Até bom que poderia descobrir dedos da igreja nessa história.
Decidiu não pensar mais nisso, ao menos por enquanto. Correu na direção da janela, dando um longo salto e alcançando o segundo andar, passando pela janela com perfeição. Só não calculou que o chão da abadia era de madeira, terminando por arrebentar o chão onde caiu, voltando ao primeiro andar e fazendo um belo barulho. Então, se tinha alguém ali, este alguém saberia da presença de um possível invasor.
Apesar disso... Nada. Parecia uma abadia abandonada comum, como qualquer outra. Os ventos e o silêncio mórbido transformavam o local em um belo cenário de filme de terror, tendo apenas as batidas das janelas e o balançar das cortinas e panos.
- Hmpf... Silêncio demais... Venha, Ushiwakamaru...
Sua voz baixa quebrava o silêncio do local, chegando a ecoar. Ao terminar de proferir suas palavras em um tom de voz levemente grave, surgiu uma curiosa espada embainhada. Ela tinha um gatilho perto de sua tsuba, sendo a espada em si muito parecida com uma katana japonesa, ainda que sua envergadura seja menos acentuada do que o habitual.
Caminhou agora mais tranquilamente. Ao menos, na pior das hipóteses, tinha mais chance de sobreviver. Passeou pelos corredores da abadia e nada. Abriu os quartos, as salas... E nada. Era quase meia-noite e nada ainda. Será mesmo que estavam certos? Então decidiu verificar o que faltava: A sala central.
A sala central, apesar do nome pomposo, era apenas uma grande sala vazia, cheia de pó, cortinas, móveis e tapetes que dava acesso aos outros cômodos. Mais uma vez, encontrou nada além de pó, tendo de realmente se segurar para não espirrar com tudo isso. Caminhou por mais alguns instantes, observando tudo silenciosamente... Até reparar algo que não havia visto antes. Uma porta aonde tinha uma parede, diretamente no fim da escada central da grande sala.
\"Uma... Porta? Mas ali tinha uma imagem de Cristo...\" — Era o que pensava. Bem, não tinha porque continuar ali pensando nisso. Subiu as escadas com cuidado, abrindo a porta com toda a suavidade, espada pronta para ser sacada. Era um corredor simples e estreito que dava em outra porta logo depois. Quando tentou abrir a segunda porta, a primeira se fechou...
- Puta merda...
Abadia? Que abadia? Todo aquele ar de filme de terror deu lugar a um corredor de metal polido, tão polido que parecia branco. Era longo, certamente já estavam fora da abadia, em algum outro ponto isolado. Era um ponto espacial, um portal.
\"Tsc, com o que diabos estou lidando...?\" — Era um pensamento razoável. Não era um ponto de transporte natural e poucos tinham poder para criar estes pontos. Mantê-los então, uma coisa quase impensável. Bah, depois pensasse nisso, tinha um problema maior para resolver. E que problema.
- Ei!
Apesar do grito, os dois homens trajando roupas de combate totalmente pretas, incluindo capacete e visor, já sacavam metralhadoras e apontavam-nas para Asher que, por sua vez, fechou os olhos e relaxou. Não tinha muito o que fazer ali, aparentemente.
- Largue essa espada e vire-se! — Bradava um dos dois soldados armados. Não pareciam muito afim de brincar mas também não se aproximavam. Eram profissionais, sabiam que naquele mundo maluco, qualquer cautela era apropriada. Asher, sem hesitar, largou sua Ushiwakamaru no chão e virou-se, erguendo os braços.
Então, sem um pingo de dúvida, o primeiro soldado atirou com sua metralhadora. Planejava um simples toque no gatilho, três balas. Seria o suficiente para matá-lo e dar fim a esta pequena tensão. No entanto, no momento exato, Asher girou o corpo e acertou as balas com as costas do braço, fazendo uma simples camada deflexiva, lançando as balas nas paredes. Ricocheteou de tal forma que furou as mesmas como se tivessem acertado em um primeiro momento. Uma deflexão ideal, perfeita.
- HAN? MAS...
- Não acredito. — Asher passou o pé por baixo da espada e a lançou para cima, apenas alto o suficiente para que conseguisse agarrar. O fez e avançou, cobrindo quase cinquenta metros em três segundos, sacando a espada em um movimento que chegou a ecoar silencioso, tamanha força e velocidade que havia sido colocada. Um gingar, um giro e uma cabeça no chão. O segundo se virou e começou a atirar loucamente, fazendo uma barulheira certamente desnecessária.
Adiantou de nada. Como se conseguisse ver a trajetória das balas, o mercenário bloqueou todas as balas com Ushiwakamaru, cortando-as em movimentos exatos. Eram balas de rifle, avançavam quase em Mach 2, ainda assim conseguia captar e defletir. Coisa impossível de se conceber em um passado não muito distante, dois anos atrás.
- Para quem você trabalha? — Perguntou Asher. Estava incrivelmente calmo, agora ajeitando seu óculos enquanto encarava o segundo soldado, provavelmente amedrontado até a morte. Esta demonstração espalhafatosa de poder é necessária nestes momentos para forçar a vítima a revelar o que sabe. Surpreendentemente, no entanto, foi ver este \"assustado\" colocar a metralhadora na boca e atirar sem pestanejar. Morreu. Vísceras voaram pela parede, uma cena realmente... Grotesca.
- Vejamos... Islamitas? — Ajoelhou-se e tentou tirar a parte superior do colete, tentando detectar se tinha alguma coisa. E tinha. Uma pequena cruz dourada, humilde mas cristã. Cristã. Não islâmica.
- Achei que apenas xiitas tinham esse fanatismo todo.
Eram apenas... Humanos. Simples humanos com poderes insignificantes. Vazios, como alguns novos nobres chamam. Ainda assim, havia algo errado: Se estivessem mesmo trabalhando para a igreja, por que teriam medo ou vergonha de proclamar sua fé?
Descartou a motivação religiosa e seguiu. Não tinha muito para onde ir, na verdade. Ao fim do bendito corredor, encontrou uma simples bifurcação em V, noroeste ou nordeste. Claro, antes de deixar os infelizes, revirou tudo que eles pudessem ter, pegando cartões dos dois. Não havia qualquer coisa nos cartões, o que apenas tornava tudo mais... Curioso.
Esquerda ou direita, esquerda ou direita...
Acabou escolhendo a direita. As passagens corretas nos jogos estão sempre à direita (ainda que a criatura que está narrando discorde desta assertiva), então foi por lá.
Ao se aproximar, aparentemente a porta reagiu automaticamente com o cartão, abrindo-se sozinha. Ali viu algo, no mínimo, nojento.
E acabou descobrindo que esta seria uma noite única em sua vida...
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