Castelos de Areia
5 Ai
Notas iniciais
Hugo estava sentado numa poltrona vermelha, lendo um livro que logo reconheci como sendo O Conde de Monte Cristo. Ele vestia uma camisa branca de manga longa com uma calça marrom de tecido fino. Seu cabelo ruivo parecia ter sido cortado, mas sua barba estava por fazer. Me encostei na porta da biblioteca, observando. Até que ele levantou os olhos verdes na minha direção.
— Olá, Thomas. O que você quer? — meu pai disse depositando o livro sobre as pernas.
— Nada. — dei de ombros. — Pode continuar a ler.
— Vem cá.
Timidamente, me aproximei de Hugo e me sentei no chão, bem ao seu lado.
— O que Victor te mandou fazer hoje?
— Ir no mercado.
— Ah. E por que não foi ainda? — ele cruzou as pernas.
— Queria te ver antes.
— Meu Deus, que menino dengoso.
Passei a mão no seu pé branco e grande, por cima da meia cinza.
— Queria que só você fosse meu pai.
— Não fala assim. — Hugo comprimiu os lábios.
— Tá, eu sei, eu sei. — dei de ombros. — Já vou.
Ele curvou o seu corpo para mais perto de mim e bagunçou meu cabelo. Então, sussurrou no meu ouvido, bem baixinho:
— Eu te amo.
[...]
Eu nunca gostei muito de ir ao mercado. Mas naquele dia, eu era obrigado a ver o lado positivo da coisa, pude dirigir o carro da família, um Audi prateado. Afinal, eu raramente podia fazer isso. Não me demorei olhando nada, eu tinha uma lista de compras me falando exatamente o que levar e hora pra chegar em casa. Então, em pouco mais de quarenta minutos, já pisava no acelerador para voltar.
Enquanto percorria as últimas ruas que me separavam do lar, doce lar, vi uma menina magra de cabelos cacheados andar distraidamente pela calçada. Baixei o vidro e apertei os olhos míopes para enxergar melhor. Era realmente quem eu havia pensado, Carla. Para onde ela estava indo? Tentei ignorar a minha curiosidade. Era só uma prostituta, a vida pessoal dela não devia me importar em nada.
Contudo, enquanto eu ainda raciocinava sobre isso, um homem careca, alto e exageradamente musculoso se aproximou de Carla. Ele não parecia ser gente boa. Diminuí minha velocidade para 20 km/h. Eu não devia me preocupar com aquilo, por que raios estava me preocupando então? Notei que o homem agarrou o seu braço firmemente, com muita força, e gritou algo que não consegui entender. Talvez pela distância que eu estava deles, ou talvez por serem palavras de tão baixo calão que nunca estive acostumado a ouvir. Como se fosse pouco, deu um tapa no rosto da garota, sem um pingo de piedade. Totalmente assombrado, parei o carro.
O estranho é que havia pessoas ao redor, o lugar não estava deserto. Então, por que raios ninguém fazia nada? Respirei fundo e abri a porta. Eu sabia que também devia ficar na minha. Ele era mais velho, mais forte e notavelmente assustador. Mas fui em frente. Talvez porque eu fosse realmente um idiota.
— Ei, o que você tá fazendo com ela? — gritei.
Os dois me olharam surpreendidos.
— Isaac? — Carla perguntou assombrada.
— Seu playboizinho, não me interrompa. — o cara disse em tom irritado quando eu cheguei mais perto. — Se você não quiser um olho roxo. Só por avisar.
Todos os meus instintos gritavam: volte para dentro do carro, seu otário!
— Solta ela.
— Você sabe quem é essa vadia? — o homem puxou os cabelos cacheados de Carla e a virou pra mim. — Apenas uma puta. Te dou cinco segundos pra sair daqui. Cinco, quatro...
Continuei parado, feito um lesado. Olhei rapidamente para meu corpo. Eu não era tão fraco. Tinha até alguns músculos meio definidos. Mas não era o suficiente.
— Três, dois...
— Isaac, seu otário, vai embora. — Carla choramingou. — Agora.
— Não.
O homem soltou Carla como se fosse uma boneca e a largou na calçada. E voltou-se para mim. Antes que eu me preparasse, uma pancada forte atingiu minha cabeça. Então, apaguei.
[...]
Quando abri os olhos, me vi deitado numa cama pequena, vagabunda e malcheirosa. Tentei me sentar, mas senti todo o meu corpo dolorido.
— Ei, fica quietinho, tá bem? — ouvi a voz suave de Carla. Virei para o lado e lá estava ela, sentada numa cadeira de madeira velha e podre. Vestia um short branco curtíssimo com uma blusa verde exageradamente brilhante. Notei que no lado esquerdo de seu rosto, havia um corte longo e vermelho. Ela percebeu meu olhar e cobriu a ferida com a mão morena.
— Aonde eu tou?
— Na minha casa.
— Que horas são?
— Bem tarde.
Dei uma olhada no lugar. As paredes eram pintadas de azul-índigo e estavam levemente rachadas. Havia um espelho fino e quebrado na parede e logo em frente dele, uma cômoda velha com alguns produtos de beleza. O teto parecia estar prestes a cair e estava cheio de teias de aranha.
— Meu Deus, os meus pais... — comecei a dizer.
— O Victor tá aqui. Thomas.
Levantei a sobrancelha, completamente surpreso com a novidade.
— Como assim?
— O Jean continuou batendo em você, mesmo depois que você ficou inconsciente. Quando ele finalmente parou, eu não sabia o que fazer. Então, achei o seu celular e liguei para o seu pai. Você não devia ter se metido naquilo. Era coisa minha, tá? Você está horrível.
Suspirei.
— Hum. Desculpa então. — resmunguei.
— Você é muito idiota. — Carla riu. — Sério.
Levantei da cama com um pouco de dificuldade e fui até o espelho. Quando vi meu reflexo, abri a boca, definitivamente assustado. Eu devia ter prestado mais atenção quando o homem disse “olho roxo”. Ele não estava brincando. A prova disso era meu olho direito, quase quebrado ao meio e muito inchado. Meu rosto estava sujo de sangue e bem arranhado.
— Quem é ele? — questionei me virando de volta pra garota, que continuava sentada.
— Alguém ruim. Alguém que não existe no seu mundo perfeito. — ela respondeu entediada.
— Esse roxo todo no seu pescoço... Foi ele?
Ela assentiu com a cabeça.
— Nossa.
— Eu sei. Bem vindo a minha vida de verdade.
Coloquei minha mão na parede e raciocinei um pouco.
— Você me chamou de Thomas?
— Chamei. Não foi difícil descobrir seu verdadeiro nome quando teu pai gritava: “Ah meu Deus, meu filho, Thomas ainda é uma criança”.
Senti minhas orelhas ficarem vermelhas.
— Que vergonha.
— Não fala assim. Eu queria ter um pai.
— Cadê ele?
— Tá lá fora, discutindo com a Maria há horas.
Cruzei os braços.
— Quem é Maria?
— É a mulher que mora comigo. Uma amiga. Você devia ficar quieto, sabe. Eu ia pegar um gelo pra passar no seu olho daqui a pouco. Pra ver se desincha isso.
— O que eles tão discutindo?
Carla deu de ombros.
— Tentei escutar, mas não entendi merda nenhuma.
Caminhei até a porta e a abri. Um corredor pequeno e estreito levava para outro cômodo. Ouvi então vozes, mas num tom bem baixo. Eu teria que chegar mais perto para escutar direito. Dei alguns passos para a frente e me encostei junto a parede, tentando fazer o mínimo de barulho. E finalmente, pude distinguir o que estava sendo falado.
— Eu não quero que você chegue perto do meu filho, entendeu? — disse Victor.
— Deixa de ser otário, Victor. — uma voz feminina respondeu. — Você não vai poder esconder pra sempre de Thomas a lavagem de mentiras que colocou na vida dele.
Que mentiras?
Uma mão segurou meu braço com força, me machucando levemente. Olhei para o lado, era somente Carla.
— Chega. Estou cansado de gastar meu latim com uma prostituta miserável como você.
— Você nunca mudou. Sempre se achando melhor que todo mundo, mas lá no fundo, sabe que é igualzinho a mim.
A porta do outro cômodo foi aberta de modo violento. Victor apareceu então com uma cara bem zangada. Ao me ver, ele resmungou:
— Vamos embora, Thomas.
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