Castelo de Areia
12 Quase como antes
Notas iniciais
Gente linda e maravilhosa, os reviews de vocês são a coisa mais perfeita desse mundo! ♥ Não me canso de agradecer pelo carinho e pela atenção que todos tem dedicado ao longo dos capítulos.
Esse capítulo está mais fluffy que o normal, mas eu queria muito escrevê-lo.
Aviso: pequeno spoiler de Lost Canvas (que é a única outra obra que não estou ignorando). E não betado!
Quase como antes
Se havia algo que Mu admirava em Shaka era sua capacidade de fingir que coisas desagradáveis não tinham acontecido. Todo o clima tenso que se dera no encontro a sós dos dois na casa de Virgem parecia algo inexistente para o virginiano, que cumprimentou Mu nos dias que se seguiram com uma naturalidade desconcertante. A presença de Camus, antes tão indesejada pelo ariano, foi bem vinda na hora de disfarçar todo o seu desconforto. Chegou a ponderar se deveria continuar indo até a sexta casa todos os dias; sentia-se indigno de receber atenção de Shaka e a mágoa só aumentava cada vez que via aquele rosto sereno e lembrava-se tristeza de seu sorriso. Porém, não conseguia se afastar, por mais que quisesse.
Com a chegada definitiva do Verão, Mu teve esperanças de que o comportamento de Shaka fosse melhorar tal como no passado, mas enganou-se. Todas as novas características com as quais não estava acostumado continuaram presentes mesmo com o sol brilhando num céu livre de nuvens. No fundo, Mu já sabia que agora aquele era o cavaleiro de Virgem, mas queria acreditar que a arrogância e o orgulho dissipar-se-iam com os ventos gelados e neblinas densas, de modo que a decepção foi inevitável.
Maleável e moldável como argila molhada, Mu acabou adaptando-se à nova personalidade de Shaka pouco a pouco, pois seu coração exigiu que o fizesse. Assim, recuperava a passos lentos a amizade perdida durante seus anos em Jamiel, e sentia certa reciprocidade, mesmo que muito tênue, da parte do indiano. Uma ponte estava sendo construída para que superassem o abismo homérico que se interpusera entre ambos, feita de carinho, cumplicidade, amizade e – ainda que sutilmente – amor.
Obrigava-se a fazer uma incursão constante em suas memórias, fato que o permitiu perceber que Shaka sempre dera sinais de tais traços de personalidade, mas o semblante plácido, a voz tênue e o ar inocente os haviam mascarado. Agora, porém, que a pureza da infância dissipava-se, tudo ficava mais claro para Mu, tornando mais fácil a aceitação.
Por anos, fora a única companhia do virginiano; num primeiro momento, acreditou que era apenas tímido, mas agora achava mais provável que Shaka se julgava superior aos outros e preferia não se misturar com qualquer um. Por mais reprovável que essa atitude lhe parecesse, agradava a Mu, fazendo-o sentir-se especial por ter sido escolhido pelo indiano no lugar de tantos outros. Olhava todos os cavaleiros por detrás das pálpebras fechadas com um jeito de quem sabia e podia mais que todos, e sempre demonstrava, através de atitudes ou palavras, que realmente sabia e podia mais.
Entendeu sua escolha por não conversar a respeito do que havia se passado; não significava que não se importava, pelo contrário. Importava-se tanto que devia ser doloroso demais tocar no assunto. Mu exteriorizava seus sentimentos, Shaka os guardava, e era preciso saber respeitar a escolha do amigo. Fez uma analogia com as vezes que o virginiano ficava doente e em como relutava em assumir tal fato, como se admitir uma fraqueza humana fosse rebaixá-lo; sentimentos não eram, então, um outro tipo de fraqueza? Um cavaleiro poderoso não podia deixar-se dominar por suas emoções como Mu fazia constantemente; enquanto defensor de Atena, Shaka vinha adotando a postura mais correta possível, e Mu concluiu que deveria inspirar-se mais nele..
Agora, a malícia em seus gestos e palavras, essa era uma completa novidade para Mu. Talvez proviesse de seu instinto dominador, que só agora o ariano também conseguia perceber. De uma maneira sútil, Shaka se mantivera no controle de toda a amizade deles. Era ele quem ditava o que fariam, quando fariam e como fariam, e Mu apenas consentia. Não conseguiu lembrar de nenhuma situação em que se opusera às palavras de Shaka. Sua personalidade era pacífica e dominável, e talvez por isso sua relação com o indiano tivesse dado tão certo. Completavam-se, e aquilo também o agradava.
Perdido mais uma vez em tais reflexões, deu um longo suspiro involuntário, atraindo a atenção de Shaka para si.
Estavam sentados na clareira do bosque que separava os alojamentos; alguns hábitos nunca mudavam, e Shaka era mais propenso a sair de sua toca quando o sol brilhava alto e quente. Apenas os dois estavam ali; com o passar dos dias, Camus passara a fazer paradas na casa de Escorpião com uma frequência enorme, deixando os dois sozinhos por mais vezes. Milo afirmava que estava apenas ajudando Mu, mas sempre ficava o resto do dia com um sorriso apaixonado nos lábios quando o ruivo não se juntava a Shaka e Mu pela manhã.
Sentavam-se um ao lado do outro, Mu com as pernas esticadas, Shaka na posição de lótus. Com sua telecinesia, o ariano apanhara alguns frutos de uma pereira que encontraram no caminho. Shaka segurara a barra do sári azul, formando um balaio para carregar as peras, e Mu não pode deixar de reparar que aquele gesto deixara as coxas do loiro quase completamente descobertas. Eram fantasmagoricamente pálidas, deixando evidente que aquela parte de seu corpo jamais havia visto a luz do sol, mas o lemuriano não se permitiu pensar muito no assunto.
Mordeu afoito mais uma pera, sentindo a maciez da fruta ser consumida por seus dentes, o gosto doce arrancando-lhe um gemido de prazer enquanto seus olhos se fecharam por um momento. Quando os abriu, viu que o rosto de Shaka estava muito próximo do seu.
Seu coração disparou.
– Você se sujou. – Murmurou numa voz arrastada, levando o polegar até o queixo do tibetano, limpando o sumo açucarado que escorria de sua boca.
O sorriso malicioso fez-se presente e um arrepio percorreu a espinha de Mu, a surpresa fazendo os olhos verdes arregalarem-se. Estavam tão próximos que era possível sentir o hálito quente de canela escapando através dos lábios entreabertos do loiro conforme respirava e indo ao encontro de sua pele corada. Shaka demorou-se naquele ato mais tempo do que era preciso, fazendo seu polegar percorrer o queixo de Mu várias vezes, os olhos verdes semicerrando-se lentamente, esperando pelo que viria a seguir.
Sabia, porém, que nada viria. Shaka passara a agir daquela forma com frequência, quase toda vez que estavam sozinhos; aproximava-se por qualquer motivo aleatório, com aquele sorriso maroto carregado de segundas intenções e dava mostras de que ia beijar Mu, fazendo com que ele o desejasse com desespero. Então se afastava com um sorriso mais maroto ainda e mudava de assunto, como se nada tivesse acontecido.
Não foi diferente daquela vez.
O indiano afastou-se, recobrando sua posição ereta a altiva e voltando a atenção para a pera que ele próprio consumia. Mu estava ofegante, mas Shaka parecia nem notar. Somente Mu era afetado pela tensão que instalava-se entre eles nessas situações, pois se o virginiano sentia algo diferente, não dava mostras, mantendo-se sempre impassível e inabalável.
Sua vontade, sempre que o amigo aproximava-se daquele modo, era agarrá-lo pelas mechas loiras e acabar com a distância que separa seus lábios dos dele. Mas sabia que não o faria. Nunca. Não mais se deixaria levar por seus desejos novamente. Uma vez já fora suficiente para que muitas mágoas se acumulassem. Shaka também sabia daquilo, e por isso mesmo o provocava. Era uma espécie de vingança pela ousadia do Mu de doze anos naquele fatídico dia. Fazia o ariano querer – não que fosse necessário –, mas jamais saciava sua vontade.
Mu tratou de tomar mais cuidado com as mordidas seguintes, certificando-se sempre com a mão livre se algo escorria por seu queixo. A chance de desmaiar com outro contato íntimo naquele dia quente era grande. Ficou contente por ter algo para manter a boca ocupada, assim não precisava falar; porém, logo os frutos acabaram, e sentiu-se compelido a puxar qualquer assunto banal com o virginiano.
– Posso perguntar algo? – Nunca conseguia perguntar nada para Shaka sem antes pedir sua autorização. O loiro assentiu. – Esse rosário tem algum significado?
Os olhos fechados do virginiano recaíram sobre o próprio peito, por onde pendia o rosário de contas roxas. Levou a mão à nuca e tirou-o do entorno do pescoço. Seus olhos fechados encararam as contas e seus dedos percorreram algumas antes de começar a enrolá-lo ao longo do antebraço, como de costume. Apenas quando os últimos centímetros foram entrelaçados entre seus dedos é que ele falou.
– Significado, importância e poder.
Ergueu a cabeça parar encarar Mu, que sorriu diante do silêncio característico enquanto aguardava pela manifestação de sua curiosidade para prosseguir.
– Cite-os. – Pediu o tibetano com doçura.
– Você sabe que Hades é o Imperador do Inferno. – Mu assentiu, sem entender a ligação entre as duas coisas. – O que você acha que acontece quando algum de seus espectros é morto?
Foram precisos poucos instantes para que soubesse a resposta.
– Eles são ressuscitados.
Shaka assentiu.
– Existe apenas uma forma de vida no Mundo dos Mortos. – Falou o indiano, com sua voz melodiosa e arrastada. – Mokurenji, uma árvore com frutos muito poderosos. Com eles, é possível selar a alma dos espectros de Hades e mantê-los mortos até o próximo despertar de seu senhor.
– Quer dizer essas contas... não são contas? – Intrigado, os pontinhos na testa de Mu ergueram-se.
– São os frutos da mokurenji. Totalizam cento e oito, um para cada estrela maligna dos espectros de Hades. Os maiores representam os espectros mais poderosos. Foram transformados nesse rosário na última Guerra Santa.
A boca de Mu estava entreaberta de admiração. Sempre achou que aquele rosário tinha algum significado pessoal para Shaka, mas não imaginava que o artefato que o amigo carregava de cima para baixo tinha o poder de impedir a ressurreição dos espectros de Hades. Depois de anos conseguia compreender o porquê daquela atitude; se tivesse sob sua guarda algo de tamanho poder, também não o tiraria de sua vista.
– Onde você o conseguiu? – Os olhos verdes estavam fixos nas contas púrpura que se destacavam ao encontro da pele alva de Shaka.
– Veio até mim, junto com a armadura de Virgem. – Um pequeno sorriso formou-se nos lábios finos do indiano. – Apenas arranjar os frutos na forma de um rosário não são suficientes para despertar seu poder. É necessário um sacrifício poderoso. – Os dedos da mão livre percorreram o braço, numa carícia gentil sobre os frutos. – Aqui está depositada a vida do cavaleiro de Virgem de mais de mais de duzentos anos atrás.
O lemuriano quis estender sua mão e tocar naquelas contas também, mas a coragem o abandonou. Sabia ser um gesto simples, direcionado ao rosário e não à Shaka mas, ainda assim, temeu ser mal interpretado. Numa outra ocasião, prometeu a si mesmo para conter-se.
– Como ele se chamava? – Estava encantado com a nova informação, comovido com o sacrifício do antigo guardião da sexta casa em prol de um bem maior. Um gesto bondoso e altruísta que, de alguma maneira, conseguia ver partindo de Shaka também.
– Asmita. – O nome soou incrivelmente belo na voz do loiro.
– Um nome bonito...
Ficaram sentados sem dizer mais nada por alguns minutos; ao contrário do habitual, foi Shaka quem quebrou o silêncio.
– Mudam de cor cada vez que seu respectivo espectro morre. Ficam negros, como suas almas. – Segredou ao ariano.
Os pelos da nuca do tibetano se arrepiaram diante do comentário, numa espécie de mau presságio. Atena sempre reencarnava quando uma Guerra Santa se aproximava, mas Mu ainda não pensara muito a respeito daquilo, mesmo depois de ouvir diversos relatos de Shion sobre a anterior – relatos estes que nunca haviam mencionado o rosário ou Asmita de Virgem. A ideia era assustadora mesmo para um dos mais poderosos cavaleiros daquele tempo.
– É seu dever protegê-lo? – Já imaginava qual seria a resposta, mas perguntou mesmo assim.
– Oh, Mu... – Adquiriu um ar pensativo, passando a mão por entre os fios loiros de sua franja, deixando tilak vermelho à mostra por alguns segundos. – Digamos que também é meu dever protegê-lo.
Apenas deixou subentendido que o ariano não deveria fazer mais perguntas àquele respeito, mas foi o suficiente para o ariano entender. O fato de nunca ter todas as respostas de imediato sempre incomodava Mu ao mesmo tempo que despertava sua curiosidade, deixando-o constantemente à espera de mais revelações por parte do virginiano. Sabia, contudo, respeitar Shaka e as escolhas que fazia.
– Só para você saber – Shaka quebrou o silêncio pela segunda vez naquela manhã –, o sacrifício de Asmita aconteceu em Jamiel. No seu pagode. Uma grande coincidência, eu acho.
Por mais que soubesse que aquele comentário era uma mera curiosidade, Mu podia jurar ter sentido um quê de rancor na voz de Shaka quando mencionou Jamiel. Talvez aquele comentário nem teria sido feito se sua partida para lá não tivesse sido como foi. Sacudiu a cabeça para espantar o pensamento; estava ficando neurótico demais ou era só impressão?
– Como você sabe de todas essas coisas? – Falar era o melhor jeito de manter a mente longe daquelas ideias.
– Acho que você sabe como eu sei, Mu de Áries. – Shaka riu, e Mu riu com ele. Era o único que tinha uma noção, ainda que pequena, da profundida das meditações do detentor da alcunha de reencarnação de Buda, então era óbvio que sabia, mesmo que fosse incapaz de compreender.
Minutos depois, o primeiro a se levantar foi Shaka, estendendo a mão aveludada para ajudar Mu a se erguer, impulsionando-o com um puxão forte. Seguiram para a arena, onde Milo e Camus já os esperavam. O escorpiano trocou um sorriso de cumplicidade com Mu. Vagarosamente, as coisas pareciam estar adquirindo a sua forma correta; os opostos haviam se atraído mais uma vez.
• • •
A desculpa de Camus para não ir mais até a casa de Virgem beber chá pela manhã foi o calor. O aquariano era tão atingido pelo Verão quanto Shaka era pelo Inverno; anos vivendo na Sibéria fizeram seu corpo criar uma grande tolerância ao frio e sucumbir diante do calor. Veio com um papo de que, se bebesse mais chá quente com um clima daqueles, derreteria, e cada vez suas visitas ficaram mais esparsadas. Mu não falou nada, mas sabia que o francês estava gastando seu tempo livre na companhia de um certo escorpiano, que sorria de orelha à orelha toda vez que contava o quanto as coisas estavam melhorando entre eles.
Assim, Mu voltou a ser a única companhia de Shaka todos os dias. Coração disparado e pernas bambas já faziam parte de sua rotina ao lado do virginiano de tal forma que ele estranhava quando não estava daquele jeito. Era difícil manter a mente sã em sua companhia. Shaka não deixava escapar uma chance de fazer uma provocação, e mesmo quando não o estava fazendo, sua companhia por si só já causava aquele frenesi gostoso em Mu.
A todo momento, perdia o chão, vendo malícia em cada gesto do indiano, mesmo quando não havia, fomentando suas esperanças. Por mais que buscasse se convencer de que era apenas um jogo, uma vingança particular, era impossível espantar a ideia de que o loiro também o queria. Suspirava sozinho em sua cama ao lembrar de seus toques gentis, de suas indiretas e de seus sorrisos provocantes, convencido de que o amigo também nutria sentimentos coloridos demais por ele.
Naquela manhã, beberam chá no pequeno sofá do andar de cima. Shaka, como Mu pode notar, fez questão de sentar o mais próximo possível, fazendo com que seus joelhos roçassem nos do ariano astutamente. Mu fingia não se importar, mas sua respiração falhava toda vez que o indiano se inclinava para servir-se de mais chá e aprofundava o contato, sorrindo com atrevimento cada vez que aquilo acontecia.
– Sua franja está grande demais. – Comentou Mu, numa tentativa de não parecer desconcertado com o contato que acabara de ser mais intenso novamente. – Mal enxergo suas pálpebras.
– Eu sei, está precisando ser cortada com urgência. – Seus dedos longos alisaram os fios loiros enquanto um sorriso tranquinas passeava por seus lábios. – Você poderia cortar para mim. – Cantarolou alegre.
Mesmo sabendo que aquilo tinha segundas, terceiras e até mesmo décimas intenções, Mu não conseguiu recusar o pedido. Dizer “não” para Shaka de Virgem não era uma de suas habilidades. Nem tentou argumentar, dizendo que não tinha habilidades para tal e não queria estragar aquele lindo cabelo, mas sabia que seria inútil. Shaka era inflexível. O virginiano levantou-se e sumiu por detrás da porta que levava ao seu quarto, e logo voltou com um pente, uma tesoura e um pequeno espelho de mão.
– Nunca fiz isso antes, Shaka. – Mu achou melhor deixar aquilo claro, pois não sabia qual poderia ser o resultado da experiência.
– Tenho certeza que fará um bom trabalho. – Colocou os objetos sobre as pernas de Mu, permitindo que seus dedos resvalassem de leve em suas coxas. – Você usa o pente para demarcar o limite e a tesoura para cortar. – Explicou, deixando uma risada escapar por seu nariz. – Óbvio, né?
Shaka sentou em cima das próprias pernas e ofereceu o rosto para Mu, projetando-o para frente. Quando pegou o pente, o lemuriano percebeu que suas mãos tremiam de leve. Respirou fundo atrás de equilíbrio.
Passou o pente pela franja farta, mas alguns cabelos mais compridos, que a ela não pertenciam, teimavam em vir junto. Retirou a fita que prendia seus próprios cabelos logo abaixo dos ombros e inclinou-se sobre Shaka, prendendo-lhe as madeixas loiras para que não atrapalhassem, o intenso perfume de sândalo desprendendo-se dos fios que encheram suas mãos com uma maciez ímpar. Sentiu a respiração do virginiano em seu pescoço e seus olhos se fecharam por um segundo. Sabia que tinha as bochechas coradas quando voltou a encarar aquelas pálpebras cerradas.
Livre dos fios mais longos, Mu voltou sua atenção à franja. Passou o pente fino por suas extensão algumas vezes, até encontrar a posição ideal. Com a outra mão, levou a tesoura à altura das sobrancelhas de Shaka e começou a cortar, os pequenos fios dourados caindo sobre as coxas do indiano à medida que a lâmina os trespassava. Retirou o pente, e emparelhou um ou outro fio rebelde que não acompanhara os outros.
Inclinou-se para trás, concluindo que fizera um bom serviço.
A mão se Shaka pegou o espelho, com cuidado para que seus dedos tocassem de leve na perna de Mu mais uma vez, fazendo o ariano arrepiar-se.
– Você acaba de virar meu cabeleireiro oficial. – Disse o loiro sorrindo enquanto se mirava no espelho, com os olhos fechados, bagunçando a franja de um lado para o outro com a mão livre, fazendo alguns fios cortados se soltassem no ar.
Mu sentiu um calor subir por seu rosto. A alegria por ter agradado Shaka o dominou, e ele teria batido palmas de empolgação se estivesse sozinho. Limitou-se a sorrir timidamente.
– Deveria cortar uma franja também, Mu. – Disse o loiro, pegando uma mecha do cabelo lilás próxima à testa de Mu e agitando-a de um lado para o outro. – Posso fazer isso para você. – Ofereceu-se.
Cortar uma franja não estava nos planos de Mu, nem nunca estivera. Mas ele não resistiu à sugestão e assentiu enfático. Shaka estava próximo demais, persuasivo demais, insinuante demais... Se tivesse sugerido que Mu raspasse careca, o ariano teria aceitado.
– Acho que uma franja como a minha não combinaria com você. – O indiano ia dizendo, enquanto seus dedos hábeis separavam algumas mechas lilases da parte de frente do cabelo de Mu. – Seria uma pena esconder suas pintas. – Seus dedos tocaram de leve os dois sinais típicos dos lemurianos, fazendo Mu estremecer. – Elas são uma graça. – Completou, agindo como se aquele comentário não fosse nada demais.
Se a vida de Atena dependesse de Mu ficar em pé naquele instante, a Deusa morreria. Suas pernas estavam moles e sem forças, e um formigamento incomum se instalava em todo o seu rosto a partir dos lugares em que sentia a pele de Shaka entrar em contato com a sua.
Usou um dos dedos para erguer o rosto de Mu pelo queixo, colocando-o na altura de seus olhos fechados. Apenas um palmo de distância os separava, e Mu semicerrou os olhos, sentindo sua respiração se misturar com a do cavaleiro de Virgem.
Shaka segurou os fios separados entre o indicador e o dedo médio de uma das mãos, enquanto a outra empunhava a tesoura. Sequer usou o pente. Com um movimento ágil, encurtou os fios longos na altura do nariz de Mu, deixando-os caírem sobre o rosto alvo, provocando-lhe cócegas. O ariano riu, e soprou os fios para longe do nariz. Com a ajuda do pente, Shaka dividiu a franja ao meio e emoldurou cada lado da face do lemuriano com uma metade. Um suspiro longo por parte de Mu acompanhou aquele gesto.
– Ficou lindo. – Shaka falou num tom gentil, apenas para fazer as maçãs do rosto de Mu adquirirem um tom rubro mais intenso.
Estendeu-lhe o pequeno espelho, e Mu mirou sua imagem refletida nele.
Em nenhum momento pensou que aquilo fosse lhe cair bem. Aceitara a sugestão de Shaka com o intuito de agradá-lo e como desculpa para ter mais de sua atenção. Os gestos do virginiano naquele processo o haviam envolvido por completo, mantendo sua mente focada em cada sensação física. Esqueceu-se brevemente da mudança de visual em si, e grande foi sua satisfação com o que viu.
As mechas violáceas emolduravam seu rosto com graça, caindo despretensiosas e conferindo um ar mais jovial – não que precisasse disso aos quinze anos. O corte estava muito bem feito, reto e preciso, e a quantia de cabelo fora separada na medida certa. Teve certeza, ao olhar-se uma última vez, que adotaria aquele visual pela posteridade.
– Acho que também virou meu cabeleireiro oficial, Shaka. Ficou muito bom.
Os dedos de Shaka tocaram a lateral do rosto do Mu, pressionando a franja recém cortada contra a pele macia do ariano. Encarou-lhe por longos minutos, os olhos fechados vendo seu íntimo. Sua expressão era serena, e não havia resquícios de malícia, tampouco de arrogância ou orgulho. Os olhos verdes de Mu perderam-se naquele belo rosto, desejando-o ver daquela maneira o tempo inteiro.
– Sempre o imaginei com uma franja assim. – Balbuciou o loiro, colocando a pequena mecha mais curta que todas as outras atrás da orelha do lemuriano. Mu estava nas nuvens.
Notas finais
Alguém reparou que eu ainda não tinha mencionado a franja do Mu? XD
Mais duas provas essa semana, então só postarei outro sexta-feira.
Obrigada a todos por lerem, até o próximo! :*
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