Catarina
Já estou uniformizada. E bem adiantada, por sinal.
O Sr. Álvaro me passou as instruções logo que me viu entrar na cafeteria.
— Srta. Catarina? Bom dia! – Ele se aproxima e olha para o relógio de ponteiros que fica no balcão. – Puxa, chegou cedo.
— Sim. – Dou uma risada envergonhada.
O Sr. Álvaro me passa a impressão de um tiozão. Nada contra homens com cinquenta anos ou mais, acima do peso e que tem um bigode ridículo, mas ele é exatamente o estereótipo do tio do pavê. Apesar disso, é um carinha super atencioso e que me passou as instruções antes da minha instrutura chegar, assim posso impressionar no primeiro dia.
As instruções são: organizar as mesas, manter o ambiente limpo, lavar a louça, organizar as xícaras e talheres e atender a ligações. Eu não posso imaginar como o meu semblante foi mudando conforme o tio do pavê ia falando o meu cronograma da semana, mas tenho certeza de que fiz uma cara do tipo: mas que diabos?! Mas depois eu lembrei de algo que ouvi da minha ex-colega de quarto enquanto ela estava em uma ligação, ‘’por trás de uma grande história feminina, há sempre um começo sombrio.’’, bom, eu só não gosto da ideia de pensar no contexto da conversa pra ela falar algo desse tipo, mas essa frase é bem inspiradora, e, de qualquer forma, quando eu inaugurar a minha cafeteria, não serei eu quem vai servir os docinhos ou o capuccino, pois vou estar muito ocupada em um jantar com algum colaborador.
Enquanto eu estava sonhando e organizando as mesinhas, a Anne entra na cafeteria, acompanhada de um rapaz. Ambos vestidos com o uniforme do café. Estou espantada.
O Sr. Álvaro os cumprimenta.
— Bom dia, Anne e Gabriel! Vejo que já se conhecem, perfeito! Venham, vou apresentá-los para a Catarina. – Ele diz, trazendo-os em minha direção.
— Srta. Catarina, essa é Anne e esse é o Gabriel, seus colegas de trabalho, vocês vão revezar as funções.
— Oi. – Digo. – Prazer em conhecê-los – Podem me chamar de Cat.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, outra menina entra na loja, e parece apressada. Ela também está vestida como eu e o Gabriel.
— Jade, Jade... Está atrasada, mocinha. – Álvaro diz.
— Me perdoem, eu perdi a hora, me perdoem. – A menina diz. – Sr. Álvaro, esses são Gabriel, Catarina e Anne?
— Sim, você vai auxiliá-los essa semana. Já passei as instruções para a Catarina e ela já está organizando as mesas, instrua Gabriel e Anne e depois passe outras funções para eles! Vamos abrir em alguns minutos! – Álvaro diz, e logo em seguida se despede, subindo as escadas que leva para uma área restrita para os funcionários.
É isso. É o fim da minha carreira, estou aqui largada sem apoio nenhum com a minha ex-colega de quarto sendo uma das minhas concorrentes, um rapaz cabeludo padrão que até agora não disse nada a não ser um bom dia e uma pirralha como minha instrutora.
Jade
Estou nervosa, mas mesmo assim acho que consigo me sair bem. Passo as instruções rapidamente para Anne e para o Gabriel, Catarina organiza as mesas.
— Alguma dúvida? – Digo. Eu decidi improvisar um discurso para parecer menos robótica ou esquisita, não quero que eles saibam da minha condição.
— Nenhuma, Sra. Jade. – Gabriel disse, Anne só balançou a cabeça em negativa. Mas... senhora?!
— Ótimo, mas podem me chamar só de Jade... – Dou uma risada de leve. Minha mãe me ensinou a um tempo que dar uma risada ‘’pouco forçada e mais descontraída’’ ajuda a parecer menos ‘’ranzinza’’. Parece que ela está certa, faz um bom tempo que não escuto as pessoas dizerem que eu sou ‘’seca’’ demais.
Mandei o Gabriel ficar na operação das máquinas de café e a Anne cuidar da parte dos docinhos e salgados, a Catarina ficaria na parte da limpeza e organização, e, caso eu precisasse, me ajudaria a atender os clientes (o que com certeza vai acontecer quando estiver próximo ao horário de almoço.). O Sr. Álvaro me pediu antes para que eu fizesse exatamente desse jeito, só não sei o porquê.
A Empire Cafeteria abriu. Todos parecem nervosos.
Alguns clientes começam a chegar após dez (ou mais) minutos da abertura. Anne e Gabriel estão tensos, e eu mais ainda. Não é nada pessoal com eles, mas tenho medo do Gabriel confundir o sal com o açúcar e a Anne misturar o doce com o salgado, mas eu sei que não vai acontecer porque eu tenho certeza de que separei direitinho o sal do açúcar e os doces dos salgados.
— Bom dia, Sra. Elisa! O que vai querer hoje? – Elisa é uma senhorinha bem simpática e que é uma das pessoas frequentes do café, trazendo sempre algum romance para ler. Outra pessoa frequente por aqui é o Bartolomeu Garrastazu, carinhosamente apelidado de Bart pela Elisa, ele é um senhor resguardado e de pouco papo, porém é bem-educado, e eu suspeito que a Elisa sente algo por ele, apesar de saber que ele é casado, inclusive, a mulher dele, a Sra. Garrastazu geralmente o faz companhia no café, mas não é tão educada quanto ele, chegando a ser bem rude em algumas ocasiões. O Sr. Álvaro já me pediu para ser um pouco discreta em relação a observar muito os clientes, mas ele releva por saber da minha condição.
— Bom dia, querida. O de sempre, por favor, um café gelado sem açúcar e três cupcakes de morango. – Elisa diz, enquanto abre sua bolsa da Chanel para pegar o seu livro. Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. (outra coisa que é inevitável reparar é o quão os clientes do Empire são podres de ricos.).
— É para já, Sra. – Nem anoto o pedido, ele já está gravado na minha cabeça. Repasso para Anne e para o Gabriel e atendo os outros clientes.
Gabriel
Preparo o café gelado e sem açúcar.
É tudo tão novo, mas não é como seu eu nunca estivesse trabalhado em uma cafeteria chique antes, mas eu sempre me assusto com senhoras com bolsas caras e rapazes engravatados. O Empire pelo menos tem um ambiente bem mais agradável que as outras cafeterias, sua decoração clássica faz tudo parecer mais leve, eu acho. Talvez seja proposital.
— Isso é tão legal, nós dois trabalhando no mesmo lugar! – Anne disse enquanto íamos pro Café. Nós descobrimos de última hora que nós dois fomos chamados pro processo seletivo da Empire, apesar da gente namorar. Na verdade, ficamos um tempo separados e voltamos recentemente e só tivemos tempo de transar como se não houvesse amanhã, e esquecemos de colocar o assunto em dia. Anne é uma mulher difícil de lidar, brigou comigo quando tive que ficar um tempo fora da cidade, ela não suportava a ideia de me ver longe dela, talvez seja insegurança (ou algo assim, nunca tivemos esse tipo de diálogo), e daí veio a nossa separação.
— Gabriel, o café já está pronto? – Jade pergunta, segurando a bandeja com alguns cupcakes.
— Já sim, senhora, aqui está. – Entrego para ela, e depois me dou conta que a chamei de senhora novamente.
Ela pega o café e olha por alguns segundos para mim, ela parece confusa, mas decido que não é da minha conta (e realmente não é.).
Aproveito essa brecha pra conversar com a Anne, percebo que ela está me olhando muito e parece ansiosa para falar comigo.
Caminho até ela. A área dos das bebidas e dos doces e salgados é separada por uma pequena bancada retrátil que fica por dentro do balcão, isso é meio estranho, mas não ligo.
— Oi Anne, percebi que você tá meio tensa, e... – Dou uma pequena pausa, ela me olha de um jeito em que parece estar perturbada. – Percebi que você não parava de me olhar, então... Tá tudo bem?
— O quê? – Ela parece confusa. – Eu não estava olhando para você, e sim para a Catarina.
Fico surpreso, e então olho para atrás e vejo Catarina nos observando de forma discreta (ou tentava ser, pelo menos.) enquanto passa pano em uma mesa que acabou de ser desocupada.
— E por que está olhando assim pra ela? E por que está tão nervosa assim? – Indago a Anne, mas ela não teve tempo de responder, Jade apareceu e nos interrompeu.
— Anne e Gabriel, posso saber por que vocês estão aí parados? E Gabriel, por que está aqui na área dos comes? Preciso de um macchiato e um café preto açucarado! E Anne, já preparou as minis tortas que eu te pedi? – Jade está visivelmente nervosa e com razão. Eu rapidamente vou preparar os pedidos, depois posso continuar essa conversa com a Anne.
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