Castelo de Areia
1 Prólogo
Notas iniciais
Comecei escrevendo para mim, sem a intenção de postar. Quando vi a primeira fanart de Shaka e Mu juntos, as ideias começaram a aparecer sem pedir licença. Surgiu antes que eu lesse fanfics dos dois e soubesse como são caracterizados no fandom; assim, esse é o modo como eu os concebi em minha mente.
Queria algo grande. Mostrar os sentimentos nascendo, as pessoas se descobrindo juntas. Haverão muitas cenas do dia a dia, com o único propósito de fortalecer os laços entre os personagens. Um projeto ousado para uma novata, eu admito, mas é um risco que vou correr.
Acima de tudo, é uma história sobre escolhas e suas consequências na vida das pessoas.
Boa leitura. :*
Prólogo
Chegou com os primeiros raios do sol da manhã, que iam, pouco a pouco, inundando a paisagem, do mais simplório alojamento até a Câmara de Atena. Uma brisa morna acompanhava o despertar o dia, deixando de lado o vento gélido que soprara desde a hora mais escura da noite. O cheiro salgado de algas e da maresia impregnava o ar conforme as ondas iam se formando, para depois acabarem por se arrebentar na costa. Poucos tinham o hábito de despertar tão cedo, o que fazia do canto dos pássaros e do farfalhar das folhas nas árvores os únicos sons audíveis.
Alguns rostos familiares surgiam à medida que caminhava rumo ao seu destino. Pode ver o espanto em seus olhos; ninguém, exceto Atena, o esperava ali. Estivera fora por quatro anos e, tal como das demais vezes que se exilara por tanto tempo, as coisas não haviam mudado muito naquele pequeno pedaço de terra no sudeste da Grécia. Encheu os pulmões com o ar da manhã, satisfeito. Nasceu longe dali, entre as maiores montanhas que a Terra conhecia, mas foi entre as ruínas do berço da civilização ocidental que Mu encontrou seu lar.
A necessidade acabou fazendo com que gostasse de recolher-se à paz e ao silêncio do pagode sem portas ou escadas de Jamiel para desfrutar da solidão, mas, por um motivo ou outro, ele sempre retornava. Fosse pelo lugar, pelas pessoas ou pelas lembranças, o fato é que, mesmo com o corpo isolado nos confins do planeta, sua mente e sua alma nunca haviam deixado a casa de Áries, que ocupara dezessete anos atrás.
Em seus planos, contudo, não estava retornar tão cedo. Os tempos eram de paz, e as Doze Casas tinham muitos bravos cavaleiros, com predisposição para batalhar muito maior que a sua; desprotegida, Atena não estava. Ao menos ela ouvira, ainda antes da Guerra Santa, as súplicas de Dohko de Libra, Mestre do Santuário à época, e mudara do Japão. Não havia o que se preocupar.
Mu ainda não estava pronto para confrontar seu passado.
Porém, na semana anterior, um velho amigo, que agora caminhava ao seu lado, chegara em seu exílio voluntário com a missão de trazê-lo de volta. Normalmente, Mu recusaria, mas Shiryu de Dragão trazia uma carta escrita pelas mãos de Atena, pedindo seu retorno. Sem justificativas ou motivo aparente. Interrogara Shiryu por incontáveis horas, pois se uma nova guerra estava para se formar, ele precisava se preparar.
– A paz reina na Terra e no Santuário, Mu. – Repetiu pela enésima vez, até que o ariano se convenceu.
Kiki, discípulo de Mu há quase uma década, mal podia conter sua empolgação quando pisaram na planície de Ática. Jamiel não é o melhor lugar para um adolescente, concluiu Mu ao ver o sorriso de orelha a orelha de Kiki, seguido por uma quantidade exagerada de interjeições de admiração enquanto avançavam em seu trajeto. Kiki tinha energia demais, e não vinha gastando-a como deveria. Aprimorar suas habilidades lemurianas, aprender o controle do cosmo e a arte de restaurar armaduras não eram mais suficientes; precisava dar socos e chutes para extravasar toda sua energia. Faltava-lhe a dádiva da paciência.
Quando a casa de Áries apareceu em seu campo de visão, Mu passou os polegares pelas tiras que prendiam a caixa da Pandora em suas costas, dominado por um sentimento ao mesmo eufórico e temeroso. Suspirou. Estava de volta. O guardião da primeira casa zodiacal.
Despediu-se de Shiryu, que murmurou algo sobre ir para a arena de treinos.
– Mestre Mu, o senhor se importaria se eu o acompanhasse?
Um Kiki saltitante acompanhou o cavaleiro de Dragão quando seu mestre não fez nenhuma objeção.
• • •
Enormes pilares sustentavam o teto da primeira casa. Tudo por ali era branco, tão branco que doía nos olhos. Em tempos passados, aquele lugar fora repleto de armaduras aguardando reparos, suas cores dando vida ao lugar, e Mu esperava que logo aquilo se repetisse. Atrás de um pilar escondia-se uma passagem em forma de arco, com uma escada que levava ao andar de cima, conduzindo aos aposentos privados do cavaleiro de Áries. O lemuriano subiu com delicadeza, saindo numa pequena sala, com um sofá de dois lugares, uma mesa de canto e uma escrivaninha. Cada parede tinha uma porta; a da direita levava ao quarto e à casa de banho, a da frente levava à biblioteca, a da esquerda levava à cozinha.
Foi primeiro à biblioteca, que possuía imensas estantes, que iam do chão até o teto, confeccionadas em jacarandá. Eram seis no total. Continham centenas de livros. O ariano andou entre elas, passando os dedos pelos livros muito desgastados pelo tempo. Demorou-se. Ainda tinham o mesmo cheiro de mofo que limpeza nenhuma era capaz de tirar. Era o cheiro do tempo, da sabedoria, da longevidade. Alguns daqueles volumes estavam ali há séculos, escritos num grego tão arcaico que até Shion de Áries, mestre de Mu, tivera dificuldade de ler.
A cozinha era simples. Fogão, alguns armários, uma mesa rústica com quatro lugares. A janela sem cortinas estava aberta, deixando a brisa quente de Primavera encher o ambiente. Foi até ela, observando a paisagem com nostalgia. Seguiu para seu quarto.
Era sua parte favorita. Uma enorme cama de casal, com lençóis de algodão em tons de coral e laranja, ocupava a maior parte do espaço. Na parede da esquerda, um enorme espelho, que ia até o chão. O pequeno roupeiro de mogno estava apinhado com seus pertences deixados para trás. A decoração completava-se com criados-mudos em ambos os lados da cama, uma lamparina em cima de cada, além de algumas prateleiras nas paredes. Deitou-se na cama, mirando o teto. O cheiro do limão, usado para limpar o tapete do centro do quarto, impregnava o ar.
Teve medo de fechar os olhos e ver as imagens do passado que aquele cômodo carregava.
• • •
A primeira coisa que Mu precisava fazer era visitar Atena. A Deusa, àquela altura, deveria ter sentido o cosmo do cavaleiro de Áries no Santuário mas, ainda assim, ele passaria pelas Doze Casas do Zodíaco para ter com ela. Devia sua vida à jovem de cabelos lilases como os seus. Com a derrota definitiva de Hades quatro anos atrás, Atena pôde trazer de volta seus cavaleiros dourados. O ato de gratidão e misericórdia quase lhe custara a vida, tamanha fora a cosmo energia necessária para tirar do Submundo os doze guerreiros mais poderosos daqueles tempos.
Antes, porém, foi a casa de banho no fim do corredor. Despiu as roupas da viagem, e mergulhou na banheira de água morna, tomando todo o cuidado para não molhar os longos cabelos lavanda, do contrário, teria que visitar a Deusa com eles encharcados. Permitiu-se relaxar por alguns instantes, fechando os olhos, extasiado, enquanto o vapor d'água enchia o ambiente. Em Jamiel, Mu dispunha de uma simples tina para os banhos, o que não o permitia desfrutar dos prazeres daquele ato.
Tentou não pensar, mas viu que era impossível.
Vestiu sua armadura. Um defensor de Atena não podia se dar ao luxo de dispensar certas formalidades ao comparecer à presença da Deusa. Polida antes da partida, a armadura de Áries reluzia como o sol do Verão. Mu olhou-se no espelho. A pele lívida de seu rosto estava corada pelo calor do banho, conferindo-lhe um aspecto mais doce e angelical do que de costume. Os cabelos lisos e lilases, que chegavam na metade de suas coxas, foram presos com uma fita carmesim abaixo dos ombros, à exceção da franja que ladeava suas feições. Sua aparência era a mesma desde os quinze anos, e se não fosse a experiência e sabedoria que fluíam de seus olhos verdes, seria facilmente confundido com um adolescente.
Mu gostaria de ser um adolescente de novo. Uma nova chance, pensou, triste.
Mirou seu reflexo uma vez mais, enrugando os sinais em sua testa, que davam lugar às sobrancelhas. Faltava algo. Foi até o roupeiro, e de lá tirou uma capa branca como a neve e prendeu-a delicadamente sobre os ombros. Voltou ao espelho e sorriu, satisfeito. Estava digno de Atena. Sabia, porém, que não era para a Deusa que se arrumara.
• • •
A casa de Touro parecia abandonada, como se há muito ninguém a habitasse. Por onde andaria Aldebaran, seu único vizinho? A casa de Gêmeos também estava vazia, sem o menor sinal de seu novo cavaleiro, Kanon, reconhecido pela armadura depois de Saga assumir o posto de Grande Mestre à pedido de Atena – numa espécie de segunda chance. Seguiu para a quarta casa, Câncer, onde um Máscara da Morte mau humorado foi acordado pela cosmo energia que Mu aumentou para anunciar sua presença. Nunca muda, pensou Mu, quando o cavaleiro voltou aos seus aposentos particulares, resmungando.
A quinta casa, Leão, também tinha o aspecto de abandono. Ao terminar de atravessá-la, Mu parou. Ergueu os olhos verdes, e lá estava ela: a casa de Virgem. Duas estátuas de Buda, uma de cada lado da entrada, além das várias estátuas menores com a imagem da Virgem Astréia, filha de Zeus e Têmia, adornavam as paredes da casa que fora tão sua quanto a primeira. Shaka...
Os degraus pareceram intermináveis. Quando apenas um lance de escadas o separava da entrada, Mu retirou seu elmo, segurando-o firme contra o peito.
A casa de Virgem tinha cheiro de sândalo, cravo e canela. O chão, no mais branco dos mármores, era impecável. No centro do átrio, uma estátua de Buda tão grande que impedia que a saída fosse vista; à frente desta, um estrato do mesmo mármore que o chão, onde Shaka costumava meditar o dia inteiro.
Mas o homem mais próximo dos deuses não estava ali.
– Shaka? – Chamou um Mu exitante, com sua voz e com sua mente.
Nada.
Nem sinal do cosmo do virginiano. O que significada, então, que Mu poderia passar. Ou a casa de Virgem estava vazia, ou Shaka não se incomodava com sua passagem. Ou – o pensamento fez o coração de Mu doer – estava sendo ignorado mais uma vez.
Rumava para a saída quando algo chamou sua atenção. As enormes portas cinzas à esquerda, decoradas com uma esplendida flor de lótus, estavam entreabertas. Incapaz de conter a saudade, Mu dirigiu-se a elas, abrindo o suficiente para passar. O cavaleiro de Áries nunca estivera no Jardim das Árvores Salas Gêmeas, e um brilho de fascinação cruzou seu olhar diante da visão.
A relva verde estendia-se até onde sua vista alcançava. Não devia ter mais que um palmo de altura, e a brisa fazia com que ondulasse ritmicamente, parecendo ter vida. Flores das mais diversas espécies despontavam por entre os fios de grama, como detalhes coloridos de um gigante tapete de veludo. Duas imponentes e idênticas árvores erguiam-se no ponto mais distante do Jardim, e o vento fazia com que pétalas cor de rosa e folhas verdes se soltassem de suas copas. O lugar parecia saído de um sonho bom, cuja melhor parte era a figura resplandescente de Shaka de Virgem meditando em seu centro.
Sentava-se na posição de lótus, fazendo a tríade com os polegares, indicadores e médios de cada mão; trazia o rosário de cento e oito contas, todas negras agora, enrolado ao longo de seu antebraço direito, terminado por entrelaçar-se em seus longos dedos. A pele era branca como alabastro, e os cabelos, dourados como o sol, caíam sobre suas costas, tremeluzindo com o vento. Não, pensou Mu, não é o vento. A grama e as árvores moviam-se graciosamente para a direita, mas os cabelos de Shaka ondulavam para cima, com as pontas levemente curvadas, planando com a força de seu cosmo. A franja flutuava, descobrindo sua testa, o tilak vermelho entre suas sobrancelhas à mostra. Os olhos estavam fechados com suavidade, mas o ariano lembrava-se. Azuis.
Sua imagem era digna de um deus. Não emanava cosmo algum, mas seu poder era palpável no ar. Faria o mais poderoso dos cavaleiros recuar. Imóvel como uma estátua, resistente como uma montanha, inexpugnável como o Muro das Lamentações.
Mas não meditava sozinho.
Um garotinho, que não passava dos dez anos, estava ao seu lado, na mesma posição. Os cabelos negros ondulavam com o vento, não com seu poder, e não conseguia ocultar seu cosmo com a maestria do cavaleiro da sexta casa. Vestia um sári marfim semelhante ao de Shaka. Mu nunca vira o menino antes. Seria um pupilo? Um aprendiz? Seria... o herdeiro da armadura sagrada de Virgem? Impossível. Shaka era muito mais poderoso nessa idade, lembrou-se, com um sorriso orgulhoso no rosto.
Em transe, Shaka não mexia um músculo. O jovem, porém, ajeitava-se discretamente, incomodado com a presença de Mu. Ora mexia o nariz, ora as mãos, ora seus olhos vacilavam e ele quase os abria.
O ariano recuou, voltando à casa de Virgem. Shaka não interromperia sua meditação a menos que algum cosmo maligno se aproximasse de sua casa. As esperanças de Mu de conversar com o cavaleiro de Virgem naquele momento evaporaram. Tinha tanto que queria dizer, tanto que queria compartilhar... Não o via há tanto tempo, e parecia que não tinha envelhecido sequer um dia. Você não pode, Mu, falou sua consciência, não desta vez.
Em outros tempos, o ariano teria esperado até que a meditação acabasse para conversarem. Num extremo, o loiro até interromperia sua conversa com Buda para lhe dar um pouco de atenção. Mas as coisas não eram mais as mesmas. Mu não queria lembrar, não podia lembrar. Doía demais. Diz-se que o tempo cura qualquer ferida, mas rever Shaka fez Mu ter certeza de que isso era uma grande mentira inventada por alguém que nunca amou.
Seguiu em frente, mesmo sem querer abandonar aquele lugar.
A casa de Libra estava vazia, a urna da armadura no centro do saguão, aguardando a chegada de seu herdeiro. Dohko tinha pedido a Atena que não o ressuscitasse. Duas Guerras Santas foram suficientes, e ele queria poder descansar junto de Shion.
Na metade da escadaria que conduzia de Libra à Escorpião, uma risada estridente encheu o ar. Mu sorriu, espantando os pensamentos sobre Shaka. O Santuário ainda estava vivo! Atravessar sete das Doze Casas sem ter um diálogo estava levando Mu a crer que alguma coisa tinha acontecido com os mais poderosos defensores de Atena.
Apressou o passo e logo encontrou Milo de Escorpião, guardião da oitava casa, acompanhado por Kanon de Gêmeos, Camus de Aquário e Shura de Capricórnio. Todos levantaram-se animados para cumprimentar o cavaleiro de Áries. Depois de algumas piadas, elogios e provocações, Mu sentou-se entre eles, as pernas cruzadas sobre o piso frio. Precisava distrair a mente antes de ver a Deusa.
– E Aldebaran? – Quis saber.
– No Brasil, – adiantou-se Milo – desde o ano passado! E Aiolia saiu em missão com Aiolos, para procurar novos jovens para as armaduras de prata e bronze. – Completou, lendo os pensamentos de Mu.
Não contendo a curiosidade, viu-se falando sobre quem não queria nem pensar.
– E por falar em armadura, quem era o garoto meditando com Shaka?
Os cavaleiros trocaram risos de cumplicidade, com exceção de Camus, que mantinha sua postura indiferente. Mu não entendeu a piada. Shura foi o primeiro a falar.
– Ele não é o herdeiro não, se é isso que você quer saber. Shaka tem deprimido alguns garotinhos inocentes nos últimos tempos...
– Deprimido? – Estranhou o ariano; Shaka nunca deprimira ninguém.
– As coisas sempre mudam, Mu... – Foi a vez de Milo começar a falar, muito provavelmente porque seu impulso por fazê-lo era imenso. Havia mais significado naquelas palavras do que Mu desejava, fazendo-o temer pelo que o futuro lhe reservava. – Alguns jovens aspirantes vem sendo treinados por Shaka a pedido de Atena. Mas ele não é... uma companhia muito animadora. Acho que sua busca por iluminação finalmente o enlouqueceu.
O lemuriano franziu o cenho.
Milo assumiu a posição de lótus, fez a tríade com ambas as mãos, fechou os olhos e começou a falar, mudando a voz.
– A vida passa depressa demais e, antes que possamos perceber, tudo transforma-se em poeira cósmica diante de nossos olhos. Ilumine-se. Dentro de você está o poder de superar todas as adversidades que a vida colocará em sua jornada.
– A morte é nosso destino. – Shura assumiu a mesma posição que Milo, imitando a voz melodiosa e arrastada do cavaleiro de Virgem. – Os prazeres mundanos são apenas meios que o homem usa para não pensar no inevitável. Somente a iluminação...
Shura não conseguiu terminar a frase, pois os demais cavaleiros começaram a rir, impelindo-o a fazer o mesmo. Todos, menos Mu. Até Camus esboçou um sorriso nos lábios.
– Qual o problema com ele?
– Qual o problema? Não sei nem por onde começar, Mu. E olha que eu não tenho muita moral para reclamar. – Camus deu de ombros e a cabeça do tibetano girou. – Shaka sempre teve aquele jeito melancólico, mas ele vivia. Seu astral e humor estão lá embaixo. – Seus olhos vermelhos encararam Mu, demonstrando que suas palavras não estavam expressando tudo o que se passava. O aquariano sabia de coisas que os outros desconheciam, Mu percebeu, coisas que não podiam ser ditas na frente de todos.
– Ser trazido por Atena... Deprimiu Shaka, eu acredito. – Explicou Kanon. – Não, fez Shaka pensar. Refletir. Meditar. E você, melhor que qualquer um, sabe como ele fica quando começa a matutar alguma coisa. Os tempos são de paz, e Atena pediu aos cavaleiros que fizessem o que achassem melhor de suas vidas. Shaka acha que o melhor que pode fazer é se isolar de todos. E, quando se dirige a qualquer um, é apenas para criticar ou divagar.
– Shaka sempre foi muito crítico com tudo, ele quer apenas ajudar quando diz... – Falou Mu, tentando convencer mais a si mesmo do que os demais.
– Basicamente, – interrompeu Milo – Shaka abriu mão de todos os prazeres da vida para iluminar-se, e tudo o que fazemos o incomoda. Acha que somos fúteis, sem foco, sem objetivo... Fala coisas que ninguém entende, sempre com um tom melancólico de gelar a alma.
– “Preenchendo o vazio que a certeza da morte deixa com superficialidades...” – Disse o geminiano, fazendo sinal de aspas com os dedos.
– Até aí, tudo bem. Shaka nunca escondeu muito o que pensava dos outros. O problema é que ele parece muito... triste. Com arrogância, indiferença e ironias, já sabíamos lidar. Mas ninguém estava preparado para essa negatividade toda. – Terminou Milo.
Uma lembrança antiga, da primeira vez que viu o loiro com atenção, invadiu sua mente, nítida como naquela ocasião: um semblante plácido que escondia um pesar profundo. Quando criança, Shaka carregava dores que não eram suas; mas aquele menininho havia se perdido em algum momento. Havia crescido. Mudado. Tristeza não condizia com sua postura indiferente e arrogante.
– Reparou como ele está magro? – Camus interrompeu seus pensamentos. Não, Mu não tinha reparado. Os olhos penetrantes de Camus não desgrudavam do rosto do ariano, buscando enviar-lhe algum sinal que Mu não conseguia decifrar; apenas suspeitou do que se tratava, e aquela suspeita fez seu peito doer. – Nem comer direito ele tem comido, Mu.
– Todos passamos muito tempo juntos – atravessou-se Kanon – e precisamos passar pela casa de Virgem. E então, cerca de duas vezes ao dia, ouvimos alguma coisa extremamente profunda. É enigmático, fala como se fôssemos tolos e só ele soubesse a verdade...
– Um dia desses – interrompeu o capricorniano –, ele barrou o Afrodite. Disse que estava cansando daquele entra e sai, e que ninguém mais usaria sua casa como corredor. E desatou a falar. Da vida, do universo, de iluminação. Afrodite passou a manhã inteira argumentando, até convencê-lo liberar a passagem.
– E depois, barrou todos nós. Um por um, mais de uma vez. Mu, o discurso que eu ouvi... Preferia que, com o Tesouro do Céu, ele tivesse tirado minha audição antes de começar a falar. – Suspirou o geminiano.
Por mais que tentasse entender, as coisas não faziam muito sentido, e todas as explicações aceitáveis lhe pareciam absurdas demais. Ou doloridas demais.
– Vocês deviam conversar sobre isso com o Shaka... – Foi tudo o que conseguiu dizer, já que em sua cabeça se formavam sucessivos questionamentos e hipóteses que, de alguma maneira, convergiam para si.
Mu não conseguia processar tudo o que ouvia. Desde pequeno, Shaka nunca fora muito sociável. Tinha um ar de superioridade, um ego maior que seu cosmo, e criticava a tudo e a todos – inclusive ele próprio – sempre que podia. Mas, por trás da máscara que se impusera, existia uma pessoa doce, gentil e sensível à sua maneira. Só o cavaleiro de Áries conhecia aquele lado. O Shaka de riso fácil, fala mansa e gestos humildes. Aos olhos dos demais, era metido, arrogante e inconveniente.
– E você acha que não falamos? – Disse Kanon.
– Acho que além da visão, Shaka tem se privado da audição, pois não ouve ninguém. – Filosofou Milo. – Só ouviu Atena. Tivemos que suplicar à Ela! Parou de nos barrar, mas continua deprimido, amuado, profundo. Falando coisas incompreensíveis. A sorte é que ninguém passa muito tempo com ele, senão Saga não seria o único a enlouquecer... – O comentário levou Kanon a dar um soco no braço do escorpiano, que resmungou alto.
– Tenho vontade de furar meus tímpanos toda vez que me aproximo da sexta casa. – Disparou Shura, sacudindo os braços onde habitava Excalibur, a espada sagrada.
– Shaka deveria se privar da fala, não da visão. – Falou Kanon, satisfeito com seu próprio comentário.
Mesmo sem querer, Mu sentiu pena daquele que um dia partilhara todas as manhãs consigo. Tiveram que recorrer à Atena... Às vezes, suas palavras machucavam por serem absurdamente verdadeiras, de modo que cada conversa com o virginiano sempre era uma lição. Mas desde quando ele deprimia alguém? Nenhum dos outros cavaleiros estavam acostumados à sua companhia como Mu um dia estivera, e não o compreendiam. Nunca o compreenderiam. Talvez se Mu não tivesse se isolado em Jamiel novamente... Não, não posso pensar assim, repetiu para si, tentando se convencer em vão. Sacudiu a cabeça para afastar aquela ideia, mas percebeu que não era o único que pensava daquela maneira.
– Ainda bem que você está de volta, Mu. – Mais uma vez, o olhar de Camus buscava dizer coisas apenas para Mu, coisas que só ele entenderia. – Ele irá te ouvir. Quem sabe as coisas até voltem a ser como antes... – Infelizmente sabia do que o aquariano falava, e arrependeu-se com amargura por sua decisão de abandonar o Santuário.
Mu suspirou profundamente. Sua intenção era tirar Shaka dos pensamentos, mas agora, depois do que acabara de ouvir e pensar, era como se aqueles novos sentimentos estivessem gravadas em brasa na sua consciência, ao lado dos antigos que procurara esquecer nos últimos anos. Levantou-se, pedindo licença aos companheiros e saiu da casa de Escorpião. As emoções confundiam-se e misturavam-se, e o lemuriano sentiu uma confusão imensa se apoderar de seu ser.
As casas de Sagitário, Capricórnio e Aquário estavam vazias. Em Peixes, Mu encontrou um Afrodite cuidando de um emaranhado de rosas de todas as cores. Cumprimentaram-se discretamente, e, sem mais demoras, o ariano seguiu para o Templo de Atena, rezando para que a Deusa não percebesse sua perturbação emocional.
• • •
Foi anunciado por um dos guardas.
Os aposentos da Câmara de Atena eram deslumbrantes. Tapeçarias tecidas com fios de ouro cobriam as paredes, cada uma ilustrando uma grande vitória da Deusa, e estátuas dos Olimpianos decoravam os cantos do cômodo. Uma enorme janela, que ia do piso ao teto, deixava à mostra a imponente estátua da Deusa da Justiça aos fundos, que era visível de todos os cantos do Santuário.
Num trono de ouro, forrado com veludo vermelho, sentava-se a jovem Saori Kido, radiante em seus dezoito anos terrestres. Os cabelos eram lilases e os olhos eram de um azul muito escuro, conferindo-lhe ares de sabedoria. Sorria, um sorriso de quem tinha vivido mil vidas e presenciado mil batalhas. Estava mais deusa e menos humana a cada dia que passava. Seu báculo dourado descansava apoiado no trono, ao seu lado.
– Seja bem vindo, Mu de Jamiel, cavaleiro de ouro de Áries, guardião da primeira casa do zodíaco.
Mu fez uma reverência, seu joelho esquerdo tocando o chão, enquanto o direito estava flexionado. Apertou o elmo contra o peito e abaixou os olhos. Atena elevou seu cosmo, enchendo o recinto de uma ternura que apenas Ela era capaz de emanar. O cavaleiro suspirou, uma emoção diferente tomando conta de seu coração. Por que alguém com tamanho poder iria querê-lo ali?
– Você irá descobrir sozinho a resposta para sua dúvida, Mu de Áries.
Naquela posição, ficou parado por vários minutos. Gostaria de saber o porquê de sua convocação até ali, mas sabia que não seria educado insistir com Atena para obter as respostas. Saber esperar era uma grande virtude do tibetano.
– Meu dever é zelar pela paz na Terra. Mas também tenho que zelar pelos meus cavaleiros, Mu. Não tenha pressa; a paciência sempre é recompensada. – A voz de Atena era suave e macia, como um beijo de mãe antes de dormir. Reconfortava, acalmava e protegia. – A resposta que procura está em você. E lembre-se, cavaleiro: o pior cego é aquele que se recusa a ver.
O ariano concordou com a cabeça, pouco compreendendo as palavras da Deusa, pediu licença e se retirou.
• • •
Os cavaleiros almoçavam enquanto Mu fazia o caminho contrário até sua casa. Recebeu vários convites para comer, mas aceitou apenas as permissões para seguir adiante. Quando entrou na casa de Virgem, encarando as costas da enorme estátua de Buda, sentiu o cosmo de Shaka. Ele o chamava. Teve vontade de seguir adiante, mas Mu não tinha a capacidade de se opor ao virginiano. Seguiu sua presença para além das portas cinzas.
Estava no mesmo lugar de antes, mas desfizera a posição de lótus, sentando-se com as pernas levemente flexionadas à frente de seu corpo. Conforme se aproximava, Mu não pode deixar de observar os ossos que ganhavam destaque em suas bochechas e ombros, num claro sinal de emagrecimento, tal como Camus mencionara.
– Fico contente que tenha regressado, Mu. O exílio não combina com seu espírito. – Entoou naquela voz melodiosa que nem mil anos fariam Mu esquecer.
Ergueu a cabeça para o exato lugar em que o lemuriano encontrava-se. Os olhos estavam completamente selados, seus cílios dourados não vacilando nem por um instante. Os cabelos loiros caíam em suas costas, tremulando no compasso do vento, muito compridos e brilhantes. A franja, respeitando as leis da gravidade, ocultava sua testa e chegava à metade das pálpebras do virginiano. Precisa ser cortada, pensou amargamente. Qualquer pessoa normal não conseguiria ver atrás daquele emaranhado de fios dourados. Mas aquilo não era problema para alguém que enxergava além.
Depois de alguns passos, Mu sentou-se na grama fofa de frente para o indiano, que fitava seu rosto através dos olhos fechados. Shaka de Virgem estava olhando diretamente para a sua alma.
– Senti falta desse lugar. – Suspirou. De você, quis dizer, mas não disse. – Estava mais do que na hora de voltar.
Resolveu não mencionar o chamado de Atena.
Mesmo depois de tudo, falar com Shaka ainda era fácil. As palavras atropelavam-se, cada uma querendo sair primeiro que a outra. Tentou procurar sinais de tristeza e melancolia de que os outros falavam, mas o rosto do loiro nada transparecia.
– Resolveu parar de fugir de mim? – Um sorriso atrevido adornou o semblante de Shaka.
Uma sensação de desconforto se formou no ventre do lemuriano, que não soube o que responder. Teve vontade de estender sua mão até a do companheiro e apertá-la, mas deteve-se. Há anos as coisas entre eles haviam mudado. Mu não conseguia esquecer, por mais que quisesse, por mais que precisasse.
Não vou a lugar algum, ele quis dizer. Mas não disse novamente.
Seu coração batia depressa.
– Estive com Milo, Kanon, Shura e Camus mais cedo... – Conseguiu mudar assunto, depois de alguns segundos intermináveis de um silêncio avassalador. – Falaram de você... – Não teve como se conter. Precisava saber. Precisava perguntar.
– Eu sei, Mu. Já ouvi tudo o que eles pensam. Várias vezes. Por mais que eu estivesse disposto a lhes explicar, nunca compreenderiam. – O desdém fazia-se presente em sua voz.
Uma brisa forte bateu nos cabelos dos dois cavaleiros, fazendo-os dançarem em sincronia. Mu largou o elmo ao lado de seu corpo, e estendeu uma mão para a de Shaka, mas deteve-se no meio do caminho quando viu o virginiano contrair todo o corpo e recuar alguns centímetros, numa clara recusa ao contato.
– Você sabe que eu compreenderei qualquer coisa que você me falar. – Segredou-lhe num murmúrio, ignorando a rejeição, impulsionado por antigos sentimentos.
O loiro sorriu, um sorriso enigmático, de quem sabia mais que os outros. Foi quase imperceptível, mas estufou o peito, orgulhoso. Era seu único defeito, tecido e moldado ao longo dos anos em que ocupara a sexta casa. Às vezes, Mu pensava que aquele orgulho era a razão de todos os problemas que se colocaram no caminho dos dois. Mas não podia ignorar que também tinha sua parcela de culpa.
* * *
Notas finais
Esclarecimentos:
01. Não existe concorrência entre as armaduras de ouro; os cavaleiros nascem predestinados, precisando apenas se provar dignos de vesti-las. Basicamente, a armadura escolhe o cavaleiro, tal como "a varinha escolhe o bruxo" em Harry Potter - foi de onde surgiu a ideia. Tratar disso assim foi uma opção minha.
02. Resolvi adotar a teoria de que a Virgem da constelação se refere a Astréia, filha de Zeus e Têmia. Gosto mais da história.
03. Não quis ressuscitar o Dohko nem Shion, porque já deu o que tinha que dar, né. Senão Atena vai ficar trazendo eles de volta à vida por sucessivas encarnações e nunca poderão descansar em paz.
04. Saga será o Grande Mestre, pois eu queria que Kanon fosse o cavaleiro de Gêmeos. Além disso, todos merecem uma segunda chance.
05. Ignorando os eventos do Ômega, Kiki não será o próximo cavaleiro de Áries, porque isso não faz muito sentido dentro da minha história. Não haveria motivos para Mu ser trazido de volta se Áries já possuísse um novo herdeiro.
Sei que não foi muito elucidativo, mas era a intenção.
Até o próximo!
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