Catharsis Garden

2 01-02 - The Synesthesin


Notas iniciais
1) Sinestesia, no contexto, seria a fusão dos sentidos (por exemplo, "ver pelos sons" ou "sentir pela visão"); 2) Mine é o lado da katana que não corta/não possui fio.

Uma grande sala, sem lâmpada alguma acesa. A única iluminação da sala vinha das diversas cápsulas de vidro espalhadas pela sala, bem grandes, suficientemente para caberem pessoas dentro. Boa parte delas estava cheia d\'água, mas poucas com algo realmente dentro. Estas cúpulas ocupavam quase todo o espaço da sala, elas e diversas máquinas desligadas. Era como um laboratório. Devia ser um, na verdade.

Caminhou pela sala, com todo cuidado para não pisar ou tropeçar nas coisas. Viu alguns exemplares de animais como gatos e cães, até mesmo alguns pássaros pequenos. Estranho, pareciam adormecidos naquele misterioso líquido manchado em leves tons de prata, quase imperceptíveis. Aqueles tons de prata eram tais que, sob certos ângulos, pareciam um espelho que refletia a imagem do mercenário de cabelos negros rebeldes querendo alcançar os ombros. Por um momento, o mercenário ajustou seu óculos enquanto olhava para sua própria imagem, imagem esguia, imagem moleque. Moleque de trajes simples, uma blusa de tecido fino e negro e uma calça de material muito parecido com o jeans, ainda que mais escuro. Era como o brim. Voltou a si, observando aquelas coisas adormecidas nas cúpulas. Coisas pequenas, algum cientista biruta devia estar fazendo algum tipo de teste com eles, ao menos era o que pensava.

Pensamento que caiu quando chegou no fim da sala.

Uma cúpula maior, com um líquido tingido em um prateado mais denso, prata tal que parecia transparente pela fraca luz emitida pela própria cúpula. Vários computadores e monitores aos lados com funcionamento constante, provavelmente em processamentos intensos, diversas imagens e gráficos fluíam ao mesmo tempo nas imagens dos grandes monitores, coisas em uma língua estranha, incompreensível. Dentro da cúpula, uma garota.

Uma garota de longos cabelos negros e pele alva, uma menina ainda. Batia com a descrição da menina que ele tinha de resgatar, mas... O que diabos estava acontecendo? Ela aparentemente estava sendo objeto de algum experimento. Mas, antes de mais nada, quem são esses misteriosos sequestradores, afinal de contas?

Não teve muito o que pensar. Talvez por estar mergulhado nestes pensamentos, sua visão perdeu o foco principal. Graças a isso, pôde ver algo pelo fraco reflexo do óculos: Uma garota de longos cabelos verdes, trajando roupas muito semelhantes às das gothic lolitas (destaque para uma cruz prateada que usava pouco acima de seus seios), apontando-lhe uma espada. Foi o suficiente. E ela disparou um tiro de energia não muito maior do que uma agulha.

Girando rapidamente, Asher tentou defletir o disparo assim como os anteriores. Mesmo com o reduzido tamanho, não conseguiu defletir totalmente, vazando parte de sua mão. O sangue sequer pingava, deixando apenas um rastro queimado. Ardia, ardia bastante, ainda que não fosse a mão que o mercenário usasse para empunhar sua espada normalmente. Agora ambos se encaravam, a bela lolita sorria para ele, um sorriso perverso de uma criatura que se delicia com a resistência alheia.

- Você é melhor do que os últimos que encarei, fufufu...

Reconhecia ela de algum lugar. Ela realmente não era estranha, o jeito curioso de se vestir, cabelos e olhos verdes como esmeraldas... Esmeraldas... Claro!

- Não é todo dia que posso ser recepcionado pela Serpente Esmeralda, né? — Comentava Asher com óbvio deboche.

A Serpente Esmeralda era uma mercenária razoavelmente conhecida no meio. Claro que é apenas um título pomposo, dado com razão: Ela era uma assassina, uma das melhores do oeste europeu. Mesmo jovem, possuia um talento nato para arrancar a vida dos outros, agindo silenciosamente como uma cobra, dando um bote único e certeiro. Como o que ela tentou dar em Asher.

- Ainda consegue brincar, mesmo me conhecendo? Sua audácia realmente me impressiona, Asher. Tudo isso é consciência da morte?

- Pois é. A idéia de ser o ponto final na sua vida me faz brincar, Dot. Mas podemos poupar isso, você finge que não me viu e saímos dessa sem lutar, feito?

A Serpente Esmeralda riu. Riu com gosto, poucos tinham toda essa coragem. Especialmente os que conheciam sua fama, mas Asher era diferente. Ou, vai ver, era igual a todos os outros e por isso, parecesse diferente. A garota mexeu com uma mecha de seus cabelos lisinhos, lambendo os lábios enquanto encarava o mercenário. Provavelmente não pensava nele mais do que como comida.

- Hahaha, sinto muito por não poder fazer isso. Mas posso lhe oferecer uma morte rápida, que tal? Seria ruim para mim deixar você zoar meu nome assim e sair vivo, nham...

- Posso saber por que estamos lutando? Acho que posso saber porque vou morrer.

- Hmmmmm... Vou pensar no seu caso.
— Uma suave mordiscada nos lábios, quase ao ponto de ferir. Dot então estendeu o braço direito para o lado, deixando que uma fina e longa serpente de metal dançasse pelo seu braço, se condensando a frente de sua mão estendida, logo se tornando uma espada. Era um sabre ligeiramente maior do que o normal, bem detalhado e com detalhes... Verdes.

- Bonita espada.

- Espero que continue achando ela bonita depois que ela atravessar seu pescoço.


Dot gingou a espada uma, duas, três vezes. Em seu caminho, ficava um rastro verde finíssimo, sinal de que a espada era carregada magicamente, assim como Ushiwakamaru. Mas Asher tinha confiança na sua espada, tinha certeza que era melhor do que a espada dela.

- Não vamos perder para esta cobrinha, Ushiwakamaru!

Claro que a mercenária não gostou do comentário. Avançou rapidamente na direção de Asher, mas parou exatamente na distância onde a pontinha de sua espada poderia atingir o óculos do mercenário. Foi um movimento perfeito, devidamente bloqueado pela espada que ele já empunhava. A espada ainda estava embainhada, mas tinha resistência mais do que suficiente para aguentar o golpe. Não havia sido exatamente forte, mas causaria um belo estrago. A deflexão foi natural, o sabre de Dot escapou e saiu de alcance. A garota, então, recuou pouco mais de cinco passos. Sorria para ele, sorria satisfeita.

- Não perdeu os olhos, é um bom começo.

- Hm...

Estava curioso. O golpe dela havia sido preciso demais, mesmo para uma assassina. Mas não deixou isso transparecer, tratou logo de sacar a espada também. Dot sorria, lambendo a lâmina da espada de tal forma que deixou um pouco do sangue dos próprios lábios escorrer por aquele fio. Escorria bem lentamente enquanto ela parecia não tirar os olhos dos olhos de Asher, pronta para dar o bote.

Logo começou a segunda investida. Avançou rapidamente contra Asher, dando-lhe primeiramente uma estocada na altura do ombro, defletida por ele. Como se esperasse tal deflexão, Dot girou no próprio pé e aplicou um segundo golpe na altura da cabeça, rebatido em um rápido movimento do mercenário. A velocidade deste segundo movimento foi tal que chegou a deixar uma marca vermelha no pescoço dele. Novamente, preciso demais, ela parecia ser uma guerreira de finta.

Na verdade, pensou em algo melhor: Qual seria a grade de poder dela?

Refletiu por alguns momentos e lembrou que já tinha ouvido falar. Boatos, apenas suspeitas... Mas precisava de uma confirmação. Uma confirmação prática do real poder dela. E para isso, não tinha jeito, só mesmo lutando. Lutando... E lutando mais. Asher deixou um sorriso bem sacana transparecer, saltando então para trás. Estalou o pescoço, sem perder a compostura ou deixar de prestar atenção.

- Nem os olhos, nem o pescoço. Já temos começo e meio, como será o final?

Apesar do sorriso de Dot, era visível que já estava amargando. Era realmente chato ter um mané debochando mesmo após quase se lascar duas vezes. Girou a espada e lambeu os lábios, se demorando um pouco mais onde estava ferido, avançando com uma estocada em passo único. Foi rápido, rápido demais para olhos captarem. O mercenário tentou saltar para o lado e defletir o golpe, mas não foi o suficiente, tendo o lado esquerdo do abdomen cortado razoavelmente. Entrou apenas parte da lâmina, mas foi suficiente para sangrar e doer. Muito.

- Opa, opa... Agora foi!

Mas não deu tempo para ela cortar mais do que isso. Antes que Dot conseguisse completar o seu golpe com um giro, Asher finalmente a golpeou também, querendo arrancar-lhe as pernas com isso. Só que ela usou sua deflexão energética com as pernas, concentrando uma boa quantidade por um tempo irrisório, apenas o suficiente para um giro no próprio pé e um salto seguinte, caindo levemente afastada. A mercenária então disparou um feixe de energia esverdeada enquanto saltava, sendo prontamente defletida pela energia do seu adversário, em um movimento de seu braço, o mesmo ferido. Ficou mais ferido, uma vez que ela havia colocado tanta força quanto o anterior, mas em uma esfera agora. Fez um belo machucado, como se tivesse levado uma forte pancada.

Dot agora estava séria enquanto Asher ria. Mesmo tendo levado a pior (mais uma vez) ele ria. Dava até de ombros, parecia não se preocupar.

- Masoquista?

- Antes fosse. Mas seu truque é bem interessante, tenho de admitir. Justifica bem sua fama, cobrinha.

- Tsc, continua com esta pose? Irei te pendurar pelo intestino, desgraçado!

- Agora que sei do que você é capaz, é mais fácil te atacar.

- Vejamos se sabe mesmo... Tsc!

A mercenária avançou novamente. Desta vez, Asher não tirou os olhos da ponta da espada dela, movendo a própria espada não para defletir o golpe dela e sim, para cortar sua cabeça. Considerando que o golpe dela estava vindo como uma estocada, ela levaria uma bela desvantagem. Ela fez o que qualquer pessoa faria, usou o seu corpo flexível para desviar para o lado e manter a estocada. Só não esperava uma reação dele.

Quando Dot fez isso, tudo que ele fez foi conduzir sua energia pela ponta da espada e acompanhar o movimento dela. Não a acertaria com a lâmina, fato, mas poderia ferir bem ela pela energia, que escapou como um chicote, acertando-a em cheio. Ou quase, já que ela conseguiu defletir uma parte a tempo para evitar um direct hit, o que seria fatal. Mas lançou ela bem para trás, o suficiente para fazê-la cospir sangue. Ela chegou a acertar uma das cúpulas, trincando-a severamente. Começou a vazar e um alarme, por consequência, começou a soar.

- Touchê!

- Cough!
- Tossiu ela. - Mas... Como...?

- Sua sinestesia só consegue assustar quem não sabe que você é capaz disso. Não reparou que não avancei uma vez sequer pra te atacar?

- Grrr...


Era a suspeita dele. Havia ouvido falar que o segredo para o sucesso de Dot era o fato dela ser uma sinestesista, um dom raríssimo. Com este dom, ela só poderia ser pêgo de surpresa se ela própria cavasse o buraco. E cavou. E caiu.

A mercenária agora estava realmente furiosa. Rangia os dentes enquanto aquele filete de sangue continuava a escorrer, aparentemente esmagando o cabo da própria espada. Não o perdoaria por tamanho abuso e faria o que havia tanto feito até agora. Avançar.

- Você não pode sair com este segredo, você VAI MORRER!

- Não, Dot...

A garota avançou com um corte giratório, provavelmente colocando todo o seu espírito. Girou na direção da lâmina, pelo lado direito, provavelmente para atacar um possível ponto cego de Asher. Essa havia sido a sua intenção e, pela espada dele, era uma tática inteligente.

Seria inteligente se não fosse tão desesperado. Ela estava colocando toda a força naquele golpe, para encerrar de uma vez. Nada de sinestesia, uma simples questão de poder bruto.

Com a espada apontada para baixo e usando sua energia, Asher chutou o mine de Ushiwakamaru para cima, dando uma forte espadada ascendente. Não apenas defletiu o golpe de Dot, como o sabre dela chocou-se com tudo contra seu olho direito, bem como na lateral, fazendo um belo corte. Jorrou um belo feixe de sangue, os danos eram incalculáveis. Um grito agudo, uma pausa imediata, o impulso simples de largar a espada para cuidar da ferida. Reação de uma pessoa que não é acostumada a ser ferida.

Assim como ela, Asher largou a espada, mas não foi para cobrir a ferida. Foi para segurá-la pelos cabelos, dando um gingar selvagem que quase arrancou parte dos cabelos de Dot. Segurou a cabeça dela e puxou contra si, dando-lhe uma joelhada bem no meio da cara, abafando seu grito de dor. Quase apagada, levou uma joelhada na barriga também, seguida de uma \"marretada\" de duas mãos nas costas. Dot não estava mais consciente, havia parado de reagir. O mercenário então ergueu o rosto dela para que o encarasse. Ela estava apagada, seu rosto totalmente deformado dos golpes e cheio de sangue.

- Você que já morreu.

Arremessou o corpo dela em uma das cápsulas, estourando-a e deixando-a dentro, ainda se cortando com o vidro dali. O alarme continuava a soar mais alto, já incomodando o mercenário. Asher então sorriu, pegando a espada dela no chão e admirando-a. Provavelmente teria um bom valor comercial.

- Agora é hora de... Hã?

Quando virou-se para resgatar a menina, descobriu que... Ela não estava mais lá. A cápsula estava lacrada mas ela não estava lá. Asher caminhou até lá para confirmar por onde ela havia escapado mas... Não havia local. Não tinha saída, não tinha marcas no vidro... Estava absolutamente limpa.

- Droga... Acabei me distraindo. Mas pera. Se o alarme não está chamando soldado algum pra cá, significa... MERDA!

Sem pensar, catou sua espada no chão e saiu correndo na direção da entrada. Correu, correu e correu, correu de tal modo que esqueceu até mesmo da outra passagem. E tinha uma razão bem simples: Se o alarme não era para alertar da presença do inimigo, só podia ser um sinal de evacuação. E advinhem o que acontece quando passa um tempo após o disparar do sinal de evacuação... /troll

De algum modo, conseguiu sair do local. Não conseguiu ouvir o que aconteceu com o local, sequer se ocupou em fazer isso. Ainda era noite, provavelmente não passou mais de uma hora do momento que entrou até o momento em que voltou para a sala central da abadia. Estava cansado. Gasto, não havia saído ileso da lutinha contra Dot, afinal. Mas teria uma bela história pra contar no dia seguinte, quando chegasse em Londres.

Só teria de voltar em Gloucestershire pra explicar o resultado da missão. Mas não estava com medo, afinal... Não pôde fazer nada. Ao menos, tinha a espada de Dot, a Serpente Esmeralda.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.