Castelos de Areia
8 Garotas de programa
Notas iniciais
Os ponteiros do grande relógio branco na minha frente moviam-se num ritmo lento e massante. Carla estava mais do que atrasada, já passava das nove e quarenta e cinco. Isto porque foi ela quem propôs o encontro. Balancei a cabeça mais uma vez. Eu estou aqui, esperando uma prostituta esse tempo todo? Tamborilei os dedos sobre a mesa de madeira. La Table du Brocanteur era o lugar mais famoso da cidade no quesito comida.Tinha uma atmosfera bem agradável e um pouco casual. A maioria das pessoas ao meu redor eram turistas, eu podia me certificar desse fato somente com um breve olhar.
Uma garota oriental da mesa ao lado virou-se para mim e enfiou um papelzinho branco entre meus dedos. Em seguida, piscou um olho e voltou a atenção para o Croque Monsieur que estava no seu prato. Meio surpreso, franzi o cenho e li o que estava escrito:
Me liga qualquer dia. 0389234557. Aya.
Antes que eu pudesse pensar sobre o caso, Carla chegou. Suspirei aliviado e meti o papel no bolso da calça jeans. Estava começando a acreditar que tinha levado um baita vácuo.
— Mil perdões pela demora. Tive um certo problema. E eu esperava um hotel, sério. — ela sorriu e sentou-se na cadeira vazia na minha frente. Analisei-a por uns segundos. Seus cachos estavam soltos e ela usava um vestido branco curto que fazia oposição com sua pele morena. Estava bonita, mas afinal, era bonita.
— Eu não sou um pervertido sexual que pensa só em sexo! — respondi num tom de brincadeira.
— Ah tá. — Carla disse com alguma ironia. — Imagina.
Dei de ombros.
— Quero conversar.
Ela ergueu a sobrancelha.
— Sobre?
— Maria. — realcei cada sílaba do nome. — Sua amiga. De onde ela é? Desde quando vocês moram juntas? O que aconteceu depois...
Fui interrompido.
— Não sabia que estava num interrogatório do FBI. Devagar. Uma pergunta de cada vez. — Carla comprimiu os lábios. — Ficou grilado com aquela discursão dela com seu pai ontem, né?
— Acho que não foi exatamente a discursão que ficou na minha cabeça. O problema é que eu não sei quase nada da vida de Victor. Penso que ele tem algum podre no passado ou algo do tipo. Além de que, eu encontrei uma coisa bastante estranha nessa semana.
Contei a ela sobre as cartas e frisei a parte da Marisa.
— Eu nunca ouvi falar de nenhuma Marisa, Thomas. Não vai encontrar as respostas que quer comigo. Só Maria pode te falar disso. Ela que conviveu com o Victor. Eu nunca nem tinha visto seu pai há 24 horas atrás. E ele é bem gatinho.
Fiz careta.
— Ele tem 37 anos!
— Tá com ciúme? — Carla riu cheia de malícia.
— Claro que não. Você é só uma...
— Prostituta. — ela completou minha frase. — Já dormi com caras com o dobro da idade do Victor, se quiser saber.
Um azedo tomou conta de minha boca. Imaginar aquela menina tão frágil e linda com pedófilos nojentos era uma coisa simplesmente horrível. Cruzei os braços e mirei direto nos seus olhos verdes. Eles eram tão opacos! Questionei a mim mesmo quando foi que eles perderam o brilho.
— Quer comer alguma coisa? — mudei o assunto.
— Quero. Estou com muita fome.
Engoli em seco. Minha vida era um conto de fadas. Nunca havia pensado na realidade de pessoas como Carla. Minhas únicas fontes de preocupação eram dinheiro e garotas. Chamei o garçon e solicitei algumas das mais deliciosas iguarias francesas. Rapidamente, o pedido foi entregue. Esperei com paciência, até que Carla terminasse de se alimentar. Quando ela o fez, limpou-se com o guardanapo e levantou o semblante para mim.
— Eu tenho um monte de outros irmãos. Uma mãe solteira não dava conta de sustentar toda aquela gente. Então, Maria apareceu na minha casa e logo fez amizade com minha família. Por algum motivo que não sei explicar, Maria se afeiçou a mim e quis me levar pra morar junto com ela, aqui na França. Minha mãe cedeu rápido, estava louca pra se livrar de mais uma boca.
— Sua mãe sabia que... Ela era mulher da vida?
— Sabia. — Carla assentiu. — Eu tinha uns 11 anos. E aí nós viemos. Ilegalmente, pela Itália. Ela me ensinou toda a profissão...
Respirei fundo, tentando de alguma forma superar o choque.
— Maria te ensinou a ser uma prostituta? Você tinha 11 anos? — desviei os olhos de Carla. — Meu Deus...
— Não julgue, sabe. Você não tem direito de fazer isso. Maria também veio do Brasil e teve que se virar pra sobreviver em Paris. Depois de um tempo, não sei a razão, ela decidiu vir pra Colmar. Talvez não deu muito certo as coisas por lá. Faz uns 16 anos que ela está cidade.
Mordi o lábio. Eu não tinha saído do lugar, ainda não havia descoberto nada de diferente. Desanimado, levantei da mesa.
— Acho que vou para casa.
— Obrigada pela comida.
— De nada. — sorri.
— Se quiser conversar pessoalmente com Maria... Penso que é melhor e ela iria gostar. Depois que você e Victor foram embora ontem, ela não deixou de falar sobre vocês dois.
Ergui o polegar afirmativamente.
— Manda mensagem depois avisando.
[...]
No outro dia, como de costume, Victor me acordou às 5 da manhã. Ele não parecia estar de bom humor e ordenou logo que eu fosse lavar os banheiros da casa. Pensei em reclamar, mas estava com muito sono para dar um bom argumento contra isso. Levantei da cama com a coragem de uma preguiça. Vesti a camisa do time de futebol (eu jogava na escola de Paris) e desci as escadas. Uma fome horrível tomava conta do meu estômago e eu queria comer alguma coisa antes de trabalhar. A cozinha seria uma ótima parada.
Contudo, ao passar pela sala, vi o jornal em cima do sofá. A foto de uma mulher envolta em sangue chamou minha atenção. Aproximei-me para ver melhor e juntei aquele monte de papel entre minhas mãos. A legenda dizia:
MULHER É ENCONTRADA MORTA DENTRO DE HOTEL EM COLMAR
Crime ocorreu na madrugada desta sexta-feira (20).
Uma mulher identificada como Maria dos Santos Silva, de 34 anos, foi encontrada morta nesta sexta-feira (20) dentro de um hotel quatro estrelas, em Colmar. Ela seria garota de programa e teria sido assassinada por um cliente. O suspeito foi levado a prestar depoimento nesta manhã.
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