Notas iniciais
Oi! I'm back.

Algumas semanas antes, em Paris...

— Ei Thomas! — Emma gritou. — Não aguenta tomar mais um pouco de bebida?

— Não. — neguei com a cabeça, admitindo. — Cheguei no meu limite.

— Molenga. — a loira riu maliciosa.

Emma era minha melhor amiga. Ela havia sido criada por um casal de lésbicas, e eu, por um casal de gays. Isso já era o bastante para nos identificarmos. Seríamos namorados se ela não fosse homossexual. Apesar da sua negação, claro.

— E aí. — René apareceu ao nosso lado com o sorriso maroto de sempre, passando um braço ao redor de meu pescoço.

— Oi. — respondi alegre de alcóol.

— Que horas o avião sai, Emma? — ele puxou uma cadeira e sentou-se.

— Oito. — ela suspirou triste, acariciando sua garrafa de vinho nacional. — Droga.

René comprimiu os lábios, sabendo com certeza que não falou a coisa certa. Ele gostava da garota, mas não sabia da sexualiedade dela. Emma arrumou a echarpe e sorriu amarelo. Sua partida para o Canadá seria no dia seguinte. Uma das mães era diplomata e vivia pulando de país em país. Decidimos nos regar com vinho e vodka para esquecermos desse fato. E lá vinha o moreno desgraçado estragar tudo.

— Desculpa. — René cruzou os braços e chamou o barman com um aceno. — Desculpa mesmo. Só...

— Queria saber. Tudo bem. — Emma deu de ombros. — Normal, a gente é amigo.

X.X

René parou sua estonteante BMW em frente de minha casa, num bairro nobre de Paris. Já era tarde da noite. Ou seria cedo da madrugada? A temperatura havia baixado um pouco e um vento frio soprava contra nossos cabelos rebeldes.

— Eles vão brigar? — meu amigo questionou com a sobrancelha levantada.

Ele vai brigar. — enfatizei a primeira palavra para que René se recordasse quem era meu pai abusado: Victor.

Ele colocou suas mãos dentro dos bolsos da jaqueta jeans.

— Vai viajar pra onde? — perguntei segurando a grade do muro.

— Meu pai quer ir ver uns parentes chatos na Islândia. E argh, detesto aquele lugar.

— Pelo menos, vai sair da cidade. Eu vou ficar por aqui.

— Pelo menos, você não é obrigado a aguentar parente chato. — René rebateu. — Aliás, você nem tem parente chato. Seu avô só não te mima mais porque mora nos Estados Unidos. Os irmãos do Hugo vivem te enchendo de presentes. Não tem do que reclamar.

— Victor.

— Ah, para de ser dengoso. — ele riu. — Entra logo senão vão dizer que sou uma má influência. Quando na verdade, a má influência é você. Fato disfarçado, porque ao mesmo tempo tu é nerd e parece um bom garoto.

Dei uma risada e comecei a abrir o portão.

— Não sou nerd, eu jogo no time de futebol.

— Joga bem mal. Você só tá lá porque...

— Vai se fuder. — repliquei antes que René terminasse. — Boa noite.

Observei meu amigo ir embora na sua BMW. Passar o verão sozinho somente com meus pais era algo realmente trágico. Esperava ao menos que René e Emma me mandassem notícias por e-mail ou coisa do tipo.

— Thomas! — a voz de Hugo ecoou no silêncio da casa. — Vem logo! Daqui a pouco vou dizer que tá apaixonado pelo René.

Revirei os olhos. Hugo e sua mania de dizer que todo mundo é bissexual. Suspirei vendo meu amigo dobrar uma última esquina e sumir das minhas vistas. Voltei a atenção para meu pai. O ruivo estava na porta com o sorriso gentil de sempre. Caminhei rápido até ele.

— Victor tá dormindo?

— Não... — Hugo mordeu o lábio. — Pelo cheiro de alcóol que senti a metros de distância...

Ele não pôde completar sua frase. Victor apareceu na sala e interrompeu:

— Você bebeu, Thomas. Acho que a gente conversou sobre isso.

— Bebi. — confirmei entediado. — Poxa, Emma vai embora amanhã!

— Ah, claro. — ele sorriu irônico. — Espero que tenha se divertido porque nós também iremos embora.

Franzi o cenho, completamente confuso.

— Como assim?

Hugo suspirou, aparentando nervosismo e fechou a porta.

— Eu decidi que iremos para Colmar. — Victor respondeu.

— Mas... Por quê?

Os dois ficaram calados, como se estivessem trocando mensagens por telepatia. Aproximei-me do sofá e sentei-me, de braços bem cruzados. Eu sabia pelas aulas de Geografia que Colmar era a capital administrativa da Alsácia. Nunca tive vontade de conhecer o lugar.

— Quer que eu saia de Paris e vá para um fim de mundo no leste da França. Explique-se. Preciso saber qual é a causa de coisa tão repentina.

X.X

Victor não explicou. Ao contrário, mandou-me dormir.

No dia seguinte, acordei mais cedo do que o costume, quatro e vinte da manhã. Sentei-me na cama, esfregando os olhos. Victor me chamaria dentro de meia hora, ele fazia isso desde a notícia da nota baixa. Abri a porta e saí para o corredor. Minha garganta ardia com a secura e eu ansiava desesperadamente por água.

Ao chegar próximo à cozinha, escutei vozes sussurrando de um jeito quase que ininteligível. Uma delas parecia ser de Victor. A outra era bastante estranha para mim. Acurei meus ouvidos, porém, nada pude compreender. Algumas palavras foram libertas num tom mais alto: senhorita Silva, 1999, morte. Ainda assim, a conversa continuava confusa.

Minutos depois, um homem corpulento passou na minha frente. A escuridão salvou-me de ser visto.

[...]

Algumas semanas depois...

Meu estômago se revirou dentro de mim. Voltei meus olhos para a foto. Havia muitas Marias no mundo, porém, mesmo não querendo acreditar, eu sabia que aquela era A Maria. Impossível confundir seu rosto, eu o marquei com bastante precisão na minha memória.

Silva. Minha memória foi remetida a três semanas antes, quando escutei aquele sobrenome pela primeira vez, numa conversa que me pareceu sem sentido. Estávamos prestes a nos mudar de cidade. Mesmo que essa mudança viesse sem um pingo de explicação. Até Hugo se esquivava das perguntas que eu constantemente fazia. Como nunca davam-me respostas, em poucos dias, acabei esquecendo que deveria haver alguma razão para partir.

Senhorita Silva seria Maria?

— Thomas, faz quase uma hora que eu te chamei! E você ainda tá aqui. — disse Victor logo atrás de mim rispidamente.

Me virei de frente para meu pai. A camisa azul que ele vestia caía muito bem no seu corpo delineado. Mas qualquer roupa ficava perfeita em Victor. Seus olhos castanhos estavam dois tons mais zangados. Ele não aparentava ser o cara que me encheu de carinho no dia anterior. Eu me iludi, ao pensar que aquilo se repetiria. Respirei fundo e enxuguei o suor da minha testa.

— Maria morreu.

— Eu sei. Li o jornal primeiro que você. E daí? Pessoas como ela morrem todos os dias. Aquela vagabunda tem que dar graças a Deus por ter morrido num hotel quatro estrelas.

Quis dar um passo para trás ao ver tamanha insensibilidade, mas o sofá emperrava meu caminho.

— Como você consegue ser tão frio, Victor? Você a conhecia!

— Deixa de drama. — meu pai revirou as órbitas. — Tenho coisas mais importantes para me preocupar. Agora cuidar de fazer o que já mandei, não gosto de falar duas vezes.

Observei Victor sumir das minhas vistas com o canto do olho. Coincidência demais isso ter acontecido dois dias depois dela me conhecer... Nunca vai me contar o que sabia. Uma parte de mim se enojou, imaginando que meu pai fosse o mandante do crime. Aquele comportamento gelado em relação a Maria não parecia ser normal. Ele estava planejando matá-la... Não, não! Balancei a cabeça, mordendo os lábios. Eu não convivi com um assassino durante dezesseis anos.

[...]

Tomei um banho, após terminar de lavar os banheiros. Vesti as primeiras roupas que achei na bagunça do meu guarda-roupa: uma camisa do Frozen e uma calça jeans sem marca. Olhei para meu reflexo no espelho e ri. A maldita camisa fazia-me parecer uma menina. Tia Isabelle, irmã de Hugo, devia estar de zoação com minha cara quando a me deu de presente. Dei de ombros, eu não estava a fim de trocá-la. Peguei meu celular de cima da cama, ainda não tinha checado as mensagens naquela manhã. Mas não havia uma única notícia vinda de Carla. Comprimi os lábios, um pouco decepcionado pela falta de consideração e desci as escadas.

Assim que saí para a varanda, encontrei Hugo sentado numa cadeira de plástico branca, folheando relaxadamente Shelley. Aproximei-me do ruivo e li a primeira frase que saltou aos meus olhos: I can give not what men call love. As palavras se pareciam um pouco com Victor, pelo menos foi a minha impressão. Meu pai virou seu rosto sardento para mim.

— Olá, Thomas. Vai sair?

Cruzei os dedos dentro dos bolsos com certa apreensão. Eu queria ver Carla e saber quem seria o tal suspeito da morte de Maria. O que eu não desejava era contar para Hugo o que tinha em mente. Não se podia abusar tanto da bondade de meu pai.

— Unrum.

— Para onde? — ele questionou.

— Para a rua, oras.

Ele revirou as órbitas.

— Thomas.

— Tá, tá. — chutei o chão de madeira. — Eu quero ver uma menina.

— A prostituta com quem estava se encontrando? — ele depositou o livro numa cadeira vazia, ao seu lado.

— Unrum.

— Quer saber notícias da mulher que morreu?

Cruzei os braços, um pouco pensativo. Claro que Victor tinha contado para Hugo toda a história sobre Carla e a briga. Era a coisa mais óbvia do Universo. Só que meu pai não havia falado sobre o assunto comigo. E eu devia considerar que desobedeci um de seus princípios: não ande com prostitutas. Isso foi no mínimo estranho.

— Exato. Mas... Sabe... — toquei em seu ombro. — Você não brigou...

— Por que eu faria isso?

— Oras, essa menina e tudo mais.

— Victor já fez isso. — ele sorriu. — Não adiantou, pelo que vejo.

Notas finais
Imagino que tenha gente aqui que goste de yaoi. Eu tenho uma nova fic -> https://fanfiction.com.br/historia/626794/Jupiter_e_Venus/ Enfim, por hoje é só