Castelo de Areia
13 Imensidão azul
Notas iniciais
DanizGemini e Kassandra, muitíssimo obrigada pelas recomendações lindas. ♥
O título deste deriva de um diálogo do filme "Procurando Nemo", uma das melhores animações da Pixar. XD
As cenas desse capítulo deram origem à fanfic. Seria uma oneshot, mas eu queria criar laços profundos entre os dois para que as pessoas pudessem sentir o que eu senti quando as concebi em minha mente. Assim, trata-se de um capítulo especial para mim, e por isso quero dedicá-lo a uma pessoa muito especial.
Perséfone, gostaria desejar - mais uma vez - um feliz aniversário para você. Há muito eu tinha deixado de acreditar em amizades verdadeiras e, assim como o Shaka, tiver que rever os meus conceitos quando você apareceu na minha vida. Um cartão e uma dedicatória aqui não são capazes de expressar o quão importante tu és para mim, mas espero que ajudem. Obrigada por tudo. ♥
Sem mais, vamos à história?
Imensidão azul
Foi invadido pela ideia enquanto dava os retoques finais na armadura de Cérbero. Chegou a parar seu trabalho por alguns instantes, maravilhado com a possibilidade e incrédulo com o fato daquilo nunca ter lhe ocorrido em tantos anos. O sol já se punha no horizonte àquela hora, Shaka estaria meditando e Mu não ousava interrompê-lo. Mesmo no auge da amizade, interrompera o transe espiritual do amigo uma única – e confusa – vez; julgava importante respeitar seu espaço, bem como suas escolhas, além de não querer ser inconveniente.
O sono custou a chegar.
Não era a primeira vez que tinha dificuldades para dormir por causa de Shaka de Virgem. Naquela noite, porém, era uma alegria por algo que buscava desfrutar a anos que o mantinha acordado, esquecendo-se do abismo que havia se formado entre o indiano e ele. Quando conseguiu dormir, sonhou com seu plano e acordou sorrindo todas as vezes, sabendo que havia uma chance de tornara-se uma realidade.
Encontrou Shaka em pé na cozinha, bebendo uma xícara de chá, enquanto mais água era fervida na chaleira. O virginiano ergueu o rosto para cumprimentá-lo, oferecendo um pouco da bebida.
– Estou fazendo mais... – Comentou, quando o líquido contido no bule não foi capaz de encher a xícara de Mu nem até a metade. Um pequeno sorriso se formou nos lábios do ariano, trazido por um sentimento de felicidade que só encontrava quando estava ao lado do guardião da sexta casa.
– Shaka, eu... preciso falar uma coisa contigo. – Como sabia que não conseguiria conter a alegria de sua voz, nem ao menos tentou disfarçar. Seus olhos tinham um brilho intenso, e não se desviaram de Shaka nem por um segundo, analisando cada gesto do amigo, ansioso por sua reação. – Eu andei pensando, e tive uma ideia. Pode parecer um pouco maluca, mas você precisa concordar...
Parou de repente, ouvindo passos na escada que conduzia ao segundo andar. Sentiu seu ânimo indo para o espaço quando a figura de Camus de Aquário apareceu em sua frente, vestindo sua armadura dourada. Fazia algumas semanas que o aquariano não aparecia, e era uma tremenda ironia do destino que fosse até ali justo naquele dia, justo quando Mu mais precisava ficar a sós com Shaka. Soltou um muxoxo de impaciência que só Shaka ouviu – pois Camus, se ouviu, fingiu que não lhe dizia respeito. Cumprimentou os dois cavaleiros com um singelo aceno de sua cabeça ruiva.
– Veja quem resolveu aparecer. – Shaka logo foi pegando outra xícara do armário, mas o francês fez um sinal com a mão para que parasse. – Ainda com essa frescura de que está calor demais?
– Estou só de passagem. Milo e eu combinamos de ir bem cedo até a arena hoje, mas ele ainda estava dormindo quando cheguei em sua casa. – Os olhos vermelhos se reviraram de impaciência. – Deixei-o se aprontando e resolvi vir até aqui saber como andam as coisas com vocês...
Por mais que Camus tentasse parecer simpático, Mu não conseguia deixar de sentir certo incômodo por ter sido interrompido num momento tão vital. É lógico que o cavaleiro de Aquário não sabia daquilo nem o fizera de propósito, mas Mu esperava por aquela chance há anos. Respirou fundo várias vezes antes de, finalmente, entrar na conversa, conformado com a procrastinação de seu plano.
Ante a demora de Milo, os três sentaram-se espremidos no pequeno sofá da sala, com Mu de um lado de Shaka e Camus do outro, segurando xícaras de chá fumegante – a persuasão de Shaka fez Camus a bebida. Na frente do aquariano, Shaka dispensava suas provocações costumeiras à Mu, mas aquilo não era mais preciso; a simples proximidade com o virginiano já era suficiente para mexer com seus sentidos e imaginário. Desejou que o sofá fosse maior, de modo que seu braço e sua perna não ficassem encostando a todo segundo na pele quente do indiano, que parecia não se abalar com o contato da mesma forma que ele. Mas nem a tensão costumeira foi capaz de apagar o sorriso iluminado que o acompanhava desde o dia anterior.
Decidiu que mais tarde daria uma bronca em Milo por não cumprir com os horários. A passada rápida de Camus estava rendendo bules de chá em demasia – em sua maioria, consumidos por Shaka – e nem sinal do cavaleiro de Escorpião aparecer. Mu tinha a estranha sensação de que o amigo voltara a dormir depois de ser acordado por Camus.
A conversa que se desenrolava pouco interessava à Mu, que perdia-se em pensamentos enquanto bebericava o chá com pouca vontade. Em dado momento, quando Virgem e Aquário estavam discutindo sobre as concepções filosóficas da Idade Média, o grego de pele bronzeada e cabelos loiros apareceu no recinto, trajando sua armadura de ouro e um belo sorriso travesso.
– Demorei muito? – Milo perguntou, rindo da ousadia de suas palavras.
Mu viu Camus fulminá-lo com seu olhar de fogo. O escorpiano pareceu pouco se importar com gesto, como se a reprovação do francês não o incomodasse; ou melhor, parecia divertir-se com ela. O ariano, porém, reparou que seus olhos azuis fitaram Shaka com um certo rancor, como se reprovasse o fato do ruivo estar em sua companhia até aquele momento. Ciúmes infantil, é claro.
Com um silêncio reprovador, Camus levantou-se com vigor e caminhou na direção do loiro grego, suas passadas firmes demonstrando a irritação não verbalizada.
– Vamos? – Milo dirigiu-se à Shaka e Mu, convidando-os e arrancando mais um olhar fulminante de Camus, que já o ultrapassara, encontrando-se no primeiro degrau da escada.
Nos últimos tempos, os quatro haviam adquirido o hábito de treinarem juntos, à parte dos demais cavaleiros de ouro. Camus e Milo treinando mais cedo significava um convite para que Mu e Shaka os acompanhassem. Por força do costume, Mu levantou-se, resignado. Sua deixa para falar com o indiano seria quando retornassem às Doze Casas; poderia acompanhá-lo até a casa de Virgem, esperar Camus e Milo seguirem para seus tempos e então explicaria...
– Mais tarde, Milo. – Os devaneios de Mu foram interrompidos pela voz desdenhosa do virginiano; Shaka apenas suportava Milo por Camus e Mu. – Mu e eu ficaremos por aqui.
Os lábios do pasmado grego entreabriram-se com as palavras do indiano e seu olhar passou de Mu para Shaka, e de voltou para Mu, cuja face lívida estava marcada pela surpresa.
– Mu? – Os olhares de perplexidade se cruzaram quando Milo murmurou o nome do colega.
– Vamos ficar, Milo. – O lemuriano respondeu automaticamente, só então se dando conta de que já estava em pé, pronto para sair. Deixou-se cair no sofá ao lado do loiro, que sustentava sua costumeira expressão serena enquanto observava Milo dar de ombros e descer as escadas no encalço de Camus.
Quando ficaram sozinhos, Shaka apoiou um dos braços no encosto do sofá, virando-se de lado e encarando Mu com seus olhos fechados. Um sorriso de cumplicidade adornava seus lábios, fazendo o ariano compreender que Shaka não só não tinha esquecido que queria falar algo como estava tão interessado que dispensara os outros dois para conversarem a sós. Todas as ideias voltaram à sua cabeça, junto da deliciosa ansiedade que o corroía desde o dia anterior.
– Então, – o virginiano quebrou o silêncio – você dizia que teve uma ideia... – Incentivou.
Mu derreteu-se por completo diante da curiosidade de Shaka em ouvi-lo. Sua mente vagou alguns meses atrás, quando o loiro o evitava sem cerimônias, privando-o de sua companhia, e as borboletas em seu estômago agitaram-se de alegria.
– Eu quero ver seus olhos. – Depositou toda a coragem que possuía naquela frase.
Shaka deu uma risada contida.
– Por que essa ideia de repente, Mu?
– Sempre quis. – Admitiu, sentindo o rosto esquentar. – Só não sabia como isso seria possível. Agora eu sei.
– Conte-me. – Shaka se inclinou mais para frente à fim de ouvir melhor, já sabendo que a timidez faria com que as palavras do ariano saíssem mais baixas que o normal.
– A Muralha de Cristal. – Falou num suave murmúrio, mirando as próprias mãos, que descansavam em seu colo. Shaka conhecia seu golpe defensivo, então achou por bem dispensar explicações.
Os lábios do indiano se crisparam enquanto analisava a ideia. Mu queria saber o que ele estava pensando, qual era sua opinião sobre o assunto, mas seu rosto nada transparecia.
– Não acho que seja prudente. – O loiro por fim falou, tão baixo quanto o ariano.
Mu virou o rosto para encará-lo com seus carinhosos e pidões olhos esmeralda.
– Você já deve controlar seu cosmo bem o suficiente para abrir os olhos sem destruir tudo ao seu redor. – Sua voz era manhosa, como a de uma criança tentando convencer a mãe que comer a sobremesa antes do almoço não tiraria sua fome. – Se alguém pode fazer isso, esse alguém é você. Tenho absoluta certeza de que conseguirá. E eu estarei protegido.
Claramente desconfortável, mais com a situação do que com a posição, Shaka sentou-se com as costas eretas, encarando a parede a sua frente e não mais o cavaleiro de Áries. Ficou em silêncio enquanto pensava. Ao seu lado, os grandes olhos de Mu brilhavam de expectativa, seu coração batendo gradativamente mais rápido.
– Não quero machucá-lo, Mu. – Disse Shaka com a preocupação estampada em seu rosto quando voltou a encarar o lemuriano com suas pálpebras celadas.
Aquela simples frase fez os olhos de Mu ficarem marejados. Toda a pose de orgulho e arrogância escondiam o lado humano de Shaka de Virgem. O lado que se preocupava com as pessoas, o lado gentil, o lado amoroso. Sua faceta que apenas Mu de Áries conhecia.
– Não vou me machucar, Shaka. – Insistiu, ainda manhoso. – Concentrarei meu cosmo na Muralha, e você controlará o seu. Não vai dar errado, eu prometo.
– Não faça promessas que não dependam só de você para serem cumpridas, Mu. – Repreendeu-o Shaka, sem deixar de fitá-lo por um instante sequer. – Há dez anos que não abro os olho, então não sei o que vai acontecer quando o fizer. Por mais que combinemos tudo, algo pode sair errado. Eu jamais me perdoaria...
Não foi preciso completar a frase, pois Mu entendera. Porém, toda aquela preocupação demonstrada pelo virginiano apenas aumentou sua determinação. Nunca, em toda a sua vida, desejou tanto ver seus olhos e estava disposto a correr qualquer risco para tal. Queria perder-se em seu olhar, mesmo que fosse por alguns instantes, mesmo que só por uma vez. Sua mão trêmula procurou pela de Shaka, apertando-a, numa forma de encorajá-lo; o aperto foi retribuído com firmeza.
– Não se preocupe, Shaka. Confiaria minha vida à você.
O virginiano deu um longo suspiro, levantou-se e puxou Mu pela mão, obrigando-o a ficar em pé. Quanto estavam na metade das escadas, Shaka soltou sua mão, murmurou alguma coisa inaudível e refez o caminho correndo. Confuso, o lemuriano ficou parado ali por um momento, até que pôs-se a subir atrás do amigo. Antes que alcançasse o topo da escada, Shaka já estava de volta, vestindo sua sagrada armadura de ouro e terminando de enrolar o rosário no antebraço esquerdo.
Apesar de vê-lo daquele jeito com frequência, a visão encantou Mu mais que o normal, muito provavelmente pela ânsia em descobrir o segredo por detrás das pálpebras reclusas do santo de Virgem. Teve vontade de jogar seus braços no pescoço de amigo e agradecer pela concordância, mas conteve-se. Shaka desceu as escadas com leveza e ao passar por Mu, tomou sua mão mais uma vez, e assim o conduziu até a primeira casa, onde foi a vez do ariano vestir seu traje dourado.
– É melhor irmos para um lugar pouco movimentado. – O indiano explicou quando Mu deu mostras de que tencionava fazê-lo na casa de Áries. – Os cavaleiros transitam livremente por aqui, ainda mais a essa hora.
O ariano anuiu, seguindo o cavaleiro de Virgem porta à fora. Shaka não precisou dizer para onde estavam indo, pois Mu já sabia. Poucas pessoas iam até a clareira do bosque que separava os alojamentos, razão pela qual os dois haviam adotado aquele lugar durante a infância. Tranquilo, deserto e cheio de lembranças. E nada era mais justo do que Shaka abrir os olhos pela primeira vez em uma década num lugar tão deslumbrante quanto aquele. Seria uma visão digna do homem mais próximo dos deuses.
– Tem certeza que quer fazer isso? – Perguntou o virginiano temeroso. Mu concordou veementemente com a cabeça, tão feliz que seria capaz de flutuar.
O loiro andou alguns passos, sentou-se no chão, cruzou as pernas na posição de lótus e fez a tríade com os dedos. Um mantra que Mu desconhecia saiu de seus lábios na forma de um sussurro, e sua cosmo energia, até então oculta, começou a se propagar pelo ar. A luz do sol atravessou as árvores e refletiu-se nos cabelos loiros, fazendo seu brilho sobrepujar o da armadura dourada que cobria seu corpo. Logo passaram a esvoaçar ao seu redor, impulsionadas pelas rajadas crescentes de energia, dançando uma canção de força e poder.
A visão etérea hipnotizou Mu de tal maneira que quase se esqueceu de que também tinha um papel a desemprenhar. Ficando de frente para o indiano, fechou os olhos até que seu cosmo se elevasse o tanto que julgou suficiente para a ocasião. Cruzou as mãos espalmadas na altura dos olhos, para então erguê-las acima da cabeça e desferir um gracioso arco em seu entorno. Sequer precisou falar o nome da técnica para que a barreira invisível se colocasse entre ele e o cavaleiro de Virgem. Os raios do sol incidiram sobre sua superfície, formando o tênue o rastro multicolorido da mensageira dos deuses que unia o céu e a Terra, ao qual os humanos chamavam de arco-íris.
Com desenvoltura, Shaka colocou-se em pé, o rosto virado na direção de Mu e as mãos, que pendiam ao lado de seu corpo, estavam cerradas. O cosmo poderoso vacilou por um segundo, e Mu temeu que ele desistisse.
Mas não o fez.
Os cílios de Shaka tremularam quando as pálpebras se descolaram e começaram a se abrir. O coração de Mu bateu com tanta força que quase não cabia em seu peito quando apertou a vista para enxergar melhor. Lembrou-se de todas as vezes que que encarou aquelas pálpebras curioso para saber o que escondiam, da vontade que tinha de erguê-las sempre que partilhavam a mesma cama, dos suaves beijos que depositara sobre elas antes de beijar sua boca doce. Por anos, esperou por aquele momento. Esqueceu-se de respirar.
Quando finalmente Shaka de Virgem abriu os olhos, Mu não pode vê-los. Mesmo com todo o seu poder, o virginiano não foi capaz de controlar a cosmo energia armazenada por anos à fio, que se expandiu a partir de seu corpo, indo de encontro com a Muralha de Cristal, que a repeliu contra seu dono. Shaka foi jogado para trás, seu elmo voo longe e ele caiu sentado na grama fofa. O ariano, protegido pela barreira cósmica, sentiu uma força invisível impelindo-o para trás, obrigando-o a recuar alguns passos para recobrar o equilíbrio enquanto seu elmo era arremessado ao chão.
– Shaka! – Gritou, andando até o limite de proteção que a Muralha conferia.
Pode respiração do indiano descompassada. Os cabelos loiros estavam bagunçados e ocultavam parte de seu rosto, impedindo-o de ser focalizado. Mas Mu não precisar vê-los para saber que os olhos estavam abertos. Era capaz de sentir. Shaka mirava as próprias pernas, buscando restabelecer o equilíbrio de seu corpo. Quando voltou a levantar-se, estava novamente no controle de sua energia. Ergueu o rosto afastando os fios rebeldes com uma das mãos, seus olhos abertos procurando pelos de Mu, que sentiu o mundo parar de girar naquele instante.
Azuis.
Os olhos que o encaravam era tingidos do mais puro dos azuis. Muitos olhos azuis o lemuriano já tinha visto, mas não se comparavam àqueles; brilhavam intensamente com exato azul do límpido céu de Verão que os encobria naquele instante. Shaka aproximou-se, fixando seu olhar no de Mu, o azul envolvendo o verde tal como o firmamento envolvia as árvores ao se encontrarem na linha do horizonte. Em verso ou prosa, seria impossível descrever a alegria que encheu o coração do jovem guardião da primeira casa zodiacal.
Emudecido, extasiado e encantado, seus lábios entreabriram-se e seus olhos esbugalharam-se em admiração, permitindo-se desfrutar da imagem o máximo que conseguisse, pois sabia que muito tempo se passaria até que aquelas pálpebras voltassem a se abrir depois de celadas mais uma vez.
O virginiano aproximou-se mais, reduzindo a distância entre ambos ao espaço necessário para que a Muralha de Cristal se formasse. Longos minutos se passaram enquanto os cavaleiros se fitavam através da barreira invisível. Shaka tinha o olhar forte e penetrante, e teria sido difícil sustentá-lo por muito tempo se imenso não fosse o desejo de Mu em vê-los.
Foi Shaka quem quebrou o contato visual para que seus olhos azuis percorressem o belo rosto do ariano, desencadeando um furor que o fez corar até a raiz de seus cabelos lilases. Já estava acostumado com os olhos fechados de Shaka encarando-o, mas sentir aquele par de safiras brilhantes fixas em si o deixou descomposto. Tentou buscar aquele olhar com o seu mais uma vez, e reparou que o loiro ostentava um sorriso de apreço.
A mão que trazia o rosário enrolado entendeu-se para frente, na altura do rosto de Mu. Lentamente, espalmou-se contra a força invisível que os mantinha separados. Shaka suspirou, deslizando as pontas dos dedos pela superfície, delineando os contornos das feições do tibetano, num claro sinal de que desejava tocá-lo. Mesmo sem sentir o toque, as bochechas de Mu acaloraram-se e adquiriram uma coloração mais rubra.
– Desfaça a Muralha, Mu. – Ordenou quando seus olhos voltaram a se encontrar com os do lemuriano e sua mão pendeu ao lado do corpo mais uma vez.
– Como? – A atenção de Mu não conseguia se desviar daqueles olhos intensos, à procura de uma forma de jamais esquecê-los. Seus ouvidos captaram as palavras de Shaka, mas seu cérebro não foi capaz de processar uma única sílaba, absorto na tarefa de eternizar em seus registros aquele encantador brilho azulado.
– Desfaça a Muralha. – Repetiu o loiro com firmeza, o tom imperativo trazendo Mu de volta à realidade. Piscou algumas vezes, numa tentativa de clarear as ideias.
– Posso? – Conseguiu dizer, um pouco cético.
– Deve.
Mu obedeceu, fazendo com que nada mais se interpusesse entre ambos.
Por mais que Shaka tivesse deixado claro segundos atrás que tencionava tocá-lo, sua surpresa foi grande quando sentiu as duas mãos do virginiano encaixarem-se nas laterais de seu rosto, emoldurando-o.
– Tão lindo... – Segredou-lhe, afagando a franja que ele própria cortara com os dedos. Alcançou os sinais na testa do lemuriano, e circundou-os com o indicador, arrancando um suspiro em Mu. – Sempre quis ver suas cores reais, Mu. – Seu hálito quente tinha cheiro de canela.
Dentro daquelas íris azuis, Mu enxergou a si mesmo. E soube que eram os únicos olhos dentro dos quais ele gostaria de se vislumbrar. Se lhe perguntassem, não saberia dizer o exato momento em que se apaixonara por Shaka de Virgem. Muito provavelmente ainda quando eram crianças; mas a certeza acerca do sentimento veio com aquele profundo olhar anil.
Shaka encostou sua testa na de Mu, olhando dentro de seus olhos por um longo tempo, a ponta dos narizes dos cavaleiros se encostando com leveza. Os dois mal piscavam, cada qual numa busca pessoal de melhor memorizar o outro. Uma das mãos do virginiano deslizou até a nuca de Mu, agarrando com firmeza os cabelos lilases e obrigando-o a inclinar a cabeça para ao lado. O movimento fez com que seus lábios roçassem nos de Mu que, assustado, tentou recuar, sendo impedido por mão firme envolvendo sua cintura, aproximando-o tanto que as ombreiras das armaduras dos rapazes chocaram-se num ruído grave.
E foi o máximo de resistência que o ariano demonstrou.
Seus olhos fecharam-se com relutância quando sentiu que os lábios úmidos de Shaka experimentaram os seus. Tinham o mesmo gosto de canela do qual Mu jamais havia se esquecido. Foram precisos alguns beijos molhados para que Mu se entregasse por completo, imitando os gestos do outro com timidez. O indiano entreabriu os lábios, permitindo que sua língua abrisse caminho ao encontro da de Mu, fazendo-o emitir um gemido abafado. Sem saber ao certo o que fazer, permitiu que seus lábios também de separassem para que a língua quente do loiro explorasse sua boca, num gesto que não se fizera presente no beijo de anos atrás.
O corpo de Shaka inclinou-se suavemente sobre o de Mu, numa tentativa de aprofundar o beijo; sua língua macia e quente passeava por cada canto da boca do ariano, buscando pela dele, que se encolhia com timidez. As mãos de Mu afundaram-se nos cabelos dourados, em carícias ritmadas com cada investida do loiro.
Intenso e urgente, o beijo estendeu-se por voluptuosos minutos, só sendo interrompido quando nenhum dos dois garotos tinha mais fôlego. Mu tinha o coração acelerado e as pernas tão moles que teria caído se o indiano não o segurasse com firmeza. Ainda com os olhos fechados, sentiu a testa de Shaka encostar-se na sua mais uma vez, as respirações quentes e ofegantes misturando-se e confundindo-se.
Quando abriu os olhos, deparou-se com as intensas íris azuis lhe encarando com carinho. Shaka estava adorável, muito mais do que naquela que fora a imagem escolhida por Mu para representá-lo durante sua solidão. Sua tez pálida estava tingida com um suave tom carmim, seus lábios entreabertos estavam muito inchados e vermelhos, coroados com um sorriso de deleite, e tinha as pálpebras abertas, revelando lindos olhos que cintilavam com ardor.
Mu desejou que não estivessem vestindo suas armaduras douradas, pois queria sentir o corpo do outro junto ao seu. Um frio gostoso instalara-se em seu baixo ventre, junto de um formigamento que se alastrava a partir de sua nuca, no lugar onde a mão de Shaka ainda segurava seus cabelos.
Quis evitar uma comparação entre aquele beijo e o anterior, mas foi impossível. Da primeira vez que sentiu aqueles lábios sobre os seus, a tristeza pela iminente partida enchia seu peito, mas agora estava tomado pela alegria de ter finalmente visto os olhos do amigo. Shaka havia tomado a iniciativa, demonstrando que também nutria algo diferente por Mu. A inocência de antes havia se dissipado, com desejo e necessidade predominando no último. Lembrou-se das palavras de Milo, mesmo sem querer, entendendo melhor seu sentido, e concluiu que este era, definitivamente, um beijo de verdade.
Quando sua respiração voltou ao normal – ou o mais próximo do normal que a situação permitia –, Mu conduziu uma de suas mãos até o rosto de Shaka, contornando a face rosada com delicadeza, fazendo com que o virginiano piscasse os cílios dourados diversas vezes.
– Seus olhos são os mais lindos que já vi. – Conseguiu dizer, fazendo o sorriso do companheiro aumentar.
Imitando o gesto do ariano, Shaka deslizou a mão perdida entre os fios lavanda até uma de suas bochechas e acariciou a maçã do rosto com o polegar.
– E você é a pessoa mais linda que eu já vi. – Declarou num sussurro, fazendo Mu ir momentaneamente aos Elísios e retornar.
Não teve tempo para responder que Shaka também era a pessoa mais linda que ele já vira, pois sentiu os lábios do virginiano caçando os seus novamente. Beijaram-se sem a pressa anterior, fruindo do sabor um do outro. Ousou escorregar sua língua para dentro da boca de Shaka antes que este o fizesse consigo; a passagem foi cedida de imediato, mas disputou espaço com Mu, e logo era a sua língua impetuosa que explorava a boca do lemuriano, impondo-se e envolvendo-o. O frio que Mu sentia em seu ventre só fez-se intensificar a cada prova sabor canela fornecida pelos lábios do cavaleiro de Virgem.
Tal como antes, apenas separaram-se quando necessitaram de ar.
– O que foi isso? – Mu balbuciou num lapso de racionalidade advindo da quebra de contato, evitando o olhar de Shaka quando as testas dos garotos voltaram a se apoiar uma na outra.
– Você precisa mesmo que eu responda? – O loiro tinha um sorriso divertido nos lábios vultuosos. Conduziu a cabeça de Mu até seu ombro, fazendo-o afundar o rosto em seus cabelos cheirosos. O ariano fechou os olhos, inspirando o perfume de sândalo que exalava de Shaka, sem saber dizer se provinha de suas madeixas flavescentes ou de sua pele de alabastro.
Os braços de Mu envolveram a cintura do virginiano, desejando mais uma vez que estivessem sem as armaduras. Arrepios gostosos percorreram seu corpo quando os dedos de Shaka puseram-se a afagar sua cabeça em suaves movimentos circulares. Sentiu o peito do companheiro subir e descer contra o seu, percebendo que ambos tinham as respirações no mesmo compasso.
– Shaka, nós somos amigos... – Sussurrou Mu contra a pele macia do pescoço do loiro, falhando na tentativa de conter arrepio dos grandes.
– Não somos amigos, Mu. – Seu tom foi firme e taxativo. – Não depois daquilo.
Um nó formou-se na garganta do ariano diante daquelas palavras. Sempre considerou Shaka seu amigo, mesmo nos momentos em que estiveram distantes. Sua estima pela relação deles era grande demais, o que o levou a sofrer de saudades a cada dia passado em Jamiel. Temia magoá-lo, temia decepcioná-lo, temia desagradá-lo. Estava mais consciente do que nunca de que seu coração batia mais forte pelo guardião da sexta casa, mas isso não queria dizer que não fossem amigos. Estava contente apenas com a sua amizade...
– Somos mais que amigos. – Shaka completou o raciocínio, suas palavras, agora mais doces, impedindo que a tristeza se alastrasse no íntimo de Mu. – Sempre fomos. – Completou. – Só não percebemos isso antes.
Um suspiro de alívio escapou dos lábios entreabertos de Mu. Mais que amigos era melhor do não ser amigos. Desconhecia, porém, seu significado. Não sabia no que implicava ser mais que amigo de alguém, mas gostaria de descobrir aquilo ao lado de Shaka, mesmo que tivesse receio quanto à reciprocidade de seus sentimentos.
As mãos de Shaka deslizaram pelos cabelos de Mu e pousaram sobre seus braços, afastando-o com gentileza. Tentou resistir à separação, mas falhou. Logo seus corpos não estavam mais próximos, o cheiro de sândalo não invadia suas narinas e não ouvia mais a respiração de Shaka. Viu-o andar alguns passos para frente e, quando se virou para encará-lo, ele recolhia o elmo da armadura de Áries do chão. Encaminhou-se até Mu enquanto afastava com uma das mãos pequenas folhas que maculavam a superfície dourada. Quando estavam frente à frente, ergueu-o com ambas as mãos e encaixou-o com precisão na cabeça do lemuriano, para então tomar suas bochechas coradas entre as mãos e depositar um beijo estalado em seus lábios.
Mu sorriu, encantado.
O virginiano soltou-o e voltou a andar, agora em busca do próprio elmo. A franja afundou quando o empurrou contra a cabeça, de uma forma bem menos delicada que a dispensada à Mu, que viu-o ajeitar alguns dos fios bagunçados que caíam em suas costas, e suspirou deliciado com o pensamento de que tal desalinho havia sido causado por suas mãos.
– Camus e Milo devem estar nos esperando. – Comentou o loiro, mais para si do que para Mu, sem esperar uma resposta. Dirigiu-se até ele e segurou sua mão, o rosário de contas pressionado durante o aperto; pôs-se a andar para fora dali, arrastando o lemuriano consigo.
– Shaka? – Chamou Mu, tentando diminuir o passo.
– Sim? – Respondeu o outro, sem parar de andar.
– Podemos... ficar um pouco mais? – Seu rosto ardeu de vergonha pelo pedido ousado.
O virginiano parou abruptamente, encarando Mu com seus olhos que, graças aos deuses, ainda estavam abertos, e mordeu o lábio inferior, ponderando a hipótese.
– Eu gostaria... – Mu precisou respirar fundo atrás de ter coragem para vencer o acanhamento. Abaixou a cabeça, sem conseguir encarar os olhos penetrantes. – … de ver seus olhos um pouco mais. – Sorriu com meiguice.
O lábio escorregou por entre os dentes de Shaka quando um sorriso carinhoso foi desenhado em seu semblante.
– E eu gostaria de ver você um pouco mais. – Disse, levando a mão livre até o queixo de Mu, erguendo-o com o polegar e obrigando-o a encará-lo. – Os outros podem esperar.
Shaka sentou-se na relva verdejante, com as costas apoiadas numa das muitas oliveiras de Atena que ali cresciam, levando Mu consigo e fazendo-o sentar sobre suas pernas esticadas. Desfizeram-se dos elmos bem a tempo de suas bocas se encontrarem para novos beijos, que intercalaram-se com longos momentos de contemplação mútua. Cada um aproveitou aquilo que lhe foi oferecido pelo outro à sua maneira, esquecendo-se do mundo que existia para além da clareira, uma vez que tinham um ao outro e, naquele momento, aquilo era suficiente.
Notas finais
Betado mal e porcamente, ignorem os erros.
Espero que gostem. Obrigada aos que leram, espero vocês nos reviews. ;)
Até o próximo! :*
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