Castelo de Areia
15 Depois da tempestade
Notas iniciais
Em seguida, gostaria de pedir desculpas pela demora. Sei que eu disse que teria uma semana tensa na faculdade, mas a minha vida deu uma guinada monstruosa nesses dias, e eu fiquei completamente sem cabeça para a fanfic - e é melhor demorar do que fazer mal feito.
Por fim, eu estou devendo alguns reviews nas fanfics que venho acompanhando, MPs para pessoas queridas e principalmente respostas para alguns reviews que recebi. DESCULPEM! Vou tentar colocar tudo em dia essa semana, portanto me perdoem. Não é descaso, eu juro. >
Sem mais enrolações, vamos à continuação do aniversário do loiro? ;*
Depois da tempestade
Depois de almoçarem juntos, voltaram para o átrio da casa de Virgem. Acima de qualquer coisa, Shaka era disciplinado, e desejar a companhia de Mu não significava que ele não abandonaria a sua meditação naquele dia.
– Mas Shaka, é seu aniversário! – Exclamou Mu, enquanto o virginiano enrolava o rosário de contas no antebraço direito.
– Aí está um outro motivo pelo qual eu não queria falar nada. – O tom arrogante tomou conta de sua voz. – As pessoas ficam usando isso como desculpa para fugirem de seus compromissos. Antes de pensar em aniversário, tenho que pensar que sou o cavaleiro de ouro de Virgem e que tenho deveres a cumprir.
Aquelas palavras deixaram Mu mais envergonhado do que quando estava por baixo do loiro, beijando-o e acariciando-o. Às vezes, sua obsessão por Shaka era tamanha que se esquecia que também era um cavaleiro, e como tal, tinha funções a desemprenhar. Não podia, jamais, se esquecer de seus deveres para com Atena, que eram a verdadeira razão por trás de seu nascimento. Só que Shaka parecia imensamente mais interessante e apaixonante que a Deusa...
– Vou entender se quiser fazer alguma coisa ao invés de ficar aqui enquanto medito. – Disse o loiro, com carinho.
Apenas duas armaduras de bronze necessitavam de alguns reparos, mas não possuíam cavaleiros ainda, então não havia a menor pressa. Deveria, então, praticar sua telecinesia, seu teletransporte ou mesmo algum treino físico. Mas Mu não queria sair dali. Ponderou suas opções por um tempo, e chegou à conclusão de que Atena não morreria caso ele se desse aquele dia de folga. Sentiu-se mal por sua displicência enquanto cavaleiro, mas uma breve olhada em Shaka espantou qualquer possível arrependimento.
– Vou ficar, Shaka. – Observou o indiano andar até o estrado em frente à estátua de Buda e sentar na posição de lótus. Seguiu-o, sentando no nível mais baixo e imitando a pose do outro. – Meditarei com você.
Shaka deixou uma risada escapar pelo nariz.
– Já fez isso antes? – Perguntou com cinismo.
– Para tudo tem uma primeira vez. – Respondeu com meiguice, desarmado Shaka completamente.
– Certo. – O indiano sorriu de leve. – Você precisa esvaziar a sua mente. Deixe todos os problemas, preocupações, emoções e sentimentos de lado, e concentre-se apenas em você. O primeiro método é o da concentração, e você precisa estar com a mente vazia para atingi-lo.
– E se eu não conseguir? – Mu não queria decepcionar Shaka.
– Fica sossegado. Não é algo que se consiga numa primeira tentativa. Apenas tente.
Mu assentiu, assumindo a mesma posição ereta de Shaka. Não tinha, porém, o ar régio e inabalável do cavaleiro de Virgem. A voz melodiosa de Shaka entoou um mantra poderoso, que invadiu os sentidos do ariano no momento em que seus olhos se fecharam. Palavras doces e suaves enchiam o ar, como o canto dos rouxinóis nos bosques de Primavera, dominando e envolvendo Mu em seu encanto. Shaka seria um excelente cantor, pensou enquanto tentava não pensar.
Tentou seguir o dito pelo amigo; buscou livrar a mente de tudo aquilo que acometia seus pensamentos dia após dias. Todas as tentativas, porém, convergiam para o loiro budista à sua frente, de voz arrastada e lábios macios. Era inevitável. Pedir para que Mu esvaziasse a mente no dia em que Shaka revelara ser seu aniversário, presenteando-lhe com uma sessão de beijos e carinhos inebriante, era covardia. Nem se batessem em sua cabeça com todas as armas de Libra aquela ideia seria afastada.
Seus pensamentos vaguearam pelo andar superior da sexta casa, perdidos entre beijos molhados, mãos curiosas e gemidos abafados. Os olhos fechados traziam a imagem do virginiano debruçando-se sobre si, bochechas afogueadas, cabelos bagunçados e sorrisos maliciosos. Quase podia sentir dedos longos passeando por debaixo de sua blusa enquanto lábios quentes mordiscavam e beijavam sua pele. Arrependeu-se por ele próprio ter explorado tão pouco o outro; suas mãos tímidas apenas tocaram os cabelos loiros e deslizaram pelas costas delgadas por cima do sari que Shaka vestia. A timidez o travou, ousando experimentar apenas uma vez ou duas aquele pescoço esguio com seus lábios. Da próxima vez, não poderia esquecer de fazê-lo... Será que haveria uma próxima vez?
Longe do mais ínfimo estado de concentração – a menos que se concentrar em Shaka valesse algo –, Mu acabou desistindo. Descolou suas pálpebras levemente, direcionando o olhar para o rapaz à sua frente.
Esplendoroso como sempre, Shaka estava absorto em sua meditação. Seu estado de espírito era tão elevado que o cosmo propulsionava seus cabelos para cima numa graciosa dança bagunçada, deixando o tilak vermelho à mostra. Mu o admirou por conseguir livrar a mente depois da manhã intensa que haviam partilhado. Contemplou as feições delicadas por muito tempo, perdendo-se em suas mais recentes lembranças.
Teve medo de perdê-lo.
Doloroso havia sido o tempo sozinho em Jamiel, e mais doloroso ainda havia sido a rejeição de Shaka depois de sua volta. Tê-lo tão perto e ao mesmo tempo tão distante fora uma sensação da qual Mu jamais gostaria de desfruta novamente. Aos poucos, dançando conforme a música de Shaka, o ariano conseguira não só se reaproximar, mas dar um passo à frente. As palavras de Shaka de algumas semanas atrás ecoaram em sua cabeça. Somos mais que amigos. Sempre fomos.
Permitiu-se regressar aos tempos de infância, fazendo uma incursão por suas mais antigas memórias ao lado do loiro, buscando algum sentido naquela frase enquanto seus olhos verdes procuraram naquele semblante plácido a criança inocente de outrora. Encontrou-a com facilidade. Lembrou-se das inúmeras vezes que partilharam longos apertos de mão. Lembrou-se das tantas noites que dividiram os mesmos lençóis pelas mais diversas razões. Lembrou-se de todos os abraços desajeitados, quando mergulhava seu rosto naqueles cabelos cheirosos e sentia a tênue respiração do indiano em seu pescoço. Lembrou-se de quando o fazia deitar a cabeça em seu colo, e da vontade que sentia em tocar-lhe os cabelos quando se esparravam por seu peito.
E lembrou-se da vontade repentina de beijar seus lábios na noite de sua partida, impulsionado por seu cheiro viciante e sua carinhosa preocupação. Aquela vontade fora espontânea e, em momento algum, pareceu errada. Errado foi fazê-lo antes de deixar o Santuário sem sequer se despedir; mas o beijo, esse fora a coisa mais certa que já tinha feito até o momento. Só pareceu errado não o ter feito antes, ou não ter tornado a fazê-lo logo após seu regresso. Todas as pistas sempre estiveram lá, no lugar mais profundo de seu coração.
O sol preparava-se para desaparecer do horizonte quando Mu finalmente levantou-se. Suas pernas doeram pela posição desconfortável, obrigando-o a massageá-las antes de andar. Não fora bem sucedido na tarefa de meditar, mas os pensamentos acerca do indiano lhe eram muito mais prazerosos que qualquer plenitude espiritual. Shaka de Virgem era a sua plenitude espiritual.
Reparou que os pires, xícaras e talheres abandonados no canto das almofada haviam sido recolhidos, provavelmente por uma serva silenciosa que não ousou interromper o transe dos jovens cavaleiros. Porém, notou algo fora do lugar naquele canto. Aproximou-se, estreitando os olhos para identificar o pequeno naco escarlate que destacava-se entre as almofadas azuis e verdes – coincidência ou não, as cores dos olhos de Shaka e dos seus. Só percebeu do que se tratava quando ajoelhou-se e estendeu a mão para o objeto: um fino laço de fita. Sentiu o rosto queimar, constrangido: era a fita que usara para deixar os cabelos amarrados na altura dos ombros. Shaka deveria tê-la tirado em algum momento que Mu sequer foi capaz de perceber, tamanha sua entrega aos beijos.
Foi encontrar um espelho no quarto do virginiano, e assustou-se com o estado de seus cabelos, embaraçados e desalinhados. Suspirou quando seus dedos percorreram todo o comprimento à fim de ajeitá-los, lembrando da causa daquela desordem com carinho. Recolocou o laço em seu devido lugar, e já estava quase abandonando o imenso espelho quando algo diferente em si o fez parar no meio do passo.
Uma mancha roxa em sua mandíbula e outras duas em seu pescoço destacavam-se diante do alvor de sua pele. Chegou mais perto, percebendo pequenos pontinhos vermelhos dentro dos grandes círculos púrpura. E mais: havia as marcas perfeitas e rubras de uma arcada dentária na pele de sua clavícula. Mal pode acreditar na ousadia de Shaka ao deixá-lo cheio de marcas! Os outros iriam perguntar, e Mu não sabia quais respostas deveria dar.
Perdido em seu descontentamento, mal sentiu que já não estava mais sozinho, assustando-se quando a imagem do guardião da sexta casa materializou-se no espelho atrás de si como uma aparição. Mu levou uma mão ao peito, assustado.
– Shaka! – Exclamou, tentando parecer impaciente. Não conseguiu.
Com desenvoltura, o loiro venceu a distância entre ambos e envolveu a cintura delgada do lemuriano com seus longos braços, apoiando o queixo em seu ombro e permitindo que seu nariz fossasse os cabelos cor de lavanda. O coração que batia mais rápido pelo susto disparou de excitação, alegria e algo mais que Mu não soube discernir.
– Desculpe-me por isso. – O virginiano murmurou arrastadamente, seus lábios quase tocando a orelha de Mu. Ergueu uma de suas mãos na altura do pescoço do tibetano e tocou as manchas roxas com as pontas dos dedos, fazendo todo o descontentamento de Mu em razão delas desaparecer num passe de mágica. – Acho que me empolguei...
Os olhos verdes procuraram pelos azuis através do espelho. Estavam fechados.
– Abra os olhos, Shaka. – Pediu Mu com sua voz mais manhosa.
– Ainda não estou preparado para fazê-lo a qualquer momento. – Fixou suas pálpebras fechadas no semblante de Mu atrás de sua compreensão. O ariano assentiu, deixando a insinuação de um sorriso percorrer seus lábios.
O abraço foi intensificado pelo indiano, seus corpos se encaixando com maestria. Os olhos de Mu estavam fixos no espelho, atentos a cada movimento calculado do amigo. Acompanhou as duas mãos de Shaka deslizarem por baixo de sua camiseta, erguendo-a o suficiente para que o ariano visse as unhas fincando-se em sua cintura no exato momento em que o toque intenso fazia-o ofegar. Mordeu os lábios e procurou o rosto de Shaka com o olhar, vendo-o ser afundado no meio de seus cabelos lilases. Todo o corpo de Mu estremeceu, e um gemido rouco ecoou pelo quarto quando sentiu algo molhado em seu pescoço.
O instinto o fez fechar os olhos quando jogou a cabeça para trás à fim de dar mais acesso aos beijos e chupões do virginiano, que deslizou a boca pela pele macia até encontrar seus lábios roliços, exigindo-os para si com paixão. Não precisou forçar a passagem de sua língua, pois Mu o recebeu abertamente, afoito por aquele beijo. As mãos do ariano subiram aos cabelos de Virgem, enroscando-se neles e puxando-os com delicadeza, numa tentativa de trazer o rapaz para mais perto de si.
Sem desfazer o abraço, Shaka fez com que Mu ficasse de frente para ele. Ainda por baixo da camiseta, suas mãos percorreram o dorso do ariano em sua totalidade, do ponto mais elevado até o fim da lombar, onde agarrou com força e puxou-o para mais perto, fazendo com que a virilha de um atritasse com a do outro, permitindo que as ereções dos garotos se pressionassem. Os dois gemeram ao mesmo tempo, desfazendo o beijo e juntando as testas. Shaka levou uma das mãos até a bochecha de Mu, afagando com carinho antes de voltar a beijá-lo.
O lemuriano deixou-se conduzir para a cama, onde caiu com leveza e teve seu corpo coberto com o do virginiano, cuja boca passou a explorar o pescoço de Áries com vontade. Todo o ar do mundo não parecia suficiente para Mu, que respirava cada vez com mais dificuldade conforme o contato de seu membro com o de Shaka intensificava-se. As carícias de horas atrás haviam concentrado-se do abdômen para cima, sem se aprofundar nas áreas mais íntimas.
Surpreendido, Mu sentiu a mão de Shaka espremer-se entre os corpos até encontrar seu membro e começar a acariciá-lo numa lenta tortura. Abandonando qualquer resquício de vergonha, Mu juntou sua mão à exploração, tocando e acariciando a ereção do loiro por sobre suas roupas. Aquele singelo toque mútuo, ainda que desajeitado pela falta de experiência, levou o ariano a lugares que jamais pensou existirem. Sentiu que a respiração de Shaka vacilava junto com a sua a cada investida mais profunda, descobrindo-se naquele momento tanto quando Mu.
Os lábios procuraram-se num beijo urgente durante os segundos que antecederam o clímax; Mu foi o primeiro a explodir em prazer, segurando os cabelos dourados com força e suspirando entre um beijo e outro, sentindo seu líquido quente molhar a cueca que vestia. Shaka o acompanhou poucos instantes mais tarde, afundando o rosto nas madeixas lilases e suspirando alto, seu corpo magro desfalecendo sobre o do lemuriano.
Enquanto as respirações não se regularizavam, Mu aproveitou-se da mão que ainda segurava os cabelos loiros na altura da nuca para acariciá-los. Logo sentiu o corpo de Shaka deixar de fazer peso sobre o seu quando girou para o lado, ficando de barriga para cima.
Virou o rosto para Mu, sorrindo travesso.
– Acho que você precisa de roupas limpas. – As bochechas do lemuriano coraram com o comentário, fazendo Shaka rir. O virginiano levou sua mão ao seu rosto angelical, afastando os fios rebeldes da franja com carinho. – E um banho também ajudaria... – Seus dedos percorreram a testa do ariano, limpando a fina camada de suor que ali se formara; tocou os dois pontinhos púrpura com ternura antes de sentar-se na cama.
– É melhor eu voltar para minha casa. – Imitou o virginiano e também sentou-se na cama, determinado a não o encarar. Por Atena, eles haviam acabado de fazer aquilo? Mesmo?
Porém, foi impossível resistir ao toque gentil em seu rosto quando Shaka o obrigou a encará-lo.
– Fique esta noite. – Pediu o loiro, num sussurro cúmplice.
Sua força de vontade não era grande o suficiente para resistir a qualquer pedido do indiano e mesmo que fosse a maior do mundo, jamais teria recusado aquele pedido caloroso e humilde. Anuiu minimamente, arrancando um sorriso de Shaka.
Viu o indiano deitar-se novamente na cama, todo espichado com a mão buscando alguma coisa guardada no criado-mudo. Voltou a sentar às costas de Mu, que sentiu um leve puxão em seus cabelos quando a fita que os prendia foi removida. Em sua totalidade, Shaka envolveu os fios violáceos entre suas mãos, recolhendo cada mecha que teimava em separar-se das demais.
– Não pode molhar os cabelos... – Mu sentiu o hálito quente contra sua nuca, e desejou-o mais uma vez. Necessitava dele com uma urgência que beirava a insanidade.
Shaka ergueu o emaranhado de cabelos e os enrolou num coque apertado, usando um elástico para prendê-lo no topo da cabeça de Mu. Por mais simples e sem intenções que a ação tivesse sido, o ariano sentiu seu corpo responder à proximidade.
– Vá na frente. Levarei uma toalha e roupas limpas para você. – Com um pulo, Shaka saiu da cama e foi na direção do roupeiro de madeira idêntico ao da casa de Áries.
Quando Mu andou, percebeu que sua felicidade era tamanha que parecia flutuar a cada passo. Sentia-se nas nuvens, vivendo seu sonho mais secreto e profundo. Perguntou-se o quanto faltava para acordar, e decidiu que não queria saber a resposta.
A casa de banho de Virgem era muito parecida com a de Áries; a única diferença que Mu notou logo de cara foram os infinitos vidros de xampus, condicionadores, óleos, cremes e loções que encontravam-se ao lado da banheira de mármore esculpida no chão. Abriu todas as seis torneiras, deixando que a água quente escorresse o mais rápido possível, enchendo o recinto com seu vapor caloroso. Livrou-se das roupas pegajosas, fazendo uma trouxa com elas e fazendo uma nota mental para não se esquecer de levá-las consigo quando voltasse para a primeira casa. Removeu as ataduras que envolviam seus pulsos e reservou-as num canto, para que não molhassem durante o banho.
A água estava quente demais quando colocou um pé dentro da banheira, mas não se deu ao trabalho de esperar, afinal, mais quente do que ele próprio já estava, era impossível ficar. Afundou-se no líquido fumegante, sentindo a pele arder com o contato; concluiu, porém, que a pele de Shaka de encontro com a sua queimava com maior intensidade. Fechou os olhos por um momento, desfrutando não dos prazeres do banho, mas dos prazeres de ter compartilhado com Shaka momentos tão perfeitos naquele dia.
Por mais que se esforçasse, não conseguia entender o que se passava na mente do virginiano. Suas reações sempre surpreendiam Mu, que nunca sabia o que viria a seguir, incapaz de prever qualquer movimento dele. Sentia-se estranhamente nas mãos de Shaka, como se fosse controlado por ele de uma forma que independesse de sua vontade. Tudo acontecia ao tempo e à maneira do indiano, como se ele fosse o senhor do universo em que os dois estavam inseridos. E aquilo, de uma maneira estranha, lhe agradava.
A dor por ser ignorado no começo há muito o havia abandonado, como se jamais tivesse se entristecido pela atitude distante do outro em relação em si. Era invadido diariamente pela alegria de tê-lo de volta em sua vida; apenas ele, como anos atrás.
Seus pensamentos foram invadidos por uma voz descontraída.
– Trouxe uma lamparina, já está ficando escuro lá fora...
Virou-se para encará-lo no exato momento em que Shaka fazia o sari azul passar pela cabeça junto de sua camiseta, ficando apenas de cueca.
Suas pupilas dilataram-se com o espanto, e quase saltaram das órbitas quando o loiro removeu a cueca, expondo toda a sua nudez sem qualquer pudor. O corpo de Mu todo ficou quente, sem relação alguma com a temperatura da água, e sua cabeça voltou-se para o outro lado com rapidez, numa tentativa de não ver mais nada. Ouviu uma risada abafada quando Shaka entrou na banheira, o nível de água subindo ao ponto de fazê-la transbordar em alguns pontos.
– Você encheu demais... – Comentou o aniversariante, divertido.
Mas é claro que Mu enchera demais; jamais passara pela sua cabeça que duas pessoas partilhariam daquele espaço. Em sua inocência, tomaria banho primeiro, seguido por Shaka, mas nunca estivera tão errado em sua curta existência. Sentiu-se a ponto de desmaiar quando o corpo do loiro encostou no seu, envolvendo-o em um abraço por trás; o lemuriano foi acomodado entre as pernas de Shaka, seu dorso encaixando-se no abdômen do companheiro. Quis escapar, mas o virginiano o manteve preso com os joelhos flexionados na altura de seu peito.
– Vou ficar cheirando como você. – Áries estendeu a mão trêmula para o frasco mais próximo, levando-o à altura dos olhos como desculpa para desviar sua atenção daquele contato. Tentou manter a mente ocupada, sem pensar na pele macia que envolvia a sua, sem pensar que estavam nus dentro de uma banheira, sem pensar em como gostava de seus beijos, sem pensar no que havia acabado de fazer no quarto... Mas Shaka não colaborava.
– Oh, isso será uma pena... – Mu sentiu as palavras serem proferidas de encontro com a pele sensível de sua nuca. O nariz arrebitado do virginiano passeou de um lado para o outro, roçando, por fim, nos cabelos presos. – Gosto do cheiro que você tem.
Shaka recostou-se à borda da banheira e arrastou Mu consigo, deixando muito claro que sua intenção não era fazer uma higiene corporal minuciosa, mas sim desfrutar da companhia do tibetano. Mu devolveu o frasco para junto dos outros, e sentiu uma mão segurando seu pulso.
– Não é justo que você tenha que dar seu sangue para consertar aquelas armaduras. – Disse o loiro, erguendo o pulso cheio de cicatrizes de Mu na altura dos olhos fechados, fazendo um formigamento gostoso instalar-se no ventre do ferreiro das armaduras sagradas. Voltou a abraçar a cintura de Mu, partilhando do silêncio reconfortante e do calor da água durante o gesto.
Desprovido da capacidade pensar, Mu viu-se exteriorizando em voz alta uma dúvida pessoal.
– Por que me beijou naquele dia e hoje, Shaka? – Sua voz não tinha mágoa ou rancor, apenas curiosidade.
– Por que me beijou no dia que deixou o Santuário? – Volveu Shaka, a voz decidida, como se a pergunta estivesse pronta há tempos.
Os pontinhos na testa de Mu contraíram-se pela dúvida de se devia falar ou não.
– Eu tive vontade. – Conseguiu murmurar, tão baixo que só foi possível ser ouvido graças a proximidade com o cavaleiro. – Você estava sendo tão carinhoso comigo... E então você sorriu, e eu soube que eu precisava fazer aquilo.
O silêncio sucedeu suas palavras enquanto Shaka estava pensando. Mu fechou os olhos, recostando-se um pouco mais no amigo, sentindo seu peito subir e descer conforme respirava.
– Também tive vontade. – Finalmente Shaka confessou. – Mas, diferente de você, eu fiz isso quando estava feliz, e não chateado. – Completou, ressentido.
Mu não sabia se aquelas palavras o deixavam triste ou alegre. Foram proferidas com um rancor que ele, até então, desconhecia, mas uma palavra ganhou destaque na frase. Feliz, repetiu sua mente, assumindo a voz de Shaka. Feliz, feliz, feliz.
– Eu te faço feliz? – Precisava saber.
– Sempre fez. – Um beijo suave em seu pescoço foi usado como ponto final para aquela sentença.
– Por quê? – Não conseguia controlar mais as palavras que saíam de sua boca, ansioso por aquela brecha de intimidade que abrira na carapaça do virginiano.
– Essas coisas não se perguntam, Mu. – Mesmo sem vê-lo, Mu sabia que um sorriso se formara em seus lábios.
Aos poucos, a água da banheira começou a esfriar, mas isso não era capaz de apagar o calor que Mu sentia espalhar-se por seu corpo a partir de cada pedaço de sua pele que encostava na de Shaka. Não soube dizer quanto tempo ficaram abraçados, mas o sol já não entrava mais pela pequena janela de vitrais coloridos e a luz da lamparina era o que os impedia de cair na escuridão quando voltaram a conversar.
– Por que você nunca desistiu de mim? – Shaka quebrou o silêncio com um sussurro indiferente, que em nada condizia com a intensidade de sua pergunta.
– Desistir de você seria como... desistir de mim. – Só percebeu a amplitude de suas palavras depois de proferi-las, e levou uma mão até a boca, como se tal gesto fosse capaz de apaga-las. Não que suas palavras fossem mentira, mas não queria assustar o loiro. Resolveu desconversar. – Por que você nunca me repeliu como fez com todas as outras pessoas? – Menos Camus, foi inevitável pensar.
Sentiu o peito de Shaka abaixo de si subir alto e descer lentamente, um suspiro escapando de seus lábios. Fugir de uma resposta constrangedora com uma pergunta intensa era sempre uma boa alternativa.
– Você me cativou há anos. Ganhou minha confiança com sua pureza. É diferente de todos os outros. – Desprendeu uma das mãos do abraço que envolvia o ariano para acariciar seus cabelos, afrouxando o coque para que seus dedos pudessem mergulhar entre os fios e tocar-lhe o couro cabeludo. – Você é doce, gentil, amoroso e nunca mediu esforços por mim. Sei que nunca vou encontrar alguém como você. – À medida que as palavras eram despejadas, sua voz tornava-se mais baixa até que falou, no limite do audível, a frase que Mu mais desejara ouvir em sua vida. – Por isso eu senti tanto a sua ausência.
A alegria de uma multidão apossou-se de Mu; virou o rosto para trás, à procura do de Shaka, que estava parcialmente iluminado pela lamparina que descansava no chão. Havia mágoa em sua expressão, como se as lembranças em sua mente o fizessem sofrer, mas havia também alegria. Com aquela confissão, descera de seu pedestal imaculado de cavaleiro de ouro de Virgem para ser simplesmente Shaka, um adolescente lutando contra seus sentimentos, humano acima de qualquer coisa.
Mu levou uma mão molhada até o rosto de Shaka, colocando atrás de sua orelha um fio de cabelo dourado que se soltara do coque, e deu um beijo estalado em seus lábios. . O indiano sorriu com ternura.
– Adoro esse seu jeito tímido e inocente. – Deslizou a mão até uma das bochechas do ariano, apertando-a com um beliscão carinhoso. – Ficou morrendo de vergonha quando entrei aqui... – Riu Shaka, descontraído. A mudança no tom era um sinal para que lemuriano não insistisse na confissão de segundos atrás.
Fitou o rosto de Shaka por muito tempo, tentando assimilar toda aquela mudança de comportamento, todas aquelas revelações, todo aquele carinho. Todos os desejos mais profundos e secretos do ariano estavam realizando-se naquele dia, e teve mais certeza do que nunca de que o tempo dedicado aos bolos de aniversário naquele último mês fora a melhor escolha de toda a sua vida. Voltou a ficar de costas para Shaka, permitindo-se ser envolvido mais uma vez por aquele abraço quente.
Sentiu as mãos do indiano percorrendo seus braços até encontrarem suas próprias mãos por baixo da água. Os dedos entrelaçaram-se, e Shaka ergueu-os na altura dos olhos verdes de Mu.
– Melhor sairmos... Olhe como nossos dedos estão. – Apoiou o queixo no ombro de Mu, mirando o enlace de dedos pálidos e enrugados.
O lemuriano não queria sair dali. Era bem verdade que ainda sentia-se envergonhado com a nudez e a proximidade de ambos, mas parecia que deixar a casa de banho seria como acordar de um sonho bom. Um alto muxoxo de impaciência ecoou pelo banheiro quando Shaka desfez o abraço e ficou de pé, a água pingando de seu corpo e caindo no ombros e cabelos de Mu.
Instintivamente, seus olhos recaíram sobre a água, evitando olhar para o corpo nu do cavaleiro de Virgem. Viu a imagem de seu próprio corpo delgado distorcida pela água, e ficou se perguntando o quanto Shaka teria visto de sua nudez no tempo que passaram ali. Prestou atenção nos sons ao seu redor. Ouviu um suave roçar de pano com pele quando Shaka enxugou a água do corpo e o farfalhar de várias camadas de tecidos quando o indiano permitiu que um sári escorregasse por sua cabeça. Os pés descalços estalaram de encontro com o chão molhado, e uma porta sendo aberta e fechada com suavidade indicou que Mu estava mais uma vez sozinho.
O jantar estava servido na pequena mesa de carvalho da cozinha quando Mu terminou de se arrumar. Trocaram uma infinidade de sorrisos cúmplices entre uma garfada e outra, que faziam o ariano ter vontade de dançar com alegria. Não pode deixar de reparar em como Shaka se portava bem à mesa; os cotovelos não encostavam no móvel, seus dedos seguravam os talheres com elegância e dividia tudo em pequenas porções, as quais mastigava morosamente. De forma automática, Mu passou a imitar aqueles modos sofisticados com a mesma graça do virginiano.
Uma garfada antes do fim da refeição, Mu cobriu a boca com uma das mãos e fechou os olhos, deixando escapar um sonoro bocejo, fazendo Shaka rir.
– Sono? – Perguntou divertido. Mu assentiu, um pouco embaraçado por não ter contido o ato. – Termine logo e vamos deitar.
Um quarto de hora mais tarde, os dois cavaleiros estavam deitados na enorme cama de dossel da casa de Virgem, cobertos por uma colcha de retalhos que trazia uma mescla de cheiros que Mu não foi capaz de distinguir. A única luz do ambiente provinha de algumas velas aromáticas de alfazema que Shaka acendeu sobre cada um dos criados-mudos e que deixavam o ar impregnado de serenidade. Coincidência ou não, era a mesma fragrância dos perfumes e sabonetes que Mu usava.
O olhar do tibetano acompanhou o lento tremular das chamas das velas, o fogo dançando na pureza de suas íris esverdeadas. Sentiu Shaka mexendo-se ao seu lado, e uma mão quente puxou-o para um abraço. Tal como banheira, o virginiano ajeitou-se às suas costas, fazendo seu abdômen se encaixar na espinha de Mu. Com delicadeza, Shaka afastou a cortina de cabelos lilases do pescoço do ariano e descansou seu queixo na curva que fazia com o ombro.
– Sempre gostei de dormir com você. – Ronronou junto a pele lívida de Mu, que suspirou profundamente, em parte pelo contato, em parte pelas palavras.
– Eu também. – Aconchegou-se mais, procurando a mão que lhe envolvia a cintura com a sua; não pode deixar de sorrir quando sentiu sua pele esbarrar nas contas de um certo rosário. Era incrível como Shaka não esquecia de seus deveres nem por um instante. – Você é tão quente. – Comentou, mais para si do que para o outro, que plantou um beijo estalado em seu pescoço como resposta.
Entregou-se à profusão de sensações que invadiam seu corpo e sua alma, permitindo-se esquecer de que havia um mundo para além das portas daquele quarto. Fechou os olhos e tentou imaginar uma alegria maior da que sentia naquele momento, mas percebeu que não existia.
– Shaka? Já está dormindo? – Perguntou, exitante, quando lembrou de que se esquecera de uma coisa.
– Não mais... – O tom do loiro era descontraído.
– Feliz aniversário. – Apertou a mão do aniversariante com mais força. Mu tinha os olhos fechados, o quarto estava envolto pela escuridão e, como se não bastasse, Shaka encontrava-se às suas costas. Porém, de uma forma que não compreendia, soube que ele sorria, e sorriu também. Adormeceram com a felicidade estampada em seus rostos angelicais, afinal, depois de tantas tempestades, finalmente chegara a calmaria.
• • •
As cortinas do dossel estavam fechadas quando acordou na manhã seguinte, impedindo que a luz do sol perturbasse seu sono. Sorriu, lembrando-se que estavam abertas quando foram dormir na noite anterior. Virou-se para o lado e constatou que estava sozinho, aproveitando então o momento para repensar nos acontecimentos das últimas vinte e quatro horas. Só percebeu que sorria afetadamente quando os músculos de sua face começaram a doer.
Uma das cortinas foi aberta, e uma cabeleira loira emergiu pela fresta.
– Pensei que não fosse mais acordar. – Sorriu Shaka, cheio de carinho, sentando-se na cama com uma xícara de chá entre as mãos. – Chá? – Ofereceu, estendendo a própria xícara para o ariano.
Mu não queria chá, mas não conseguiu resistir àquela oferta. Sentou-se na cama e estendeu as mãos na direção do loiro, que colocou o objeto entre elas. O cheiro forte de canela encheu suas narinas assim que levou a bebida aos lábios, sorvendo com urgência. Torceu para que os lábios de Shaka tivessem tocado no mesmo ponto onde agora estavam os seus. Alguns goles depois, devolveu a xícara a seu dono para que terminasse de beber.
– Que horas são? – Quis saber o lemuriano.
– Já passou das nove. – Respondeu o indiano ao afastar a xícara dos lábios. – Camus e Milo já passaram por aqui.
Os olhos verdes se arregalaram.
– Eles... sabem que eu... – Não conseguia achar as palavras adequadas para formular uma frase coerente.
– Mu, todos que passaram por aqui ontem sabem. – O riso do virginiano fez Mu se acalmar. – Sentiram seu cosmo aqui pela manhã, no fim da tarde e hoje novamente. Vão ligar as coisas... você sabe.
Mu sabia.
As paredes tinham ouvidos dentro do Santuário, e era quase impossível que alguém tivesse privacidade. Raras eram as coisas que escapavam dos comentários dos fofoqueiros de plantão e, sem dúvida, o cavaleiro de Áries dormindo na casa de Virgem não estava entre tais exceções.
– Você se importa? – Perguntou o loiro, fixando seus olhos fechados no rosto bonito de Mu.
– Com o que?
– Com o que irão comentar sobre nós. – Explicou Shaka.
– Não. – A resposta veio antes que sequer pensasse nela. – E você?
– Nem um pouco. – Shaka sorriu, estendendo uma mão para os cabelos violáceos de Mu. Ajeitou alguns fios rebeldes que caíam sobre suas feições, deixando-as livres de qualquer mácula. – Coma alguma coisa e vamos descer. Falei para Camus e Milo que nos juntaríamos a eles mais tarde.
Antes de se levantar, Shaka aproximou-se do rosto de Mu, dando-lhe um beijo demorado com seus lábios de canela.
Notas finais
Espero que tenha gostado, do fundo do meu coração. ^^
Revisei com sono e com o humor instável, portanto ignorem possíveis erros e coisas sem sentido. LOL
Até o próximo, gente maravilhosa. :*
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