Castelo de Areia

11 Uma chance para recomeçar


Notas iniciais
Agradeço imensamente aos que vem comentando a história e alegrando meus dias com isso. ♥

Quase desisti desse capítulo, então espero que gostem e que eu não me arrependa de não ter deixado ele de fora. XD Boa leitura!

Uma chance para recomeçar

Milo gargalhou alto.

– Eu não falei? Deveria ter apostado contigo, Mu.

Dias haviam se passado desde sua conversa particular com Shaka na praia, e desde então Mu não conseguira mais nenhum momento a sós com o virginiano. Em várias ocasiões, foi até a casa de Virgem pela manhã como costumava fazer, mas Camus também aparecia por lá. Repassou mentalmente os diálogos com o loiro naquele fim de tarde, chegando a conclusão de que em momento algum Shaka dissera que seriam apenas os dois, apesar de seu pedido.

Ademais, não ousava interromper a meditação do indiano e a arena estava sempre cheia de olhos e ouvidos curiosos. Por vezes, pensou em pedir para falar-lhe em particular, mas não queria falar nada em especial – até queria, mas não podia –, apenas desfrutar um pouco de sua companhia. E, além disso, tinha a vergonha.

Não sabia exatamente quando começara a sentir vergonha de Shaka – justo Mu, que tivera tanta intimidade com o cavaleiro de Virgem – nem qual era sua origem, mas o fato é que a mera presença do loiro já o deixava encabulado e fazia um rubor intenso tomar conta de suas bochechas. Não ousava fazer um novo pedido de privacidade, pois a lembrança do primeiro ainda o deixava com o coração batendo forte. Pretende fazer alguma coisa que necessite de privacidade?, perguntava o Shaka de seus pensamentos.

Assim, todas as vezes que quis mendigar um pouco da atenção do indiano para si, não conseguiu. Sentia-se uma criança marota pedindo algo proibido a um adulto. Ainda se o acaso os fizesse estarem sozinhos no mesmo lugar mais uma vez... Mas não poderia contar com o acaso. Já com Milo...

– Quando eu pedi sua ajuda, você ficou cheio de princípios. – Continuou o grego. – E se quem tiver princípios agora for eu?

Mu sabia que Milo não tinha princípio algum, apenas estava se vingando.

– Milo... por favor. – Choramingou. – É diferente.

– Diferente como?

– Eu não quero separar os dois. Só quero que você distraia Camus quando ele passar por seu templo, e me deixe ficar um tempo a sós com Shaka. – Repetiu pela milésima vez. – Só uma vez.

O escorpiano se esparramou no sofá, obrigando Mu a chegar mais para o canto. Os cabelos loiros estavam bagunçados pelo treino físico, as roupas estavam sujas e desalinhadas, mas não aquilo não era capaz de diminuir sua beleza. Tinha um sorriso divertido nos lábios carnudos e seu olhar era intenso e astuto, impossível de ser sustentado.

– E o que eu ganho em troca? – Revirou os olhos azuis com uma fingida impaciência.

– Fico em débito contigo. Pode me pedir qualquer coisa que queira, desde que não seja nada errado. – Achou melhor deixar claro, do contrário o pedido de Milo implicaria em bolar planos malignos para afastar Shaka e Camus.

– Quero Camus de Aquário pelado na minha cama, será que você consegue? – Rebateu Milo, um sorriso pervertido fazendo seus lábios se curvarem.

As bochechas do lemuriano arderam diante da sutileza do outro, ao mesmo tempo que seu queixo caiu, deixando-o com a boca entreaberta. Milo estava falando sério? Aquele era o seu preço? Sabia que o pedido era impossível, mas ficou tão chocado que foi incapaz de dizer qualquer coisa.

– Ah, Mu, é uma brincadeira! – O grego deu uma sonora risada. – Às vezes, me esqueço do quão criança você ainda é!

– Não sou criança, Milo. – Volveu o ariano, recuperando-se do espanto.

– Tão criança! – Insistiu Milo, fixando seus olhos azuis no rosto de Mu, obrigando-o a abaixar o olhar. – Você ainda é inocente. Toda a sua experiência se resume a um beijinho de nada no Shaka. Aposto que nem língua teve. – Mu franziu o cenho, e o escorpiano caiu na gargalhada mais uma vez. – Não sabia que tem que colocar a língua, Mu?

A falta de resposta indicou que o tibetano não fazia ideia do que o outro falava. Milo riu-se mais, de alguma piada que só ele sabia e que não estava disposto a compartilhar naquele momento. Sentou-se ereto e aproximou-se sorrateiro de Mu, passando a mão ao longo de seus cabelos lilases.

– Se quiser – começou o grego numa voz arrastada –, eu posso te ensinar como se beija.

– Não! – Respondeu automaticamente, encolhendo-se mais em seu canto do sofá.

O escorpiano se aproximou mais e percorreu o contorno do rosto de Mu com o polegar. Os olhos verdes arregalaram-se com o contato, mas aquilo pareceu apenas divertir Milo, que mordeu o lábio inferior enquanto olhava o ariano de cima a baixo.

– Você tem seu charme, Mu. Podemos ter muito mais em comum do que Camus e Shaka, se você quiser. – O tom de Milo era baixo e persuasivo.

– Camus e Shaka. – Recordou-lhe Mu. – São a razão de estarmos aqui.

Mu tentou se levantar, mas Milo apoiou uma das mãos no braço do sofá, encurralando-o no canto. Seu coração bateu descompassado. Não queria que Milo estivesse tão próximo. Era Shaka que devia estar ali, daquele jeito, tão próximo.

– Ora, Mu... – A mão livre do grego percorreu toda a extensão do braço de Mu, roçando as unhas na pele sensível e provocando arrepios involuntários no ariano. – Você não vai querer fazer feio na hora que for beijar Shaka novamente, não é? Posso ser um bom professor...

– Nós somos amigos! Apenas amigos. – Frisou, tirando forças do fundo de sua alma para permanecer calmo. Queria acreditar que Milo estava fazendo aquilo apenas para testar-lhe, e que aquela brincadeira não iria mais longe.

– Camus e Shaka também são amigos... – Aproximou sua boca da orelha de Mu, falando cada palavra numa arrastada provocação. – E devem aprender muitas coisas juntos.

Quando sentiu lábios molhados tocando seu pescoço, Mu se colocou em pé com um pulo, jogando Milo com força para o lado. Ofegante pela tensão, fixou suas íris verdes e incrédulos no grego, que tinha o sorriso divertido de sempre nos lábios.

– Depois não venha reclamar para mim se o Shaka disser que o Camus beija melhor do que você. – Deu de ombros, jocoso.

– Milo, seu... seu... Como pode? – Não teve coragem de voltar a sentar no sofá, o medo de ser novamente assediado o invadindo. – Nós somos amigos, e passamos o tempo todo falando de Shaka e Camus! O que você estava pensando? O que você tem na cabeça?

– Mu, eu não tenho nenhuma obrigação com o Camus, nem você com o Shaka. Não há mal nenhum num pouco de diversão. – Lançou um olhar de reprovação para Mu. – Só você fica aí se guardando para um cara que nem deve se guardar pra você.

As palavras doeram, mas Mu há muito já tinha optado por não pensar naquilo. Por mais que Milo fizesse parecer óbvio, não iria acreditar que Shaka e Camus eram tão chegados. Em sua mente, Shaka mantinha-se casto e resguardado, esperando o momento certo para descobrir-se ao seu lado. Pensar diferente só o faria sofrer, pois não se tratava só da amizade que havia perdido, mas do algo mais que teriam tido caso não tivesse partido. Mas qualquer que fosse a escolha de Shaka, ele iria respeitá-la, pois mais que isso o magoasse.

Só que Mu era incapaz de dar a Milo o que ele queria, não quando estava cheio de dúvidas e incertezas, não agora que Shaka parecia um pouco menos distante. Seguia seu coração, e seu coração o direcionava para o guardião da sexta casa, fazendo todo o resto parecer errado. Desejou que Shaka estivesse ao seu lado com tanta força e desespero que sentiu os olhos ficarem marejados, mas cerrou os dentes com força e impediu-se de chorar na frente do escorpiano.

Sentiu braços fortes circundarem seu corpo, num abraço caloroso e cúmplice. Milo, desprovido de toda a malícia de minutos atrás, o envolveu em um terno abraço, dando leves batidinhas em suas costas como consolo. Mu recostou a cabeça no peito do grego, que era uns bons centímetros mais alto que ele, e fechou os olhos, buscando em sua mente as boas lembranças do passado para aliviar o sentimento de solidão.

– Você é muito sentimental, Mu. – Disse o loiro, acariciando o topo da cabeça do ariano. – Só por isso, eu vou te ajudar. Prometo que faço o que for preciso para manter Camus longe da casa de Virgem. Amanhã está bom para você?

Todo o medo de uma nova investida abandonou Mu. Sabia que Milo era um jovem lascivo e provocante, com hormônios ardentes, mas nunca imaginou que o amigo se comportaria daquele modo consigo. A reaproximação deles fora marcada pela vontade de ter os melhores amigos de volta em suas vidas e era só sobre eles que falavam o tempo todo, o que gerava, na cabeça de Mu, uma espécie de barreira entre o escorpiano e ele, que o protegeria de qualquer investida promíscua da parte do novo amigo. Em sua inocência, porém, enganara-se.

Mas aquele gesto fraterno foi o suficiente para que o lemuriano se esquecesse do ocorrido. Sabia que Milo não o fizera por mal, e não deixaria que aquele gesto isolado os afastasse. E a ajuda que agora lhe era oferecida era um bom modo de Milo se redimir e não deixar nenhum ressentimento. Mu sorria quando o abraço foi desfeito; sentou-se num canto do sofá, seguido pelo grego, que teve a delicadeza de sentar-se na outra extremidade, para então começarem a combinar os detalhes para o dia seguinte.

• • •

A ansiedade pela manhã seguinte fez Mu se virar de um lado para o outro na cama a noite inteira, o cérebro trabalhando a mil por hora. Seria sua chance de recomeçar, de reconstruir um pouco do que tinham, de dirimir seus erros e reconquistar a confiança do amigo. Não sabia como agir e temia cometer algum erro irreversível; sabia que o menor deslize poderia estragar tudo, e não se sentia seguro com toda aquela responsabilidade sobre seus ombros. Precisava, desesperadamente, fazer com que as coisas se ajeitassem.

Assim como fizera em relação ao seu primeiro encontro com Shaka depois do exílio, ensaiou uma série de diálogos e permitiu-se perder em devaneios sobre qual seria o rumo que aquele encontro teria. Sempre fazia isso, mesmo já sabendo que a realidade nunca se assemelhava com os ensaios, já que, no final das contas, nada seguia de acordo com o que planejava.

Todas as vezes que conseguiu dormir, sonhou com olhos fechados, cabelos loiros e sorrisos maliciosos. Num desses sonhos, Shaka estava deitado ao seu lado na cama e segurava suas mãos naquele característico gesto de agradecimento para, então, unir seus lábios aos de Mu num beijo terno. Em outro, os cabelos loiros se enrolavam com os lilases no meio da grama alta, enquanto os lábios dos dois cavaleiros se exploravam com ansiedade. E ainda houve um em que a água salgada do mar chegava até o peito dos dois rapazes, as ondas batendo contra os corpos abraçados conforme suas bocas trocavam um beijo urgente. Acordou ofegante todas as vezes, com um formigamento estranho no baixo ventre e um gosto de canela nos lábios.

Antes do sol nascer, foi para a casa de banho de sua morada e lavou-se com vigor, até que sua pele ficou rosada de tanto esfregar. Vestiu calças pretas e uma túnica marfim, amarrada na cintura por uma faixa vermelha. Escovou os cabelos até que estivessem secos e brilhantes, e os prendeu com uma fita igualmente vermelha na altura dos ombros. Borrifou uma agradável essência de lavanda no pescoço e nos punhos, numa quantia um pouco maior do que de costume. Trocou as ataduras que envolviam os cortes de seus pulsos, amarrou as tiras das sandálias em torno dos tornozelos e esperou até que o relógio sobre a escrivaninha marcasse oito horas.

Sequer conseguiu comer, tamanha era sua ansiedade. Ia ter um encontro com Shaka de Virgem, ainda que este não soubesse disso. Confiava plenamente na capacidade de Milo em deter Camus; primeiro, porque sua palavra tinha valor, e segundo porque era uma desculpa para passar um tempo com Camus. Diferente de Shaka, Camus aceitava todo tipo de conversa que vinha de Milo, pois não se dignava a dar importância para nenhuma. Não ignorava o amigo, apenas era indiferente a ele.

Porém, desde o aniversário de Aldebaran, quando apenas o aquariano não parecia contente com as brincadeiras envolvendo o guardião da oitava casa, Mu e Milo alimentavam algumas suspeitas a respeito do francês. Se Mu conhecia bem o grego, usaria aquela chance para interrogá-lo a respeito dos sentimentos que o cavaleiro de gelo parecia esconder.

Quando faltavam cinco minutos para as oito, Mu saiu de seu templo com o coração na mão. Recomeçar, repetia para si mesmo conforme subia as intermináveis escadarias de concreto. Passou pelas casas que o separavam de Virgem em transe, respondendo tudo automaticamente, sem prestar atenção a nada do que acontecia a seu redor. Por mais que confiasse na persuasão de Milo, teve receio de encontrar o ruivo na sexta casa.

Mas encontrou apenas Shaka, que acendia alguns incensos no entorno do espaço cheio de almofadas onde os três costumavam partilhar chá todas as manhãs. Ao vê-lo, todas as dúvidas sobre sua capacidade de fazer as coisas darem certo se dissiparam. Não estava preparado, mas precisava estar. Tudo daria certo.

– Chegou cedo. – Comentou Shaka, sentindo a presença do ariano sem ao menos precisar ficar de frente para ele. – Nem fiz o chá ainda.

Fazendo sinal para que o lemuriano o acompanhasse, Shaka desapareceu atrás de um enorme pilar, que escondia a escada que conduzia ao segundo patamar. Mu foi atrás do virginiano, os olhos verdes fixos em suas melenas douradas, sentindo uma comichão nas mãos pela ânsia em tocá-las.

Shaka vestia um sári laranja sem mangas, com uma camiseta de algodão preta por baixo e o rosário de contas roxas enrolado no pescoço; a vestimenta chegava até o meio de seus tornozelos, deixando seus pés descalços à mostra. Caminhava com elegância e leveza, sem fazer o menor ruído, como se flutuasse. Anjos não precisam andar, pensou Mu, sorrindo.

Foram para a pequena cozinha, e Mu sentou em uma cadeira de carvalho enquanto o indiano tratava de preparar a bebida para partilharem. De nada adiantaria oferecer-lhe ajuda, pois era um anfitrião muito educado e polido. Colocou água para ferver em uma chaleira, e tirou do alto do armário um vidro transparente com tampa azul, através do qual era possível enxergar a canela em pau que seria fervida junto com a água. Abriu o vidro com um giro e despejou uma quantia generosa de seu conteúdo dentro da chaleira. Tornou a guardá-lo e pegou outros dois menores, um com canela em pó e outro com cravo. Colocou cinco grandes colheres em canela em pó, e apenas alguns raminhos de cravo, apenas para dar um gosto mais forte.

Enquanto a água fervia com as especiarias, o virginiano pegou uma bandeja florida e arrumou sobre ela três xícaras de porcelana com pires combinando. Em poucos minutos, o forte cheiro de canela impregnava o ambiente e fazia Mu pensar em coisas que não devia. O aroma inebriante fez com que seus olhos se fechassem no intuito de aguçar o olfato, buscando por mas daquele cheiro. Deixou-se levar, e logo pode sentir o gosto em sua língua sem ao menos ter ingerido o líquido. Abriu os olhos apenas o suficiente para ver a figura áurea de Shaka coar o chá para dentro do bule baixinho e arredondado que fazia conjunto com as xícaras, junto com algumas colheres de açúcar refinado.

Percebeu que tinha um discreto sorriso de satisfação no rosto quando o indiano, segurando a bandeja com as ambas as mãos, fez um sinal para que retornassem ao andar inferior. Hoje seremos só ele e eu, olhou para as três xícaras na bandeja, sabendo que uma delas não seria usada naquela manhã. Era uma chance única, e Mu não podia deixar que escapasse.

A bandeja foi posta no chão quando ambos sentaram-se sobre as almofadas lado a lado. A fumaça dos incensos que queimavam ao redor misturava-se com o vapor que saía da xícaras que Shaka acabara de encher; entregou uma para Mu e acomodou a outra entre suas mãos, erguendo-a na altura do nariz e aspirando o cheiro conforme a fumaça acariciava suas feições. O ariano imitou o gesto, e puxou o ar com força, sentindo cravo, canela e sândalo se misturaram naquela que ele julgava ser a mais perfeita combinação de aromas possível.

– Isso é bom. – Murmurou, referindo-se mais ao agradável cheiro amadeirado de sândalo que emanava do loiro ao seu lado do que ao do chá ou ao dos incensos. Assoprou a bebida quente, observando, por detrás de toda a fumaça que os envolvia, os lábios do virginiano roçarem na borda da xícara, entreabertos, permitindo que o líquido invadisse sua boca e escorregasse por sua garganta, fazendo o pomo-de-adão subir e descer numa cadência vagarosa.

Só quando o chá estava morno, Mu começou a beber. Shaka, àquela altura, já terminava sua segunda xícara; de algum modo, parecia que o líquido quente não o incomodava nenhum pouco. Seus olhos curiosos observavam cada gesto do virginiano, buscando substituir as imagens de sorrisos maliciosos e atitudes arrogantes por toda aquela graça celestial que emanava do loiro enquanto saboreava o chá.

– Onde está Camus? – Perguntou Mu, fazendo-se de desentendido. Tentou soar o mais discreto possível, mas a sensação de que Shaka sabia o que se passava o dominava. Shaka sabia de tudo. Sempre sabia.

– Com Milo, na oitava casa. – Mu arregalou os olhos diante da resposta, quase engasgando com o líquido que descia por sua garganta. – Posso sentir seu cosmo lá. – Explicou o loiro.

– É claro. – Murmurou o ariano, levando a xícara aos lábios mais uma vez e percebendo que estava tremendo. – O que... ele está fazendo lá?

Shaka franziu o cenho.

– Isso não diz respeito a mim, Mu.

– Desculpe, eu... – Encarou o chá, reparando numa pequena rama de cravo que conseguira escapar pelo coador e que parecia muito mais agradável de se encarar do que o semblante reprovador de Shaka. – Só fiquei curioso.

– Não gosto de falar dos assuntos dos outros. – Terminou de beber o chá, e tratou de servir-se de outra xícara. Seu rosto se abaixou, fazendo a franja pender enquanto mirava o líquido, pensativo. – Às vezes, ele se atrasa por causa do Milo. Mas sempre vem.

Mu assentiu, sabendo que não iria fofocar com Shaka sobre as possíveis ocupações dos cavaleiros de Escorpião e Aquário na oitava casa, mesmo que insistisse. Tinha receio de que Camus chegasse a qualquer momento – afinal, ele sempre vinha – e não queria ser desagradável com o virginiano, estragando aquele raro momento. Reconstruir os laços que existiam entre eles era como percorrer um caminho de ovos sem poder quebrá-los. Precisava ser cuidadoso.

Enquanto o indiano terminava de beber sua terceira xícara de chá, uma ideia ocorreu a Mu. Soube no mesmo instante que era algo arriscado e devia ficar quieto, mas era um risco que precisava correr. Que queria correr.

– Shaka? – Chamou o amigo, que tirou os lábios da xícara para responder.

– Sim?

– Posso te contar uma coisa? – Sentiu suas pernas ficarem bambas, e agradeceu aos deuses por estar sentado.

– Claro.

Largou a xícara, agora vazia, na bandeja. As mãos agitadas procuraram a bainha da túnica e começaram a torcê-la.

– Ontem... – Exitou por um momento, mas já tinha começado e não podia desistir. – Milo tentou me beijar. – Quando ouviu o som que as palavras tinham ao serem exteriorizadas por sua voz, sentiu as pernas amolecerem mais ainda. Não era uma completa verdade, nem uma completa mentira, mas Mu estaria em maus lençóis caso Shaka pedisse detalhes. Deuses, o que acabei de falar?

Ergueu os olhos verdes, à procura de algum sinal no rosto de Shaka. Qualquer sinal. Surpresa, raiva, indignação, felicidade, dúvida. Ciúme, desejou. Mas, como sempre, a máscara de serenidade era utilizada com maestria.

– Eu já esperava por isso. – Falou pura e simplesmente.

– Já? – Isso quer dizer que ele não se importa?, indagou em pensamento, sentindo algo dentro de si murchar. Se Shaka o quisesse algo além da amizade, se importaria.

– É claro. Você sabe como ele é. Você não foi o primeiro nem será o último. Ele faz isso com todos, Mu.

– Até com você? – Perguntou sem pensar, arrependendo-se logo em seguida. Às vezes, era difícil lembrar que as coisas haviam mudado entre eles, e que não tinha mais a liberdade de antes para perguntar qualquer coisa. Temeu sua reação.

À despeito do que esperava, Shaka sorriu.

– Menos comigo. – Entoou vitorioso. – Nunca tivemos muito contato, e ele me detesta porque Camus se aproximou de mim. E porque eu demonstrei, em algumas oportunidades, que desaprovo suas atitudes. Não tem a menor discrição, é pior que uma criança. Quer chamar atenção do Camus, mas não percebe que tudo o que consegue com isso é denegrir sua imagem. – Deu um longo suspiro. – Não acho que ele seja uma companhia adequada para você, Mu.

Palavras não eram capazes de descrever o quanto Mu estava chocado com o que o indiano acabara de falar. Era um claro sinal de que Shaka se importava com ele, ou pelo menos foi isso que Mu se dispôs a acreditar. Porém, esse pensamento só fazia aumentar suas dúvidas.

– É a companhia que eu tenho desde que voltei. – Tentou não parecer magoado, mas mesmo que tivesse falado entre risadas, teria parecido. Enganar Shaka seria impossível, pelo menos enquanto deixasse todas as suas emoções estampadas em sua face.

– Ainda assim, não é adequada. Não para você. – Reafirmou, sua voz sempre no mesmo tom pacífico, incapaz de deixar transparecer qualquer emoção, ignorando completamente o tom de mágoa de Mu. – Prova disso é o que você acaba de me contar. Se você tivesse presenciado o que aconteceu entre ele e Shura no ano passado... Milo tem o coração leal e justo, mas não é uma boa influência.

– Pensei que não falasse de coisas que não te dizem respeito. – Foi a única coisa que conseguiu pensar para dizer naquele momento. Não iria discutir com Shaka os defeitos de Milo, pois seria como trair a confiança do único que havia lhe estendido a mão depois de seu exílio.

Apenas se aproximara de Milo porque Shaka estava mudado. Eram cúmplices na missão de reconquistar a amizade – e talvez algo mais – de seus companheiros de infância. Antes do dia anterior, Milo nunca se insinuara diretamente para Mu, e era prestativo e atencioso à sua maneira. Não havia motivos para o indiano achar que sua companhia não era adequada para Mu. A não ser que... As bochechas do lemuriano coraram com o pensamento e tentou afastá-lo, mas as palavras seguintes de Shaka serviram para reforçá-lo.

– Isso me diz respeito, Mu. – Retrucou o virginiano.

Ciúme, ciúme, ciúme, ciúme, gritava a mente de Mu. Mas não foi capaz de exteriorizar aquela ideia, pois parecia idiota demais. A quem queria enganar? Shaka de Virgem não sentia ciúmes. Talvez o Shaka de anos atrás sentisse, mas o rapaz orgulhoso e poderoso à sua frente não se deixava consumir por sentimentos tão humanos.

– Desde quando? – Mordeu o lábio inferior para não sorrir; por mas que estivesse com uma mágoa acumulada, era inevitável não sentir uma pontinha de alegria. Ainda assim, não entendia. Por que Shaka dizia palavras que não condiziam com suas atitudes? Se não fosse tão calmo, Mu já estaria sacudindo Shaka pelos ombros para que ele sanasse todas as suas dúvidas.

– Desde o dia em que você sentou-se ao meu lado e desatou a falar.

A xícara, que já não fumegava mais, voltou a encontrar-se com a boca do virginiano, num claro sinal de que o assunto estava encerrado. A experiência fez Mu não insistir na conversa, mesmo que tivesse vontade de fazê-lo. Todas as perguntas que guardava para si giravam ao seu redor, consumindo-o com dúvidas e incertezas.

Sentiu que precisava sair dali, do contrário, faria uma cena na frente do indiano. Seu coração doeu por não poder desfrutar mais daquela agradável companhia naquele raro momento privado, mas se quisesse ter chances de reconstruir o que tiveram, era preciso sair antes que seus sentimentos extravasassem e fizessem as coisas piorarem. Agradeceu pelo chá com educação, ao que Shaka apenas anuiu com a cabeça loira. Continuou sentado no mesmo lugar, ereto e altivo, servindo-se de mais chá – Mu já tinha perdido a conta de quantas xícaras o amigo ingerira naquele dia.

As pernas ainda estavam um pouco bambas quando levantou. A fumaça dos incensos que queimavam no ambiente davam a sensação de que tudo aquilo não passava de um sonho. Se era, Mu não saberia dizer. Talvez só os sonhos eram capazes de levar alguém do céu ao inferno em tão pouco tempo. Mu entrara ali com o coração cheio de felicidade por saber que teria Shaka só para si por aquele dia, e agora saía com o coração apertado e confuso, a angústia pela promessa de que não falaria nada correndo sua alma. Depois de dar algumas passos exitantes, voltou-se para Shaka e sentiu aqueles olhos fechados encarando-lhe sem a menor discrição.

– Por que você fala como se eu tivesse alguma importância mas age como se eu não significasse nada? – Não aguentou. A razão o abandonou e a emoção passou a comandar suas palavras.

Viu os lábios de Shaka curvarem-se num singelo sorriso. Não malicioso, não provocador, não arrogante, não vitorioso. Triste. Apenas triste. Triste como sua alma quando Mu ousara espiar-lhe alguns anos atrás, triste como suas reflexões sobre o sofrimento das pessoas, triste como não poder contemplar o mundo com os olhos abertos.

– Se você não significasse nada para mim, Mu, eu sequer olharia na sua cara. Não depois de tudo. – Suspirou com pesar. – Eu tenho meu brio, e piso nele toda vez que estou perto de você. Então, por favor, não fique falando coisas que você não sabe.

Ainda que não desse mostras de seus sentimentos, Shaka os tinha. Por vezes, Mu esquecia que o amigo também saíra magoado. Beijado e abandonado no dia seguinte, quando apenas queria ajudar Mu oferecendo o ombro para que chorasse. Mas ali, naquele momento, com aquelas palavras e aquele sorriso angustiado, Shaka fora capaz de demonstrar uma dor com relação àquilo com a qual o ariano jamais conseguiria competir.

A tristeza que o invadiu já não tinha mais nenhuma relação com a rejeição de Shaka. Sofreu com o sofrimento do amigo, sofreu por ele, e odiou-se como nunca. Como ele fora capaz de magoar um anjo? Ao falo de Milo, quisera alguma reação por parte do inabalável cavaleiro de Virgem, mas agora arrependia-se de tal desejo; era mais fácil lidar com a indiferença do que com a mágoa. Usaria isso como motivação para fazer com que as coisas melhorassem entre eles; sempre que pensasse em desistir, lembrar-se-ia daquele sorriso triste e buscaria forças inimagináveis em seu âmago para continuar tentando. Devia aquilo não só a Shaka, mas a si próprio. Lutaria até o fim.

Mas não naquele dia.

Para fazer com que Shaka ficasse bem, precisava estar bem. Conseguiu fazer sua razão sobrepujar a emoção e concluiu precisava retirar-se depressa e reorganizar as ideias antes que tudo piorasse. Sua cabeça girou com tanta força que Mu quase tropeçou nas próprias pernas quando virou-se e correu para longe dali, para longe de suas mágoas, para longe de sua frustração, para longe de todas as lembranças que o corroíam. Para longe, acima de tudo, do seu coração.

Notas finais
E então, o que acharam? Seria muito fácil fazer as coisas darem certo nessa conversa, né? USAHUASHSAUHS

Não betado, avisem sobre qualquer erro.

Obrigada por ler, até o próximo! :*