Castelo de Areia
17 Dias melhores
Notas iniciais
Muitíssimo obrigada por cada comentário que vocês deixaram! Sei que é piegas, mas eu fico sorrindo feito criança toda vez que leio e releio eles. ♥ E perdão pela demora para responder, prefiro demorar e dar uma resposta decente do que responder de qualquer jeito. Vocês só merecem o melhor de mim!
Sei que eu vinha mantendo certa regularidade nas postagens e ela decaiu ridiculamente nos últimos tempos... Bem, a minha vida pessoal estava uma bagunça sem tamanho, e só agora as coisas começaram a se endireitar. Eu tenho alguns capítulos adiantados, mas sempre reviso e dou uma reescrita antes de postar, e preciso estar com a mente livre para fazê-lo. Além disso, não queria ficar sem capítulos adiantados, e isso ia acabar acontecendo, pois se revisar é difícil, imaginem escrever.
Peço desculpas pelo atraso, e agraço àqueles que não desistiram da história nem de mim, incentivando-me nos bastidores. Nesse momento difícil, o carinho de vocês me motiva não só a escrever, mas a erguer a cabeça e enfrentar os problemas. Muito, mas MUITO obrigada por tudo. Cada comentário, cada MP, cada palavra de apoio, de carinho e de afeto me enchem de alegria e me dão uma força indescritível. ♥
Sem mais, vamos ao capítulo! *O*
Dias melhores
Conforme o tempo passava, os comentários e brincadeiras sobre o relacionamento de Shaka e Mu foram diminuindo; logo deixaram de ser a novidade do Santuário, ofuscados pela fofoca homérica de que Máscara de Morte de Câncer sucumbira aos encantos de Afrodite de Peixes. Só não desapareceram por completo porque todos achavam divertido demais o constrangimento que Mu demonstrava diante dos comentários maliciosos. Vê-los juntos, então, virou algo comum aos olhos de todos.
– Sabíamos que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. – Disse um sorridente Aldebaran quando Mu lhe confirmou os boatos.
Aparentemente, todos já esperavam por aquilo há muito tempo. Segundo Milo, haviam algumas apostas clandestinas sobre qual seriam os futuros casais a se formar, e Shaka e Mu eram alguns dos mais cogitados desde a infância.
“Vocês formam um casal adorável” foi uma das frases mais ditas para os dois no primeiro dia que saíram de braços dados da casa de Virgem para um passeio. Mu agradeceu docemente todos os elogios e felicitações, mas Shaka apenas detinha-se a encarar todos como se não fossem dignos de sua atenção. Só mesmo alguém meigo e carinhoso como o ariano para quebrar aquela barreira de arrogância que o indiano colocava entre si e as pessoas. Alguns lhe cochichavam, longe dos ouvidos de Shaka, que Mu era um guerreiro por ter conseguido a proeza de fazer o poderoso cavaleiro de Virgem descer de seu pedestal de orgulho e soberba.
– Tem certeza que você não se importa que saibam de nós? – Perguntou Mu, receoso, depois de Shaka responder com acidez um comentário gentil de Afrodite ao passar pela sexta casa.
Shaka enrolou uma mecha dos cabelos violáceos entre os dedos, distraído.
– Tenho.
– Não parece. – Mu se aninhou mais nos braços do loiro.
Naquela manhã, haviam bebido chá no primeiro andar, tendo que fazer uma social com todos os que passaram pela casa de Virgem – o que fazia o humor de Shaka despencar. De alguma maneira, os outros cavaleiros achavam que só porque estava com Mu, significava que tinha passado a ser mais sociável e amigável– o que mostrara-se um tremendo erro – e puxavam papo com ele a todo momento.
– Por quê? – Permitiu que seus dedos se perdessem por completo entre os cabelos de Mu, afagando com carinho. O ariano estava com a cabeça recostada no peito de Shaka e não foi capaz de evitar o suspiro que seguiu aquele ato, tornando difícil a organização de suas ideias.
– Você sempre responde tudo com rispidez... – Falou, enfim. – Até entendo quando eles estão sendo maliciosos, mas às vezes só querem ser gentis.
Shaka riu, surpreendendo Mu.
– Não ajo assim porque estão falando sobre nós, Mu.
– Não?
– Claro que não. – Antes de continuar falando, Shaka procurou a testa de Mu com os lábios e depositou um beijo estalado entre seus pontinhos. – Ajo assim porque estão falando. Responderia do mesmo jeito, qualquer que fosse o assunto.
Os olhos de Mu, fechados até então, entreabriram-se e voltaram-se para o rosto de Shaka. Lá estava ela, a arrogância.
– Qual o problema de falarem? – Indagou com doçura.
– Não são dignos da minha atenção. – Disse o indiano, como se aquilo fosse algo óbvio.
Os braços do lemuriano envolveram o outro num abraço apertado; esfregou seu corpo contra o dele, buscando aninhar-se da melhor maneira possível.
– E eu? – O timbre de Mu saiu manhoso.
– O que tem você?
– Sou digno da sua atenção?
Seus olhos verdes viram um sorriso se formar nos lábios finos do virginiano, que segurou com força os cabelos lilases entre seus dedos longos, obrigando-o a erguer a cabeça, até que suas testas se encostassem. Roçou seu nariz no do ariano, de um lado para o outro, fazendo-o corar.
– Você ainda pergunta? – A boca de Shaka exalou um gostoso cheiro de canela quando falou.
De fato, não havia necessidade daquela pergunta.
Sorrindo, Mu emoldurou o rosto do loiro com suas mãos e o beijou com paixão. Em pouco tempo, exploravam o corpo um do outro com mãos familiarizadas, tocando-se em lugares estratégicos. Shaka revezava entre a boca e o pescoço de Mu, arrancando-lhe gemidos doces e abafados, capazes de enlouquecer qualquer um. Beijos como aquele costumavam acabar no andar de cima – mais especificamente entre os lençóis da sexta casa – mas uma voz impaciente os interrompeu.
– Arrumem um quarto! – Esbravejou Shura de Capricórnio diante da cena.
Mu saiu dos braços envolventes de Shaka com um pulo, ofegante e todo encabulado, arrancando um riso do indiano e do espanhol.
– Desculpe, Shura, eu... nós... – Encarava as próprias mãos, sem conseguir olhar para o mais velho dos três.
– Só queria voltar para a minha casa e vejo uma cena dessas! – Riu-se o capricorniano. – Isso são modos para os defensores de Atena?
O lemuriano esfregava uma mão na outra, buscando distrair sua atenção das palavras de Shura. Não era a primeira vez que era pego aos beijos com Shaka, e sabia que não seria a última, mas sempre morria de vergonha. Sabia que não deviam ficar de intimidades onde qualquer um os pudesse ver, mas sempre deixava-se levar pelos toques e carícias do virginiano, que parecia pouco se importar com aquelas situações constrangedoras.
– Veio passar ou nos importunar, Shura? – Disparou Shaka, impaciente e irritadiço.
– Só estou brincando. – Defendeu-se, erguendo as mãos na altura dos ombros. – Não se pode mais brincar por aqui?
– Guarde as brincadeiras para a sua casa. Você está deixando o Mu sem jeito. – A voz autoritária do indiano demonstrava que ele não tinha entrado no clima da brincadeira. Suas palavras fizeram o estômago do tibetano dar uma cambalhota de alegria.
De soslaio, Mu viu a expressão firme e decidida que Shaka carregava em seu semblante. Não parecia que acabara de ser pego se agarrando com outro cavaleiro; pelo contrário, parecia que estava há horas na pose ereta que assumira ao se separarem. Passava a sensação de que nada era capaz de abalá-lo, e Mu sentia-se extremamente seguro ao seu lado.
Sensato como era, Shura não discutiu com Shaka, retirando-se em silêncio da sexta casa. Um conflito desnecessário entre dois cavaleiros por causa de seus atos era tudo o que Mu não desejava. Ainda com a bochechas queimando de vergonha, arrastou-se para perto do loiro e deitou a cabeça em seu colo.
– Obrigado. – Murmurou, mirando com os olhos verdes o queixo de Shaka acima de si.
– Pelo que? – O virginiano abaixou a cabeça, permitindo que seus olhos fechados encarassem os de Mu.
– Você me defendeu. – Sentiu seu rosto queimar ao dizer aquilo em voz alta. – Foi... gentil de sua parte.
– Não foi nada de mais, Mu.
Mais uma vez, os dedos longos de Virgem procuraram por seus cabelos, pondo-se a acariciá-lo com uma torturante lentidão. Instintivamente, Mu fechou os olhos, saboreando as sensações que aquele toque lhe causava.
– Não imaginei que fossem passar por aqui tão cedo. – Mu ouviu Shaka comentar, a voz sonora tirando-o do transe proporcionado pelo afago. – Todos já haviam descido, e só voltam na hora do almoço. – Completou, e o ariano compreendeu. Estava se justificando! Orgulhoso demais para pedir desculpas pela situação constrangedora em que o colocara, buscava uma maneira de mitigar sua culpa perante Mu.
– Deixa isso pra lá. – Áries sorria. Ergueu a mão até uma das faces do loiro e deu um leve apertão em sua bochecha.
Ficaram naquela posição por tanto tempo que Mu acabou cochilando. Por um breve momento, sonhou com beijos doces de canela e acordou sorrindo.
– O que foi? – O loiro quis saber, quando o sorriso do ariano não se desfez, apenas aumentou ao encará-lo.
– Sonhei contigo. – Sussurrou.
– Sonhos bons? – Mu notou que Shaka estava contendo um sorriso, o que o fez sorrir mais ainda, tanto que os músculos de rosto começaram a doer.
– Sempre bons.
Percebeu que os dedos do virginiano ainda percorriam seus cabelos. Ficou curioso em saber quanto tempo durara seu cochilo e perguntou-se se o companheiro o acariciara o tempo todo. Resolveu pensar que sim, permitindo que a alegria por isso o dominasse.
– Mais chá? – Ofereceu Shaka.
– Por favor. – Aceitou, mas para agradá-lo do que por gostar da bebida.
O indiano segurou sua cabeça com uma das mãos, saindo delicadamente de baixo dela, e colocou uma almofada em seu lugar. Um gesto tão singelo e ao mesmo tempo tão significativo, que tocou o ariano profundamente. Quis correr atrás de Shaka e abracá-lo, mas não queria ser grudento demais. Refestelou-se entre as almofadas macias e aguardou pelo retorno de seu melhor amigo.
Sentou-se para receber a xícara fumegante das mãos do loiro quando este regressou.
– Shaka? – Chamou, esperando a deixa para falar, como de costume.
– Sim?
– O que tem atrás daquelas portas bonitas ali? – Indicou com a cabeça as portas cinzas à esquerda da entrada, decoradas com uma imensa flor de lótus entalhada ricamente.
Shaka bebeu seu chá de uma só vez antes de responder.
– Um jardim.
A resposta fez os olhos esmeraldinos se arregalarem.
– Um jardim? – Mu sabia o quão idiota era perguntar algo que havia acabado de ser dito, mas não conseguiu evitar, tamanho era seu espanto. Esperava uma sala, um cômodo de meditações, uma biblioteca ou até mesmo um salão de festas. Os sinais de sua testa se aproximaram quando enrugou a testa, esforçando-se para se lembrar de algum jardim nos arredores dos templos.
– A disposição das Doze Casas nesta encosta não permite que ninguém entre no jardim da casa de Virgem exceto por essa porta. – Indicou-a com a cabeça. – O relevo e as ruínas o mantém oculto dos olhares curiosos.
Fazia sentido. Ainda assim, a ideia de que sentavam para tomar chá há anos ao lado de um jardim que Mu nunca vira ou ouvira falar era um pouco desconcertante.
– É bonito lá? – O lemuriano quis saber.
– Muito.
– Posso conhecer? – Seus olhos verdes brilhara de ansiedade.
Shaka riu. Serviu-se de outra xícara de chá e ficou mirando o líquido castanho por um bom tempo, como se ponderasse o que falaria a seguir.
– Não pode, Mu. – Seus lábios finos encostaram na borda da xícara, mas não bebeu.
– Por quê?
O indiano suspirou, afastando-se do líquido quente.
– É o Jardim das Árvores Salas Gêmeas. Isso significa alguma coisa para você?
– Não. – Murmurou, envergonhado.
– Quando Buda estava perto de sua morte, deitou-se embaixo das Árvores Salas Gêmeas para realizar sua passagem para o outro mundo. – Bebeu alguns goles do chá, dando a Mu tempo para pensar nas palavras que acabara de dizer.
Pela segunda vez naquele dia, o lemuriano ouviu a coisa que menos esperava. Demorou alguns segundos para ligar àquela conversa a outra de anos atrás, quando o virginiano lhe segredara ser a reencarnação do líder budista.
– Quer dizer que você... esse jardim... – As palavras não conseguiam se juntar em uma frase coerente, saindo trêmulas e exitantes.
– Sim. É o lugar da minha morte. – Falou com uma naturalidade assustadora, que fez o pelos da nuca do ariano se eriçarem.
– Shaka, isso é macabro! – O espanto de Mu fez o indiano rir, voltando a levar a xícara à boca para beber. – Como você sabe que é nesse lugar que irá morrer?
– É a minha sina. – Respondeu o loiro sem afastar os lábios da porcelana.
Mu obrigou-se a beber um pouco do chá quente, pois o frio que aquela conversa trouxera estava gelando até sua alma. Permitiu que a canela impregnasse seu paladar e olfato, fechando os olhos momentaneamente, desfrutando da bebida. Chá de canela não era o seu favorito, mas aprendera a apreciá-lo com o passar dos anos. Tinha gosto de beijos.
– É por isso que não posso ir lá? – Questionou quando voltou à realidade.
– Não acho um lugar adequado para passeios. – O tom de Shaka mostrou que o assunto estava encerrado.
O lemuriano apenas assentiu, sem saber o que dizer na situação. Não era qualquer um que sabia o local da sua morte; ou pior, que morava ao lado do local de sua morte. Em seu lugar, Mu teria sérias dificuldades para dormir. Meditar, então, seria algo fora de cogitação. Pegou-se admirando o cavaleiro de Virgem e sua capacidade de lidar com coisas tão profundas com tanta simplicidade. Até o sanguinário Máscara da Morte teria achado aquilo assustador.
– Pare de pensar nisso, Mu. – Ralhou o virginiano.
– Não consigo. – Balançou a cabeça de um lado para o outro, incrédulo. – Fico imaginando...
Teve a fala interrompida pelo suave toque do indicador de Shaka em seus lábios.
– Imagine menos... – Entoou melódico aproximando seu rosto ao do ariano. – ...e faça mais. – Colou seus lábios aos de Mu com ardor, sua boca mais quente que o normal graças ao chá fervente, num beijo que, finalmente, levou os dois adolescentes aos lençóis da casa de Virgem.
• • •
Seria hipocrisia de sua parte se Mu negasse que esperou ansioso pelo Inverno.
Não desejava que Shaka ficasse doente, mas sentira falta de tomar conta do indiano toda vez que as gripes e resfriados o acometiam. Nas duas vezes que a estação mais fria chegou a Jamiel, seus pensamentos se voltaram para o virginiano, as lembranças doendo mais que o violento vento gelado que batia contra as janelas. Eram os momentos que mais tinha vontade de largar tudo para trás e ir ao encontro de Shaka, oferecendo-lhe conforto e carinho.
Os primeiros sinais não tardaram a ser percebidos pelos olhos atentos de Mu. Começou com algumas fungadas discretas, seguidas por uma tosse contida e pela coriza, que deixava o nariz de Shaka vermelho e assado. O virginiano não falou nada, mas Mu reparou que ele passou a direcionar os beijos sempre para seu pescoço, evitando beijar-lhe a boca para não passar o resfriado. O ariano sentiu falta de seus lábios quentes e macios, porém ficou contente pela tentativa do outro de protegê-lo.
Tudo correu naturalmente, até que a febre chegou.
Não foi preciso encostar na pele de Shaka para que Mu soubesse que ele ardia em febre; o leve tom carmim adquirido pela pele lívida de seu rosto o denunciou assim que os olhos verdes do ariano o viram encher uma xícara com chá fumegante ao lado da pia da casa de Virgem naquela manhã.
– Shaka? – Chamou, fazendo-o virar o rosto de sua direção. Aproximou-se e tocou sua testa com as costas da mão. – Você está com febre!
– Eu sei. – Um calafrio percorreu o corpo do indiano quando conclui a frase.
– E está cheio de roupas! – Mu procurou com as mãos a barra do casaco de Shaka e a ergueu, revelando um suéter por baixo, que também teve a barra erguida, revelando um terceiro agasalho. O ariano precisou levantar a barra de cinco peças de roupa para encontrar a pele sedosa da barriga do virginiano.
– Você não precisa de desculpas para tirar minha roupa, Mu. – Sua voz saiu fanha, mas ele pareceu não se importar. Levou uma das mãos aos cabelos do lemuriano e os afastou, deixando à mostra seu pescoço. Sorriu malicioso, inclinando-se para frente e permitindo que seus lábios tocassem a carne macia da região, beijando e mordiscando.
Por um segundo, os olhos de Mu fecharam-se enquanto desfrutava o contato, mas logo recobrou a consciência e afastou o indiano delicadamente com a mão livre.
– Você está doente... – Ralhou.
– Isso não foi problema para você nos outros dias. – Enlaçou Mu pela cintura, fazendo seus corpos ficarem perigosamente colados. O ariano sentiu sua mão sendo pressionada entre seus abdômens e só então percebeu que ainda segurava a barra dos agasalhos de Shaka; soltou-os timidamente, e afastou-o mais uma vez.
– Você piorou! – As palavras saíram esganiçadas de sua garganta.
Shaka mordeu o lábio inferior, fixando seus olhos fechados no lemuriano. Novamente, envolveu-lhe a cintura com os braços delgados, desta vez com mais força, e o pressionou contra a bancada do armário, roçando seu sexo ao dele.
– Eu me sinto ótimo. – Sussurrou, aproximando os lábios da orelha de Mu, que sentiu o corpo todo estremecer com aquelas palavras. Odiou-se quando sentiu seu membro despertar, e precisou tomar uma medida drástica para que aquilo não seguisse adiante.
Teletransportou-se.
Com um estalido, Mu escapou dos braços de Shaka e reapareceu alguns metros atrás dele, fazendo- o virginiano praguejar enquanto virava-se para encará-lo.
– Não adianta fazer isso para desviar as atenções da sua doença. – Mu colocou o dedo em riste no peito de Shaka. – Você sempre foi relutante... Achei que tínhamos superado essa fase, Shaka! – Argumentou, tentando fazê-lo para de ser tão teimoso.
O loiro bufou e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. Deu as costas para Mu e pegou a xícara de chá que servira a pouco, levando até os lábios, sendo interrompido no meio do caminho pela mão do ariano.
– Quente desse jeito, esse chá só vai piorar as coisas... – Murmurou com sua voz mais doce, envolvendo a cintura do outro com uma de suas mãos.
Ignorando a intervenção, Shaka deu sequência ao trajeto e bebeu todo o líquido em quatro grandes goles, tão afoito que algumas gotas escorreram por seu queixo. Com a manga de seu casaco, Mu limpou a sujeira e suspirou.
– Deixe-me cuidar de você... – Pediu, manhoso, puxando Shaka pelo pescoço com a outra mão, obrigando-o a lhe abraçar de frente. Afundou sua cabeça nos cabelos loiros, sentindo o cheiro de sândalo que tanto amava fazer uma incursão em seus sentidos.
– Não precisa. – Respondeu distante, mas sem se afastar.
– Vou cuidar bem de você... – Mu tentou persuadi-lo. Suas mãos brincavam com os fios dourados, acariciando com ternura. Sentiu o indiano estremecer algumas vezes, mas não soube dizer se aquilo se devia ao afago ou a febre. – Melhorará rapidinho. Não sabe se cuidar sozinho...
– Sei sim. – Shaka interrompeu-o ríspido.
– É claro que não sabe. – Não se deixou afetar pelo tom do outro, e continuou a falar mansamente. – Cheio de roupas, bebendo coisas quentes... Precisa de alguém que cuide de você.
As mãos de Shaka, até então caídas ao lado do corpo, ergueram-se até os ombros de Mu e o afastaram de uma só vez.
– Não preciso. – Disse, incisivo. – Me virei sozinho nos últimos dois invernos e sobrevivi. – Suas palavras estavam carregadas de amargura.
O ariano abaixou os olhos ao ouvir tais palavras. Ele próprio culpara-se infinitas vezes por sua ausência e sofrera sozinho por isso, mas nunca imaginou que a dor ao ouvir aquilo da boca de Shaka fosse tão grande. Um sentimento de culpa e impotência apoderaram-se dele, e emudeceu. Queria falar algo, queria reconfortá-lo, mas as palavras ficavam presas em suas garganta, incapazes de serem verbalizadas.
Ali, parado no meio da pequena cozinha da sexta casa, sentiu as lágrimas brotarem de seus olhos e rolarem por suas bochechas. Não emitiu som algum, mas chamou a atenção do virginiano do mesmo jeito. Através da névoa de tristeza que emergia de seu olhar, viu-o aproximando-se elegantemente, suas mãos erguidas indo de encontro ao rosto de Mu.
– Faremos do seu jeito. – Sussurrou com gentileza e roçou seu nariz assado ao do ariano, que sentiu a pele descascada arranhar a sua levemente. Jogou seus braços ao redor do pescoço de Shaka e agradeceu sucessivas vezes pela permissão, dando beijos entusiasmados em suas bochechas febris.
Palavras não eram capazes de demonstrar a alegria de Mu por estar cuidando de Shaka mais uma vez, então resolveu fazê-lo por meio de gestos.
Diferente de todas as outras vezes, Mu permitiu-se ser carinhoso de fato com o amigo. Nunca abrira mão das palavras doces e do timbre amável para com ele mas, naquele dia, cada gesto seu era dotado de um algo a mais – paixão.
Com paciência e dedicação, livrou Shaka do emaranhado de roupas que vestia; tirou suéter por suéter com as mãos nervosas, ignorando o sorriso malicioso do indiano e concentrando-se na maciez de sua pele quente cada vez que seus dedos resvalavam nela à procura da bainha das roupas. A cada peça removida, Mu recompensava-lhe com beijos estalados nas bochechas. Não comentou nada, mas reparou que ele não reclamou daquilo como costumava reclamar anos atrás.
Apenas para não perder o costume, Mu insistiu para que Shaka tomasse um banho frio.
– Só se você for comigo. – Provocou, puxando o ariano para um abraço caloroso. Negou veementemente com a cabeça, corado de vergonha mas maravilhado com o convite. Se encarasse um banho gelado num dia frio daqueles, seria ele a ficar doente.
Deitou-se na cama com Shaka e o fez repousar a cabeça em seu colo. Tirou os fios loiros que se grudavam na testa pálida e tocou o pequeno tilak vermelho com a ponta do indicador. O toque fez com que os lábios entreabertos de Shaka esboçassem um sorriso. Antes de pegar uma das compressas de água fria que havia deixado sobre o criado-mudo, sentiu a temperatura com as costas da mão, constatando que a febre não estava muito alta. Ainda assim, o virginiano gemeu em protesto quando o pano gelado foi acomodado em seu testa.
Mu deslizou os dedos ao longo dos cabelos dourados, da raiz até a pontas, tantas vezes que perdeu a conta. Gostava de sentir a maciez daquelas madeixas em sua pele, acariciando-a apenas com sua textura. Desde a infância, aqueles fios flavescentes o encantavam. Nunca cansava de admirá-los e sempre buscava um desculpa para poder tocá-los. No exílio em Jamiel, deixar os próprios cabelos lilases crescerem foi a forma que encontrou para lembrar-se de Shaka – como se precisasse de qualquer coisa para lembra dele!
Mal podia acreditar em sua sorte por podê-los tocar toda vez que desejasse. Apenas ele podia fazê-lo, ninguém mais. Aqueles cabelos loiros já eram tão seus quanto os seus cabelos violáceos eram do virginiano. Sorriu ao pensar no quanto Shaka gostava de seus cabelos; vivia elogiando-os e sempre insistira para que Mu os deixasse crescer. Concluiu que se tratava de uma admiração mútua.
Só percebeu que o tempo tinha passado quando seu estômago roncou de fome, tão alto que chamou a atenção do indiano.
– Pode ir comer, Mu. – Disse, enquanto sua mão capturava a do ariano, que ainda acariciava seus cabelos, obrigando-o a cessar o movimento.
– Nós vamos comer, Shaka.
– Mu... – Começou o loiro, mas foi interrompido.
– “Não estou com fome, não quero comer, minha garganta está doendo.” – Falou com uma esganiçada, que em nada se parecia com a de Shaka, que riu da imitação. – Você ainda não aprendeu que eu não vou desistir até que você coma? – Voltou a sua voz habitual, sorrindo.
Shaka ficou sentado, esquecendo-se da compressa em sua testa, que caiu sobre a cama e molhou o lençol.
– Na verdade, eu só não estou com fome. Não estou me sentindo muito mal. – Tocou a testa úmida com a ponta dos dedos. – Acho que a febre até passou.
Com delicadeza, Mu afastou a mão de Shaka com a sua para poder sentir a temperatura. Apesar de ainda estar um pouco mais quente que de costume, a febre havia cedido consideravelmente.
– Dor de garganta? – Perguntou Mu, emoldurando com a mão um dos lados da face do indiano.
– Um pouco.
– Nariz entupido?
Shaka riu.
– O que você acha? – Mu não precisou de outra resposta, pois a voz fanha já dizia tudo. Riu também e aproximou-se para depositar um beijo suave na ponta do nariz vermelho do amigo.
Comeram juntos na mesa de mogno da cozinha, trocando sorrisos e toques gentis. Depois da sobremesa – Shaka jamais dispensava um doce depois das refeições –, Mu voltou para o quarto e só reparou que o virginiano não o tinha seguido quando já se sentava na cama. Refez o caminho até a cozinha e também não o encontrou lá.
– Shaka? – Chamou, sem receber uma resposta.
Procurou pelo segundo andar antes de descer as escadas que levavam ao átrio. Encontrou o loiro no estrado de mármore, em frente a estátua de Buda, na posição de lótus, enrolando o rosário de contas ao longo do antebraço.
– O que você pensa que está fazendo? – Parou na frente dele, colocou as mãos na cintura e começou a bater o pé direito, tentando parecer irritado. Mas Mu de Áries jamais se irritava com Shaka de Virgem.
O indiano riu.
– Melhor que qualquer um, você sabe que nada faz com que eu abandone minha meditação.
– Você está doente! – Desfez a pose e abaixou-se na frente do amigo, um joelho sobre o chão e o outro sobre o estrado. – Tem que descansar... – Estendeu uma das mãos e entrelaçou seus dedos aos de Shaka, sentindo as contas do rosário frias contra sua pele.
– Quase não estou com febre, Mu... – Enquanto sua voz melódica falava, o indiano ergueu o enlace de dedos até sua testa e obrigou o lemuriano a sentir sua temperatura. – Viu?
Mu achava que ele deveria descansar, mas não podia negar que a febre havia cedido. Quis argumentar e teimar, mas não era de seu feitio agir daquela maneira. Assentiu e puxou as mãos unidas até seus lábios, depositando um beijo doce na ponta de cada um dos dedos do loiro, que falhou na tentativa de esconder seu sorriso diante da carícia.
Ficou em pé e deu um pique rápido na direção das escadarias, ignorando o chamado do virginiano. Desceu alguns minutos depois, carregando uma manta de linho cinza.
– Para você não passar frio. – Explicou, cobriu os ombros do cavaleiro de Virgem com o tecido, dando um nó firme com duas das pontas envolta do pescoço para que não escapasse.
Por um segundo, pareceu que Shaka iria protestar, mas apenas sorriu.
– À noite, eu volto para ver como você está. – Afagou o topo da cabeleira loira com carinho, girou os calcanhares na direção da saída mas, antes de dar o primeiro passo, sentiu um aperto firme em torno de seu pulso.
– E o meu beijo? – Shaka sorria divertido.
Mu riu sem graça e se abaixou, tomando o rosto sereno com ambas as mãos e beijando com ternura as duas bochechas, a ponta do nariz arrebitado e os lábios macios.
Quando chegou à casa de Áries, percebeu que ainda sorria.
• • •
Antes do ocaso, Mu já havia retornado à casa de Virgem, observando o guardião do templo meditar concentrado, com os cabelos esvoaçando e os lábios se movendo ao recitar um mantra silencioso. Foi para o andar de cima, onde uma serva preparava o jantar na cozinha; nem precisou avisar que ficaria para jantar, pois a jovem já conhecia os hábitos dos dois cavaleiros. Todos os dias, fazia suas refeições com Shaka na sexta casa e, por vezes, ficava para o pouso.
No exato momento em que a comida foi posta na mesa, Mu sentiu alguém aproximando-se por trás; pouco antes de virar-se para encarar o indiano, sentiu seus braços envolvendo-lhe a cintura , enquanto recostava a cabeça em seu ombro.
– Como se sente? — Perguntou Mu, virando a cabeça para o lado, fazendo com que seus olhos verdes cruzassem com as pálpebras fechadas de Shaka.
– Muito melhor... – Sussurrou contra seus lábios, antes de dar um selinho neles. Mu quis puxá-lo para um beijo mais intenso e profundo, mas não só ainda estavam na presença da serva como sabia que Shaka recusaria para que não ficasse doente também.
Só quando estavam sozinhos é que Shaka sentou-se à mesa, levando Mu consigo. Como de costume, o ariano contou o que tinha feito durante a tarde – no dia em questão, havia ido até a arena por um tempo, e depois voltara para sua casa à fim de reparar duas armaduras de bronze danificadas durante o treinamento daquela tarde, numa luta intensa que ele havia presenciado.
Antes de irem para o quarto, reparou num jarro com chá de abacaxi na bancada e sorriu, levando-o consigo e colocando-o no criado-mudo ao lado do virginiano. Mu achou que logo ele ia querer dormir, mas enganou-se; apesar de doente, Shaka estava particularmente disposto naquela noite, entretendo o ariano com conversar sobre os treinamentos, sobre suas projeções astrais, sobre a vida, o universo e tudo mais... Isso sem falar nos beijos, abraços e carícias, presentes ainda que num tom menos promíscuo que de costume.
Quando o óleo da lamparina consumiu-se por completo, resolveram dormir; Shaka já havia bebido metade do chá, e parecia realmente melhor, apesar da tosse ter se intensificado. Mu fez com que o loiro deitasse a cabeça em seu peito, decidido a acariciar seus cabelos até que dormisse. Desejou-lhe boa noite e fitou o escuro, lembrando-se de todas as vezes que quis fazer aquilo e estava longe demais, agradecendo mentalmente por seu exílio ter acabado. Ouviu a respiração do companheiro ficar mais pesada e fechou os olhos, diminuindo o ritmo das carícias conforme o sono o envolvia.
– Mu? – Ouviu Shaka sussurrar, assustando-o e fazendo seu coração disparar. – Não precisa ficar assim... – Disse ele, colocando a mão sobre o peito do tibetano, no exato lugar em que pulsava seu coração. Aos poucos, o susto passou e a velocidade dos batimentos diminuiu.
– Aconteceu alguma coisa? – Mu perguntou, ainda preocupado, erguendo-se minimamente do travesseiro e abrindo os olhos para o breu. Sentiu a cabeça do indiano mover-se de um lado para o outro, numa negativa.
– Eu... – Shaka começou, mas deteve-se.
Mu não insistiu que continuasse falando, apenas aguardou com paciência pelo momento em que o amigo julgasse necessário para falar. Longos minutos se passaram, durante os quais os dedos do ariano deslizaram pelo comprimento dos fios flavos do outro, num incentivo mudo, encorajando-o com seu carinho para que falasse o que desejasse, para que confiasse em si da mesma forma que confiava nele.
– Quando você esteve em Jamiel – Mu ouviu-o quebrar o silêncio noturno novamente –, eu senti sua falta. De verdade. – Murmurou, tateando o colchão atrás da mão livre do lemuriano e entrelaçando seus dedos aos dele.
Mais uma vez, o coração de Mu bateu acelerado, muito mais forte do que na hora do susto; Shaka, porém, nada comentou. Sentindo suas bochechas corarem, apertou a mão do loiro com força, transmitindo-lhe todo seu sentimento com aquele gesto. Sentiu lágrimas formarem-se em seus olhos, mas não estava triste pela distância ou culpando-se por seus erros: estava feliz. Uma delas escapou e escorreu por sua pele, caindo no travesseiro, e ele sorriu.
– Ficar longe de você foi a pior coisa que poderia ter acontecido na minha vida. – Respondeu depois de um longo tempo, mesmo sabendo que não era necessário; melhor do que ninguém, Shaka sabia de seus sentimentos, por mais que o tivesse tratado daquele maneira em seu retorno. – Eu nunca mais vou sair do seu lado, Shaka. – Complementou, numa espécie de promessa, mais para si do que para o outro.
Shaka apenas assentiu e aninhou-se melhor nos braços de Mu, e logo adormeceu, a respiração pesada que sempre acompanhava seu sono fazendo-se presente. O tibetano estava com sono, mas forçou-se a ficar um pouco mais acordado, saboreando o significado das palavras do virginiano, sorrindo por dentro e por fora, sentindo-se completo e correspondido. Percebeu que toda vez que achava impossível ficar mais feliz do que estava, Shaka ia lá e provava o contrário, mostrando que, quando estavam juntos, o céu era o limite para a felicidade.
Notas finais
Ignorem possíveis erros, por mais que eu leia e releia, sempre deixo coisas passarem, rs.
E sim, ''a vida, o universo e tudo mais'' foi uma referência ao Guia do Mochileiro das Galáxias! *O* 42. ♥
Prometo que logo o próximo vai sair e, mais uma vez, perdoem a demora.
Obrigada aos que leram, especialmente aos que comentarem! ♥ Até o próximo!
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