Castelo de Areia

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Notas iniciais
Devo um pedido de desculpas a todos que vem acompanhando a história; minhas atualizações não costumam demorar muito, mas eu tive muitos problemas pessoais essa semana e resolvi, mais uma vez, optar pela demora ao invés de fazer algo mal feito.

Gostaria de agradecer a todos pelo imenso carinho que tenho recebido nos comentários. Vocês não tem ideia de como isso me faz feliz! Todos são maravilhosos, e palavras não são insuficientes para expressar a gratidão que tenho. *O*
E um obrigada mais que especial para a Tia Pê pela recomendação linda! ♥

E agora, o capítulo!

Outros níveis

Os olhos de Milo brilhavam de curiosidade à medida que Mu contava seus últimos avanços com Shaka. Teve que atualizá-lo quanto ao dia em que o virginiano abria os olhos, pois tinha optado por mantê-lo em segredo aquele momento.

– Por Atena, ele entrou na banheira com você?! – O escorpiano quase gritou, a boca escancarada de espanto. Mu assentiu e terminou o relato, suas bochechas pegando fogo diante das memórias lascivas. – Uau, você é um garoto de sorte. Se Camus tivesse a metade da safadeza desse loiro...

– Shaka não é safado! – Mu protestou, ofendido.

– Deixa de ser inocente, Mu! O cara fica te provocando sempre que pode, depois sai te beijando, te apalpando, entra pelado na banheira com você e ainda dorme de conchinha! Eu sabia que ele era safado, sempre soube.

– Milo...

Três dias haviam se passado desde o aniversário de Shaka, e Mu fora praticamente obrigado a contar tudo o que tinha acontecido para Milo, que o infernizara num nível que só ele conseguia, querendo saber porque o ariano tinha passado tanto tempo com Virgem e o que eles tinham feito. Já que Shaka não se mostrara incomodado com o que os outros iriam pensar, achou que não teria problema em segredar os fatos ao grego.

– Mas é verdade, Mu. E foi você quem começou com isso tudo, quando foi se engraçar pra ele pela primeira vez.

Constrangido, Mu abaixou a cabeça, deixando que os fios lilases de sua franja cobrissem o rosto angelical, as bochechas afogueando-se ao pensar que Milo havia presenciado seu primeiro beijo. Realmente, privacidade era algo inexistente no Santuário.

– Você não pode comentar isso com ninguém, Milo. – Pediu baixinho.

– Mas você não disse que Shaka não se importa com o que os outros vão comentar?

Mu revirou os olhos.

– Uma coisa é comentarem baseados em achismos e boatos, outra bem diferente é comentarem o que eu falei. Shaka é muito discreto, não vai querer expôr sua intimidade dessa maneira.

– Ou seja – um sorriso malicioso se formou nos lábios do escorpiano –, ele quer pagar uma de bom moço enquanto dá uns amassos escondido com você!

– Não fale desse jeito! – Mu usou um tom ríspido muito diferente do habitual. Detestava que falasse qualquer coisa que maculasse a imagem do virginiano. – É ofensivo. Shaka já implica com você, o que acha que ele faria se te ouvisse falando assim?

– Mas ele não está aqui! Só vai ficar sabendo se você contar. – Provocou Milo com uma piscadela.

– Eu posso contar! – Retrucou o ariano, tentando impôr medo

– Você? Quer que eu acredite que você faria qualquer tipo de intriga?

Os dois sorriram ao mesmo tempo, convictos de que Mu jamais faria qualquer tipo de intriga entre duas pessoas que gostava.

Estavam sentados na escadaria defronte à primeira casa; Milo havia escapulido da arena antes de Camus, unicamente para encurralar Mu sozinho e o persuadir a contar-lhe suas aventuras na sexta casa. Se havia uma coisa que o cavaleiro de Escorpião tinha de invejável, era sua lábia. Levava – quase – qualquer um na conversa, e sempre conseguia tudo o que queria, ainda mais quando seu alvo era alguém tão doce e ingênuo como o lemuriano.

– Mas vou contar para Camus. – Informou o grego.

Os olhos de Mu se arregalaram, e uma da suas mãos fechou-se no pulso encoberto pela armadura dourada de Milo.

– Não conte, por favor. – Suplicou.

– Camus já sabe que alguma coisa estava acontecendo entre vocês dois. Foi por isso que ele parou de ir visitar Shaka...

– Como assim? – Mu interrompeu.

– No dia em que você me pediu para distraí-lo para ficarem sozinhos, eu falei para ele que você gostava de Shaka. Óbvio que não se surpreendeu, porque você deixa tudo muito na cara. Convenci-o de que vocês precisavam de privacidade para se acertarem, e me ofereci para fazer companhia... – Deu ênfase nas duas últimas palavras, deixando claro qual o tipo de companhia desejava fazer para o aquariano.

– Mas ele pode contar para o Shaka! – As bochechas de Mu ruborizaram-se ante a perspectiva.

– Primeiro, pude perceber que eles não são confidentes. Segundo, Camus é tão discreto quanto Shaka. – Milo falou, enumerado com os dedos. – Se quiser alguém em quem confiar, não existe pessoa melhor. Veja eu, contei tudo para ele na primeira oportunidade! – Riu da própria cara de pau.

Mu não acompanhou o riso de Milo, ficando um pouco chateado por seu segredo ter sido revelado sem seu consentimento, não sabendo com que cara olharia para o francês dali para frente. Mas como não guardava mágoas, logo o ariano retomou a conversa.

– Você também saiu ganhando com essa história. – Mu sorriu com sinceridade.

– Bom, saí. Mas Camus é tão difícil... – O escorpiano suspirou.

– Difícil como?

– Digamos que ele não é passivo como você. – O ariano não entendeu o que o amigo quis dizer, mas logo outra frase foi emendada e não teve tempo de perguntar. – Acho que a Sibéria o deixou mais frio do que já era. Ele é muito fechado, e ignora categoricamente qualquer indireta ou provocação. Colocou uma barreira enorme entre nós, uma barreira que não existia quando éramos crianças. Eu mal posso tocá-lo, acredita? Se esquiva toda vez que eu me aproximo...

De soslaio, Mu viu uma tristeza ímpar instalar-se naqueles olhos brincalhões e soube exatamente o que o amigo sentia. Já ouvira Milo falando inúmeras vezes de como Camus era frio e distante, sempre agradecendo mentalmente aos deuses por Shaka ser mais receptivo e caloroso, salvo raras exceções. Apaixonar-se por uma pessoa que sequer permitia qualquer tipo de contato físico deveria ser um tanto desesperador.

– Mas já é um começo, não? – Mu tentou animá-lo. – Quer dizer, ele mal falava com você.

– Claro que é um começo... Mas é um pouco cruel. Ao mesmo tempo que fico feliz por estar ao lado dele de novo, fico triste por não poder estar do jeito que eu quero. Tenho uma necessidade física muito grande toda vez que estou com ele.

– Necessidade física? — Perguntou o ariano, curioso.

Milo deixou escapar uma sonora gargalhada.

– Desejo, seu tolo! Céus, sempre me esqueço de como você é inocente!

Novamente, Mu abaixou a cabeça, mirando as tiras das sandálias que envolviam seus tornozelos.

– Já tentou... beijá-lo? – Murmurou.

– Não! – O grego respondeu com veemência, surpreendendo Mu. – Mal consigo encontrar em sua mão ou dar uns tapinhas em suas costas. Não posso arriscar esse avanço porque o desejo. Tenho que ir com calma. Vai dar trabalho, mas eu sei que vai valer à pena.

O brilho apaixonado voltou aos olhos azuis de Milo; era sempre a mesma coisa: quando começava a falar de Camus, assumia aquela postura de admiração e carinho. Mu se perguntou se também ficava daquele jeito quando falava de Shaka, e concluiu que sim, pois Milo sempre ressaltava o quanto ele deixava seus sentimentos evidentes.

Não puderam, porém, dar sequência à conversa, pois uma cabeleira de fogo aproximava-se. Áries e Escorpião ficaram em imediato silêncio, como crianças pega no ato de uma travessura. Conforme o aquariano se aproximava, a vergonha por ele ter conhecimento de seus sentimentos para com Shaka fez sua tez avermelhar-se e suas mãos umedecerem-se de suor frio.

– Mu. – Cumprimentou Camus ao parar diante dos rapazes, sempre muito formal. Mu retribuiu o cumprimento com um aceno de cabeça. O francês não mencionou nada sobre ter sido deixado para trás por Milo.

– Camus – cantarolou Milo, cheio de malícia –, Mu gostaria de te contar algo!

– Gostaria? – Perguntaram os cavaleiros de Áries e Aquário ao mesmo tempo, trocando olhares confusos entre si e com o escorpiano.

– Como Camus vai ficar sabendo de qualquer jeito, então imaginei que fosse preferir contar você mesmo, Mu, mas eu posso fazer isso, sem problemas. – O rosto de Mu ficava mais vermelho a cada palavra de Milo. – Você pode achar interessante ouvir uma opinião diferente da minha sobre sua situação. Garanto que Camus terá opiniões interessantes para compartilhar contigo.

Vencido mais uma vez pela lábia do guardião da oitava casa, Mu pôs-se a relatar pela segunda vez naquele dia os beijos trocados entre o cavaleiro de Virgem e ele. Milo partilhou da mesma excitação da primeira vez, soltando comentários maliciosos, dando alguns assobios e provocando o tímido narrador. Camus, porém, mostrava-se impassivo, não deixando transparecer, nem por um instante, o que pensava. Ouvia tudo com atenção, seu cérebro processando as novas informações de tal maneira que Mu quase podia ver as engrenagens trabalhando dentro de sua cabeça ruiva.

– Vocês dois ainda não perceberam? – Perguntou indiferente ao término do relato, como se falasse da coisa mais óbvio do mundo. A falta de resposta demonstrou que Áries e Escorpião não tinham percebido. – É simples. Shaka gosta de estar no controle das situações, Mu. Quando você o beijou na primeira vez e depois partiu, você tirou isso dele, e obviamente o deixou confuso. Acredito que foi por isso que ele se afastou de você depois e é por isso que ele não quer falar sobre o assunto. Isso o deixa vulnerável, o que claramente o desagrada.

As palavras de Camus fizeram um sentido absurdo para Mu, e a compreensão tomou conta de seu semblante. Então era isso?

– Faz sentido. – Comentou Milo. – Arrogante do jeito que ele é, preferiu se afastar do que dar o braço a torcer.

– Mas então – Camus continuou – ele descobriu um jeito diferente de manter o controle. – Seus olhos vermelhos se fixaram em Mu, esperando que ele respondesse, mas o ariano apenas sacudiu a cabeça em sinal negativo. – Ele o provoca quando quer, o beija quando quer... Imagine que ele é o mar, e você, um barco à deriva; irá aonde ele te levar.

– Isso é um pouco assustador. – Comentou o grego, buscando os olhos de Mu com os seus atrás de algum sinal de desconforto por parte do ariano. Nada.

– Mas parece que funciona para eles. – O aquariano rebateu. Virou-se para Mu. – Você se importa com isso?

– Com o que, exatamente?

– Com seguir as “regras” – o ruivo fez o sinal de aspas com os dedos – dele.

Permitiu-se pensar por alguns instantes, e chegou a conclusão de que sempre seguira as regras de Shaka, à exceção, talvez, do primeiro beijo. Faziam o que Shaka queria, quando queria e como queria. Mu não era minimamente persuasivo, e tinha consciência de que o virginiano agia conforme sua vontade, independente de qualquer intervenção externa.

– Não. Até prefiro. – Achou por bem deixar bem claro.

– Prefere? – Os olhos de Milo se arregalaram.

– Sim. –Pensou por alguns segundos antes de continuar. – Gosto do jeito que ele conduz as coisas. Sinto-me seguro e protegido dessa maneira.

Camus sorriu, vitorioso.

– Não te digo isso há tempos, Milo? Esses dois se completam. – Falou o ruivo para Milo, como se o guardião da primeira casa não estivesse presente.

Toda a vergonha enfrentada para contar suas intimidades com Shaka para o francês pareceu valer à pena quando ouviu aquela frase. Esses dois se completam, repetiu a voz de Camus em sua cabeça, uma vez após a outra. Não foi capaz de prestar atenção ao resto da conversa, respondendo o que lhe era perguntado com monossílabos. Logo os dois cavaleiros subiram para suas respectivas casas – graças ao bom senso de Camus, pois Milo teria continuado a importunar Mu por horas.

Ainda sentado nas escadarias, Mu viu o sol se pôr e as primeiras estrelas da noite despontarem no firmamento, ostentando um sorriso cheio de amor, seus pensamentos voltados para o guardião da sexta casa, que devia estar meditando àquela hora. Aquele que o completava. O seu loiro, lembrou-se da frase de Milo no dia de seu regresso, e seu sorriso aumentou.

Naquela noite, dormiu com a certeza de que não era coisa de sua cabeça: Shaka de Virgem e Mu de Áries pertenciam-se desde sempre.

• • •

Mais uma vez, Shaka excluiu os treinos físicos de seu cronograma diário. Alegou categoricamente que não havia mais necessidade de aprimorar suas habilidades em lutras corpóreas para todos aqueles que lhe faziam perguntas.

– Meu poder deriva da mente e do cosmo. – Repetia a todos, naquele seu tom de que sabia mais do que qualquer um. – Foi uma experiência temporária, da qual já extraí todo o conhecimento empírico que desejava.

Uma baita mentira deslavada.

Apenas Mu foi informado da real intenção da decisão.

– Quero passar mais tempo com você. – Explicou no dia que comunicou a decisão ao ariano. – Não posso me dar ao luxo de depreciar minhas meditações, que são meu principal treinamento. Então, prefiro ficar aqui com você do que lá com aquele bando de insignificantes.

Ditas tais palavras, Shaka o enlaçara pela cintura, envolvendo Mu num abraço caloroso, fazendo-o sentir-se mais especial do que em qualquer outro momento de sua vida. Sorrindo, arrependera-se de, alguns minutos antes, ter argumentado para que o virginiano não parasse de frequentar a arena. Se soubesse!

Quanto mais aumentava o tempo que o cavaleiro de Áries passava na casa de Virgem, mais os comentários e burburinhos acerca dos dois se intensificavam. Quando Mu parou de frequentar a arena simultaneamente à Shaka, tiveram certeza. Ninguém, porém, tinha a audácia de desdizer a versão do indiano, que sustentava suas desculpas enquanto os demais cavaleiros sustentavam a falsa crença. Mas de Milo, Shaka não escapou.

– O treino físico de vocês vai ser pesado hoje, Shaka? – Perguntava malicioso toda vez que descia com Camus pela sexta casa.

– Não tão pesado quanto o que você já teve com metade do Santuário. – Rebatia o loiro, deixando o outro furioso e envergonhado.

Ia queixar-se com Mu sempre que podia.

– Ele faz isso porque Camus está comigo. – Choramingava o escorpiano aos sussurros para que o francês não pudesse ouvir; andavam cada vez mais juntos, sendo quase impossível vê-los separados.

– Você o provoca, Milo! – Mu defendia Shaka.

– Eu apenas brinco, e ele fica me difamando na frente do Camus.

– Todos sabem que você está mais comportado... – Repetia o lemuriano toda vez que entravam no dito assunto.

Desde que Camus voltara sua atenção para ele, Milo parara de refestelar-se com qualquer um, numa tentativa de parecer um melhor partido para seu amado. Não sabia se aquilo fazia alguma diferença para Camus, mas achava que suas chances seriam maiores se pudesse provar que era mais forte que desejos carnais. Mu aprovava a conduta, que inclusive tinha sido ideia sua.

– Assim seu relacionamento com Shaka nunca será bom. – Mu também sempre repetia, numa vã tentativa de aproximar as duas pessoas que mais gostava no Santuário.

Porém, apesar das trocas de farpas constantes, Mu sabia que Shaka estava com os ânimos muito melhores com relação à Milo nos últimos tempos. Não reclamava mais de sua presença, não discutia mais com tanta veemência e detinha-se apenas a responder as provocações que lhe eram dirigidas. Quem sabe, um dia, pudessem desfrutar da companhia um do outro sem quase entrar numa guerra cósmica. Até poderiam fazer algum programa de casal, se as coisas entre Milo e Camus se ajeitassem...

E foi em meio aos beijos carinhosos e os toques ousados na casa de Virgem que Mu se deu conta de que estava apaixonado. Concluiu que estava há tempos, mas só agora conseguia assumir aquilo para si mesmo. Os sinais tinham se manifestado muitos anos atrás; talvez, desde a primeira vez que vira aquele rosto sereno, sua sina já estivesse traçada. Por isso, provavelmente, eles sempre foram mais que amigos. Mu sempre soube que o que sentia por Shaka era diferente de todos os sentimentos que já experimentara, e isso só se intensificava conforme as coisas ficavam mais íntimas entre eles.

Suspirou, resignado, quando finalmente aceitou a ideia da paixão. Estavam sentados no sofá do segundo andar, sua cabeça recostada no peito de Shaka, cujos dedos longos percorriam seus cabelos violeta de um jeito muito gostoso. O ariano ergueu o rosto, fixando seus olhos verdes no rosto de seu melhor amigo, e viu que ele sorria. Teve vontade de falar de seus sentimentos, mas achou que seria inadequado. Apesar daquele novo nível que o relacionamento deles atingia, Shaka ainda era bastante reservado e uma declaração poderia repeli-lo.

– O que foi? – Perguntou o loiro quando reparou que estava sendo observado.

– Nada. – Mentiu Mu.

– Você não me engana, Mu de Áries. – Disse Shaka, apertando uma das bochechas do ariano com afeto, fazendo-o rir.

– Estava só pensando... – Precisava ganhar tempo, não tinha nenhuma resposta plausível para escapar da situação.

– Em que? – Insistiu, apertando a bochecha de novo.

– Em ti, é claro. – Mu sorriu seu sorriso mais meigo e pousou uma das mãos no rosto do loiro.

– Pensamentos bons? – Seus dedos deslizaram pelos cabelos de Mu com lentidão, de uma forma desconcertantemente sensual.

– Sempre bons.

A resposta pareceu deixar Shaka satisfeito, pois abaixou a cabeça até que seus lábios se encontrassem com os do lemuriano para mais um beijo intenso.

Pouco tempo depois, Shaka já havia puxado Mu para seu colo, e o beijo adquirira ares lascivos; suas mãos curiosas deslizavam pelas costas do ariano, apertando, acariciando, explorando. Mesmo que já fizesse quase um mês que trocassem amassos, Mu ainda era surpreendido todos os dias por tamanha ousadia. Quem olhava para o altivo e indiferente cavaleiro de Virgem não seria capaz de imaginar sua audácia, sua volúpia, seu atrevimento, seu calor. Cada gesto seu era carregado de uma sensualidade singular, e Mu deliciava-se sempre que estavam juntos.

Seus lábios estavam ardidos quando se separaram, e uma pressão incômoda dentro de suas calças clamava por algo mais íntimo. Só que as coisas eram lentas entre eles, os limites eram aos poucos ultrapassados, sem a menor pressa de descobrir novos prazeres. Respeitavam o tempo certo de cada acontecimento, num ritmo próprio e cúmplice.

Uma leve fumaça com cheiro de cravo subia dos incensos e impregnava o ambiente, dando ares místicos ao lugar. O coração de Mu estava acelerado, e sua pele estava totalmente arrepiada graças ao leve roçar das unhas de Shaka em sua barriga.

– Sabia que você fica uma graça todo vermelho? – Murmurou o loiro, num misto de malícia e afeto. Encostou sua testa na de Mu, fazendo os narizes se roçaram delicadamente, enquanto a mão que lhe acaricia a barriga desceu lentamente, parando no cós da calça.

Quando Shaka começou a desfazer o nó que prendia a peça de roupa, os olhos de Mu arregalaram-se e um calor subiu por seu rosto.

– Relaxa. – O indiano afagou as bochechas coradas com a mão livre. Parecia, de uma forma impressionante, saber das certezas de Mu quanto ao que sentia e do quão pronto estava para avançar.

A mão quente de Shaka deslizou para dentro de sua cueca, envolvendo seu membro por completo, dando início a uma série de movimentos lentos e cadenciados. Ofegante, Mu agarrou seus cabelos, puxando-o para um beijo ardente, beijo este que foi incapaz de abafar seus gemidos.

Todas as carícias mais ousadas entre os dois jovens haviam sido sobre as roupas até então; ainda não haviam sentido as partes mais íntimas um do outro com a própria pele. Grande foi a surpresa do ariano diante do quão bom aquilo era, de modo que gemeu impaciente quando a mão de Shaka saiu de dentro de suas calças. Com um movimento rápido do virginiano, Mu não estava mais sentado em seu colo, mas sim no sofá. Estranhou quando Shaka sentou-se no chão e se posicionou entre suas pernas, mas entendeu o que viria a seguir quando sua cueca e calças foram abaixadas até a metade das coxas, deixando seu sexo à mostra.

Observou o loiro debruçar-se sobre si, os cabelos sedosos roçando em suas pernas, fazendo-lhe cócegas, passando a depositar uma grande quantia de beijos molhados em sua pele, seguidos por mordidas e lambidas vagarosas, que subiram até sua virilha. Uma das mão de Shaka fechou-se em seu membro e retomou os movimentos anteriores, porém com o auxilio de sua boca macia, tomando-o por completo. Mu fechou os olhos e jogou a cabeça para trás, gemendo palavras incompreensíveis conforme sentia a boca de Shaka subir e descer, com tanta facilidade que a ponta de seu nariz arrebitado quase tocava sua virilha a cada investida.

Tentou avisar que estava próximo do clímax, mas não teve tempo; explodiu em êxtase dentro da boca do outro, enchendo-a com a prova irrefutável de seu prazer. Seu corpo todo tremia, mais do que em qualquer outro momento, e suas pernas estavam sem forças. Shaka ergueu a cabeça, sorrindo, e seu pomo de adão subiu e desceu quando engoliu o líquido. Sentou-se ao lado de Mu e tirou uma mecha lilás de sua testa suada.

– Shaka, me desculpe por isso... – Sua voz saiu embargada e trêmula, e a vergonha o impedindo de encarar aquelas pálpebras fechadas. Não sabia qual era o protocolo a ser seguido numa situação daquelas.

– Não tem que se desculpar... – Puxou o ariano pelo queixo, fazendo com que seus lábios encostassem nos dele. Tocou-os com sua língua, e Mu sentiu um gosto salgado, que apenas acentuou-se quando partilharam um beijo profundo. Era o seu gosto. Mu achou aquilo extremamente excitante, e quis retribuir.

Sua mão procurou a barra do sári de Shaka e a ergueu, deixando à mostra as pernas brancas e macias. Cravou suas unhas na pele acima do joelho, e foi deslizando na direção da cueca do virginiano. Teve, porém, sua trajetória interrompida por uma mão firme sobre a sua.

O beijo cessou, e as sobrancelhas de Shaka estavam enrugadas, escondendo o tilak vermelho de sua testa. Mais uma vez, Mu não conseguiu encará-lo.

– Mu, você não precisa fazer isso. – Percorreu a extensão da mandíbula do lemuriano com a ponta do nariz, mostrando que não se importava.

Desvencilhou-se da mão de Shaka, e deu sequência à exploração, cheio de segurança. Compreendia a atitude do amigo e não o culpava; a timidez o colocava sempre um passo atrás do indiano e o fazia receber muito mais do que oferecer em certos momentos, sempre muito exitante, muito cauteloso, muito constrangido.

Naquele momento, porém, seu desejo sobrepujou sua vergonha.

– Relaxe. – Repetiu as palavras há pouco proferidas para ele próprio, fazendo o loiro rir.

Tocou-lhe o pescoço com os lábios ao mesmo tempo que sua mão encontrou o membro rijo por cima da roupa íntima. O longo gemido de Shaka encorajou Mu, fazendo-o colocar a mão por baixo do tecido, sentindo a ereção pulsante sob sua pele. Um pouco sem jeito, repetiu os gestos que o indiano fizera em si, sua mão subindo e descendo no ritmo da respiração ofegante dos dois. Os beijos desferidos no pescoço transformaram-se em mordidas, o gosto doce da pele de Shaka deliciando seu paladar.

Escorregou pelo sofá, sentando-se no chão, colocando-se entre as pernas de Shaka do mesmo modo que ele se colocara entre as suas. Arrastou as unhas pela pele aveludada, sentindo o corpo do companheiro estremecer com suas carícias. Percebeu que suas mãos tremiam quando removeu a cueca e voltou a envolver o sexo do outro entre elas, mas ignorou o nervosismo. Umedeceu os lábios antes de permitir que deslizassem pelo membro de Shaka, tomando cuidado para que seus dentes não o machucassem. Seus cabelos foram envolvidos num aperto firme, e o virginiano passou a controlar a velocidade de seus movimentos.

Não foi preciso muito tempo para que enchesse a boca de Mu com um líquido viscoso e salgado, deixando-o maravilhado com a ideia de que era capaz de proporcionar um prazer semelhante ao que ele lhe causara. Engoliu tudo, satisfeito, e limpou com as costas da mão algumas gotas que tinham escorrido por seu queixo.

Foi puxado para cima do sofá e foi envolvido num beijo exigente. Sua boca foi examinada com perícia pela língua de Shaka, que ainda tinha aquele estranho sabor salgado mascarando o costumeiro gosto bom de canela.

– Seu gosto é muito melhor que o meu. – Falou contra a boca de Mu, dando leves mordidas eu seus lábios antes de se separarem.

O sofá era pequeno, então tiveram dificuldades para acomodarem-se nele. Por fim, Mu acabou deitando sobre o corpo de Shaka, sua cabeça descansando na curva entre o pescoço e o ombro; podia sentir o perfume de sândalo exalado de sua pele e cabelos. As pernas de ambos, obrigadas a ficar para fora do sofá, entrelaçavam-se de tal maneira que era difícil distinguir qual pertencia a quem, e os cabelos lilases e dourados misturavam-se e caíam do móvel, tão longos que suas pontas tocavam o chão.

– Gosto tanto da sua companhia. Mu pensou alto, tão alto que as palavras acabaram escapando de sua boca sem que notasse.

A resposta de Shaka veio na forma de um cafuné gentil em seus cabelos.

– As coisas sempre foram muito intensas entre nós, não? – Mais uma vez, seus pensamentos estavam se verbalizando sem que os medisse. Sua mente estava anuviada, entorpecida pelo prazer e pelos sentimentos bons que o inundavam após compartilhar instantes de volúpia e carinho ao lado de Shaka. – O que temos é diferente. É forte, duradouro e inabalável. Como... – Pensou por alguns segundos atrás de uma boa comparação. – Como um castelo.

Shaka não disse nada, e Mu achou que tinha falado demais, extrapolando limites antes do tempo. Condenou-se por sua falta de sensatez, e teve vontade de sair correndo dali. Apenas não o fez porque o virginiano não demonstrou nenhum sinal de descontentamento. O ariano ergueu a cabeça e viu que ele tinha a insinuação de um sorriso nos lábios.

Mais uma vez, percebeu que estava sendo encarado, e moveu-se o suficiente para que seus lábios beijassem a testa de Mu, uma vez em cada uma de suas pintas. Fechou os olhos e emitiu um suspiro prolongado. Foi puxado pela mão que Shaka mantinha em seus cabelos para um beijo doce e gentil, sem a libidinagem dos anteriores. Aquilo era amor?

– Então foi para isso que vocês pararam de frequentar os treinamentos? – Perguntou uma voz grossa e enérgica.

Num salto, Mu e Shaka separam os lábios e sentaram-se. De soslaio, de Mu viu uma expressão de extremo desagrado tomar conta do semblante do loiro, que estava pálido.

– O que você faz aqui, Leão? – Falou o guardião da sexta casa em seu tom mais arrogante e autoritário.

Só então os olhos de Mu se desviaram para o intruso. Parado no topo da escada, estava Aiolia de Leão, com sua armadura de ouro e seus cabelos vermelhos tingidos. Carregava um sorriso malicioso e desafiador, tão inconveniente que fazia Shaka apertar as mãos com tanta força que os nós de seus dedos estavam esbranquiçados.

Aiolia apenas riu.

– Eu permiti sua passagem pela minha casa. – Shaka continuou, levantando altivo e ameaçador. – Por que você subiu até aqui? Esses são meus aposentos privados.

– Ora, Shaka, só passei aqui para ver como você estava! – Riu mais uma vez, o riso ecoando na cabeça de Mu como um mau presságio. – Como eu ia adivinhar que você estaria fazendo uma coisas dessas?

Os olhos de Mu ia de um para o outro, e pode compreender que não era por ter sido interrompido que Shaka estava tão irritado, e sim por ter sido interrompido por Aiolia. Era bastante evidente que Virgem não o suportava; o evento presenciado em seu retorno de Jamiel não fora o único incidente entre Shaka e Aiolia naqueles últimos meses. Havia, porém, uma sensível diferença entre as brigas que o indiano tinha com o cavaleiro de Leão e as que tinha com o cavaleiro de Escorpião. Milo era tratado como uma criança insolente e tola, que só fazia falar besteiras; Aiolia, no entanto, era tratado com ódio, além de um desprezo maior que o habitual.

Mu não tinha coragem de perguntar de onde aqueles sentimentos animosos entre os dois colegas de armas havia surgido, mas imaginava que sua raiz era Aiolos. Afinal, Shaka nunca perdoara seu antigo mestre pela traição, e Aiolia era quem pagava pelos pecados do irmão.

– Saia da minha casa ou irei tirá-lo à força. – A cosmo energia de Shaka começou a surgir quando avançou na direção do leonino.

Sem pensar nas consequências, Mu avançou também, e sua mão se fechou com força em torno do pulso do virginiano.

– Deixa isso para lá, Shaka! – Não teve a intenção de que suas palavras saíssem em forma de súplica, mas saíram. – Ele nem viu nada de mais!

– A questão não é o que ele viu, a questão é que ele pediu autorização para passar por aqui e veio nos espionar. – Mesmo de pálpebras cerradas, Shaka fuzilou Aiolia com o olhar.

Por baixo do sorriso jocoso, Mu detectou apreensão em Aiolia, numa clara demonstração de que sua atitude havia tomado proporções maiores do que esperava.

– Por favor, Shaka... Aiolia já está indo embora, não está? – Mu virou o rosto na direção do leonino, implorando para que colaborasse. Aiolia assentiu, virou as costas e começou a descer as escadas. Antes de sumir da vista dos dois, olhou para trás uma única vez, e o ariano pode jurar que viu um brilho maquiavélico em seus olhos verdes.

Shaka jogou-se no sofá, esfregando as têmporas. Mu sentou-se ao seu lado e colocou as pernas em seu colo.

– Não deixe isso estragar seu dia, Shaka... – Mu sussurrou com aquela doçura que só ele possuía e passou seus braços em torno do pescoço de Shaka, puxando-o para um abraço apertado. – Aposto que ele nem vai contar isso para ninguém. – Uma ideia boba lhe surgiu, e ele acabou jogando a frase no ar, testando-o.

O corpo do indiano relaxou, e ele afundou a cabeça em meio as mechas lilases do lemuriano, recostando a cabeça em seu ombro.

– Você sabe que ele não devia ter subido aos meus aposentos privados sem autorização. Ele não é bem vindo aqui. Isso é falta de respeito. – Resmungou, afundando mais sua cabeça no emaranhado de fios violeta, e roçou seu nariz de leve no pescoço de Mu, fazendo-o se arrepiar. – Não me importo que ele conte o que viu para os outros. – A indignação e a raiva abandonaram sua voz, e Mu podia jurar que era ternura que agora se fazia presente. – Não estávamos fazendo nada errado. Só coisas certas.

Mu sorriu, deslizando suas mãos pelos fios de ouro que tanto gostava. Shaka havia passado no seu teste. Poderia ser apenas loucura de sua cabeça, mas era capaz de jurar que não era o único apaixonado naquela cômodo.

Notas finais
Achei que essa cena entre eles foi importante pra mostrá-los se descobrindo, mas eu ainda não levo muito jeito com promiscuidades, então não gostei do resultado. Mas resolvi deixar assim mesmo.

Estou exagerando no fluffy, pois meu nariz começou a sangrar de verdade no meio da revisão do capítulo. '-' UAHUAHAUHAUHA

Espero que tenha gostado!

Beijos a todos, até o próximo!