Castelos de Areia

11 Castelos de Areia


Notas iniciais
Ei, demorei e voltei com revelações u.u Tenho que agradecer à Bianca pela recomendação divosa. Fiquei super hiper ultra mega power feliz.

O coração palpitou. Virei o resto das páginas num frenesi louco. Porém, não havia mais nenhuma anotação depois de maio de 99. Mês em que eu nasci, pensei com um amargor intenso. Tudo o que encontrei foi uma foto. Um Victor jovem segurava um bebê gordo e careca nos braços. Ao seu lado, uma mulher sorria com uma expressão exultante. Ela era linda. Seus cabelos castanhos caíam nos ombros e os olhos escuros brilhavam ardentemente. De seu sorriso, brotavam duas covinhas. Minha mãe.

Chutei a caixa para longe. Tudo o que eu imaginava saber sobre meu nascimento era mentira. Eu não era fruto de inseminação artificial, mas sim, fruto de um relacionamento entre uma prostituta e um cara rico. Uma prostituta, Céus. Puxei a gola da camisa e a mordi com força, querendo não chorar. Maria era tão somente a minha tia. E foi assassinada.

Juntei os joelhos pertinho do meu corpo e os abracei. Hugo queria que eu fosse morto. Hugo. Pessoa a quem devotei todo o amor e o carinho. Hugo. Por que ele desejou tanto isso a ponto de tentar duas vezes convencer Marisa? A afeição que ele dizia sentir por mim era falsa? O que aconteceu para que Victor e Hugo, dois amigos, ficassem juntos? O diário, ao invés de responder minhas perguntas, só as aumentou numa proporção gigantesca. Aonde estava Marisa?

— Mãe... — choraminguei. — Cadê você?

— Mãe? — uma voz familiar ecoou na mudez do quarto.

Levantei a cabeça e olhei para a porta. Hugo me observava com uma expressão enigmática, de braços cruzados. Vestia uma camisa preta de botões e manga comprida com uma calça de sarja cinza. Tremi o lábio ao vê-lo diante de mim. Respirei fundo e puxei a coragem lá do fundo de minha alma.

— Mãe. — confirmei. — Por que ninguém me disse que eu tinha uma mãe?

Ele sorriu.

— Todo mundo tem uma mãe. Como é que viria ao mundo se não tivesse?

Arremessei o diário aos seus pés.

— Estou falando dessa mãe. Por que ninguém me contou que ela existia? — falei num tom grosso, tom esse que nunca tinha usado com Hugo. — Por quê? Por quê? E você queria me matar! Por quê?

O ruivo abaixou-se e pegou o caderno. Calmamente, como se eu não estivesse desesperado, folheou suas páginas e pareceu ler algumas palavras. Ele deu um meio sorriso e jogou o diário num canto qualquer. Então aproximou-se lentamente e sentou na cama.

— E é aqui que tudo muda... Infelizmente.

— Quero respostas, porra! — gritei.

— Vou te dar respostas, Thomas. — Hugo suspirou com tristeza. — Mas você vai pagar um grande preço por elas.

Franzi as sobrancelhas, questionando a mim mesmo o que Hugo queria dizer com aquilo. Ainda assim, resmunguei:

— Pois comece. E comece logo.

— Eu amei Victor desde o momento em que ele pôs o pé na França. Ele não era um rapaz muito comportado. — percebi a ironia. — Sempre estava com uma mulher. Ou com duas. Três...

— Entendi que ele não valia porra nenhuma, continue.

Hugo sorriu mais uma vez.

— Marisa... Foi uma delas. Ela era prostituta, como você já sabe. Victor a conheceu numa noite qualquer e os dois se apaixonaram. A coisa foi longe demais e você apareceu. Eu, sujeito apenas ao cargo de amigo, vi que você ia selar o relacionamento deles. Quis muito, Thomas, que ela abortasse. Insisti. Não deu certo. Fiquei de escanteio. Eu te odiava. Mas tudo ficou diferente quando Marisa morreu.

Senti meu corpo tremer dos pés a cabeça. Eu nunca havia perdido nenhum parente até então. De repente, eu perdi dois: uma mãe e uma tia. Cerrei os punhos e lancei o olhar para o teto. Era melhor do que encarar os olhos verdes de Hugo.

— De qu-ê? — balcuciei.

— Só um momento, deixa eu te contar o resto da história. Depois voltamos para Marisa.

Engoli em seco e assenti silenciosamente.

— O pai de Victor logo soube da tua existência e cortou a mesada milionária. Isso após a morte de sua... Mãe. Como não tinha mais dinheiro para pagar o aluguel do apartamento, Victor pediu abrigo na minha casa. Eu obviamente dei. Foi ali que acabei me apegando a ti, Thomas. Gostei de trocar suas fraldas, gostei de brincar contigo. Pouco tempo depois, Victor e eu nos envolvemos e ficamos juntos. A partir daí, te adotei como meu filho. Então, nós dois combinamos que nunca te contaríamos sobre Marisa. Isso facilitaria tua vida na escola. Você sabe com que tipo de pessoa estuda; filhos de nobres, empresários e políticos. Eles jamais tolerariam alguém que não tivesse um nascimento digno.

Uma lágrima acabou escorrendo pelo meu rosto, sem ser chamada. Hugo tinha razão. Meus colegas não tolerariam. Mesmo que fossem gente boa, no fim de tudo, eram altamente elitistas.

— E de que a minha mãe morreu? — tornei à pergunta anterior.

Um breve silêncio introduziu-se. Entretanto, durou pouco.

— Ela foi assassinada. Por mim.

Arregalei os olhos e mirei meu pai (?). Sua expressão era calma. Comprimi os lábios. Ele tá brincando.

— Você não fez isso. — disse atônito.

Hugo riu e coçou a barba por fazer.

— Fiz. Numa tarde de verão. Com um tiro certeiro no coração. Victor jamais largaria aquela mulher, Thomas. Só depois disso, ele percebeu que eu era a pessoa certa. Foi por amor. E também matei Maria. Só que no caso dela, não sujei as mãos. Mandei um cara fazer o serviço.

O sangue correu nas minhas veias numa velocidade absurda. Em choque, arranhei as bochechas com minhas unhas grandes. Victor era apenas um cara casmurro, meio doido, meio ET. Mas era só isso! Ele não tinha nada a ver com o assassinato. E eu passei o dia desconfiando de meu pai. Um sentimento de culpa avassaladora tomou conta de mim.

— Maria queria contar para você as coisas do diário. Ela sempre suspeitou de mim. Como a putinha estava me atormentando, decidi cortar o mal pela raiz. Mas agora, você sabe de tudo. Do que adiantou? Duas mortes, duas irmãs... Ah não ser que haja uma terceira morte, certo?

Eu.

— Eu sou seu filho! — exclamei. — Você não vai fazer isso.

— Não. — ele balançou a cabeça. — Você nunca foi meu filho. Apenas fingi ser seu pai.

Hugo levou a mão ao bolso da calça e tirou um pequeno calibre 22. Os batimentos dentro do meu peito pararam. Sempre esquecia que o ruivo andava armado, era seu costume desde os tempos de exército.

— Por favor... — tentei insistir.

— Faço qualquer coisa para não perder Victor. Desculpa, Thomas.

Sem mais nem menos apontou a arma na minha direção e atirou.

[...]

Vi o sangue cair no chão, ao redor do meu corpo. A dor era excruciante. Sabia que havia uma bala dentro de mim. Fiz força para ficar acordado. Olhei para a porta. Pareceu-me ter visto o rosto bronzeado de Victor nela. Mas talvez eu estivesse delirando. Ele aproximou-se de Hugo e falou algumas coisas estranhas e impublicáveis. Hugo respondeu e apontou o calibre para si mesmo. No entanto, meu pai tomou sua arma.

Respirei arfante. A dor só piorava. Fechei os olhos. Morrer seria fácil. Eu não tinha feito algo grandioso. Não fui o presidente ou um jogador do Real Madrid. Não salvei as baleias e nem dei comida para os famintos da África. Eu apenas... Vivi. Uma vida estúpida e comum. Jamais teria filhos. Nem saberia se eu era mesmo hétero. Quem sabe eu mudasse de ideia, como Victor mudou. Mas tudo parava ali.

— Thomas, filho literal da puta, fique vivo!

— Se você morrer, eu te ressuscito e te mato logo depois!

Eram frases que chegavam soltas aos meus ouvidos e que não podiam ser processadas. Eu apenas ouvi, não escutei. Quase nada podia perceber do mundo exterior. Como um disco fora de rotação, senti que alguém me carregava. Então, minha mente desligou-se.

[...]

A primeira coisa que vi quando abri os olhos foi paredes brancas. Me imaginei no paraíso. Oras, não fui um menino tão ruim. E suportei Victor por dezesseis anos. Só por isso, o espaço VIP no céu já devia ser meu. No entanto, percebi que estava deitado numa superfície dura e que havia algo no meu nariz e na minha mão. Mordi o lábio seco, meio perdido. Ninguém me disse que o paraíso era desconfortável.

Olhei para frente, sem mexer o pescoço. Victor estava sentado numa poltrona, cochilando. Seu rosto perfeito estava mais magro e marcado por olheiras fundas. Uma baba nojenta descia de seus lábios. Dei um meio sorriso. Ele nem parecia ser o cara prepotente de sempre. Afundei minha cabeça no que aparentava ser um travesseiro. E dormi novamente.

Quando acordei segunda vez, havia dezenas de pessoas com jalecos bracos ao meu redor. Cerrei os punhos, que notei estarem inchados, me perguntando o que raios estava acontecendo. Vários comentários foram feitos acerca de uma batalha terrível pela qual passei. Não entendi bem o que isso significava.

Para meu alívio, os olhos castanhos de meu pai apareceram. Toda aquela gente saiu. Victor sentou-se ao meu lado e acariciou meus cabelos, em silêncio. Quis abrir a boca para dizer o quanto estava confuso, mas esperei suas palavras. Elas demoraram alguns minutos. Ou segundos, não tinha muita noção de tempo.

— Você sabe quem sou eu?

Franzi o cenho. Por que não saberia?

— Sei.

Victor sorriu.

— Realmente, a memória não foi afetada. — apertou os próprios dedos. — Nossa. Pensei que você nunca mais fosse acordar. Fiquei desesperado. Mas foram só uns dias. Ainda bem. — o moreno respirou fundo. — Bem... Você levou um tiro, passou por duas cirurgias e ficou desacordado.

A imagenzinha incômoda de Hugo me apontando uma arma surgiu na minha mente. Desviei o olhar para o chão. A lembrança doía e doía bastante. Uma lágrima escorreu sem ser chamada. A mão grosseira de Victor a enxugou.

— Vai ficar tudo bem. Agora descansa.

Beijou minha testa.

— E Carla? — segurei seu pulso. — Você sabe alguma coisa sobre ela?

— Ela voltou ao Brasil. Vai ficar bem. — respondeu, já saindo.

[...]

Fiquei internado por mais uns dias. Eu estava muito fraco. Victor fez várias tentativas de ser simpático. Tive que reconhecer, meu pai se esforçou. Afinal, conversou comigo sobre futebol, séries britânicas e música francesa, coisas pelas quais ele nunca se interessou. O nome “Hugo” não foi mencionado nenhuma vez.

Numa noite qualquer, Victor veio me fazer companhia na hora do jantar. A comida hospitalar era horrível, mas eu consegui aguentar. Até aquele momento. Assim que dei uma olhada no que havia dentro do prato de alumínio... Tive vontade de vomitar. O moreno riu com a sobrancelha erguida.

Escargots. Nem sempre dá pra fugir.

Balancei a cabeça.

— Deviam proibir essas coisas. Principalmente em hospitais, nem sabia que isso era permitido.

— Se não quiser comer, não come. — Victor deu de ombros. — Não acho que vá morrer porque passou um dia sem jantar.

Franzi o cenho.

— Cadê o papo de “come o que tem”?

Meu pai suspirou.

— Não custa tentar uma relação menos turbulenta. Se você não gosta de Escargots, o que eu posso fazer?

Tirei a agulhinha do soro de meu pulso esquerdo com olhos fixos em Victor. Jamais esperaria que palavras daquele tipo saíssem de sua boca. Cruzei os braços, pensando no resto de minha vida. Eu viveria sozinho com o moreno. Hugo não estava mais conosco, com seu sorriso gentil. Sua ausência seria sentida quando tudo estivesse tenso. O ruivo não barraria meu pai se ele quisesse dar uma de Barney novamente.

— Temos que falar dele. Não finja que Hugo nunca existiu nas nossas vidas. — soletrei cada palavra. — Por favor. Ele tá preso, né?

Victor suspirou, meio tristonho. As linhas de expressão do seu rosto tornaram-se duras. Ao ver duas lágrimas grossas descerem de seus olhos castanhos, notei que ele também tinha emoções. Afastei o prato de meu colo, sem saber o que fazer. Ele enxugou o rosto com a gola da camisa e disse:

— É tão complicado. Cheguei naquela casa... Tudo que eu queria tomar um banho e comer qualquer coisa. Só que subi as escadas e ouvi a última parte da conversa de vocês dois. A princípio, não acreditei. Hugo era só um cara metido a intelectual. Nunca o imaginei como assassino. Mas aí... — comprimiu os lábios. — Houve o tiro. Corri pro teu quarto e te achei banhado em sangue. A cena foi chocante. O jeito que ele segurava a arma, tão tranquilo... Até agora não sei o que pensar.

Respirou fundo e continuou:

— Nunca entendi a razão de Hugo gostar de mim. Ele poderia conseguir um cara melhor. Nunca fui uma pessoa legal e carismática. Ele era. Nunca fui inteligente o bastante. Ele era. A única coisa que eu tinha era um rosto bonito e muito dinheiro. Mas... Ele via além disso. Não resisti e acabei me envolvendo. O amor dele era doentio e eu não sabia.

Aproximei-me de Victor.

— Desculpa por mentir em relação a sua mãe. — ele sorriu. — Milhões de desculpas. Não queria que soubesse. Fiquei com medo de as pessoas não te aceitarem. Conheço o mundo, Thomas. Ele não é bom. Mas eu a amava. Do meu jeito.

— Ela entendia o seu jeito de amar. — respondi pondo a mão no seu ombro.

Victor ficou em silêncio, olhando para o nada.

— Vou ser um filho melhor e quem sabe, a gente deixa de brigar. Não vou provocar, serei obediente, tirarei boas notas em Matemática e Alemão, irei para Harvard ou Yale. Não beberei, acordarei cedo e se me anestesiar, como os Escargots.

Ele deu uma risada melancólica e bagunçou meu cabelo.

— Você nunca foi um mau filho. Só foi... Adolescente. Eu que fui um mau pai.

[...]

Depois de vários dias de tédio no hospital, chegou o momento em que recebi alta. Para minha surpresa, voltamos para Paris. Meu pai não quis continuar morando em Colmar. Não me importei, afinal, pois fora Carla, eu não havia cultivado laço nenhum de amizade por ali.

Soube que o motivo da saída repentina da cidade-luz foi que a polícia retomou as investigações da morte de Marisa e supôs que Victor fosse o assassino. Hugo deve ter ficado com medo de descobrirem a verdade, afinal, era só passar a suspeita de Victor para o ruivo. Coisa mais simples do mundo. Então, nos arrastou para o Leste da França. Nada foi ideia de Victor.

— Não consigo parar de pensar nele. — admiti numa morna tarde de sábado.

Victor respondeu:

— Nem eu.

Num outro fim de semana, já no fim do verão, tive uma surpresa agradável. Eu estava na biblioteca, lendo Os Miseráveis e a campainha tocou. Meu pai mandou que eu atendesse. Desci para a sala e abri a porta. O coração disparou dentro do peito ao dar de cara com René. Ele vestia uma camisa azul-clara, com uma echarpe bege enrolada no pescoço. A calça skinny delineava suas pernas grossas.

— Você, seu filho da puta desgraçado que esqueceu de mim! — exclamei.

— Era pra ficar feliz, diabo. — ele ergueu as mãos com um sorriso nos lábios.

Abri os braços.

— Estou feliz.

Meu amigo me agarrou num abraço quente e apertado. Era bom sentir o cheiro daquele idiota de novo. Puxei seus cabelos negros e o pressionei ainda mais firme contra meu corpo. Minutos depois, nos afastamos.

— Emma te mandou um monte de email, sabe. Mas eu acho que alguma coisa deu errado no meio do caminho e não deu certo. Ela pediu desculpas. — René meteu os dedos no bolso da calça. — E eu não sabia que era pra mandar notícias. Desde quando ficou carente?

Cerrei o punho e o apontei na sua cara.

— Filho da puta. Mas entra.

Ele entrou e já foi se jogando no sofá. Sorri. René sempre seria o cara folgado. Encostei-me junto a poltrona, contudo, sem sentar.

— Novidades? — questionei-o meio que puxando assunto.

— A Islândia continua estranha. Meus parentes continuam chatos. E você continua feio.

Dei o dedo médio.

— Soube do que aconteceu.

— Saiu nos jornais. — zombei.

— Mas eu sei e isso que importa, seu chato. — René riu. — Realmente lamento. Gostava tanto do Hugo. Ele fazia lanche. E liberava o Audi. E levava a gente nos jogos do PSG. Pagava meus ingressos. Gosto de gente que paga meus ingressos.

Baixei a cabeça. Havia tantas memórias felizes. Mas tudo foi estragado.

— Não quero falar do Hugo.

René deu de ombros e começamos a falar bobagens sobre a próxima Liga dos Campeões e a nova música do Stromae, que estava fazendo um sucesso tremendo. Acabei me divertindo muito. Dois meses distante daquela criatura me fizeram esquecer o quanto ela era agradável. Victor viu o jovem e apenas deu um “oi”, assim que passou pela sala.

— Sério que não pegou ninguém? — questionei.

Meu amigo sorriu amarelo.

— Peguei.

— Ela era bonita? Te fez esquecer da Emma?

— Era uma pessoa legal. — ele sorriu amarelo outra vez e trocou o assunto.

Notas finais
Fim
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!