Catarina
Já saí do prédio e vou caminhando até a Cafeteria. Não costumo me arrumar exageradamente para sair de casa, mas, hoje eu abri uma exceção: uma calça jeans folgada, uma camisa social simples (branca e com botões, vale ressaltar.) e um scarpin branco. E sim, isso para mim já é se arrumar exageradamente. Mas, não demorou muito para eu perceber que eu teria que vestir o uniforme quando eu chegasse na cafeteria, e eu já sinto um leve arrependimento de ter vestido uma das minhas melhores peças, mas tudo bem.
Viver em uma cidade que oscila entre interior calmo, com belas paisagens e senhores jogando xadrez na praça e entre um grande centro comercial movimentado com grandes negócios sempre me pareceu atrativo, isso supre as minhas duas personalidades:
Personalidade Um: Uma Catarina calma, que gosta de ler um romance com mistério e se veste de forma casual e simples, e que geralmente está de bem com a vida.
Personalidade Dois: Uma Catarina rebelde, que gosta de sair pelas boates da cidade e que se veste de forma provocativa, e que geralmente não está nada de bem com a vida.
Essa segunda personalidade surgiu quando minha avó se foi. Na verdade, ela já existia, só era mais retraída.
Finalmente chego à cafeteria, quarenta e cinco minutos antes do combinado, sou um pouquinho só prevenida.
Jade
Eu caminho até o Café.
Estou tão nervosa quanto achei que estaria.
‘’Olá, meu nome é Jade e irei auxiliar vocês durante uma semana, e vocês passarão por um rigoroso processo de aprendizagem e todo cuidado é pouco!’’, venho repetindo na minha cabeça essa frase desde que saí de casa. Quando eu sugeri dizer isso, minha família não reagiu muito bem.
— Pai Amado, que cafona! – Minha irmã disse enquanto passava manteiga no pão. Para a idade dela, ela é bem desbocada.
— Dessa vez terei que concordar com a Jasmin, querida, isso é mais que cafona, é desnecessário. – Minha mãe também comenta. – Que tal... não planejar uma frase? Isso vai te tornar menos robótica.
— Talvez, mas acho que quanto mais formal eu for, mais confiança eu vou passar.
Ser uma menina de dezessete anos com um grau leve de autismo não é algo que me incomode tanto, na verdade, eu até esqueço dessa condição, mas minha mãe não esquece jamais. Principalmente depois de um surto que tive ano passado na escola.
Esse surto foi o ‘’estopim’’ para minha mãe me colocar de volta nas consultas com a psicóloga, ela já me ameaçava a me colocar de volta por qualquer coisa errada que eu fizesse, e isso me chateia um pouco. Não é que eu não goste de conversar com a Suzana, é que ela não gosta de cachorros.
— Não é bem assim, Jade, eu só prefiro gatos! – Suzana disse enquanto escrevia algo no seu bloco de notas.
— Gatos são independentes e não precisam da ajuda dos humanos, além de não se importarem com os seus donos! E já os cãezinhos se importam e são mil e uma vezes mais atenciosos! – Retruco. Sempre tive medo de gatos, mas não chega a ser uma fobia.
Talvez a ideia de ser independente demais é o que me dá medo, e não os gatos.
O meu cãozinho Slinky está comigo desde sempre, e pelo que eu sinto, ele nunca fez questão de não estar. Minha mãe o adotou quando eu tinha quatro meses, e desde então, somos amigos inseparáveis.
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