Notas iniciais
Oi, gente? Demorei? Espero que não.

Decidi que passaria antes de tudo na frente da delegacia. Ela estava vazia, a morte de uma reles prostituta não deveria interessar muito. Pus as mãos no bolso da calça jeans. O tempo estava relativamente agradável, 24 º C. O Sol brilhava francamente.

— Thomas! — um grito de histeria inudou a rua. — Você tá aqui!

Virei-me para trás. Carla vinha ao meu encontro com os braços abertos. Ela parecia horrível. Seus cachos emaranhavam-se num bolo bagunçado e o vestido que usou na noite anterior já não era tão branco.

— Oi. — dei um meio sorriso. — Eu vim. Como você tá?

— Como você imagina que eu tou? — Carla riu com ironia ao aproximar-se o bastante para ficarmos cara a cara. — Maria era tudo o que eu tinha nesse país. Agora estou sozinha.

Vi uma lágrima escorrer de seus olhos oliva. Toquei em sua bochecha com certa pena. Eu tinha dois pais durante vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, trinta dias por mês. Tudo bem que Victor era um ser extraterrestre, mas mesmo assim... Carla era solitária. A única pessoa que estava por perto acabava de partir do mundo. Envolvi seu corpo magro num abraço e beijei sua testa.

— Vai ficar tudo bem. — procurei dar ênfase na minha frase.

— Não, Thomas... Não vai. — ela gemeu. — Eles sabem que sou ilegal e vão me deportar.

Senti todos os músculos de meu corpo ficarem tensos. Por alguma razão desconhecida, eu não queria que Carla voltasse ao Brasil.

— Eles não podem... Fazer isso.

— Podem. — Carla mordeu minha camisa do Frozen. — É a lei.

Apertei a garota.

— Eu não posso... Ficar sem você. — me senti estranho ao pronunciar essas palavras. Mas era a verdade.

— Você sempre esteve! — ela afastou-se e mostrou o rosto molhado. — Durante sua vida toda. Nem venha com isso, lembre-se de quem eu sou.

Segurei seu queixo com firmeza e falei devagarinho:

— Eu sei muito bem quem você é. Um ser humano que merece amor e carinho. Uma garota especial.

— Para de ser idiota.

Sorri ante a provocação besta de Carla. Porém, antes que eu pudesse responder, um policial interrompeu nossa conversa:

— Senhorita Rodrigues, precisamos falar com você.

[...]

Esperei Carla num café que ficava perto da delegacia. Sentei numa mesa afastada e pedi Waffles. Meus pensamentos estavam numa turbulência sem fim. A morte de Maria parecia estar vinculada a Victor, assim como o Hidrogênio ao Oxigênio na molécula de água.

— Garoto da camisa cinza. — uma voz cheia de sotaque americano chamou-me.

Virei para trás e vi a garota oriental do restaurante numa outra mesa.

— Pode falar em inglês. Eu sou fluente. — respondi mudando o idioma.

— Você é americano? — ela perguntou.

— Francês. O meu pai é de Chicago.

— Aaaah. Eu sou de Los Angeles. Você não me ligou.

Sorri. Eu havia esquecido completamente do papel que ela me deu na véspera.

— Vou ligar.

Subitamente, Carla chegou. Ela deu um olhar inquisidor para a desconhecida. A menina pareceu constrangida e logo sumiu de minhas vistas.

— O que foi isso? — questionei quando Carla sentou-se ao meu lado.

— Desculpa. — ela suspirou. — Desculpa.

— Tá. Tudo bem. Uma paquera a mais ou a menos nesse fim de mundo não faz diferença. Come. — empurrei meus Waffles para Carla. — Como foi sua noite?

Ela mordeu o lábio e respirou fundo.

— Assim que cheguei em casa, a polícia foi me procurar. E desde então, estive na delegacia.

— Que horrível. Quem seria o suspeito?

— Um cara de Lyon. Estava somente de passagem pela cidade. Ele diz que não foi intencional e blá, blá, blá. Enfim. No fim de tudo, foi só uma puta. Isso vai acabar em porra nenuma. Maria era uma imigrante ilegal que não pagava impostos. E só.

— Lamento. — disse com sinceridade. — Quando vão te mandar de volta ao Brasil?

— Em 24 horas.

— Não há nada que possa ser feito?

— Nada. — Carla balançou a cabeça. — Tudo bem. Não suportaria ficar aqui. Olha... Eu sei que você tá chateado. Por não saber nada sobre seu pai. Mas... Se quiser dar uma olhada nas coisas da Maria lá em casa... Pode ser que você ache algo do seu interesse.

Passei o polegar no queixo.

— Não precisa se preocupar comigo.

— Eu quero. Bom que eu não penso nessa coisa... Toda.

[...]

— E aqui estou. De novo.

— E não tá machucado. — Carla salientou, abrindo a janela. — Essa é a parte boa.

Cruzei os braços e observei o lugar. O rachado das paredes parecia levemente maior. O espelho quebrado, que eu havia visto na vez anterior, estava no chão, ao lado da cômoda.

— Só tem esse quarto? — questionei.

— Só. — ela respondeu em meio a um sorriso. — Ninguém dormia aqui, sabe... Acho que você entende. — colocou-se de cócoras e puxou uma caixa de papelão debaixo da cama. — Bem, tem essa caixa de coisas dela. Maria sempre pôs o que era importante aqui, nunca ousei mexer. Só que...

— Obrigado. Por se importar.

Carla levantou-se do chão com uma expressão envergonhada.

— Nunca mais vou ter ver. — continuei. — Eu sei que é estranho. Mas... Será que posso ganhar um beijo de despedida?

Ela riu e aproximou-se de mim. Sem mais nem menos, passou uma de suas mãos magras ao redor de meu pescoço e colou seus lábios nos meus.

[...]

Victor e Hugo não estavam em casa quando voltei. Notei que minha barriga roncava desesperadamente. A hora do almoço já tinha passado. Subi as escadas e me enfiei dentro do quarto. Joguei a caixa no chão, sentei ao seu lado, e a abri com a pressa de uma criança. Se eu pudesse descobrir alguma coisa, seria ali.

Não havia nada de especial em cima. Somente papéis velhos, jóias falsas, echarpes e relógios. Como sempre, o especial estava no fundo. Quase quebrei o piso da casa ao achá-lo, num pulo exultante. Era um diário antigo. Passei o dedo sobre suas folhas amareladas. A caligrafia rudimentar parecia familiar para mim. Apertei as vistas para entender as palavras escritas em português:

Paris, 12 de setembro de 1998

Estou grávida de Victor. Minha irmã Maria diz que fiz a maior besteira da minha vida. E ela tem razão. Mas estou apaixonada por aquele riquinho idiota de estilo badboy. E me sinto absurdamente feliz por carregar um filho dele na barriga. Toda hora, me pego pensando no sexo da criança. Poderia ser uma menina, eu adoraria uma menina.

Hugo ouviu falar sobre o caso. Então veio aqui em casa. Nunca gostei desse ruivo. Ele sempre me pareceu muito dissimulado, muito sonso. E minhas suspeitas se confirmaram: ele pediu que eu abortasse. Óbvio que eu o chutei a paus e pedras daqui.

Marisa

Paris, 20 de setembro de 1998

Contei para Victor da gravidez. O choque foi tão grande que ele ficou mudo por vários minutos. Mas quando conseguiu falar alguma coisa... Bem, para a minha decepção foi só um tudo bem, eu fiz e vamos lá. Depois foi embora do hotel, sem pagar a conta.

Tenho certeza que ele me ama, apesar disso. Victor só tem dificuldade de lidar com sentimentos. Sua mãe morreu bem cedo, ele nem teve oportunidade de a conhecer. O pai sempre foi ausente na sua vida. Ah, e falando desse velho... Nicholas vai querer se matar quando souber que vai ser avô do filho duma prostituta.

Marisa

Paris, 28 de outubro de 1998

Hugo mais uma vez pediu que eu abortasse. Sério. Ainda por cima, me ofereceu uma boa grana. Claro que o xinguei de todos os nomes possíveis. Quero muito falar disso com Victor, mas todos temos conhecimento de que aquele dissimulado é seu melhor amigo.

Marisa

Paris, 5 de novembro de 1998

Ilusão a minha pensar que Victor se casaria comigo. Isso é contra todas as leis sociais. Sou uma imigrante pobre e estrangeira. Pelo menos, ele vai assumir o filho. Queria que fosse uma menina, mas estou começando a achar que é um menino. Não sei explicar, é apenas uma intuição de mãe.

Marisa

Paris, 1 de dezembro de 1998

O bebê chutou minha barriga! Foi a coisa mais eletrizante que já senti. Victor estava ao meu lado e ele fez uma cara completamente emocionada. Foi lindo. Ah, devo dizer, nós dois nunca nos demos tão bem quanto nos últimos dias. Sei que é por causa da criança, mas estou contente.

Marisa

Paris, 27 de maio de 1999

Nasceu e é um menino. Lindo demais, cara e focinho do pai. Não consigo parar de olhá-lo. Victor diz que pareço uma boba, mas no fim de tudo, ele é do mesmo jeito. Então nós dois ficamos na frente do berço, suspirando como duas corujas. Chega a ser engraçado.

Victor quis que Hugo escolhesse o nome do nosso filho. Tive vontade de pegar uma faca nessa hora. Mas o ruivo pôs a boca no trombone antes que eu o fizesse. Thomas. Okay, é um nome legalzinho. Só me desagrada... Bem... O importante é que todos estamos felizes, até Maria. Ela tá super animada com essa coisa de tia.

Marisa