Castelos de Areia

4 Não é tão fácil


Abri os olhos e vi que o lado da cama ocupado por Hugo durante a noite anterior estava vazio. Ele já tinha ido embora. Estiquei os braços e fiquei encarando o teto durante alguns segundos. Então, enfiei a mão debaixo do travesseiro e peguei meu celular. Olhei a hora. Puta que pariu! Já eram 11 da manhã. Eu devia ter acordado às 5. Mas Victor não foi me chamar. Que coisa estranha. Levantei da cama e vesti uma camisa cinza que estava por cima da bagunça do guarda-roupa. Pelo odor, percebi que ela devia estar suja. Bem, foda-se. Não iria ser cheirado por ninguém mesmo.

Escancarei a porta. Um cheiro inconfundível de bolo vinha da cozinha. Saí para o corredor, em seguida, desci a escada de madeira. Na sala, diversas garrafas de cerveja haviam se juntado ao redor do sofá de couro marrom. Alguém tinha bebido a noite toda. Quanto drama, só por causa de um ciúme besta. Continuei meu caminho, em direção do cheiro da comida.

Meus pais estavam sentados na mesa da cozinha, em silêncio. Hugo fingia ler um jornal e Victor mexia aleatoriamente em seu Iphone. Me sentei ao lado de Hugo.

— Bom dia. — cumprimentei.

— Bom dia. — os dois responderam em uníssono sem ao menos me olhar.

Em cima da mesa, havia uma tigela com bolo. Puxei um pratinho de porcelana e pus um pouco para mim.

— Por que não foi me acordar, Victor?

— Decidi te dar um dia de folga.

— Ah. Por quê?

— Será que não dá só pra ficar feliz com um dia sem trabalhar? — Victor resmungou.

— Será que não dá pra falar com educação ao menos uma vez na vida com seu filho? — Hugo baixou o jornal.

— Eu falo do jeito que quiser.

— Não sou obrigado a escutar!

— Pois não seja!

Interrompi:

— Que porra, pensei que a briga de vocês já tinha passado. — enfiei uma colherada cheia de bolo na goela.

— Fica quieto, Thomas! — os dois disseram em uníssono.

— Mereço. — bufei.

[...]

Depois de passar por vários canais da TV, me senti totalmente entediado. Não tinha nada para fazer e o dia parecia nunca ter fim. Joguei o controle no chão e enfiei minha cabeça entre as pernas. Meus amigos de Paris nunca tinham dado um mínimo sinal de vida. Nem para dizer: ei, eu sinto sua falta, quero saber como você está nesse fim de mundo. Nem isso.

— Thomas, de quem é esse número? — Victor interrompeu meus pensamentos depressivos.

— Que número? — olhei para trás.

Meu pai segurava um tirinha de papel no ar.

— Não sei. — dei de ombros. — Nunca vi isso.

— Tava no bolso da sua calça, como é que você nunca viu?

— Qual calça?

— Que merda, Thomas, a calça que você vestiu ontem. — ele disse em tom ríspido.

Carla.

— Lembrei, é de uma amiga. Me dá. — pedi. — Eu não salvei no meu celular ainda.

Victor levantou a sobrancelha.

— Que amiga?

— Porra, pai, uma amiga. Tenho certeza que você sabe o que é isso, afinal, teve muitas não? — dei um olhar zombeteiro.

A cólera subiu ao seu rosto, que ficou vermelho.

— Você não tem o direito... De me desrespeitar assim, mocinho. Os seus pequenos luxos sou eu quem forneço.

— Você não, o seu pai. Você é mais um vadio no mundo.

Victor largou o papel no chão com uma expressão de raiva. Muita raiva.

— Eu vou te dar a surra que nunca te dei, seu filho da puta!

Antes que eu pudesse pensar no que fazer ou dizer, as mãos de Victor já estavam no meu pescoço. Comecei a me sentir sufocado e sem ar. Olhei para aquele ser que dizia ser meu pai. Os olhos castanhos dele estavam furiosos e eu não duvidei no momento que morreria em suas mãos.

— Victor, você tá doido? — era a voz de Hugo. — Larga esse menino.

Victor não deu ouvidos.

— Porra, larga esse menino! Você vai matá-lo desse jeito!

Ele me soltou, mas não sem antes rosnar:

— Nunca mais terá dias de folga, Thomas.

Mordi o lábio, tentando respirar. Ajeitei a camisa.

— Foda-se.

Hugo puxou Victor pela cintura e o levou para longe de mim.

[...]

Carla passou para dentro do quarto do hotel com um sorriso nos lábios.

— Sabe, quando eu era criança, a gente assistia um programa de TV de comédia que sempre terminava os episódios com uma frase: então amanhã, tem mais, neste mesmo horário, neste mesmo canal...

Ela fechou a porta. Analisei que sua roupa não era tão indecente como a do dia anterior, mas não deixava de ser sensual: era um vestido vermelho, não tão curto, colado ao seu corpo cheio de curvas.

— E o que tem? — perguntei depois da avaliação.

A garota riu e sentou-se ao meu lado na cama.

— A gente tá aqui, no mesmo horário, no mesmo hotel... Sei lá, eu sou doida.

— Eu nunca assisti isso. — sorri.

— Era o Chaves. Acho que não passava na França. — Carla deu de ombros.

— Ah. — mordi seu pescoço.

— Como achou meu número? — Carla questionou com com um olhar maroto, afastando minha boca de sua pele morena.

— Meu pai achou. — dei de ombros. — Aí ele quis me matar.

— Caralho, que família estranha a sua. — ela riu.

— Não foi por causa do seu número. Eu fiquei provocando ele. Foi culpa minha. — passei a mão no meu cabelo, me sentindo nervoso ao lembrar.

— Nossa.

— Não precisa ter dó de mim. — repeti a frase que ela falou da última vez.

— Não estou com dó de você. E não vou embora só porque você me disse isso.

Sorri, observando o rosto de Carla de uma forma menos sexual. Notei que ao sorrir, por exemplo, formavam-se covinhas nos cantos de sua boca de uma forma bem natural e bonita. Seus olhos verdes eram meio opacos e sem brilho. O nariz dava a sua fisionamia um quê de orgulhosa e esnobe.

— Você me assusta. — ela quebrou o silêncio. — Me olhando desse jeito.

— Desculpa. — baixei a cabeça. — Eu sou estranho mesmo.

— Percebi. — Carla riu.

— De onde você é? — passei a mão em seus cabelos cacheados.

— Eu sou brasileira. — ela brincou com os botões de minha camisa.

— Por que você se prostitui? — segurei sua mão magra e olhei dentro dos seus olhos.

— Nem todo mundo nasce num berço de ouro como você. — Carla deu língua.

— Eu não sou rico.

— Claro que não. Quanto custou essa camisa? Ou essa calça?

Sorri, me dando por vencido.

— Meu avô é um multimilionário. Ele vive nos Estados Unidos. É traficante, mas legalmente é só um empresário. Ele que é o dono da grana. Eu sou pobre.

— Entendo. — ela segurou o cós da minha calça. — Já conheci muitos traficantes.

— Estranho. — afastei o corpo de Carla por um momento. — Só agora que eu começo a conversar direito com a menina que já transei duas vezes.

— Como se você não tivesse feito esse tipo de coisa antes. — ela revirou os olhos. — Você não tem cara de menino certinho.

Cruzei os braços.

— Claro que eu sou certinho!

— Ah, cala a boca. — Carla sentou no meu colo e me jogou na cama. — A gente tem muita coisa pra fazer, então fica quieto.

[...]

Já passava das três da manhã quando cheguei em casa. Cuidadosamente, tirei os sapatos para não fazer barulho. Se eu tivesse sorte, meus pais estariam dormindo. Subi a escada devagarinho, tomando cuidado com cada degrau.

— Thomas? — disse a voz de Victor, clara, logo atrás de mim.

Fudeu.

— Oi, pai. — respirei fundo.

— Desce aqui, por favor.

Ele estava pedindo por favor?

Voltei meus pezinhos para trás e lancei o meu olhar ao fim da escada. Victor estava encostado no corrimão, vestindo uma camisa polo cinza e calça jeans preta. Seu cabelo escuro estava um pouco bagunçado, contrariando os padrões do dia-a-dia. Papai era quase um modelo, alguma espécie de galã. Desci os degraus que me separavam de Victor.

— Vai brigar comigo. Você tem vários motivos. — afirmei com um tom de certeza, deixando os sapatos no chão.

— Senta no sofá. — ele passou a mão na testa.

Assenti com a cabeça e obedeci a ordem. Victor ficou de pé, com os braços cruzados.

— Pode começar. — sorri torto.

— Hoje não. Estou cansado, estressado e mais outras coisas de gente adulta.

— Eu tenho 16 anos.

— Você ainda é uma criança, Thomas. — dessa vez não senti ironia em sua voz. — Você não entende.

— E o que você quer? — apertei o couro do sofá.

— Conversar. Ao menos uma vez na vida.

Apertei os olhos. Eu devia estar sonhando, ou coisa do tipo.

— Desculpa. Por mais cedo.

Mordi o lábio com força. Eu não queria desculpar porra nenhuma. Não era Victor que estava com o pescoço ainda dolorido. Não era ele que era machucado dia após dia por seu próprio pai. Abri a boca para dizer: sim, eu perdoo, agora me deixa ir dormir. Mas não consegui.

— Não é tão fácil. — desviei os olhos daquele rosto perfeito. — Algumas vezes tenho a impressão que você não me ama.

— É claro que eu... — Victor olhou para os lados. — É claro que eu te amo.

Encarei meu pai. O que ele tinha dito?

— Mas você só olha o seu lado. Eu tinha 21 anos quando você nasceu.

— Porra, foi uma gravidez planejada! E agora, você tem 37. — revirei os olhos.

Victor deu um sorriso zombeteiro e estranho.

— Okay, agora eu tenho 37. E eu sempre erro com você. Por favor, só me desculpa, tá bem? Eu realmente não queria ter feito aquilo com você.

Fechei os olhos.

— Eu não queria ter dito aquilo para você. Me desculpa também.