Castelo de Areia

14 O jeito difícil


Notas iniciais
Meus queridos, queria abraçar cada um que comentou a história! Vocês são lindos e maravilhosos, não imaginava uma recepção tão boa nem nos meus pensamentos mais otimistas. Obrigada, de coração. *O*

Ignorem possíveis erros, betado com pressa para agradar alguém especial.
Vamos lá?

O jeito difícil


Mu enganou-se quando pensou que os momentos de afeto partilhados quando Shaka abriu os olhos se repetiriam posteriormente. Chegou à casa de Virgem todo animado no dia seguinte, com um gostoso frio na barriga, ansioso pelo que se sucederia. O virginiano o esperava com o chá pronto e incensos acesos, sentado com graça entre as almofadas de seda do primeiro andar. Foi todo sorrisos e provocações para com Mu, mas afastou o corpo bruscamente quando o ariano pousou uma das mãos sobre sua perna.


Com um desgosto profundo, Mu percebeu que as coisas estavam absolutamente normais entre eles, como se nada daquilo tivesse acontecido. Ainda era melhor do que sequer ter sua companhia, isso era bem verdade, mas fingir que nada havia acontecido o desesperava. Mais uma vez, Shaka sequer tocara no assunto – se por insegurança ou pura falta de interesse, Mu não sabia dizer. E, como sempre, o ano respeitou tal decisão, colocando a vontade do outro à frente da sua.

Não podia, porém, apagar de sua memória o que havia acontecido entre eles. E se pudesse, teria escolhido não o fazer. Sorria sozinho ao lembrar da intensidade dos beijos do virginiano e da ternura de seus afagos e carícias. Toda vez que seus olhos se fechavam, podia enxergar mais uma vez aquelas íris profundas da cor do céu, e encarar as pálpebras fechadas passara a ser uma tarefa muito mais fácil desde então. Sentia-se honrado toda vez que pensava que, dentre todos, era o único que conhecia o segredo por detrás daquele mistério. Como tantas outras vezes, Shaka de Virgem o fez sentir-se especial.

Assim, parou de se importar com o jeito escolhido por Shaka para lidar com a situação. Contentou-se com os sorrisos cúmplices, provocações libidinosas e carinhos discretos, que agora vinham com um algo a mais que aquecia seu coração – e algumas outras partes menos românticas. A única coisa que mudou, efetivamente, foi a forma que Mu passou a encará-lo; o olhar costumeiro de admiração e amizade deu lugar a um cheio de paixão e necessidade, mas Shaka parecia não se importar com esses olhares. De fato, parecia até gostar, esboçando um sorriso contido toda vez que pegava o lemuriano o fitando com amor.

Os dias tornaram-se semanas, e agosto trouxe consigo uma curiosidade que acompanhava Mu há muito tempo.

– Shaka? – Chamou com doçura, enquanto caminhavam até a arena junto de Camus e Milo.

– Sim?

– Quando é seu aniversário?

Conheciam-se desde pequenos, e Shaka já partilhara seus segredos e pensamentos mais íntimos com Mu uma infinidade de vezes. Porém, quando o assunto era o dia de seu nascimento, o virginiano mostrava-se inflexível. Incontáveis foram as vezes que o ariano tentou convencê-lo a falar, incontáveis foram os argumentos utilizados, incontáveis foram as tentativas de barganha. Tudo inútil.

– De novo essa história, Mu? – Perguntou o loiro, cerrando os dentes. – Não vou falar, não adianta insistir, não entendo...

– Espera. Interrompeu Milo, com a voz esganiçada, fazendo Shaka suspirar num claro sinal de impaciência. – Você não sabe quando é o aniversário dele? – Mu negou com a cabeça, e a boca do escorpiano escancarou-se espanto. – Qual o problema em falar isso?

Os olhos de Camus procuraram os de Mu, deixando evidente que ele já ouvira aquela explicação antes. Por um momento, os dois ponderaram se deveriam responder a pergunta de Milo, mas Shaka foi mais rápido.

– Dispenso comemorações. – Fez um sinal de desdém com a mão, apático.

– Por quê? – Indignação fez-se presente na pergunta do grego.

– Não vejo sentido em comemorar o fato de ficar mais velho. – Sua voz era arrastada e pausada, explicando como se falasse com uma criança. – Cada ano que passa, é um anos a menos em nossas vidas. A morte, o inevitável destino de todos os homens, se aproxima. Qual a razão de comemorar uma data tão triste assim?

Os olhos azuis de Milo estavam arregalados de espanto. Buscou primeiro pelo olhar de Mu, que deu de ombros, e depois consolou-se no vermelho dos olhos de Camus. O ariano achou que os dois se encararam por um tempo maior que o necessário, e vislumbrou uma cumplicidade ímpar naquele ato, tal como a que dividia com Shaka. Sorriu por dentro, feliz por Milo.

– Quero comemorar com você este ano, Shaka... – Quando se deu conta do que acabara de falar na frente dos amigos, Mu sentiu o sangue abandonar sua face. Sua voz saíra manhosa, num tom que só usava com Shaka quando queria persuadi-lo a fazer algo, e viu o espanto se formar nos semblantes de Aquário e Escorpião.

– Já disse que não, Mu. Comemoraremos o seu aniversário.

Às vezes, Mu ficava surpreso em como conseguia manter uma amizade tão profunda com alguém tão teimoso. Sempre desejou partilhar aquela data com Shaka, que adorava bolos e doces dos mais diversos. Não queria fazer uma festa de arromba para todos os cavaleiros; queria algo íntimo e pessoal, apenas para os dois. Afinal, quando tinha Shaka, Mu não precisava de mais ninguém.

– Você não vai colaborar? – Depois de um longo silêncio dos quatro, Mu falou, tentando não deixar transparecer a mágoa que sentia em sua voz; talvez Camus e Milo não percebessem, mas Shaka saberia. Ele sempre sabia. O indiano ficou em silêncio, ignorando a pergunta. Mu suspirou. – Está bem. Se não pode ser do jeito fácil, então será do difícil! – Exclamou com determinação.

Os três cavaleiros olharam para Mu, espantados com aquele ato ousado do pacífico carneiro. Arrependeu-se de suas palavras e de seu tom decidido, querendo voltar no tempo para não entrar naquele assunto. Procurou no semblante de Shaka algum sinal de reprovação e ficou feliz por não encontrar. Agradeceu aos deuses por terem chego à arena, encerrando assunto. Mas Mu não deixaria para lá. Não naquele ano.


• • •



No dia vinte e três de agosto, Mu subiu até a casa de Virgem carregando um pequeno bolo nas mãos pequenas e macias.


– O que significa isso, Mu? – Questionou o loiro assim que o lemuriano sentou ao seu lado e estendeu o bolo em sua direção, franzindo as sobrancelhas loiras até que o tilak sumisse em sua testa.

– É o jeito difícil. – O ariano sorria, vitorioso. Dobrar Shaka à sua vontade seria impossível, então encontrou um jeito de sair pela tangente e comemorar o aniversário do amigo. – Já que não quer me falar quando é seu aniversário, eu trarei um bolo todos os dias por um mês.

– Qual a parte do “eu não gosto de comemorações” que não ficou clara? – O virginiano estava visivelmente irritado com a situação, mas Mu estava tão feliz que nem ligou para o tom ríspido empregado na fala.

– Não me importa o que você pensa. Eu quero comemorar seu aniversário. Você poderia colaborar e me dizer qual é o dia, para facilitar as coisas. – Seu sorriso aumentava a cada palavra, apesar de suas tentativas de controlá-lo. – Mas, se não quiser, tudo bem. Uma hora eu vou acertar, mesmo que você não fale nada.

Shaka colocou uma das mãos na testa, escondendo parcialmente seu rosto e respirou fundo, buscando dentro de si a calma na qual tanto trabalhara em suas incansáveis meditações. Por mais que aquilo lhe desagradasse, Mu sabia que o amigo relevaria. Afinal, os dois jamais havia brigado.

– Reconheça, Shaka, a minha ideia foi ótima. – Mu estendeu a mão para frente e colocou uma mecha loira atrás da orelha de Shaka.

Um suspiro escapou por entre os lábios do indiano num sutil gesto de resignação.

– Qual o sabor? – Descobriu o rosto e deixou que suas pálpebras fechadas recaíssem sobre o bolo, analisando-o.

– Coco e chocolate. – A resposta fez um discreto sorriso cruzar o semblante de Shaka; melhor do que ninguém, Mu conhecia as preferências culinárias do amigo, e sabia que aqueles sabores eram seus favoritos.

O lemuriano concentrou sua cosmo energia por alguns instantes, e fez surgir diante deles uma faca, um par de pires e outro de garfos.

– Telecinesia deixa as pessoas preguiçosas. – Comentou despretensioso, observando Mu dividir o pequeno bolo em duas metades iguais e colocar cada uma em um pires, cravando o garfo na massa fofa antes de entregar-lher o doce.

O chá de canela ajudou o bolo a descer com mais facilidade. O pão de ló era feito com cacau e se desmanchava na boca de tão macio, o recheio consistia numa mistura de leite condensado, chocolate ao leite e coco ralado, e a cobertura era de nata fresca batida. Mu havia levantado antes do sol nascer para prepará-lo; uma receita simples que pegara com Aldebaran, o melhor cozinheiro de todo o Santuário.

– Delicioso. – Comentou o virginiano, levando o garfo aos lábios uma última vez à fim de limpar o recheio que se grudara nele. Mu ficou tentado a contar que ele próprio havia preparado o agrado, mas não queria se gabar. Shaka havia gostado, e aquilo bastava.

Quando Mu terminou de comer, Shaka o fitava com aquele sorriso malicioso que fazia suas pernas amolecerem. Viu o amigo apoiar uma das mãos no chão e se equilibrar sobre ela, desfazendo a posição de lótus e permitindo que seus joelhos tocassem o chão; estendeu a mão livre até o rosto de Mu e limpou os cantos doces de sua boca rosada com o polegar. Os lábios do ariano se abriram, desejando mais contato.

– Será que você consegue comer sem se sujar? – Cantarolou Shaka com a voz melodiosa, voltando para sua posição de origem.

Mu atribuía tal característica ao nervosismo que sentia perto de Virgem. Nunca se sujava quando estava comendo sozinho, mas sempre o fazia quando estava na presença de Shaka, para seu deleite e divertimento. Talvez, e só talvez, o seu subconsciente fizesse aquilo de propósito, apenas para receber aquela carícia cheia de outras intenções. Sacudiu a cabeça para espantar os pensamentos.

– Não foi difícil, não é? – Começou, quando se recompôs. – Acho que agora você poderia me dizer qual o dia...

– Não. – Shaka o interrompeu com a voz firme e decidida. – Já falei. Isso foi apenas uma fatia de bolo, não uma comemoração. Não crie esperanças, Mu.

– Por que você fica se fazendo de difícil?

O indiano riu, ajeitando outra mecha dourada atrás da orelha.

– Eu não me faço de difícil, eu sou.

Os olhos verdes se reviraram de impaciência, mas acabou rindo também.

– Você só vai tornar as coisas mais fáceis se colaborar. – Colocou toda a sua doçura naquela frase.

– Por Atena, eu já falei que não! – Sua voz saiu do tom sereno habitual, elevando-se o suficiente para fazer o ariano recuar. O movimento não passou despercebido por Shaka, que pousou a mão sobre a de Mu, de um jeito tão doce capaz de fazê-lo esquecer a maior das grosserias. – Não se assuste, Mu. Apenas continuo não vendo sentido nisso. Se ficássemos mais jovens, aí sim eu teria motivos para comemorar.

– Prometo que não conto para ninguém. Vamos ser só nós dois. E muitos doces. – Infelizmente, Mu não era dotado do dom da persuasão, e sua tentativa de ser convincente soou mais como uma súplica.

– Não quero te dar trabalho, Mu.

– Então me diga logo o dia! – Exclamou, sacudindo uma das mãos numa tentativa falha de parecer impaciente.

– Não. – De alguma forma, Mu sabia que era o orgulho que o impedia de dizer o dia, afinal, ele já havia perdido aquela pequena batalha. Mesmo que relutasse, teria um bolo em seu aniversário. Contar o dia seria o mesmo que declarar que perdera; e, ainda que a ideia de Mu fosse bastante eficiente, Shaka não podia se dar ao luxo de abrir mão de seu único trunfo.

Revirou os olhos esmeraldinos, resignado. Se não fosse a flexibilidade de Mu, aquela amizade jamais teria ido adiante.

– Você não vai escapar. Terá bolo em todos os dias regidos pela constelação de Virgem.

– Eu duvido. – Disse pura e simplesmente, numa opinião sincera. Mu decidiu parar a discussão por ali, convicto de que aquela dúvida só extinguiria através de atos.


• • •



Nos dias que se seguiram, Mu preparou o mesmo bolo de coco com chocolate, levou-o até a casa de Virgem, tentou convencer Shaka a dizer qual era o dia de seu aniversário, partilhou o doce com ele, sujou os cantos da boca e ficou com as pernas moles quando o loiro os limpou. Quase um ritual, tal como o que eles tiveram anos atrás toda vez que o Inverno trazia consigo gripes e resfriados ao guardião da sexta casa.


Mu sabia que estava vencendo a batalha, mas nada falava. Nos primeiros dias, o orgulho ferido de Shaka se mostrava mais aparente, insistindo que Mu parasse com aquela criancice. Sensível como só ele conseguia ser, Mu não se vangloriou de sua ideia uma única vez, limitando-se a sorrir com ternura sempre que via o cerco se fechar sobre o virginiano. Conforme os dias passavam e ele não desistia, ficava mais claro que seria impossível para Shaka escapar de comemorar seu nascimento naquele ano; de uma maneira diferente, sem dúvida, mas que não deixava de ser uma comemoração.

Já estavam no décimo nono dia de setembro, há apenas três dias do fim daquele ciclo. A agradável sensação de vitória envolvia Mu em seus braços calorosos, e poderia jurar que Shaka também estava contente com o que se passava. Dia após dia, resmungava menos e sorria mais – se porque gostava de bolos ou se porque gostava de toda aquela devoção, Mu não sabia dizer. O fato é que, naquela manhã, um singelo sorriso adornava a boca do indiano, cheia de seu delicioso vigésimo oitavo bolo de aniversário.

– Vou sentir falta desse bolo. – Comentou de boca cheia, enquanto raspava as últimas migalhas com o garfo. O estômago de Mu revirou de alegria; era a prova irrefutável de que ele estava contente com a situação imposta. E como se isso não bastasse, dava claros sinais de que realmente gostava do bolo – sem ao menos saber que era Mu que o preparava todas as manhãs.

Como de praxe, Shaka terminou de comer primeiro e foi logo colocando mais chá em sua xícara de porcelana. Esperou em silêncio até que Mu largasse o pires no chão para encará-lo. Mordeu o lábio inferior quando suas pálpebras fechadas encontraram os verdes olhos do lemuriano sentado ao seu lado, um palmo separando as pernas esticadas dos cavaleiros.

– Toda a vez... – Uma rouquidão que Mu desconhecia se fez presente na voz melódica. Embaraçado, Mu abaixou o olhar, o bule de porcelana marfim parecendo muito interessante naquele momento. Por mais que tentasse, simplesmente não conseguia se acostumar às provocações do amigo.

Como das outras vezes, Shaka levou sua mão ao rosto de Mu; foi, porém, de encontro ao seu queixo, obrigando-o a erguer os olhos. Um rubor tomou conta da pele etérea do ariano quando sentiu que Shaka de Virgem olhava dentro de sua alma, daquele jeito profundo e devastador que só ele era capaz de olhar. Nem nos seus mais profundos devaneios, Mu teria sido capaz de adivinhar o que viria a seguir.

Puxando o rosto de Mu na direção do seu, Shaka tirou uma mecha da franja lavanda que teimava em pender próxima à boca suja de doce do tibetano. Ficaram perigosamente próximos, o suficiente para que o indiano pudesse limpar aquele misto de chocolate, coco e leite condensado com sua língua. Com lentidão, Mu sentiu a língua quente e molhada do cavaleiro de Virgem percorrer o canto de sua boca e seus lábios, varrendo todos os vestígios açucarados de sua pele, fazendo-o fechar os olho enquanto deixava escapar um profundo gemido pelos lábios entreabertos.

A mão que erguia o queixo de Mu deslizou pelo pescoço, seguindo para a nuca, onde encontrou um punhado de cabelos lilases para segurar com carinho no momento que reclamava para si aqueles lábios macios. O beijo sôfrego estendeu-se por perpétuos minutos, as línguas se enroscando sensualmente, as respirações ofegantes ritmadas com corações acelerados, os corpos unidos num abraço afoito ansiando cada vez mais pelo outro. O gosto de canela se fez presente, sobrepujando o sabor adocicado do bolo de aniversário.

Quando separaram-se, os lábios finos de Shaka deslizaram pelo maxilar de Mu, deixando um rastro de saliva até sua orelha. Numa voz suave e arrastada, ele sussurrou, causando um arrepio devastador no lemuriano.

– É hoje.

Os braços que envolviam o pescoço de Shaka o apertaram com mais força, num mudo agradecimento pela confissão. Os olhos verdes ficaram marejados, e as lágrimas deslizaram pela pele delicada de seu rosto quando os cavaleiros voltaram a se encarar.

– Mu... – Um sussurro de reprovação foi tudo o que escapou dos lábios do indiano antes que se pusesse a limpar as lágrimas com modestos beijos. Mu sentia a pele queimar em cada lugar que os lábios do amigo tocavam, todo aquele carinho apenas fazendo com que mais lágrimas vertessem de seu olhos. – Pare de chorar. – Mesmo quando não queria, Shaka soava autoritário. – Por favor.

Numa ousadia alheia à sua personalidade, Mu colocou uma mão de cada lado do rosto de Shaka e o puxou para si, obrigando seus lábios a se encontrarem. Por um segundo, Shaka pareceu relutante, mas então se deixou levar por mais um beijo, urgente no começo, mas que adquiriu ares de placidez e ternura com o tempo. Toda vez que precisavam recuperar o fôlego, uniam as testas com cumplicidade, deixando os narizes se tocarem.

Sem que soubesse como, Mu se viu deitado de costas, seus cabelos violáceos espalhados pelo chão, uma almofada carinhosamente colocada embaixo de sua cabeça. Shaka debruçava-se por cima do lemuriano, seu peito colado ao dele, os cabelos loiros caindo sedosos sobre Mu, causando-lhe arrepios ao menor movimento. No princípio, suas mãos acariciavam os fios lilases junto ao couro cabeludo, mas então o indiano deslizou uma delas pela lateral do corpo de Mu, até que encontrou a barra da camiseta que vestia.

Surpreso, o ariano abriu os olhos, deparando-se com um sorriso malicioso estampado no semblante de Shaka, que ergueu vagarosamente a peça de roupa, deixando à mostra a pele alva que jamais era banhada pelo sol. Seus dedos longos apertaram a cintura de Mu com força, cravando as unhas na carne macia, fazendo-o morder os lábios para evitar um gemido alto. Os toques ágeis lhe causaram um formigamento delicioso no baixo ventre, que deixava suas pernas mais bambas a cada investida. O virginiano continuou com as carícias ao longo do abdômen ao mesmo tempo que permitiu que sua boca deslizasse até o pescoço sensível do tibetano, que sentiu o corpo queimar com violência a cada beijo, mordida ou chupão desferido.

Mas então, de súbito, a mão de Shaka abandonou sua cintura e seus lábios se afastarem de seu pescoço. Mu abriu os olhos, piscando várias vezes, e deparou-se com o rosto de Shaka mirando a entrada da sexta casa.

– Muita gente passa por aqui, o dia inteiro. – Comentou, sugestivamente.

Ficaram algum tempo sem dizer ou fazer nada, até que o indiano balançou a cabeça de um lado para o outro, emitindo um som divertido de reprovação com os lábios. Levantou-se, e estendeu uma mão para Mu, que a tomou um pouco a contragosto. Achou que o fato de qualquer um poder entrar ali não era motivo suficiente para que parassem com os beijos e carícias, mas aquilo parecia incomodar Shaka. Não ousava insistir que não havia o menor problema em serem vistos, então se deixou erguer até ficar em pé.

Para seu espanto e delírio, o encontro ainda não estava encerrado. Shaka puxou sua mão com firmeza, o conduzindo até a escada que dava acesso ao segundo andar da casa de Virgem. No final das contas, Shaka não queria que parassem porque alguém poderia vê-los, ele simplesmente queria privacidade! Mu foi conduzido até o pequeno sofá, sentando-se ao lado do virginiano, que o encarava com um bonito sorriso no rosto. Era um sorriso diferente, que Mu só tinha visto quando ele abrira os olhos, e não sabia o que significava; apenas tinha certeza de que era algo bom, e que tinha alguma relação consigo.

Permaneceram de mãos dadas. Os olhos fechados do indiano perderam-se no semblante de Mu, analisando com imensa satisfação, deixando-o constrangido. Mu era discreto e simples, de modo que não gostava de chamar atenção para si. Seu olhar cedeu à timidez, e logo viu-se encarando as mãos unidas que repousavam sobre o tecido do móvel. Sentiu a outra mão de Shaka em seu queixo, erguendo-o com lentidão até que seus rostos estivessem paralelos. O lemuriano sabia que não seria capaz de evitar aquele contato visual e rendeu-se.

Admirou-se com a aparência do aniversariante quando prestou mais atenção.

Shaka tinha os cabelos muito bagunçados, em especial a franja, os fios loiros espetados e despenteados de um jeito incrivelmente sedutor. Tinha um rubor profundo nas bochechas e um inchaço discreto nos lábios. Sua roupa estava desalinhada, uma das mangas do sari azul caindo por seu ombro, deixando mais à mostra a camiseta um tom mais escura que vestia por baixo. Parecia menos divino e mais humano. Mais acessível. Um sonho que poderia se tornar realidade.

Beijaram-se mais uma vez, e mais uma, e outra... Perderam a conta de quantas vezes suas bocas se encontraram, de quantas vezes suas mãos percorreram os cabelos um do outro, de quantas vezes suspiraram ao mesmo tempo, de quantas vezes tocaram-se, abraçaram-se, experimentaram-se. E quando chegou a hora em que Shaka costumava interromper toda e qualquer atividade para meditar sozinho, pediu para que Mu ficasse e lhe fizesse companhia naquele dia especial.

Notas finais
Só para esclarecer: o dia ainda não acabou. XD

Concepções do Shaka sobre aniversários descaradamente baseadas em mim, desculpem! Espero que tenha gostado!
E sim, Aldebaran é um exímio cozinheiro, afinal, é brasileiro e nenhum povo come melhor. XD

Capítulo fluffy, mas como eu sempre digo: momentos bons servem apenas para fazer os ruins serem piores ainda, HIHIHEHAHAHA.

A faculdade não dará trégua essa semana, então é provável que o próximo saia apenas no fim de semana. =/

Obrigada a todos, até o próximo!