Um pássaro grasnava ao longe, sobrevoando a rua principal do vilarejo. A movimentação era frenética, as mulheres em seus melhores trajes e homens as cortejando. O pássaro grasnou mais uma vez antes de pousar em um adorno no teto de um templo, há muito tempo abandonado. Avala teve que resistir a vontade de atravessar uma flecha no animal que havia pousado na sua frente.

O vento ainda trazia alguns poucos flocos da nevasca do dia anterior, e a neve deixava o telhado escorregadio. Avala estava com um dos braços enrolado em um dos adornoa para não cair. Sentia as pernas começarem a amortecer. Quanto tempo ela estava agachada daquele jeito? Talvez a algumas horas, calculou. Havia saído do forte pela manhã, antes do sol nascer, e o sol estava quase se pondo. Tirando a viagem de quatro horas, não tinha saído daquele telhado. A movimentação sob ela continuava. Levou a mão do braço livre ao rosto e arrancou com os dentes a luva que cobria a mão.

Ajeitou a aljava nas costas, xingando a luva desajeitada que ainda cobria uma das mãos. Com um minuto de desatenção, um dos pés escorregou, a fazendo agarrar o adorno com as duas mãos novamente. O pássaro que havia pousado na sua frente levantou voo, assustado. A luva escapou das suas mãos, rolando pelo telhado do alto templo. Ela prendeu a respiração. A luva ficou enroscada em um dos adornos mais baixos, por pouco não indo cair no meio da multidão que se espalhava pelas ruas.

Mesmo que caísse, Avala duvidou que alguém fosse notar. Ouviu altos gritos animados vindo do início da rua e ela sorriu friamente. Esticou o pescoço, observando a comoção que acontecia no começo da rua. Sentiu vontade de vomitar ao ver o centro da atenção.

Um grupo de soldados abriam caminho entre as multidões de pessoas que se aglomeravam para ver a futura esposa do filho mais novo do rei. Ela engatinhou pelo telhado, também tentando se aproximar. Observou o cavalo negro contrastando contra a neve branca e a menina sentada sobre ele, acenando para todas as pessoas a sua volta. Avala lentamente tirou a outra luva, os olhos cravados com um ódio mortal na garota.

O grupo começou a se aproximar, e Avala calmamente desprendeu o arco da aljava. Puxou uma das sete flechas, observando os detalhes dourados na haste branca. Aquele arco e aljava, junto com o punhal que ela mantinha guardado no quarto no forte, eram as únicas coisas que podiam lhe dar algum tipo de conexão com sua mãe. O medalhão no peito dela pareceu ficar mais gelado, como se quisesse que ela também se lembrasse na sua existência.

Agora o grupo estava exatamente sob o templo, e Avala sabia que aquele era o momento perfeito. Ela encaixou a flecha na corda. Segurou a flecha com força, o braço tremendo com o esforço de puxar a corda do arco.

Ela apontou a flecha para alguns centímetros sobre a cabeça da mulher. Ela respirou fundo para se concentrar, o hálito fazendo nuvens no ar frio. Abriu a mão que puxava a corda, e a flecha zuniu pelo ar.

O corpo da quase princesa tombou antes que qualquer um pudesse se dar conta do que aconteceu. Houve um grito, seguido de outro e seguido da multidão entrando em um frenesi desesperado. Alguns tentavam correr para longe do corpo, alguns tentavam achar que podiam ajudar a mulher com uma flecha atravessada na cabeça. Uma parte de Avala queria sentar ali, observando o desespero da multidão. Mas outra parte sabia que ela deveria ir, uma viagem de quatro horas por uma estrada perigosa a aguardava.

A menina se sentou no telhado, deslizando até a borda. As unhas cravaram no gelo que havia ficado ali, fortes o suficiente para o quebrar. Balançou as pernas até conseguir se jogar sobre um monte de neve, que não fez a aterrisagem mais fácil, para ser sincera. Olhou ao redor, com os gritos desesperados das pessoas com a noiva morta a aquecendo por dentro. Prendeu a arco novamente na aljava e correu antes que alguém a visse.

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O forte Aeskrow era um refúgio para qualquer um que precisasse de ajuda. Ficava no meio de um grupo de montanhas, guardado por grandes muros escuros e, pelo o que as pessoas falavam, algum tipo de demônio que vivia entre as suas paredes. Se aquilo era verdade ou não, Avala nunca descobriu. O que ela sabia era que ali era sua casa. Sempre foi, e sempre seria.

A maior parte que acaba se escondendo ali eram assassinos ou ladrões tentando escapar das garras do rei ou do novo regime, mas algumas pessoas “boas” acabavam por aqueles corredores também. Adryan era um deles. Mesmo com a vontade desesperada de entrar para a Guarda, ninguém tinha coragem de o expulsar.

Avala se apoiou no batente das imensas portas de uma das salas de treinamento, observando ele tentar lutar contra Elriot. Nenhum dos dois haviam percebido sua presença ainda. Ela suspirou, apostando mentalmente que Elriot acabaria com Adryan em segundos.

O cabelo loiro de Adryan colava na testa com o suor dele. Poderiam muito bem estar ali desde quando ela saiu. Elriot, um mercenário que havia fugido das catacumbas do castelo, era quase o dobro do tamanho dele. O garoto investiu contra o mercenário, mas Elriot saiu graciosamente do caminho. Adryan tentou saltar novamente para cima dele. Elriot deu um passo para o lado, fazendo Adryan quase cair de cara no chão. Ele latiu um xingamento. Com um movimento rápido, o homem passou uma rasteira no loiro. Adryan caiu no chão com um baque surdo que fez Avala se encolher. Elriot colocou o pé no peito de Adryan antes que o mais novo conseguisse se levantar, o que o fez soltar mais um xingamento.

Avala decidiu se fazer vista e começou a sarcasticamente bater palmas. Adryan fez um gesto maldoso para ela e Elriot se curvou em agradecimento.

-Há quando tempo você está vendo...isso? – Adryan arfava com cada respiração, enquanto Elriot respirava normalmente.

-O suficiente para saber que você precisa de mais treinamento se quer realmente entrar para a Guarda – ela tentou segurar a careta ao falar dos soldados do rei – As inscrições começam daqui a uns três meses, não?

-dois meses, três semanas e dois dias, para ser exato – ele estufou o peito.

Elriot revirou os olhos. Adryan parecia uma criança animada toda vez que falava sobre a Guarda, mesmo que soubesse que isso significaria que no futuro trabalharia contra aqueles que o cercavam naquele instante. Avala tentava não pensar que isso também significava que ele teria que caçar ela.

Elriot sugeriu uma passada nas cozinhas. O estomago de Avala concordou com ele, mas mesmo assim, a menina balançou a cabeça em negativa.

-Passei o dia inteiro fora, preciso treinar alguma coisa hoje. – ela apertou os lábios, esperando que a desculpa fosse boa. – Preciso achar as flechas que Paeral usou da última vez.

-Boa sorte. – Elriot riu. – Aquele só é mais organizado do que um tornado, não duvido que ele tenha colocado as flechas em algum lugar estranho como o banheiro.

Ele começou a se afastar, parando na metade do caminho par lançar um olhar impaciente para Adryan que dizia “você não vem?”. Os olhos do loiro pularam do amigo para Avala, para então fazer um sinal para ele ir sozinho. Elriot deu de ombros. Avala também já se afastava, entretida com a tarefa de encontrar as flechas que não estavam no lugar que deveriam estar.

-Você provavelmente passou o dia inteiro lutando, deveria ir comer. – ela abriu o armário de punhais, retirando orgulhosa a aljava de flechas pretas.

Adryan deu de ombros, secando o suor da testa.

-Já comi o suficiente. – ele trocou o peso de perna. – Talvez eu queira simplesmente saber se seu dia foi bom. O que estava fazendo?

Ele parecia nervoso por alguma razão, e Avala levantou uma sobrancelha quando ele a seguiu para perto dos alvos. Ele levantou uma sobrancelha para ela também. Ver seu amigo confiante e pateta resumido a alguém tão nervoso a incomodava. Avala balançou a cabeça, mirando em um dos alvos mais próximos.

—Meu dia foi bom, obrigada. – Ela suspirou, encarando o alvo em que mirava – Fiz o normal.

Ela acertou o círculo do meio. Mirou no outro alvo, e em outro e em outro e em outro. Os quatro ela acertou o mesmo círculo. Escutou Adryan arfando baixinho do lado dela, e ela travou quando tentou alcançar outra flecha.

-Cara, ela é perfeita. – a voz de Adryan não passa de um sussurro. Ele riu sem graça ao perceber que ela havia escutado.

Avala abaixou o arco, perplexa. Ele havia a chamado de perfeita? Um sorriso bobo brincou nos cantos da boca dela.

—A sua mira, eu quero dizer. Ela... quer dizer, a mira, é muito...perfeita. – Adryan queimava, e Avala não sabia se achava graça ou se queimava junto com ele.

A garota se aproximou do seu amigo de infância. Adryan havia chegado no forte uns quatro anos depois dela, mas como ela, trouxe algumas coisas estranhas na bagagem. Na mesmo noite que chegou, uma tempestade destruiu a plantação nos fundos do forte com um trovão que a incendiou. Dali em diante, as nevascas que pareciam sempre ser mais fortes que no reino inteiro deram lugar a chuvas e enchentes e fogos desenfreados. Alguns diriam coincidência, mas enquanto o gelo se espalhasse pelos seus pés, ela jurou nunca acreditar que aquilo existia.

—Adryan... o que aconteceu para você estar tão nervoso?

O garoto deu um sorriso frágil. Avala se aproximou mais dele, ficando a centímetros do seu rosto.

—Eu estou com um problema. – Adryan sussurrou, tocando a testa dele na dela.

—Um problema? – Avala mal ouviu a própria voz.

—Talvez dois problemas. – ele tocou a bochecha dela, brincando com um cacho de cabelo que se soltou do rabo.

Avala oficialmente não escutou sua voz quando falou novamente.

—Quais seriam esses problemas?

A resposta dele Avala nunca ouviu. Alguém bateu nas portas de madeira da sala, os fazendo pular para longe um do outro. Um Elriot mortificado esperava na porta, segurando um pedaço de pão na metade do caminho a boca.

—Se quiserem eu vou embora. – Elriot demorou um pouco para sair do aparente torpor

—NÃO! – Adryan gritou, para corar ainda mais – Quer dizer, não precisa ir, Elriot. Ahn, o que você quer? – o garoto balançou a cabeça. – Isso soou rude, não? Desculpe, é que, assim, você me... nos! Nos pegou de surpresa e...

—O que você quer, Elriot? – Avala cortou as frases quebradas de Adryan, poupando o garoto de sofrer ainda mais vergonha

O homem mordeu um pedaço do pão enquanto entrava na sala. O olhar acusador dele mudava de Adryan para Avala, o que dificultava a menina de esconder o quão vermelha estava. Ele finalmente suspirou alto, balançando a cabeça.

—Isso – ele levantou um pedaço de papel, balançando-o no ar. – Vai ter uma feira amanhã em Oxfair, e o circo vai estar lá também. Queria ver se vocês dois queriam ir. – ele deixou um sorriso malicioso escapar – Vou com Nova, então não vou ficar atrapalhando o casal.

Antes que qualquer um dos dois protestasse, Elriot sumir pela porta. Avala olhou envergonhada para Adryan e ele deu uma risada forçada. A garota acenou e tratou a sair rapidamente em direção ao seu quarto. O amigo ficou observando enquanto ela desaparecia pela porta, o coração apertado.

Sentiu uma pontada no peito. Ele cambaleou para trás, os olhos enchendo de lagrimas. Ele jurava que parecia como se alguma coisa o perfurando por dentro, arranhando as entranhas dele e depois cuspindo ácido em cima. Mas tão rápida quanto a dor chegou, ela se foi.

Adryan apertou o punho sobre o peito, com medo de uma nova rajada de dor. Como não sentiu nada, começou a seguir para seu próprio quarto. No meio do caminho, trombou com uma mulher que parecia da mesma idade dele. Ela pareceu irritada por um tempo, mas depois relaxou o rosto.

—Adryan! – Koele sorriu, tocando o ombro dele. – Me desculpe. Tenho que começar a olhar por onde ando.

—Tudo bem, senhorita Aeskrow. – Adryan riu sem jeito. – Eu também estou bem distraído.

Koele deu uma risadinha forçada, logo voltando ao seu caminho original. Adryan a observou descer as escadas apressada e deu de ombros, achando graça no desespero da mulher. Conhecendo Koele, algum de seus capachos pessoais estava chegando com alguns quilos de vestidos que ela havia encomendado. Ele chegou no quarto e fechou a porta, começando a se trocar.

E foi quando a dor voltou, ainda pior.

Notas finais
Então era isso, espero que gostem, e por favor, deixe um review com sua opinião :3