Notas iniciais
Ola! Espero que gostem do capitulo ^^

—Você entende o que eu quero dizer, não é Koele?

Sim, mestra. Koele quis gritar. Sim, mestra. Você simplesmente disse isso cinquenta vezes, somente nesse encontro. Mas ela tinha que manter sua calma. Se Koele algum dia queria destruir aquele saco velho de ossos que o clã chamava de mestra naqueles dias, ela tinha que manter a calma.

—Não vou deixar que ninguém saia do forte, mestra. – Koele observou o círculo pequeno que era o clã do sul. Somente dez ainda viviam por aquelas terras congeladas. O resto delas (cerca de duzentas mais) viviam em clãs isoladas por toda Alban, o reino vizinho. – Se o garoto ainda estiver entre meus moradores, vou entrega-lo para a senhora.

Anaemis, que estava do outro lado do círculo improvisado com a mestra de costas para ela, fez uma careta. Ela odiava a mestra atual tanto quando Koele, e era por isso que as duas se davam tão bem. Anaemis podia ter mais do que o quíntuplo da idade dela, mas mesmo assim, ainda era uma das suas melhores amigas.

Uma de suas únicas amigas, melhor dizendo.

Não sabia exatamente de quando sua raiva pela mestra começou. Talvez seja porque ela não a aceitou como sucessora e preferiu Mora, sua neta. Talvez seja pelo fato que ela realmente não se portava como uma mestra. Talvez seja porque ela gastava o potencial da irmandade em tolos afazeres, como vigiar o receptáculo. Talvez seja porque a mestre queria esperar até todos os clãs chegassem a Ethris para colocar o seu plano em ação, e tanto Koele quando Anaemis não conseguiam mais esperar.

—Não podemos deixa-lo sair das nossas mãos, Koele! – Malos rosnou, encostada na arvore. A mulher sempre soube irritar cada nervo de Koele – Seu pai nunca nos deixou perto do forte e Eryas não nos deixa sair da floresta para procurarmos nos mesmas. Acho bom não estar amarelando e mudando de lado nessa altura.

Koele a olhou ofendida. Uma língua de fogo estalou entre as duas, mandando Malos para o chão. Ceruelle, a mestra, soltou um berro irado.

—Vocês não tem mais cinco anos. – Ceruelle parecia pronta para esgana-las – Parem de se comportar como tal. – ela se recompôs, arrumando o longo manto negro sobre as costas. – O garoto está próximo, eu posso sentir. Porém ele está sobre uma proteção muito maior do que as paredes de seu forte. Ele está sobre a proteção de uma descendente direta de Eallyrl.

Koele não segurou a risada. Ninguém a acompanhou, então ela lentamente se calou.

—A linhagem de Eallyrl está morta, mestra. – Decess disse, quase baixo demais para alguém ouvir.

Koele examinou Decess por um tempo. A garota tinha o cabelo ruivo que caia até o meio da cintura e os olhos mais escuros que Koele já havia visto em alguém. Ela sabia que ela tinha grandes poderes de adivinhação, e no mínimo dois séculos de idade. Porém o resto da história de Decess era um mistério para todas, assim como ela havia conseguido a cicatriz que cortava metade de seu rosto.

—Decess, estou decepcionada com sua falta de crença nas suas próprias cartas – Ceruelle estalou a língua, voltando a se sentar no banco feito de toco de arvore. – Elas dizem sobre a garota, não?

O rosto da ruiva ficou tão vermelho quanto seu cabelo. Então ela tinha a visto. Koele decidiu que, quando destruísse Ceruelle e Mora, colocaria Decess como sua sucessora. Anaemis tinha outras ambições para seu futuro, então não se importaria com isso.

—Elas apenas dizem que ela está aqui. – Decess sussurrou. Koele teve uma sensação estranha da boca do estomago, confusa. Por que Decess estaria mentindo para Ceruelle? — Me dizem que ela não vai cair sem uma luta. Me dizem que ela vai levar muitas de nós para o tumulo.

—Muitas não são todas. – Mora se intrometeu, animada – Ainda podemos desfazer o erro dos deuses de dar a coroa para as linhagens de Eallyrl e Braern, e colocar os três reinos do sul em nosso comando.

Quando Mora dizia em “nós”, Koele sabia que ela se referia as bruxas. Uma sombra de sorriso quis aparecer no rosto de Anaemis, imaginando que nem Mora nem Ceruelle viveriam para ver o dia que elas iriam reinar sobre os reinos.

As nove bruxas continuaram a falar sobre a descendente de Eallyrl, mas Koele passou a pensar sobre o receptáculo. Um garoto que tinha uma ligação direta com os deuses. Ele precisava de alguém poderoso como uma bruxa para a primeira conexão acontecer, mas se o que Ceruelle dizia sobre a descendente de Eallyrl estivesse certo, ela teria o mesmo poder – até muito mais poder – do que uma bruxa. Ela arregalou os olhos para o chão. A primeira conexão poderia já ter acontecido.

Koele mordeu uma unha, observando o acampamento improvisado. A floresta de Eryas era um dos lugares onde a magia corria solta, algo raro desde que o povo se voltou contra os deuses. Eryas, no passado, era um exímio caçador. Um dia, ele encontrou uma garotinha perdida no meio da floresta e, sem questionar, a ajudou a sair de lá. Um grupo de soldados do reino o cercaram, dizendo que a garota havia sido deixada como oferenda para os deuses. Eryas não quis saber, e enfrentou doze soldados bem treinados com apenas uma ponteira de flecha.

Eryas não sobreviveu. Porém os deuses ficaram encantados com sua coragem, e o concederam um pedido, achando que ele pediria para voltar a vida. Ele simplesmente pediu para ficar na floresta como um espirito, ajudando aqueles que ele chamava de seus “protegidos” a saírem vivos da floresta, e fazendo aqueles que querem fazer mal a esses protegidos nunca mais serem vistos.

O clã havia entrado na floresta com um convite do pai de Koele, Asan Aeskrow, que dizia que iria entrega-las o receptáculo. Perceberam tarde demais que foram enganadas. Depois de anos vagando sem rumo pela floresta sem conseguir achar o forte ou a saida, decidiram criar um acampamento e passaram a viver ali mesmo, caçando os animais que viam pelo caminho.

—Mas apenas devo dizer, minhas irmãs, que não ficaremos presas por muito mais tempo. – a voz alta de Ceruelle interrompeu Koele dos seus pensamentos. Ela estava novamente em pé, exibindo um orgulhoso sorriso para o clã – As arvores sussurram, e os segredos dessa vez dizem que os deuses estão enfraquecendo sem a fé das pessoas. Se os deuses enfraquecerem, o espirito de Eryas também enfraquece. – ela jogou os braços para cima – E então, estaremos livres dessa prisão.

As bruxas celebraram, gargalhando. Algumas línguas de fogo explodiram para cima junto com os gritos. Koele bateu palmas, Anaemis começou a pular e Decess continuou sentada, observando a festa de suas irmãs. Alguma coisa não estava certa. Quando todas se acalmaram, Ceruelle retomou a palavra.

—Não estamos longe do nosso grande retorno. – o longo cabelo cinza de Ceruelle caia liso sobre os ombros. Koele sempre achou que o cabelo parecia fora de lugar junto com o rosto jovem. – Os deuses estão morrendo, o receptáculo está por perto. Teremos o prazer de encerrar ambas as descendências, de Eallyrl e Braern e teremos grandes chances de tomar posse sobre os três reinos. – a mestra sorriu, se deliciando com a vitória eminente – Braern irá se arrepender de ter nos criado, e principalmente, nos abandonado.

Koele segurou uma careta de confronto. Ceruelle nunca iria se pôr em perigo em uma batalha. Conhecendo a velha, ela correria se esconder com outras mestras e deixariam os clãs sozinhos para lutar contra milhares de soldados. Uma tempestade destruiu a comemoração das bruxas. Enquanto Koele se arrumava para voltar para o forte, Anaemis agarrou o braço dela, a arrastando para longe do acampamento.

—Eu não confio mais em Decess.

—Por que? – Koele legitimamente estava confusa. Então se lembrou da mentira que ela contou para mestra, e Anaemis percebeu enquanto a compreensão tomou conta do rosto dela.

—Koe, somos as únicas que sabemos diferenciar a verdade da mentira quando alguém abre a boca. Devemos contar para a mestra sobre isso.

A morena sentiu um mal pressentimento. Balançou a cabeça em negativa para Anaemis.

—Vamos descobrir o que ela está tentando fazer primeiro. – foi a vez da amiga ficar confusa – Se ela mentiu, é porque está tramando alguma coisa. Vamos dar um jeito de descobrir o que é, e depois a desmascaramos de vez para a mestra.

Por mais contrariada que Anaemis ficou, ela aceitou a proposta de Koele. Ficaria observando a garota até poderem sair da floresta.

—As bruxas estão ficando cada vez mais acuadas. – ela sussurrou enquanto voltavam para o acampamento para Koele buscar seu manto branco. – E o medo as fazem guardar segredos. – ela sorriu fracamente – E os segredos são monstros que se alimentam da confiança uma mordida por vez. Por favor, nunca se torne uma dessas bruxas.

O peito da morena ficou pesado. Koele se despediu do clã, fazendo uma reverencia pomposa para a mestra. Pelas costas da mulher, Anaemis fez careta pela reverencia. Koele simplesmente revirou os olhos.

Enquanto se afastava do acampamento, Koele sentia o coração batendo com força contra o peito. Ela se desviou do forte, ignorando cada raio que riscava o céu ou cada trovão que a fazia pular. Por um segundo, quase quis voltar e pedir desculpas para Anaemis. O problema era que ela já estava com o monstro no seu colo. E ele estava faminto.

Ela continuou andando até ver as arvores começarem a rarear e uma longa estrada se esticar até Oxfair, a cidade mais perto da floresta de Eryas. Koele se virou para as altas arvores, sentindo que elas olhavam para ela também.

—Eu não entendo. Por que você não me prende dentro da floresta com o resto das minhas irmãs? Ou no forte, como você fez com o meu pai?

Ela não recebeu resposta.

Notas finais
Espero que tenham gostado e por favor, deixem um review ^^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.