Notas iniciais
Meus agradecimentos a todos que estão acompanhando a história, em especial àqueles que tem demonstrado seu apoio por meio de reviews ou conversas particulares.
Mais um da série "ideias que surgiram do nada e eu tive que escrever". Esse demorou para ser revisado, mas saiu.
Boa leitura. :*

Ao seu lado


Nuvens cinzentas espalharam-se pelo céu em todos os dias que se seguiram, ocultando o sol tal como a ausência de Shaka ocultava a alegria de Mu.

A espera foi interminável para o cavaleiro de Áries. Nenhuma de suas atividades conseguia substituir a companhia do futuro cavaleiro de Virgem. Se soubesse onde o amigo estava, teria fugido do Santuário para procurá-lo, mas o mestre Shion se recusava terminantemente a lhe dar qualquer informação. Mandou que Mu aproveitasse esse tempo para conhecer melhor os outros cavaleiros e aspirantes, e meio a contragosto, o fez.

Shura de Capricórnio, Máscara da Morte de Câncer e Afrodite de Peixes eram os únicos, além de Mu, cujas armaduras já os tinham os reconhecido como sucessores, além de Saga de Gêmeos, desaparecido desde antes de sua chegada ao Santuário. Contudo, já eram adolescentes, mais velhos que o lemuriano, o que dificultava aproximações. Por isso, era dos aprendizes que Mu gostava mais, em especial de Aiolia, herdeiro de Leão e irmão do falecido Aiolos de Sagitário, acusado de trair o Santuário e tentar assassinar Atena cerca de dois anos atrás. Tinha um pouco de dó do rapaz, que se submetia a treinos rigorosos para ser reconhecido por sua força, e não por ser irmão de um traidor. Todos ali o destratavam constantemente, julgando-o por crimes que jamais cometera.

Cinco dias haviam se passado, e Mu amarrava as tiras de uma de suas sandálias, que havia se soltado enquanto descia as escadas da arena de treinamentos, quando sentiu um poderoso cosmo se propagar no ar como a fumaça de um incêndio. Ergueu a cabeça para os presentes na arena apenas para constatar que todos tinham a mesma expressão intrigada que ele. Um olhava para o outro, numa pergunta muda para saber de onde provinha aquela energia, mas nenhuma resposta foi obtida; não era um cosmo familiar, ninguém sentira aquela presença por ali antes. Todos ficaram calados, como se o menor som fosse capaz interromper o processo de identificação. Foi de Milo, o herdeiro de Escorpião, a ideia de procurar a fonte do poder.

A energia parecia se espalhar por cada canto, de modo que localizar a sua origem tornava-se uma tarefa árdua. O grupo de crianças e adolescentes, herdeiros dourados e concorrentes de prata e bronze, cavaleiros nomeados e guardas, ia aumentando conforme passavam por cada lugar, mais e mais curiosos juntando-se à exploração.

Em pouco tempo, já se tratava de uma procissão. Mu poderia jurar que tinham pelo menos cem pessoas ali, todas apreensivas. Não era um cosmo hostil, mas o medo de que se tratasse de um inimigo estava estampado no rosto do mais alto dos cavaleiros ao mais baixo dos guardas. Depois da traição de Aiolos, todos temiam por mais uma investida contra a vida da reencarnação de Atena.

Conforme os minutos iam passando, o cosmo aumentava e os envolvia, elevando-se tão alto quanto o dos santos de ouro. O som de respirações ofegantes destacava-se em meio aos comentários murmurados; grande era o esforço para percorrer todo o Santuário atrás de um desconhecido, mas o ar lhes era suprimido pelo receio e pela ansiedade. Mu seguia com a multidão, alheio aos acontecimentos que o rodeavam, pois tentava se concentrar para descobrir de quem emanava tal poder, sentindo-se na obrigação de fazê-lo, uma vez que era mais sensitivo que os demais e tinha maior facilidade em associar o cosmo ao seu possuidor.

Tal distração o impediu de perceber que se aproximavam do lugar que Shaka pedira para que se mantivesse afastado até que fosse tarde demais e o céu já estivesse encoberto por um teto verde de folhas das árvores.

Parou, sobressaltado, quando percebeu onde estava, o pedido de Shaka ressoando em sua cabeça. Notou, junto com todos, que a presença estranha era sentida com maior intensidade ali. Seu coração acelerou e a voz do indiano ficou tão alta em sua mente que era como se o loiro estivesse falando ao seu lado. Shaka sabia. O tempo todo, sabia que algo iria acontecer naquele lugar, e o ariano sentiu-se mal por não ter acatado seu pedido.

Ouviu múltiplas interjeições de surpresa e alívio quando os que iam na frente do aglomerado chegaram à uma clareira. Ficando na ponta dos pés, Mu percebeu que tinha alguém mais adiante, mas um brilho dourado ofuscou sua visão. Com muita dificuldade, conseguiu se aproximar, espremendo-se entre os mais fortes. Sua boca abriu-se em espanto quando seus olhos se acostumaram com a luz intensa e finalmente conseguiram distinguir as feições da pessoa.

– Shaka! – Gritou, atraindo a atenção de todos para si.

No extremo oposto da clareira, o indiano estava em pé, flutuando alguns centímetros acima do chão. Fazia a tríade com as duas mãos, a direta perto do pescoço, o braço na vertical, a outra perto do umbigo, o braço na horizontal, numa posição de meditação que Mu nunca o vira assumir antes. Os olhos estavam fechados e seus cabelos loiros pairavam no ar, impulsionados pelo poder de sua cosmo energia, que se exteriorizava através de feixes de luz dourada que se projetavam do corpo do menino.

O coração de Mu falhou uma batida quando percebeu o que o amigo vestia.

A sagrada armadura de Virgem cobria-lhe a pele de alabastro, o dourado do traje disputando com seus cabelos qual era capaz de brilhar mais. Vários tons de amarelo se misturavam ao longo da armadura, dando vida e beleza aos detalhes, que luziam intensamente. Pareciam feitos um para o outro, cavaleiro e armadura.

Naquele momento, o fato de as armaduras de ouro escolherem os seus herdeiros fez muito sentido para o ariano: tal traje não se encaixaria com tamanha perfeição em nenhum outro humano. Tinha traços suaves e delicados, dignos da Virgem que dera o nome a sua constelação protetora, que fundiam-se com a serenidade, magnificência e pureza que Shaka possuía, criando uma visão harmoniosamente sublime.

No meio daquele mar flavescente, o púrpura ganhou destaque. O lemuriano reparou que um rosário de contas roxo enrolava-se ao logo do antebraço de Shaka, começando no cotovelo e terminando em seus dedos, dando várias voltas. Daquela distância, parecia grande demais. Mu nunca tinha o visto com o amigo antes.

Chamou-o mais uma vez, e mais uma, e mais uma, até que o esforço fez sua garganta doer. A multidão começou a se dispersar logo depois de averiguar que não se tratava de nenhum algoz, e apenas os mais curiosos continuaram ali. Mu deu um passo na direção do indiano, depois outro, mas antes que avançasse um terceiro, uma mão fechou-se em seu ombro e o impediu de seguir adiante. Olhou para trás, e a imponente figura do Grande Mestre do Santuário olhava o cavaleiro de Áries através de sua máscara.

– Não se aproxime, Mu. Não é seguro. – Mesmo sabendo que Mu o obedeceria, Shion fez questão de continuar segurando-lhe o ombro com firmeza.

– Mestre, Shaka não me machucaria. Não precisa se preocupar. – Tentava se desvencilhar do aperto para correr até o virginiano; sentira tanto sua falta naqueles poucos dias que mal podia conter a vontade de ir ao seu encontro.

O Grande Mestre puxou o pupilo para trás, obrigando-o a recuar alguns passos na direção oposta da que tentava seguir. Desgostoso, Mu se deu por vencido, incapaz de lutar contra uma ordem de seu mestre.

– É para seu bem, Mu. O cosmo de Shaka protege seu corpo, criando uma barreira que ataca aqueles que se aproximam. Shaka não está aí. Esse é o seu corpo, mas seu espírito ainda está longe.

O ariano piscou várias vezes, sem entender o que Shion queria dizer. Ele estava vendo Shaka, igualzinho uma semana atrás. Parecia muito sólido e real.

– Mestre, eu o vejo. Sei que vossa sabedoria é maior que a de qualquer um, mas meus olhos não mentem.

– Shaka ainda não lhe ensinou nada, Mu? Não fique preso ao físico. Enxergue com o cosmo. Com a alma.

Lutando contra a ansiedade e a curiosidade, Mu concentrou-se. Fechou os olhos, tal como o loiro à sua frente, e ignorou tudo o que estava acontecendo ao seu redor. Concentrou-se. Aos poucos, começou a elevar seu cosmo, diminuiu a respiração e os batimentos cardíacos até que tudo pareceu sumir. Então, quando suas íris esverdeadas se abriram para encarar o rosto de Shaka, ele pode sentir. Nada. Era como encarar o vazio. Não podia detectar nenhum sentimento, nenhuma emoção, nenhuma alma, como se o corpo à sua frente estivesse sem vida, apesar da poderosa cosmo energia que dele emanava.

– O que significa isso, mestre? – Aturdido, piscou mais uma porção de vezes.

Shion afrouxou o apertou no ombro de Mu.

– O poder de realizar projeções astrais é comum nos cavaleiros de Virgem. A armadura costuma os reconhecer quando desenvolvem essa técnica por completo. – Diante da expressão confusa de Mu, o Grande Mestre prosseguiu. – Projeção astral é a capacidade de cortar a ligação entre corpo e espírito, fazendo com que este vague por qualquer lugar do planeta. Aquele que domina a arte de tais viagens em seu último estágio consegue levar o cosmo junto do espírito. Isso permite que se realize ataques contra quaisquer inimigos, em qualquer hora e lugar, independente da distância. Uma parte do cosmo fica junto ao corpo, protegendo seu dono de possíveis ataques, numa técnica semelhante à Muralha de Cristal.

Mu já não encarava mais o loiro com sua clarividência, mas seus olhos permaneceram fixos em seu corpo vazio, que flutuava sobre a grama com suavidade, na busca de algum sinal de que ele estava de volta. Então era essa a viagem da qual Shaka lhe falara? Teria ele nunca saído do Santuário? Ou pior, teria ele ficado meditando no bosque todos aqueles dias, e por isso pediu que Mu se mantivesse longe, para não interferir sua concentração? Sua cabeça doeu diante da ideia.

– Mestre, isso quer dizer o que estamos sentindo não é todo o cosmo de Shaka? – Perguntou o ariano mais jovem depois de um longo silêncio.

Shion balançou a cabeça afirmativamente, virando-a na direção do cavaleiro de Virgem. O motivo de Shaka manter os olhos fechados veio à mente de Mu, e ele se pegou imaginando qual seria a dimensão do poder presenciado caso ele os tivesse aberto.

– Eu nunca tinha sentido um poder tão grande antes... E Shaka nunca emana cosmo algum, ocultando seu real poder o tempo inteiro. Sempre soube que ele era poderoso, só que... – Pensou por alguns instantes antes de continuar. – Só que eu não imaginava que era tanto. Deve ser muito difícil fazer uma coisa dessas.

– É um dos poderes da meditação, Mu. – Explicou o mestre. – A concentração de Shaka é muito elevada, e ele está em constante estado de plenitude, de modo que seu cosmo e seu espírito de luta ficam adormecidos. Ele só os libera quando quer. Eu não podia esperar menos dele, sendo quem é.

Sendo quem ele é? Do que Shion estava falando? Ele era Shaka, o cavaleiro de ouro de Virgem, o mais novo guardião da sexta casa, nascido e treinado para ser um defensor de Atena e o melhor amigo de Mu de Áries. Aquele pensamento fez Mu sorrir. Melhor amigo. Nunca tinha pensado dessa maneira, apesar de já saber disso há um bom tempo.

– O que vossa excelência quer dizer com isso?

– Ah, Mu... Shaka ainda não te contou? – Disse enquanto observava a expressão intrigada do tibetano de soslaio. – Bem, não serei eu que irei contar. Shaka sabe o que faz, e quando faz. Não interferirei em suas escolhas.

Mais mistérios, mais incertezas. Mu era um livro aberto, contava tudo para Shaka, tudo. E o que recebia em troca era uma infinidade de perguntas sem resposta. Como se isso não bastasse, o Grande Mestre nunca ajudava; sabia muito sobre o loiro, mas nada contava. Sempre que o discípulo lhe fazia alguma pergunta, apenas dizia que estava perguntando à pessoa errada. Vivia com a constante sensação de que nada sabia a respeito do virginiano, apesar de passar muito tempo ao seu lado.

Sacudiu a cabeça parar espantar os pensamentos, e uma dúvida lhe ocorreu.

– Quando ele irá voltar?

O pequeno lemuriano observou o mestre levar à mão ao queixo encoberto pela máscara, pensativo.

– Quando achar que deve. É a primeira vez que atinge esse nível e deve estar um pouco curioso. Mas acredito que não vá aguentar muito tempo, pela falta de prática. Mais algumas horas, no máximo.

Áries assentiu e sentou-se no chão, as pernas esticadas e os braços para trás, lhe servindo de apoio.

– Vai esperá-lo?

– Vou.

– É uma ótima ideia. Acho que Shaka precisará de você quando acordar.

A cabeça de Mu se ergueu para observar o Grande Mestre, magnífico em sua enorme e alva túnica, que destacava seus muitos colares e pulseiras, o cabelo esbranquiçado pelo tempo saindo pelas bodas do elmo dourado e caindo numa cascata ondulada por suas costas. Vivera com Shion em Jamiel por muitos anos, e vê-lo com tais trajes era um pouco estranho para Mu, que se acostumara com as roupas simples que seu mestre trajava no dia a dia.

Enrugou a testa, os pontos que substituíam suas sobrancelhas se aproximando.

– Por que Shaka precisaria de mim?

– Essa experiência irá drenar suas energias. Acredito que ele ficaria contente se um amigo lhe ajudasse a subir até sua nova morada para descansar. – Colocando as duas mãos para trás, Shion virou as costas para o discípulo e pôs-se a caminhar a passos largos.

Sorrindo, Mu observou-o afastar-se, a pesada túnica farfalhando no chão. Seus olhos se voltaram para o corpo vazio de Shaka, e ali permaneceu sentado, motivado pelo carinho e dedicação que tinha para com o virginiano.


• • •


Mu foi o único que ficou esperando pelo despertar do cavaleiro de Virgem, fato que só ocorreu quando o sol já se preparava para iluminar o outro lado do planeta. Por horas, o corpo de Shaka ficou flutuando do chão, os olhos fechados, a poderosa energia envolvendo tudo ao redor e conferindo a proteção necessária ao seu corpo. Num piscar de olhos, porém, sua presença desapareceu e todo seu cosmo cessou, como acontece com a chama de uma vela quando acariciada por uma lufada de ar.

A verdade era que Mu esperava que seu cosmo fosse diminuir gradativamente conforme seu espírito e seu corpo voltassem a se encontrar, e grande foi sua surpresa quando sentiu aquela energia calorosa sumir ao mesmo tempo que ouviu um corpo bater contra o chão, fazendo seu dono soltar um gemido de dor.

O ariano colocou-se de pé num salto e correu a distância que o separava de Shaka, a proteção cósmica extinta permitindo que se aproximasse. Parecia impossível que alguém tão branco como Shaka ficasse pálido, mas ele estava no momento em que os olhos de Mu recaíram sobre seu semblante desperto. Soube que estava de volta porque se mexia agitado, mas o lemuriano ficou decepcionado: esperava, de algum modo, que seus olhos se abrissem quando retornasse. As pessoas abrem os olhos quando acordam – de um sono, de um desmaio, de um transe – e uma parte sua achou que isso de aplicaria a Shaka também. Tratava-se de uma reação instintiva, mas o normal não se aplicava ao cavaleiro de Virgem. Nunca.

Shaka massageava as têmporas com a mão enfeitada pelo rosário, enquanto a outra percorria seu tórax, tocando a armadura; não deveria ter sentido o momento em que fora envolvido pela veste sagrada. Mu viu um sorriso de satisfação se formar em seus lábios finos e percebeu que também sorria, a alegria de Shaka sendo sua também. Ajoelhou-se ao lado do mais novo cavaleiro de ouro, e segurou uma de suas mãos.

– Mu? – Chamou o loiro, numa voz tênue e exausta.

Delicadamente, Mu ergueu a cabeça de Shaka alguns centímetros do chão, e tirou o elmo, soltando uma franja suada que clamava por liberdade. Afastou os fios molhados da testa do amigo, sentou-se e pousou a cabeça em seu colo, a cabeleira loira espalhando-se por suas pernas. Notou que o indiano estava ofegante, os lábios entreabertos numa busca ávida por mais oxigênio. Tentou se levantar, mas Mu pressionou seu peito contra o chão, impedindo-o.

– Você precisa descansar... – Falou com doçura, limpando com a barra da túnica as gotículas de suor que emergiam da pele lívida de Shaka.

Reparou que o amigo estava agitado. As mãos não paravam quietas, passeando pelos entalhes dourados da armadura ou perdendo-se nas contas do rosário que ele agora estava desenrolado do braço. Uma das pernas estava flexionada, enquanto a outra balançava de um lado para o outro, num claro sinal de agitação. Mu achou graça naquela inquietude, que fazia Shaka parecer menos divino e mais humano. Alcançável, concluiu, repousando uma mão sobre as ombreiras da armadura.

Alguns minutos mais tarde, Shaka aproveitou-se da distração de Mu para sair da inércia, ficando ajoelhado na grama. A cor, que havia voltado ao seu semblante, o deixou mais uma vez; arfou com o esforço e teria caído para frente se Mu não tivesse lhe segurado. O loiro afundou a cabeça no ombro do lemuriano e suspirou, resignado.

– Descanse um pouco, Shaka. O Grande Mestre disse você estaria sem energias... – A voz do ariano era macia e reconfortante.

Shaka balançou a cabeça em sinal de concordância, deitando mais uma vez sobre a relva verdejante e permitindo que Mu reconduzisse-lhe a cabeça por sobre suas pernas. Longos minutos se passaram e a respiração do loiro continuava descompassada. Reparou que sua testa estava franzida, as sobrancelhas loiras quase se tocando. Mu esgueirou uma de suas mãos por entre a franja fofa, colocando dois dedos sobre as rugas formadas e massageou com delicados movimentos circulares à fim de desfazê-las.

– Relaxe. – Sussurrou, repetindo o gesto até que a expressão do virginiano se abrandasse.

Seus dedos deslizaram pela testa até alcançar o couro cabeludo de Shaka, passeando ao longo dos fios loiros que se estendiam em suas pernas. Eram absurdamente macios, de textura tão deleitosa quanto o calor das chamas de uma lareira num dia frio.

Aquela vulnerabilidade do amigo o incomodava; Shaka era um poço de força e serenidade, de aparência inabalável, sempre no controle de suas ações. Olhar sua expressão tranquila sempre enchia Mu de uma paz de espírito que até então desconhecia. Vê-lo fora de si fazia um alerta soar na cabeça do lemuriano, dizendo que algo estava errado; era como acordar de manhã e ver o mar no céu e o céu no mar.

As estrelas já começavam a tomar seus lugares habituais quando a voz de Shaka cortou a escuridão trazida pelo ocaso.

– Quanto tempo eu fiquei fora?

Perdido em preocupações, Mu demorou para entender a pergunta. Pensou por alguns instantes antes de responder.

– Faz cinco dias desde que nos despedimos.

– Cinco dias... – Repetiu num fiapo de voz, e Mu reparou que seus lábios tremeram com a saída das palavras.

Vagarosamente, ficou sentado, usando as mãos para se apoiar no chão. Mu ficou alerta para o caso dele voltar a perder as forças, mas não lhe pareceu que aquilo aconteceria daquela vez. Acabou por ajudá-lo a ficar em pé, passando um dos braços de Shaka por seus ombros, enquanto o enlaçava pela cintura com firmeza, para que não caísse.

– Você ficou meditando por todo esse tempo? – Perguntou Mu, assim que começaram a caminhar. O loiro assentiu, cambaleando em seu passo seguinte. – Shaka? – Chamou quando a cabeça loira pendeu para frente. – Shaka? – Chamou mais uma vez, preocupado. Nenhuma resposta foi proferida. Sentiu o braço que envolvia seus ombros pender, sem forças, ao mesmo tempo que as pernas do virginiano ficavam moles.

Mu era um pouco mais alto e encorpado que Shaka; este, porém, trajava uma armadura de ouro, que fazia com que seu peso aumentasse consideravelmente e, depois de alguns segundos mantendo seu corpo desfalecido em pé, Áries não aguentou mais e o soltou. Antes, porém, que o corpo de Shaka se chocasse contra o chão pela segunda vez, Mu usou sua telecinesia para fazer com que o menino pousasse suavemente no chão, leve com uma pluma. Foi a sua vez de ficar ofegante em razão do esforço repentino.

Abaixou-se novamente junto ao loiro, que agora estava completamente imóvel, sua respiração quase inaudível, nenhum músculo se mexendo, toda a inquietação de minutos atrás apagada.

Uma brisa gelada, que indicava a aproximação do Outono, atravessou as árvores, fazendo as folhas caídas ao chão rodopiarem no ar e um arrepio percorrer todo o corpo do cavaleiro de Áries, num prelúdio de que a noite seria fria. Não deveria haver mais ninguém treinando àquela hora, e Mu sentiu seu estômago roncar de fome, a lembrança do pedaço de bolo com leite que fora seu desjejum pairando em sua mente. Passara o dia esperando o retorno do virginiano, esquecendo-se de suas próprias necessidades, e seu corpo agora reclamava por um pouco de atenção. Precisava sair dali, comer alguma coisa e sentar num lugar confortável. Mas nunca deixaria Shaka sozinho. Tampouco aguentaria carregar o amigo debilitado até as Doze Casas.

Por sorte, tinha uma solução.

Tocou o braço do virginiano com carinho ao mesmo tempo que mentalizava a imagem da entrada da casa de Áries. Seu cosmo se elevou por um breve instante e, com um estalido, desapareceu da clareira, teletransportando-se junto com o cavaleiro de Virgem.


• • •


– Mu. – Chamou num sussurro melódico, quebrando o silêncio sepulcral do quarto.

Os olhos verdes de Mu se abriram, e ele encarou a escuridão.

Estava tão cansado que não tinha conseguido dormir. Depois de ficar o dia em vigília esperando Shaka acordar, o cavaleiro de Áries ainda tinha feito uso de seus poderes psíquicos para transportar o amigo para a primeira casa. Achou, porém, que se Shaka estivesse consciente, teria escolhido passar sua primeira noite como cavaleiro de ouro na casa de Virgem. Assim, o carregou pelas infinitas escadarias que separavam cada uma das Doze Casas, pedindo licença para seus ocupantes, até que as pilastras da sexta casa se ergueram diante de sua visão. Não era permitido usar o teletransporte para atravessar os templos, por isso Mu carregou o amigo até sua nova morada.

O balanço da subida não foi capaz de acordar o indiano, que permaneceu imóvel, todas as forças esvaindo-se de seu pequeno corpo. Ficou à cargo de Mu tirar-lhe a armadura, peça por peça, e depois montá-la na forma da virgem orando com os dedos entrelaçados. Colocou Shaka na cama, cobrindo-o com um edredom para que o frio não atormentasse seus sonhos.

Os aposentos privados da casa de Virgem eram muito parecidos com os da casa de Áries, e estavam impecavelmente limpos e bem cuidados – provavelmente o Grande Mestre mandara alguém prepará-los para receber o novo cavaleiro. A única diferença, que fazia Mu não se sentir em seu próprio templo, eram as estátuas de Buda e da virgem Astréia que decoravam a pequena sala, bem como o entorno da casa e o saguão principal.

Depois de um rápido jantar trazido pela sorridente serva que sempre buscava Shaka, Mu resolveu passar a noite com o amigo. Sem dúvida ele era mais necessário ali do que protegendo a primeira casa. Todos estariam sabendo se uma batalha estivesse por começar, e abandonar seu posto pareceu-lhe a coisa certa a fazer.

Deitou-se na cama ao lado de Shaka e observou seu rosto até que a vela colocada sobre o criado-mudo se consumisse. Era possível ver pequenas olheiras escuras nas bolsas abaixo de seus olhos sempre fechados, e as bochechas estavam mais magras, fazendo com que o osso se destacasse por baixo da pele. Pequenos ramos e folhas se agarravam ao cabelo loiro, e suas vestes estavam sujas de terra. Mu optou por não trocar a roupa do amigo, mas retirou todas as sujeiras dos cabelos sedosos com um cuidado excessivo, com receio de que o menor movimento pudesse acordá-lo.

Só um resquício do tilak vermelho permanecia entre as sobrancelhas tão claras quanto seus cabelos. Áries olhou mais atentamente, e percebeu que Shaka tinha uma pequena cicatriz no exato lugar em que a tinta havia desbotado. Mirou as pálpebras fechadas por muito tempo e precisou controlar a vontade de erguer uma delas para ver qual era a cor de suas íris.

Quando a chama da vela morreu e o quarto foi tragado pelas trevas, Mu fechou os olhos, mas a respiração lenta de Shaka ainda prendia sua atenção. Conforme a madrugada se aproximava, ia ficando cada vez mais vagarosa, apenas para se intensificar algumas vezes até fazê-lo arfar e gemer palavras incompreensíveis, advindas de algum sonho ruim. Quis acordar o virginiano e libertá-lo dos pesadelos, mas ele parecia tão cansado que Mu teve dó. Mesmo sabendo que poderia não estar ajudando em nada, reconfortou-o com palavras doces todas as vezes, até que agitação onírica se dissipasse.

– Mu. – Entoou sonoramente uma segunda vez. Não era uma pergunta.

Virou para o lado, na direção da voz. A escuridão o permitiu ver apenas o contorno do rosto de Shaka, a única parte de seu corpo que estava fora do edredom que dividiam; estava virado para cima, e mesmo vê-los, Mu sabia que seus olhos estavam fechados.

– Como você sabe que sou eu? – Foi a primeira coisa que conseguiu dizer. A escuridão era tamanha que, se Mu não soubesse quem estava ao seu lado, mal teria conseguido identificar. Mas Shaka não precisava enxergar para saber que se tratava dele; ele sabia, sempre sabia. Já conhecia Mu melhor que ele próprio.

Um riso escapou lábios do indiano antes que voltasse a falar.

– Quem mais haveria de ser? – Justo.

O ariano sentou-se, as costas apoiadas na cabeceira da cama de dossel. Levou a mão a testa do amigo, afastando-lhe os cabelos, que se grudavam com as gotas de suor que ainda teimavam em escorrer por sua tez.

– Como você se sente?

– Cansado. – Suspirou, e afastou o edredom, ficando descoberto da cintura para cima. Mu viu o contorno de seu tórax subir e descer rapidamente, a respiração acelerada. – Você sabe que não precisava ter me esperado... nem me trazido para cá... nem ficado aqui comigo. – Falou baixinho, o incômodo por ter necessitado de ajuda tão evidente que quase assumia uma forma corpórea e tateável.

– Precisava. Você teria feito o mesmo por mim.

Shaka assentiu, e voltou a puxar o edredom até o queixo. Faltavam algumas horas para o amanhecer, então Mu escorregou para debaixo das cobertas, imitando o gesto do indiano e deixando apenas o rosto descoberto. Explorou o espaço entre eles até que sua mão encontrou com a de Shaka e repousou sobre ela, num aperto gentil. Fechou os olhos e não tardou para ser tragado por um sono pesado e cheio de sonhos incompreensíveis. Mal sabia que era apenas a primeira de muitas vezes que dividiria os lençóis com Shaka de Virgem.

Acordou incomodado com a claridade trazida com a alvorada e percebeu que algo estava diferente naquela manhã. Abriu os olhos para ver o que se passava, mas tudo o que sua vista enxergou foram fios muito dourados. Piscou algumas vezes, as memórias do dia anterior se materializando em sua mente. Pouco a pouco, as peças do quebra-cabeça se juntaram e seu rosto ardeu de vergonha quando foi capaz de compreender a situação.

A cabeça de Mu partilhava o mesmo travesseiro com a de Shaka. Seu queixo repousava no ombro do indiano e seu nariz quase tocava-lhe o pescoço. Os cabelos loiros alastravam-se entre os dois meninos, e o rosto do ariano afundava-se neles. Teve a atenção desviada para um de seus braços, que subia e descia no compasso da respiração do loiro, e percebeu que o abraçava pela cintura. Pelo pouco que pode ver, ficava evidente que ele tinha se aconchegado nos braços do amigo, invadindo sua metade da cama durante o sono.

Quis teletransportar-se dali e não dar as caras por um bom tempo.

Quase o fez, mas constatou algo que o fez mudar de ideia no último segundo: uma das mãos de Shaka abraçava sua cintura. Respirou aliviado e tornou a fechar os olhos. Afinal, se não quisesse aquela proximidade, o virginiano o teria repelido, e não só não o tinha feito como parecia aceitar de bom grado o contato.

Shaka dormia profundamente, e Mu usou isso como desculpa para não se levantar, afinal, não correria o risco de acordá-lo. Mas a verdade é que não queria que aquele momento acabasse. Sempre acordava cedo mas, naquele dia, resolveu ficar na cama até mais tarde, desfrutando daquele gesto um pouco mais. Sentia-se protegido e amparado, e sabia que nenhum mal iria lhe acontecer enquanto o cavaleiro de Virgem estivesse ao seu lado.

Vencido pelo cansaço, dormiu novamente, tendo o melhor sono de sua vida até então.


Notas finais
Quando os dois se conheceram, Mu já era um cavaleiro, mas Shaka ainda não, porque eu precisava escrever isso! Queria, acima de tudo, mostrar o quão dedicado ao Shaka ele é, e como é prestativo e carinhoso. Desculpem-me por fazer o Shaka tão vulnerável, mas foi necessário. Dói no meu coração, acreditem.
Esclarecimentos:
01. A ideia de projeção astral veio com o episódio em que Shaka usa seu poder para imobilizar Ikki enquanto seus discípulos o atacavam. Não sei o quão dentro do enredo original da série isso está, pois não vejo certos episódios há anos.
02. Não sabia que nome dar a essas viagens, e "projeção astral" foi tirado do episódio 8x15 de Supernatural, então crédito aos roteiristas e criados da série.
Até o próximo!