Castelo de Areia
2 O primeiro desafio
Notas iniciais
É preciso compreender o passado para solucionar o futuro. Vamos lá?
O primeiro desafio
Quando seus olhos viram o Santuário pela primeira vez, Mu já era o cavaleiro de ouro de Áries. Nascera predestinado àquela armadura, tal como todos os demais guerreiros dourados. Eram as armaduras que escolhiam seus donos. Nascido no Tibete, o pequeno menino de cabelos violáceos fora tirado da mãe quando ainda alimentava-se em seu seio, e levado para Shion, antigo cavaleiro de Áries, promovido à Grande Mestre do Santuário; aquele que viria a ser seu mestre, seu guia, seu pai, seu herói.
Isolados em Jamiel, o garotinho cresceu no meio de livros muito antigos sobre telecinesia, teletransporte e clarividência – as habilidades essenciais dos cavaleiros de Áries. Esses dons, normalmente alcançados pela elevação do cosmo, eram naturais para o pequeno Mu, que descendia do povo da perdida Lemúria. Os lemurianos eram um povo místico, que haviam forjado, nos tempos mitológicos, as oitenta e oito armaduras sagradas dos defensores de Atena, em meio a feitiços, orações e sacrifícios, para que subjugassem os Generais Marina de Poseidon e suas escamas. Despertaram, com o ato, a ira do Deus dos Mares, que afundou o continente com chuvas e tsunamis; como recompensa, a Deusa reservou o posto de Áries aos remanescentes de Lemúria.
Apenas tais descendentes tinham o dom e a força necessários para reparar e trazer de volta à vida as armaduras sagradas. E eram essas as lições favoritas do jovem ariano – pois pouco ligava para a força que poderia ter, contanto que pudesse auxiliar os demais cavaleiros.
A armadura de bronze de Cisne foi a primeira que Mu trouxe de volta à vida com o sangue vermelho que escorreu de seu pulso até a chama de sua vida quase se consumir. O cosmo fraco quase o fez perder os sentidos, mas ele foi salvo. De lugar nenhum, a armadura de Áries surgiu, sua poderosa energia envolvendo e acalentando o menino de nove anos de idade que a trajou. Daquele dia em diante, menino e armadura seriam um só.
Deixou seu mestre orgulhoso.
– É o cavaleiro mais jovem de que tenho notícia, Mu.
Carregando a dourada caixa de Pandora nas costas, o menino, guiado pelo mestre, instalou-se na primeira casa do zodíaco. Mal podia conter a felicidade. Havia aprendido um exímio grego na solidão de Jamiel, e não teve dificuldades para se misturar com os outros herdeiros dourados.
Era, porém, diferente de todos. Era um obediente carneiro a observar tudo a sua volta. Não era forte como o touro, selvagem como o leão ou letal como escorpião. Era mais fraco e franzino que todos os garotos, acostumados a passar os dias treinando sua força, embaixo de sol ou chuva. A força de Mu era a mente, a sabedoria, o intelecto. Calava-se diante das provocações e zombarias carregadas com a maldade sincera da inocência da infância, retribuindo-as com sorrisos e gentilezas.
Mas nada o abalava. Sempre sorrindo, corria por todos os cantos do Santuário, brincando, explorando, descobrindo. Um pagode fora sua morada, uma pequena vila, seu mundo. Tudo lhe era novo, um mundo inteiro esperando por ele. Travava lutas com inimigos imaginários, salvava os amigos do perigo e ganhava o favor das donzelas por onde seus pensamentos passavam. A solidão era sua companhia, a imaginação era seu brinquedo.
Foi através de seu mestre, porém, que chegou até aquele que viria a ser a pessoa mais importante de sua vida.
– Hoje eu quero te pedir algo diferente, Mu. – Shion sorria por trás do elmo de Grande Mestre, mirando o discípulo sentado à frente de seu trono. – Não como mestre, mas como um amigo. Há outro menino aqui que prefere a própria companhia. O herdeiro de Virgem. Faz algum tempo que ele chegou aqui, e se decepcionou com uma pessoa. Desde então, não fala mais com ninguém, não confia em ninguém. Talvez você já o tenho visto sentado por aí, em posição de lótus, sempre de olhos fechados.
O pequeno ariano franziu o cenho, os pontinhos que davam lugar às sobrancelhas – o sinal típico dos lemurianos – aproximando-se. Sim, ele já tinha visto o menino de quem o mestre falava vez ou outra. Loiro, branquelo e franzino, sempre de olhos fechados e postura ereta, com um ar angelical e inofensivo. Mas ele era... o herdeiro de Virgem? Aquele garotinho? Mu sequer pensou que ele fosse candidato a uma armadura, quiçá um dos doze grande escolhidos.
– Ele não tem um mestre, apesar de já ter tido. É budista, passa a maior parte de seu tempo meditando, é bastante reservado... e acho que o resto você irá descobrir depois que falar com ele. Não será fácil no começo, mas seja paciente, Mu. Não existe virtude maior que essa.
Mu assentiu, mas algo fugia a sua compreensão.
– Por que eu, mestre?
Shion estendeu uma mão enrugada até o topo de cabeça do tibetano e fez um afago paternal.
– O conheço melhor que qualquer um, Mu, e sei que só você pode fazê-lo. Os outros rapazes jamais conseguiriam.
Mesmo sem entender o significado daquelas palavras, elas motivaram o ariano.
Já conhecia alguns dos jovens aspirantes, mas nenhum era seu amigo. Todos eram muito diferentes de si; tinham espíritos de guerreiros, predispostos a batalhar, a combater, a guerrear. A serenidade de Mu o distinguia dos demais, mas não era apenas isso – sabia que o achavam diferente. Vinha de uma terra estranha, tinha uma aparência deveras exótica e era o único dos pequenos já sagrado cavaleiro, apesar de ser o mais jovem. De alguma forma, aquilo intimidava os demais garotos e causava uma pontinha de inveja.
Seria bom se alguém por ali também fosse diferente.
Com a ansiedade pelo que o futuro lhe reservava, Mu deixou a Sala do Grande Mestre sorrindo. Antes de se por a descer as infindáveis escadas até a primeira casa, olhou para trás, mirando a estátua de Atena, e fez uma prece silenciosa à Deusa – pediu um amigo.
• • •
Na manhã seguinte, o pequeno lemuriano deu início a sua missão. De longe, observou o pequeno loiro sentado na arquibancada da arena, usando roupas verdes de um modelo peculiar, que Mu nunca tinha visto. Os cabelos eram lisos e cortados na altura do queixo, assim como os do ariano; tinha, porém, uma franja farta e fofa, que lhe cobria a testa, mas sem esconder totalmente o pequeno tilak vermelho entre suas sobrancelhas. Os olhos fechados faziam com que com parecesse estar dormindo. Conforme se aproximava, percebeu o quão fora do lugar ele estava. Parecia um anjo caído dos céus perdido entre os humanos.
Parou alguns passos a sua frente, elevando o cosmo. Concentrou-se apenas na figura de pele pálida sentada na posição de lótus. Ignorou os barulhos que os demais faziam enquanto desferiam socos e chutes um no outro, ignorou os mestres berrando instruções aos pupilos, ignorou os gritos e vaias daqueles que apenas assistiam. E então a clarividência permitiu-lhe ver.
Ao redor do corpo do menino, uma luz projetava-se. Branca, forte e brilhante. Ficou intrigado. A aura que ele emitia não correspondia com seu cosmo quase inexistente; era intensa demais para alguém que não aparentava poder algum. Fixou o rosto dele por alguns instantes, e pode sentir. Sentiu uma dor profunda emanando do semblante pacífico. Parecia carregar o peso do mundo em seus frágeis ombros, tal como o titã Atlas o fazia. Viu também um coração gentil e sábio, como se alguém que vivera muitos anos estivesse preso naquele jovem corpo.
Sacudiu a cabeça, quebrando a concentração.
Subiu os degraus até estar ao lado dele, sem parar de olhar aquelas feições por um segundo. Era estranho se aproximar de alguém que não estava vendo. Pode ouvir a respiração lenta e suave enquanto o peito do loiro subia e descia.
– Você se importa se eu sentar com você?
Sem esperar por uma resposta, sentou-se ao lado do menino, olhando sua tez alva de soslaio. Esperou alguns segundos, para ver se ele abria os olhos e, como não o fez, Mu passou a encará-lo descaradamente, sem deixar que nenhum detalhe escapasse de seus olhos.
– Fiquei sabendo que você será o novo cavaleiro de Virgem. Qual o seu nome? – Shion esquecera de mencionar.
Não obteve nenhuma resposta.
Será que tinha ouvido? Não se mexia, não demostrava o menor sinal de estar desperto, não tinha nenhuma expressão em seu rosto. Estava... lhe ignorando? Mu respirou fundo, lembrando-se das palavras de seu mestre. Seja paciente, falou para si mesmo. Precisava ganhar a confiança dele, precisava provar que não iria decepcioná-lo.
Quando o viu de longe, sem muito prestar atenção, pareceu-lhe apenas um menino fazendo birra. Mas Mu não podia se deixar enganar pelas aparências. O lemuriano era um menino tímido e recatado, mas entregava-se as pessoas e as amizades oferecidas com facilidade, pois era um grande otimista, que sempre via o melhor de cada um. Não podia esquecer que nem todos eram como ele, e alguns colocavam barreiras diante de si para impedir a aproximação das pessoas. Parecia o caso do jovem budista à sua frente. Estavam um do lado do outro, mas o ariano sentia um abismo estender-se entre eles.
– O meu é Mu. Sou o cavaleiro de Áries, apesar de só ter nove anos. Quantos anos você tem?
Nada.
– Provavelmente menos... – Divagou. – Tem cara de uns seis ou sete, no máximo. Você veio de onde?
Silêncio.
– Eu apostaria Suécia, Holanda ou Alemanha. Eu sou do Tibete. Meio sem graça perto da Europa, não é?
O ariano estava começando a ficar impaciente. Não por esta sendo ignorado – já estava preparado para isso – mas por não saber se estava sendo ouvido ou não. Amaldiçoou os olhos fechados.
– Se você estiver me ouvindo, faz algum sinal.
Uma brisa brincou com seu rosto, trazendo consigo um suave cheiro de sândalo. Fechou os olhos, absorvendo o perfume inesperado. Sentiu-se burro quando os abriu novamente: e se o sinal que ele pedira tivesse sido feito, e perdido nesse momento de distração? Ficou com vergonha de admitir que sua atenção se desviara e pedir que ele repetisse o sinal – isso se tivesse feito.
Afetado pela mudez do outro, ficou muito tempo sem falar nada. As palavras de Shion ressoavam em sua cabeça, frase atrás de frase, buscando entender aquele comportamento tão... frio. Esfregou uma mão na outra, nervoso, e percebeu que estava com o cenho franzido – sorte que o outro estava de olhos fechados e não via a tensão de sua expressão.
Respirou fundo, e sua voz saiu muito baixa quando resolveu demonstrar um pouco de compreensão.
– Você pode confiar em mim...
Ia completar a frase dizendo que não trairia sua confiança, mas achou melhor deixar as coisas daquele jeito. A manobra seria muito arriscada; era melhor que ele não soubesse as coisas que Shion confidenciara-lhe.
– Não tenho muitos amigos aqui. – Mu se viu desabafando, numa tentativa de despertar um pouco de solidariedade e compaixão no outro. – Os outros são muito diferentes de mim. – Esquecendo-se de que o loiro não o via, indicou os demais cavaleiros que treinavam. Pegou-se observando-os, e tratou de corrigir a sua frase. – Não, eu sou muito diferente deles.
Suspirou, um quê de derrota se fazendo presente no ato. Fracassara na tentativa de fazer amizade com os outros meninos, por que com aquele seria diferente?
O fato é que alguma coisa dentro de si gritava que as coisas seriam diferentes. Sua esperança, possivelmente, aliada à confiança que seu mestre lhe atribuíra. Depois de uma rápida análise de tudo e todos ao seu redor, concluiu que tinha mais chances de amizade com o loiro de roupas estranhas do que com todos aqueles meninos que lutavam furiosamente.
Resolveu continuar falando.
– Recebi meu treinamento numa aldeia chamada Jamiel, que fica perto de onde nasci. No Tibete, claro. Vivíamos apenas meu mestre e eu, então eu nunca tive contato com outras crianças da minha idade. Mas aí eu vim para cá depois de conquistar a armadura de Áries.
Àquela altura, suas mãos ardiam de tanto se esfregarem uma na outra. Quis sacudir o rapaz, imaginando se o ato o faria sair da total inércia. Paciência. Agora entendia a ênfase que Shion havia dado na paciência; Mu era bastante calmo e paciente normalmente, mas era necessária uma paciência fora do comum para falar com uma pessoa que não respondia ou sequer dava mostras de estar ouvindo.
– Não fui tão bem treinado em armas como os outros meninos, já que minhas habilidades são mais psíquicas, e como a única coisa que eles fazem é socar, eu acabo ficando de fora. “Telecinesia é apelação, Mu”, ficaram repetindo logo que eu cheguei. Eu acho socos e chutes apelação, mas fazer o que? Em Jamiel, a rotina de treinamentos era bem diferente...
Sem muito pensar, desatou a falar. Mesmo que fosse um monólogo, era melhor do que conversar com pessoas imaginárias durante as brincadeiras. Ou melhor que a falta de companhia em Jamiel. Ao menos estava sendo ouvido – ou melhor, torcendo para estar sendo ouvido. Falou dos poderes dos lemurianos, falou das habilidades como ferreiro, falou da aldeia de Jamiel e de seus habitantes. Vez ou outra, teve que respirar fundo para recuperar o fôlego para então dar continuidade aos relatos.
Sua boca já estava seca quando viu uma mão delicada pousar no ombro do rapazinho, enquanto a voz suave de uma serva falava.
– Venha, Shaka, já está na hora de você comer.
Sem perceber, Mu sorriu ao ouvir o nome do menino. Combinava com ele. Mas o sorriso desmanchou-se quando ele levantou, alisando as vestes, amassadas devido ao longo tempo sentado, e seguiu a serva, que passou um braço sobre seus ombros. Não se conformava em deixá-lo partir sem que falasse.
Olhou em volta, e percebeu que poucos cavaleiros ainda permaneciam na arena; seu estômago roncou, indicando que estava há muito tempo sem comer. Fora incapaz de perceber o tempo passando. Ouviu a voz suave da serva falar novamente.
– Fez um novo amigo, Shaka? – Nenhuma resposta. – Você devia convidá-lo para lhe fazer uma visita qualquer hora. Podemos preparar bolinhos. Qual sabor...
Sua voz desapareceu em razão da distância. Exausto pelo longo tempo sentado, o ariano se levantou, colocando as mãos nas costas e se inclinando para frente e para trás. O primeiro dia tinha sido um fracasso. Mas havia uma pontinha de alegria em si ao pensar que não era apenas ele que Shaka ignorava. O problema não era consigo. Repetiu para si mesmo que era só uma questão de tempo. Paciência.
• • •
Foram precisos doze dias para que Mu ouvisse a voz de Shaka pela primeira vez.
Todas as manhãs, saía a procura do loiro, sentava-se ao seu lado e ali ficava, por horas, às vezes lhe contanto coisas, outras partilhando do silêncio interminável do companheiro. Sempre que ia até a sala do Grande Mestre, Shion lhe pedia para ter paciência. O mestre não respondia as perguntas que eram feitas sobre o virginiano, alegando que o próprio Shaka daria aquelas respostas quando julgasse adequado. Cada dia, o tibetano ficava mais curioso a seu respeito, e fazê-lo falar tornara-se o principal objetivo de sua vida – deixando o dever de defender Atena, o Santuário e a Terra em segundo plano em sua lista de prioridades.
Numa bela manhã de domingo, Mu encontrou o loiro sentado embaixo de uma árvore, suas costas apoiadas no tronco e as pernas esticadas à sua frente. Abandonara a posição de lótus, finalmente, mas seus olhos ainda estavam fechados. A posição mais relaxada fez Áries quase ter certeza de que ele dormia. Quando sentou ao seu lado, cutucou-o com o indicador – já sentia-se íntimo o suficiente para fazê-lo.
– Shaka? Shaka?
O virginiano se ajeitou, ficando com as costas eretas e cruzando as pernas na frente do corpo. Mu soltou um muxoxo de impaciência.
– Essa posição de meditação de novo não... – Reclamou baixinho, em seu idioma natal.
Shaka enrugou as sobrancelhas, fazendo o tilak vermelho desaparecer entre elas. Mu contraiu o corpo, espantado com aquela reação. Era a primeira expressão que o jovem fazia, a primeira vez que o semblante sereno o abandonava, a primeira mostra de que o ouvia.
Um misto de confusão e surpresa se manifestou no rosto miúdo, mas logo a calmaria característica retornou. Foi apenas um segundo, mas os atentos olhos verdes do ariano não deixaram aquela mudança de comportamento escapar.
– O que foi, Shaka? Algum problema? – Voltou ao grego, percebendo que Shaka deixara os ombros caírem, num sinal de alívio. Uma dúvida tomou conta de Mu. – Você consegue me entender? – Voltou ao tibetano.
Um longo tempo se passou. Sem dúvida, aquilo fora apenas uma coincidência. As chances dele conhecer tibetano... Então, a compreensão apoderou-se do rosto de Mu, e ele sorriu. Shion mencionara que o garoto era budista, o que era facilmente confirmado pelas meditações, pelo pontinho vermelho em sua testa e pelas roupas estranhas que vestia. E aquela língua, o tibetano, havia sido usada nos escritos originais daquela religião. Mas será que não haveria uma tradução no país de onde Shaka viera?
– Consigo. – Murmurou uma voz melodiosa e suave. Os olhos de Mu se arregalaram, e ele sorriu triunfante. Uma simples palavra nunca o deixara tão contente. Nem a mais bela canção de Apolo teria soado tão graciosa aos seus ouvidos.
Com delicadeza, tomou a mão do loiro entre as suas e fez uma pequena carícia com o polegar. Surpreendeu-se com o quão macia e quente era a pele de Shaka, contrastando harmoniosamente com os calos que o ofício de ferreiro deixavam em seus dedos. Mãos que não haviam sido feitas para bater, apenas para afagar. Entrelaçou seus dedos nos dele, vendo como os tons de pele pálidos combinavam – tinham quase o mesmo tom de alabastro, mas a de Mu era um tantinho mais lívida. Aquela visão pareceu-lhe, de um modo que ainda era incapaz de compreender, certa.
O toque foi simples, porém duradouro, no qual Mu buscou demonstrar a alegria que sentia por ouvir sua voz e transmitir cumplicidade. Shaka entendeu o recado, ou pelo menos foi o que pareceu, pois curvou graciosamente os lábios num sorriso contido. Mu achou que ele ficava muito mais bonito sorrindo do que com aquela expressão séria de costume. Pegou-se sorrindo também, a noção do tempo lhe abandonado.
– É por causa do budismo? – Mu não desfez o entrelaço das mãos, e continuou falando em tibetano.
– Também. – Sentindo que ele ainda tinha mais para falar, Mu não o interrompeu. Tinha falado tanto nos últimos dias que tudo o que queria era ouvir um pouco. Longos minutos se passaram até que Shaka retomasse a palavra. – Índia. Norte da Índia. Vim de lá. Um pequeno povoado onde se falava o tibetano, além do híndi.
Se tivesse sobrancelhas, Mu as teria arqueado, mas tudo o que seu espanto fez foi afastar os pontinhos roxos dos seus olhos verdes. Surpreendia muito mais um indiano loiro de pele leitosa do que um sueco budista.
– Não parece... – Falou mais para si que para o outro, percebendo que Shaka ainda tinha os olhos fechados. Quem conversava de olhos fechados? Será que... não, não podia ser. Tão jovem... Tentou não pensar. – As pessoas lá são morenas, com peles e cabelos escuros... Não se parecem com você em nada!
O indiano tinha um sorriso enigmático nos lábios.
– Toda regra tem uma exceção, Mu de Áries. – Entoou sonoramente. Mu gosto do som que seu nome tinha na voz do futuro cavaleiro de Virgem.
Um riso escapou de seus lábios, e não soube dizer se ria porque achara as palavras de Shaka deveras sérias para um garotinho ou se ria porque estava feliz.
– Faz tempo que você chegou aqui? – Distraído, o lemuriano continuava acariciando a mão do loiro com o polegar.
– Mais ou menos dois anos. – Mu não pode deixar de reparar que Shaka falava o tibetano com um tênue sotaque, repuxando as sílabas tônicas das palavras. Achou uma graça. – Você errou minha idade também. – Completou, fazendo uma longa pausa. Mu ficou esperando pela continuação da fala, mas acabou concluindo que ela não viria.
– Quantos anos você tem? – Desistiu de esperar.
– Você disse que eu tinha no máximo sete, mas logo farei nove. Como você.
Mu foi surpreendido mais uma vez.
– Sua aparência engana os desavisados. – Mu sorriu com doçura, ainda admirado com todas as novas informações. Quase nove anos e indiano? Não teria acertado aquela combinação nem em mil tentativas.
Uma rajada de vento quente jogou contra o rosto das duas crianças um emaranhado folhas secas e grãos de terra; Shaka pouco foi afetado graças aos olhos fechados, mas a terra foi de encontro às íris verdes de Mu, fazendo seus olhos arderem e lacrimejarem. Coçou-os com força, e só quando a ardência se dissipou é que Mu percebeu que havia largado a mão de Shaka. Quis segurá-la mais uma vez, mas achou que seria inadequado.
Achou graça numa galho marrom que ficou preso naqueles cabelos loiríssimos. Estendeu a mão e o retirou, sentindo-a roçar nos fios sedosos por alguns segundos. Com um aceno de cabeça, Shaka agradeceu. Mu passou a mão por seus próprios cabelos, e encontrou algumas folhas enredadas na parte de trás.
Precisou de alguns segundos para se lembrar do que estavam falando.
– Acho que tem muitas coisas sobre você que eu ainda não sei. – Disse, por fim, quando lembrou. Pensou nos olhos fechados ao proferir aquela frase. Ele teria nascido assim ou sofrera algum acidente? Pensou em pupilas esbranquiçadas, e um arrepio percorreu sua espinha. Seria esse o motivo daquela tristeza em sua alma? Ele não pode ser cego, tentou se convencer inutilmente.
– Outro dia, Mu de Áries... Outro dia.
Foram as últimas palavras em tibetano que Mu ouviu naquela manhã. Quando a hora do almoço se aproximou, a mesma serva, que buscava Shaka todos os dias, apareceu, levando-o mais uma vez. Sorriu ao ver que o indiano não respondia aos questionamentos dela, sentindo-se especial de uma maneira que nunca se sentira antes.
Notas finais
Esclarecimentos:
01. Não tenho total certeza do que escrevi sobre Lemúria e seus habitantes. Roubei a ideia das lendas de Atlântida, já que, para mim, são a mesma coisa.
02. Não vou ignorar os eventos de Lost Canvas, e sei que Sage de Câncer era um lemuriano; façamos assim: apenas Áries é reservado aos lemurianos, mas isso não impede que sejam predestinados a outras armaduras.
03. Shion pedir para que Mu falasse com Shaka me pareceu plausível, pois nenhum deles é muito extrovertido. Precisavam de um empurrãozinho inicial.
04. Pesquisei aqui e ali e vi que dialetos do tibetano são falados em algumas regiões do norte da Índia que, coincidentemente, é onde fica o rio Ganges. Além disso, é muito usado na literatura budista. Assim, achei que fazia sentido Shaka conhecer esse idioma também e o usei para aproximá-los.
05. Shaka tem seus motivos para ser tão fechado... Mas nada que a doçura do Mu não resolva, certo?
Até o próximo!
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