Castelo de Areia

3 Inexorável privação


Notas iniciais
Obrigada a todas pelos comentários e apoio nos bastidores!
A cena principal desse capítulo foi um daqueles diálogos que simplesmente se formam na cabeça das pessoas num momento muito aleatório, e eu tive que escrever.
Ignorem quaisquer erros, não tenho beta e revisei com sono!

Inexorável privação

Pouco a pouco, Shaka foi se soltando e logo os monólogos de Mu deram lugar à conversas longas e profundas. Os assuntos se desenrolavam com facilidade entre eles, como se já fossem amigos de longa data. Porém, ainda que estivesse mais comunicativo, Shaka era mais ouvinte que prolixo. Escutava com paciência e atenção tudo o que o ariano lhe contava – e como contava! Às vezes, falava tanto que o ar lhe faltava, arrancando um pequeno sorriso do indiano ao ofegar.

Repetiu tudo o que tinha contado para Shaka – afinal, doze dias falando sozinho deixam qualquer um com pouco o que falar –, porém em tibetano. Apesar dele demonstrar que entendia o grego, Mu achou que aquele idioma que só os dois por ali conheciam os matinha mais unidos. Era algo só deles.

Não perderam, contudo, o hábito de partilhar o silêncio na companhia do outro.

Mais de um mês havia se passado, e os dois cavaleiros estavam deitados embaixo do secular carvalho onde tiveram o primeiro diálogo, o lugar adotado como ponto de encontro por eles. A árvore tinha o tronco tão grosso que mesmo juntos seriam incapazes de abraçá-lo e sua copa era tão espessa que os raios de sol não conseguiam ultrapassar suas folhas verdes e atingir o solo, ocasionando uma agradável sombra.

– Eu cansaria, no seu lugar. – Mu balançava os pés de um lado para o outro na grama alta. – Você só medita o dia inteiro, Shaka. Eu tenho treinos na arena, estudo, tenho que reparar armaduras e ainda desenvolver a telecinesia. E parece pouco! Você não tem, sei lá, vontade de fazer outras coisas?

– Eu vejo você todos os dias.

– E só! Você mal se mexe. Vai ficar com as pernas e braços atrofiados, desse jeito. Não sei como você aguenta. Sinceramente? Eu morreria de tédio.

Shaka apenas sorriu. Ele fazia muito isso: Mu falava pelos cotovelos, e ele respondia com um sorriso. O lemuriano tinha o dom de ver além do que as aparências revelavam, mas Shaka era fechado demais. Quanto mais o conhecia, mais sentia que ele guardava segredos. Não tinha pressa em compartilhar o conteúdo de seu âmago.

Suspirou, virando a cabeça para olhar o loiro de perfil. O único olho que Mu podia ver daquele ângulo estava fechado. Shaka não mencionava os olhos nunca, como se, para ele, aquela situação fosse a mais normal possível. Depois de muito ponderar, Mu chegara a conclusão de que Shaka era cego; por mais que sempre soubesse para onde olhar ou em que lugar pisar, não havia outra explicação plausível para aquele comportamento. Mas muitas dúvidas ainda pairavam em torno daquilo, dúvidas que enchiam os sonhos do ariano de pupilas leitosas e acidentes horríveis.

Mu tomou coragem.

– Shaka?

O virginiano virou a cabeça em sua direção, as duas pálpebras fechadas o encarando daquele jeito que parecia ver tudo.

– Sim?

– O que... aconteceu com seus olhos?

Shaka sorriu.

– Nada.

– Nada? – Mu não compreendia. Seria aquela condição tão normal ao ponto de não ser considerada nada?

– Nada. – Confirmou, dando o assunto por encerrado. Ou pelo menos assim Mu pensou.

Deitaram de lado quase ao mesmo tempo, ficando um de frente pro outro por longos segundos, os olhos selados e os verdes se encarando profundamente. Em câmera lenta, Mu viu os lábios do loiro se crisparem, enquanto ponderava seus pensamentos, até que se curvaram num sorriso divertido.

– Você estava louco para me perguntar isso, não é?

Mu senti um calor percorrer seu rosto à medida que a pele alva corava. Ficou grato por Shaka não poder vê-lo, já que seu rosto o denunciava. Não falou por intermináveis minutos, observado o rosto do indiano voltar a adquirir a expressão serena de antes.

– Eu não sou cego, Mu.

O ariano piscou várias vezes, absorvendo o sentido daquelas palavras.

– Não? Se você não é cego, por que fica de olhos fechados? – Disparou, sem pensar.

– Há outras formas de enxergar além da visão, Mu de Áries. – Shaka sorriu novamente, sentando-se com as costas apoiadas no carvalho. Suas pálpebras fechadas continuavam encarando o rosto confuso de Mu. – Você já ouviu falar na Medusa, certo?

– Sim. Os que a veem são transformados em pedra. – Recitou algo que havia lido num livro velho sobre os heróis da mitologia grega. Perseu, lembrou-se.

– Certo. – As sobrancelhas do indiano se contraíram brevemente, pensando na melhor forma de fazer Mu lhe entender. – Você deve saber que existe uma armadura de Perseu, e que essa armadura possui o famoso Escudo da Medusa, que transforma os oponentes em pedra, mesmo que eles fechem seus olhos. Já se perguntou por que isso acontece?

Não, Mu nunca tinha se perguntado o porquê daquilo acontecer. E deveria saber. Afinal, o ferreiro das sagradas armaduras era ele, além do mestre que lhe transmitira tal conhecimento, uma vez que eram os únicos oriundos de Lemúria existentes naqueles tempos. O ariano lera todos os livros disponíveis em Jamiel sobre as armaduras, e já começava a devorar o acervo da biblioteca da primeira casa. Como aquilo teria passado despercebido por ele? Sentiu-se incomodado.

Shaka interpretou o seu silêncio como uma autorização para seguir em frente.

– Isso acontece, Mu, porque é o cosmo que nos permite enxergar. Manter as pálpebras fechadas não faz o cosmo sumir. O Escudo da Medusa ataca o cosmo, e não os olhos. E isso não vale só para a visão: todos os nossos sentidos estão ligados ao cosmo. É o que permite, por exemplo, que cavaleiros consigam se comunicar por telepatia. As pessoas que não o desenvolvem ficam presas ao físico, mas os cavaleiros tem o domínio sobre esse poder oculto. Assim, quanto maior é o poder de um cavaleiro, menos físico e mais espiritual ele será.

– Então... quer dizer que você vê mesmo de olhos fechados? – Era notável o tom de descrença na voz de Mu. Shaka assentiu. – Eu nunca... ouvi falar de nada parecido. Você pode... me ver? – As palavras saíram num sussurro.

– Posso. – Diante do olhar de incredulidade do ariano, Shaka prosseguiu. – Sei que seus cabelos são lilases, seus olhos são verdes e sua pele é mais clara que a minha. Você tem dois pontos roxos no lugar das sobrancelhas, e gosta de me encarar porque pensa que não posso ver.

Áries sentou-se com um pulo, o coração acelerado. Nunca tinha visto o companheiro de olhos abertos, e, mesmo assim, ele acabara de descrevê-lo. A não ser que...

– Como é que eu vou saber se você já não me viu escondido qualquer dia desses? Ou se alguém te contou isso?

Enigmático, Shaka cruzou as pernas e ajeitou-se de modo que ficasse de frente para Mu, um quase um sorriso se formando em seus lábios finos.

– Você está com uma túnica bege e uma calça marrom, tem uma faixa vermelha amarrada na cintura e as tiras das suas sandálias chegam até a metade dos seus tornozelos. E tem ataduras nos pulsos, o que mostra que você andou se sangrando para consertar alguma armadura recentemente. Ficou corado quando eu disse que você queria perguntar sobre meus olhos há tempos... e agora está com uma cara de surpresa encantadora.

E estava mesmo.

Sua mão estava trêmula quando Mu a estendeu e afagou uma das bochechas de Shaka sem que este se opusesse. Percorreu o rosto do indiano até tocar-lhe uma das pálpebras, que estremeceu com o contato. Passou a ponta do indicador pelos cílios longos e loiros, repetindo o gesto algumas vezes, ora num olho, ora em outro.

– Como? Como isso é possível, Shaka? – Um fiapo de voz escapou de seus lábios.

Shaka sorriu com doçura, como os sábios sorriem diante das dúvidas tolas de uma criança.

Os olhos esmeralda de Mu brilhavam de fascínio. Nunca ouvira falar em nada semelhante. Se aquilo que o loiro acabara de falar fosse mesmo verdade, significava que o futuro cavaleiro de Virgem era muito poderoso e tinha um exímio controle de sua cosmo energia. O que, pensando bem, fazia muito sentido, já que sua presença era quase sempre imperceptível, tamanha era sua em maestria ocultar-se com tão pouca idade.

– Abra os olhos, Shaka. – Pediu num sussurro, tirando a mão do rosto do outro para entrelaçar seus dedos aos dele.

As íris leitosas já não o preocupavam mais. Tudo o que queria naquele momento era ver a cor dos olhos dele e saciar a curiosidade que vinha alimentando.

– Não posso. Não sou cego, mas não posso abrir os olhos. Não ainda.

– P-por quê? – A voz do lemuriano falhou.

– Existe uma razão para que eu os mantenha fechados.

Calou-se.

O ariano já estava acostumado com o jeito de falar de Virgem: sempre deixava alguma coisa ar, esperando por uma pergunta. Não era do tipo que falava pelos cotovelos; se não fosse incitado, não revelaria nada. Era preciso fazer as perguntas certas para obter as respostas desejadas.

– Qual razão? – Apertou sua mão à dele, procurando encorajá-lo.

– A privação voluntária de um dos sentidos permite ao cavaleiro armazenar seu cosmo nele. Os votos de silêncio são mais comuns, mas optei pela visão. Acho mais fácil ver através do cosmo do que falar, apesar de ainda não dominar a técnica. Não vejo com nitidez, e preciso manter meu estado de espírito elevado para fazê-lo.

– E para que serve essa privação? – Indagou o ariano, tão aéreo que tinha a sensação de estar observando a cena de fora. Acreditava nas palavras de Shaka, mas tudo parecia tão improvável que poderia facilmente ser confundido com um devaneio.

– Você ainda não percebeu? Pense, Mu. – Sutilmente, Shaka deslizou seus dedos para fora do aperto de Mu e os estalou um a um.

A quebra do contato passou despercebida pelo ariano, sua cabeça trabalhando ferozmente. O que ele deveria ter percebido? Por vários minutos, fizeram silêncio, enquanto Mu repassava mentalmente todas as palavras de Shaka, a voz melodiosa ecoando em sua cabeça. Abriu a boca para falar diversas vezes, mas só o fez depois de ter quase certeza.

– Quando você abrir os olhos, o cosmo armazenado vai queimar. Uma espécie de gerador de energia, que vai aumentar seu poder exponencialmente.

O ariano observou as expressões do virginiano atento, ávido para que sua conclusão estivesse correta, ansiando por um sorriso de aprovação que, quando chegou junto da anuência de Shaka, fez o estômago de Mu dar uma cambalhota de alegria.

– Eu ainda não tenho total controle sobre o meu cosmo. Somente quando tiver poderei abri-los sem causar graves danos ao meu redor. – Esclareceu o virginiano.

O contentamento pelo acerto logo se dissipou pois, mesmo não querendo, Mu sentiu pena de Shaka.

Sempre achou os treinamentos do Mestre Shion deveras rigoroso. Passava horas exercitando os poderes paranormais, uma outras tantas doando seu sangue às armaduras e ainda aprendia técnicas de combate. Mas podia ver tudo ao seu redor. Não adiantava ver com o cosmo.

Uma dor acometeu seu coração ao olhar a bonita paisagem em que se encontravam, paisagem esta que o indiano não podia desfrutar em sua totalidade por causa daquela abstinência, que tão cedo já lhe fora imposta. Até que ponto valia à pena se sacrificar em prol da vida de servidão e privações dos cavaleiros de Atena?

– Sei o que está pensando, Mu. – Shaka interrompeu as divagações do tibetano. – Não sinta pena de mim, pois foi a escolha que eu fiz. Pode parecer uma coisa ruim, mas não me incomodo. Eu vejo o que eu preciso ver, quando quero ver. No começo foi difícil, mas quando eu consegui canalizar minha energia para ver o mínimo, tudo ficou mais simples. – Sorriu com sinceridade. – É um preço pequeno a se pagar.

A cabeça de Mu girava. Massageou as têmporas, sem muito compreender o que Shaka falava. Lembrou da dor imensa que sentira emanando dele quando usou sua clarividência para espiar sua alma, e não pode deixar de relacioná-la com a falta de visão. Por mais que tentasse, não conseguia sequer imaginar como era aquilo.

Fechou os olhos e tentou se colocar no lugar dele. Apenas o pensamento o deixou tonto e sem ar, a agonia de ouvir os sons e sentir os cheiros dos lugares sem poder contemplá-los com o olhar sobressaindo-se sobre todas as demais sensações.

– De que cor eles são? – Estava levemente ofegante quando voltou a falar.

Shaka coçou a testa, descontraído, e passou a mão pelos fios de cabelo da nuca. Áries sentiu que ele estava incomodado, como não parecera ao falar sobre sua opção. Sua voz tinha um timbre melancólico quando falou.

– Eu não lembro. Os fechei com cinco anos, muito antes de vir para a Grécia, e não abri mais. Na hora, se eu soubesse que não poderia abri-los por muito tempo, teria me olhado uma última vez no espelho. Só para lembrar.

Não falou mais até se despedirem; essa era outra característica do loiro, parar de falar em dado momento e ficar em calado por horas. Normalmente, Mu o incomodava até que se manifestasse, mas o ariano estava chocado demais para fazê-lo naquele dia. Apenas observou enquanto o amigo assumia posição de lótus e iniciava sua meditação.

Surpreendera-lhe a naturalidade com que Shaka contou tudo aquilo, como se fosse muito comum alguém deixar de ver o mundo sem realmente necessitar. Foi a escolha que eu fiz, entoava a voz infantil na cabeça de Mu. Estava claro, por mais que Mu não entendesse completamente, que aquilo partira do indiano. Não se tratava de um treinamento ou de algo imposto por um mestre, mas sim de uma escolha pessoal. Uma grande escolha para alguém tão pequeno. Os fechei com cinco anos, repetiu a consciência do ariano. Que tipo de pessoa se impunha tão severa penitência?

De repente, a paciência de Shaka para meditar em todo o tempo disponível não lhe parecia mais uma coisa absurda. Se ele precisasse controlar seu cosmo para abrir os olhos, ficaria tão obstinado como o virginiano. O íntimo de Mu se revirava com o misto de sentimentos que aquela conversa trouxera. Teve vontade, por várias vezes, de abraçar o indiano, mas a coragem lhe abandonava toda a vez que encarava os olhos fechados.

• • •

O Verão esgueirava-se pela Grécia vagarosamente. O sol queimava com muito mais intensidade, as brisas sopravam tórridas contra os corpos suados e a umidade abandonava o ar, criando um clima abafado. Manter os treinos físicos naquele calor era muito difícil para a maioria dos cavaleiros cavaleiros, mesmo os nascidos ou criados ali. Um dos poucos que parecia não se abalar pela temperatura elevada era Shaka. Nenhuma gota de suor escorria de sua pele leitosa, não arfava quando caminhava nem reclamava do mormaço queimando o topo de sua cabeça. Quanto maior o calor, maior parecia seu humor.

Prova disso foi o fato de Shaka começar a aceitar os convites de Mu para caminharem toda vez que o sol brilhava alto no céu limpo da estação. Passaram a maioria de seus primeiros encontros sentados, e essas caminhadas foram a prova irrefutável de que Shaka podia ver, ainda que de uma maneira diferente: sempre desviava dos obstáculos e não precisava de ajuda para encontrar os caminhos. Aliás, era ele quem costumava indicar por onde iam.

Ainda assim, sempre que entravam num terreno muito acidentado, Mu enlaçava seu braço com o do amigo e lhe servia de guia. O virginiano insistia para que ele não fizesse isso, mas todas as suas tentativas haviam sido em vão; ou Shaka abria os olhos, ou Mu ia continuar guiando ele sempre que achasse necessário. O loiro acabou aceitando o gesto e, por vezes, ele próprio enlaçava seu braço ao do lemuriano durante as andanças.

Naquele fim de tarde, as nuvens encobriam o pôr-do-sol, impedindo que o espetáculo de cores fosse visto por completo. Haviam se encontrado pela manhã, mas Mu não foi capaz de esperar pelo dia seguinte para desfrutar mais da companhia de Shaka e saiu a sua procura pelo Santuário, aguardando o término de sua meditação e convidando-o para caminhar. Os dois meninos tinham os braços entrelaçados e andavam sobre algumas ruínas que se estendiam para além dos alojamentos femininos. Era necessário um grande esforço para andar naquele lugar, e acabaram por desistir de ver o que tinha além para sentarem no que parecia ter sido um enorme pilar, que agora jazia tombado no chão.

– Mu, não poderemos nos ver amanhã. – O silêncio foi quebrado pelo virginiano enquanto ainda achavam a posição mais confortável para sentarem.

– Por quê? – O ariano parou de se mexer, encarando o outro.

– E talvez nem nos próximos dias. – Completou, ignorando a pergunta. Shaka era particularmente bom em ignorar as coisas quando lhe convinha.

Por quê? – Insistiu.

– E gostaria de pedir que, nesses dias, você não fosse até o bosque em que costumamos nos encontrar.

Qualquer pessoa teria elevado seu tom de voz naquela situação, impondo-se sobre o outro exigindo explicações. Para sorte daquela amizade, Mu era diferente. Suspirou profundamente, já acostumado com as peculiaridades inerentes ao futuro cavaleiro de Virgem. Paciência, dizia a voz de Shion em sua cabeça. No começo, não vira muito sentido num pedido de paciência para alguém calmo e sereno como ele, mas aquilo ficava cada vez mais claro conforme ia conhecendo Shaka.

Respeitava a privacidade do amigo, mas foi obrigado a insistir, já que aquele pedido também lhe afetava.

– O que está acontecendo? – Perguntou com carinho.

Shaka lhe respondeu com silêncio. Mu encarou os dois pares de pernas que balançavam em sincronia da frente para trás e de trás para frente, curtos demais para alcançaram o chão al de cima da coluna caída.

– Digamos que... – Interrompeu a fala atrás de uma boa posição para sentar sobre o mármore rachado. mexeu-se de um lado para o outro, chegou mais perto de Mu, depois se afastou. Seu desconforto, contudo, advinha da conversa, e não do lugar. – Digamos que eu vou fazer uma viagem. Faz parte do meu treinamento.

– E qual o motivo de eu não poder ir até o bosque?

– Depois você entenderá. – Sua voz deixou claro que o assunto estava encerrado para ele. – Agora vamos aproveitar o lugar.

Dentre todas as pessoas que Mu conhecia, Shaka era a mais serena. Tudo podia esperar, não tinha pressa para nada. Costumava repetir que, se você tem tudo na hora que quer, perde a graça esperar pelo amanhã. E ele tem razão, pensou o lemuriano, enquanto o sol se aproximava lentamente do horizonte. Se não fosse todo o mistério que o loiro criava sobre si, Mu não ficaria tão ansioso por vê-lo todos os dias. Sempre que descobria uma coisa nova sobre o companheiro, os dias de espera entre silêncios e conversas banais faziam sentido. Estava sempre ávido por descobri-lo, explorá-lo, decifrá-lo. Shaka era um grande livro fechado, colocado na prateleira mais alta da estante que, quando finalmente se consegue alcançar, se mostra escrito em língua desconhecida, sendo preciso muita dedicação para decifrar cada linha. Mas que, ao final, possui uma história tão linda que todo o esforço é recompensado.

Quando se despediram em frente ao pavilhão que servia de refeitório para os aprendizes, o coração de Mu bateu mais forte. Shaka não disse mais nada a respeito de sua viagem, e mil dúvidas acometiam-lhe. Mirou o semblante sereno, a franja caída e os olhos fechados, a saudade apertando seu peito; um breve pensamento de que não o veria nunca mais passou por sua mente.

Não.

Jogou seus braços envolta do pescoço do loiro, envolvendo-o num abraço desesperado, cheio de preocupação e ternura. Não me deixe, por favor, pensou, enquanto afundava sua cabeça no ombro do outro, seus cabelos dourados, que agora quase chegavam nos ombros, lhe impedindo de respirar direito. Tão macios... O cheiro de sândalo impregnou suas narinas, e lágrimas brotaram dos olhos esmeralda.

Entendendo a preocupação do amigo, Shaka envolveu-lhe a cintura com os braços, de um jeito desajeitado, deixando sua cabeça descansar na curva entre o pescoço e o ombro do tibetano. Um pequeno sorriso se formou nos lábios de Mu.

– Você nem vai perceber minha ausência. Logo eu voltarei. Não tem com o que se preocupar, Mu de Áries. – Levou uma de suas mãos até os cabelos lavanda de Mu que, como os seus, tinham crescido nos últimos meses. Menos, mas tinham. Afagou-os por alguns instantes, fazendo um arrepio percorrer o corpo do amigo. Afastaram-se lentamente, e o ariano ficou observando a figura do outro sumir por detrás de uma porta lateral de madeira.

Pela primeira vez em sua vida, mas não pela última, Mu sentiu um sentimento de solidão lhe invadir até a alma.

Notas finais
Sem ação, eu sei, mas eu preciso de sustentação para a amizade deles! Não adianta só chegar dizendo que são melhores amigos desde sempre e não explicar o porquê.
Esclarecimentos:
01. Honestamente, não me lembro se tem algo sobre isso de "enxergar com o cosmo" na série, tampouco o que escrevi sobre o Escudo da Medusa. Inventei descaradamente, e se coincide com o original, sinal que o tio Kurumada pensa como eu. XD
02. Se os cavaleiros conversam através do cosmo, por que não podem ver? Vejam o Shiryu cegueta subindo aquelas escadarias feito louco... Eu que enxergo teria tropeçado meia dúzia de vezes, mas ele pisava com precisão e confiança. Então...
Até o próximo!