Castelo de Areia
18 Mentiras sinceras
Notas iniciais
Já disse e não custa repetir: prefiro demorar do que fazer mal feito.
Na semana que vem, entro em férias na faculdade, e vou aproveitar o período para concluir essa história. Meu plano era terminar rapidamente, mas surgiram tantos problemas que se eu for contar, isso aqui vira Casos de Família!
O que importa é que eu não vou desistir da fanfic no meio! NUNCA! Posso demorar, mas terminarei ela, o mais depressa que minha mente permitir. *O*
Quero agradecer à paciência de vocês e aos comentários motivadores, que sempre dão forças para continuar, sempre alegram os meus dias e fazem de mim uma ficwritter muito realizada. É graças a esse carinho imenso demonstrado por vocês que eu não desisti, então eu agradeço do fundo do meu coração. ♥
Já enrolei vocês demais! Vamos ao capítulo?
Mentiras sinceras
O gostoso barulho da chuva caindo do lado de fora fez Shaka e Mu ficaram deitados até mais tarde naquela manhã. Nos últimos tempos, Mu vinha dormindo mais na casa de Virgem do que na casa de Áries, a necessidade de estar com o virginiano controlando suas ações. Gostava da forma protetora e possessiva que Shaka lhe abraçava antes de dormir, gostava de sentir o calor de seu corpo e ouvir o som de sua respiração, gostava de como as pernas se enroscavam no meio do sono. Shaka tinha o sono agitado, mas isso não impedia que as noites dormidas ao seu lado fossem as melhores para o ariano.
Tal como Mu, Shaka tinha o hábito de acordar muito cedo, às vezes antes mesmo do sol nascer. Era raro se entregarem à preguiça matutina, mas a canção produzida pelo encontro da água com o solo os envolveu naquela manhã fria. Mu foi o primeiro a acordar, sentindo o braço zeloso de Shaka circundar sua cintura; virou-se de frente para o loiro com cuidado e afastou alguns fios rebeldes que caíam sobre o rosto angelical. Sabia que ele ainda dormia pois sua respiração estava mais pesada que o normal, escapando por seus lábios entreabertos.
Depositou suaves beijos na face lívida até acordá-lo.
– É bom acordar assim. – Mu o viu sorrir antes de sentir aqueles lábios sobre os seus, num beijo casto.
Coçando os olhos, Shaka virou de barriga para cima e se arrastou até que suas costas estivessem apoiadas na cabeceira da cama, o cobertor escorregando de seu peito e passando a cobrir somente suas pernas. Espreguiçou-se categoricamente, erguendo braços acima da cabeça. Quando fez menção de abrir um dos lados da cortina branca do dossel, Mu puxou a manga de sua camiseta, impedindo-o de concluir o movimento.
– Mu? – O loiro indagou com uma sobrancelha erguida.
– Vamos ficar um pouco mais na cama... – Disse, manhoso, sem largar a roupa do outro. – Só hoje.
Rindo, Shaka anuiu e voltou a escorregar o corpo para baixo dos cobertores. Fez com que Mu deitasse a cabeça em seu peito, e seus dedos longos puseram-se a acariciar as mechas violáceas do lemuriano.
Levantaram somente quando ficou impossível ignorar a dor no estômago provocada pela fome. Como fazia todas as manhãs, Shaka abriu as cortinas do dossel e prendeu-as de encontro com a madeira, esticou os lençóis, afofou os travesseiros e dobrou e guardou os cobertores.
Nuvens tão cinzas quanto chumbo ocultavam o sol de tal forma que foi preciso acender uma lamparina à óleo para iluminar a pequena cozinha da sexta casa. Shaka preparou um bule de chá para si e esquentou um pouco de leite para Mu, enquanto este tratava de rechear os pãezinhos frescos que eram trazidos pelas servas todas as manhãs; usou manteiga para os seus, e geleia de uva para os do virginiano, que sempre preferia coisas doces pela manhã.
Depois de comerem, Mu insistiu que estava na hora de aparar a franja de Shaka, que parecia crescer depressa demais. O virginiano não ligava muito para o comprimento, mas Mu fazia questão que sempre estivesse na altura das sobrancelhas, pois não queria correr o risco dos cabelos ocultarem as íris azuis quando Shaka voltasse a abrir os olhos.
– Posso? – Perguntou Áries depois de terminar de emparelhar a franja, deslizando os dedos com dificuldade ao longos dos cabelos embaraçados do amigo.
Sem dizer nada, Shaka sentou-se com as costas viradas para Mu. Com delicadeza, o lemuriano deslizou o pente fino pelos fios dourados, desfazendo os nós cuidadosamente, evitando que o cabelo ficasse arrebentado.
Sempre que dormiam juntos, os dois rapazes acordavam com os longos fios lisos muito embaraçados, fruto do hábito de um ficar acariciando os cabelos do outro até pegarem no sono. Shaka sempre penteava os cabelos lilases de Mu até desembaraçá-los, mas raras eram as vezes que permitia que o amigo retribuísse o gesto.
Passou a revezar a tarefa de desembaraçar os cabelos entre o pente e sua mão, extasiado por sentir tão macios cabelos em contato com a sua pele. Ouviu Shaka suspirar baixinho algumas vezes, jogando a cabeça para trás atrás de mais contato. Quando nenhum nó restava nas madeixas douradas, o ariano deixou o pente cair em cima da cama e afundou as suas mãos naquele mar dourado, massageando o couro cabeludo do virginiano com ternura.
Aproximou os corpos, encaixando Shaka entre suas pernas. Prosseguiu com os carinhos nos longos cabelos, e logo o perfume suave que exalavam invadiu seus sentidos de forma hipnotizante, fazendo-o fechar os olhos enquanto afundava o nariz nas mechas loiras. Aspirou o cheiro de sândalo diversas vezes antes de afastar os cabelos de um dos lados do pescoço do indiano e começar a depositar pequenos beijos na pele macia do amigo.
– Gosto do seu cheiro... – Sussurrou contra a pele alva, entre um beijo e outro. Shaka gemeu baixinho, impulsionando Mu a continuar. Os beijos ficaram mais molhados e calorosos, deixando um rastro de saliva por onde a boca passava. Os braços do ariano envolveram a cintura do outro num abraço firme, pressionando as costas do virginiano com força contra seu peito. Shaka inclinou a cabeça para o lado, dando mais acesso às investidas de Mu.
De súbito, Shaka projetou o corpo para frente, quebrando o contato e se livrando do abraço, deixando o ariano confuso. Virou-se para ele, o cenho franzido.
– Temos companhia. – Falou o loiro entre os dentes.
Apurando os ouvidos, Mu pode ouvir alguns passos muito distantes que indicavam que alguém estava subindo as escadas. Ouviu também uma voz, que chamava o seu nome. Reconheceu-a de imediato.
– Milo..? – Olhou incrédulo para Shaka, que passava os dedos pelos fios loiros, arrumando a bagunça feita durante o momento mais íntimo.
– Quem mais poderia ser? – Comentou virginiano, desgostoso. Mu não pode evitar o sorriso que se formou em seus lábios; Shaka estava irritado por serem interrompidos!
Seu nome foi chamado mais uma vez ou duas, e ele achou por bem responder.
– No quarto! – Gritou, arrependendo-se assim que fitou o semblante de Shaka, cujos lábios crispados e testa enrugada indicavam que não estava nenhum pouco feliz com a visita do escorpiano, ainda mais em seu quarto.
Mu estava prestes a se desculpar quando viu uma sombra projetar-se por detrás da porta entreaberta do quarto.
– Vocês estão vestidos? – Perguntou Milo, cheio de malícia.
– Não, Milo, estamos pelados esperando por você. – Volveu Shaka com acidez, sem dar chance para Mu se manifestar.
Mu viu a sombra recuar dois passos.
– Sério? – A voz vinda do outro lado da porta era exitante, mostrando que não era aquela a resposta que esperava.
Shaka deixou um riso irônico escapar pelo nariz, assustando o lemuriano.
– Não somos pervertidos como você. – Mais acidez em suas palavras.
A porta se abriu lentamente, revelando um jovem de cabelos loiros e opacos, pele bronzeada e... faces coradas. Mu arregalou os olhos ao constatar aquilo; Milo nunca ficava corado.
– Milo? – Chamou Mu, vendo que o outro estava um pouco aéreo. – Aconteceu alguma coisa?
Trazido de volta à realidade pela doce voz do ariano, o grego sorriu com malícia, seus olhos azuis cintilando ao ver os dois cavaleiros sentados em cima da cama. Ia abrir a boca para fazer uma provocação quando foi interrompido pela voz melodiosa do indiano.
– Dispensamos seus comentários promíscuos, Escorpião.
Shaka não fazia o menor esforço para disfarçar seu descontentamento. Sua expressão era séria e fechada, mostrando que não estava nada feliz com aquela invasão em seus aposentos.
– Pelo visto, – começou Milo, ignorando o que Shaka acabara de dizer – eu interrompi algo bom. – Piscou para Mu, que corou instantaneamente, entregando-se.
– O que veio fazer aqui, Milo? – Atravessou-se o virginiano, antes que a reação de Mu fosse alvo de comentários maldosos. O lemuriano sentiu-se péssimo por deixar sempre tudo tão na cara e não conseguir controlar o sangue que fluía para suas bochechas toda vez que algo o deixava tímido ou encabulado.
O grego encostou-se no batente da porta, sem parar de sorrir por um segundo.
– Mu, eu preciso falar contigo. – Seus olhos azuis estavam carregados de urgência quando encarou os verdes do ariano.
– Pode falar. – Mu sorriu seu sorriso mais gentil.
– A sós. – O escorpiano revirou os olhos.
O ariano arregalou os olhos e olhou de Milo para Shaka, e de Shaka para Milo, esperando que algum dos loiros falasse alguma coisa.
– Pode falar na frente do Shaka, Milo. – Falou baixinho, incomodado com a situação. Não queria ficar de segredinhos com outra rapaz na frente de Shaka, ainda mais quando esse rapaz era alguém que não partilhava da afeição do virginiano.
– Mu... – Seu nome saiu como uma súplica. – É particular.
– Eu não tenho segredos com ele. – Pelo canto do olho, Mu viu Shaka remexer nas pontas dos cabelos loiros, num claro sinal de que pouco estava se importando com aquela discussão, completamente alheia à presença de Milo.
– Mas eu tenho! – Reparou que Milo parecia um pouco aflito, como se o fato de não poder falar o que quer que fosse o estivesse consumindo internamente. Ele era sempre assim, tinha uma necessidade imensa de falar, de colocar tudo para fora, de se expressar tal como era.
– Milo, é muito indelicado entrar no templo de alguém e pedir para falar com... – Interrompeu sua fala quando viu a mão de Shaka erguer-se espalmada, naquele típico gesto que calava todos os seu redor.
– Vá com ele, Mu. – De olhos arregalados, Mu ficou lhe encarando estático. – É contigo que ele quer conversar, não precisa se preocupar comigo. – Com muita discrição, Shaka estendeu uma das mãos até a de Mu e apertou com carinho, provando que ele realmente não se importava com aquilo. – Além do mais, eu não tenho o menor interesse nos assuntos dos outros. – Falou como se Milo sequer estivesse presente, cheio de si, numa arrogância que já virara sua marca registrada.
Mu viu que Milo abrira a boca para rebater o comentário e lançou-lhe um olhar de advertência, que milagrosamente foi percebido e atendido pelo escorpiano. Tudo o que não precisavam naquele momento eram de mais discussões.
– Não vou demorar. – Sussurrou para Shaka, passando a mão pelo braço do amigo antes de se levantar da cama e andar na direção da porta, saindo com Milo em seu encalço.
Parou no meio da pequena sala da sexta casa, mas o grego não parecia satisfeito.
– Vamos lá para fora. – Falou tão baixo que Mu só conseguiu entender o que dizia porque viu o movimento de seus lábios formando as palavras. Mu concordou, sabendo que Milo partilhava da mesma sensação de que Shaka era capaz de ouvi-los independente de onde estivessem, de modo que, quanto mais longe dele, mais seguras as confidências estariam.
Desceram as escadas, atravessaram o átrio e foram parar nas escadarias da casa de Virgem. Àquela altura, apenas uma garoa fina caía do céu, mas foi o suficiente para fazer os dois cavaleiros se refugiarem na aba lateral do sexto templo. Milo olhou para todos os lados antes de começar a falar num sussurro eufórico.
– Beijei o Camus! Mu, eu o beijei, e ele correspondeu! – A boca de Mu escancarou-se de surpresa, e antes que conseguisse falar, foi puxado por Milo para um abraço apertado. – Foi perfeito, a melhor coisa que aconteceu em toda a minha vida. Imaginei isso tantas vezes de todas as maneiras possíveis, mas nem o meu mais profundo sonho foi tão perfeito quanto a realidade. – Falava depressa e animado, as palavras emendando-se umas as outras sem que o grego fizesse uma pausa para respirar. – Ah, Mu, eu estou tão feliz!
Precisando de um pouco de ar, o ariano tentou se livrar do abraço, mas o escorpiano era muito mais forte e parecia alheio à força empregada naquele ato de carinho.
– Milo, eu estou... – Começou a dizer, mas foi interrompido.
– Obrigado, Mu. Sem você, Camus jamais teria desgrudado de Shaka! – Deu um beijo estalado na face rosada do lemuriano. – Obrigado, obrigado, obrigado, obrigado... – Seguiu agradecendo, intercalando cada palavra com um beijo animado, apertando o amigo cada vez mais forte em seus braços.
Incapaz de se soltar ou de fazer Milo parar de falar, Mu se viu obrigado a usar seus poderes e se teletransportar alguns metros à frente do grego. Curvou-se, apoiou as mãos nos joelhos e encheu os pulmões de ar com vontade, respirando e inspirando várias vezes.
– Por Atena, quase que eu mato você! Desculpe, Mu, mas eu estou muito feliz! Fui aos céus e voltei. Se eu morresse hoje, morreria como a pessoa mais feliz do mundo. Eu... – Milo parou no meio da frase de forma tão estranha que Mu voltou a ficar ereto para lhe encarar, a tempo de ver os olhos do amigo brilhando intensamente em razão das lágrimas que neles se acumulavam. – Eu nunca tinha beijado ninguém assim antes. – Confessou com a fala embargada. Mu achou que ele fosse chorar, mas Milo era forte. – Arrependendo-me de todas as outras bocas que beijei.
Ainda ofegante, Mu se aproximou e puxou o escorpiano para um abraço terno. As palavras deixaram Milo, que aceitou o contato sem a euforia de segundos atrás, como se ponderasse todos os seus arrependimentos do passado.
– Você não sabia que se sentiria assim, Milo. – Falou Mu, quando se separaram. – Camus poderia nunca te corresponder.
– Eu me sinto sujo. – Milo abaixou seus enormes olhos azuis e encarou os próprios pés.
– Não se sinta. Você não fez nada de errado. O que importa é o que fará a partir de agora. – Tentou animá-lo.
– Nunca mais chegarei perto de ninguém, nunca mais. – Bradou com veemência, cruzando os dois indicadores na frente dos lábios e os beijando, imitando o sinal de promessa típico dos infantes. O brilho apaixonado voltou ao seu olhar. – Toda minha vida fez sentido naquele momento, Mu. Achei que fosse explodir de tanta alegria! É assim que você se sente quando está com o Shaka?
A pergunta fez um rubor apoderar-se das bochechas do ariano, que assentiu com um sorriso bobo.
– E como foi? – Quis saber, mais por gentileza do que por curiosidade, já que sabia que o escorpiano falaria de um jeito ou de outro.
E então Milo deu início a uma descrição minuciosa das ações e emoções experimentadas ao lado do ruivo francês. Mu admirou-se com a capacidade do amigo em dizer tantas vezes as palavras “maravilhoso”, “perfeito” e “felicidade” numa mesma frase. Não estava muito interessado em saber onde Camus colocara a mão ou qual tinha sido a intensidade do ato, mas ouviu com paciência e atenção os relatos, corando diante das insinuações e provocações que lhe foram direcionadas.
A conversa, no entanto, foi curta – para os padrões Milo de Escorpião – porque Camus estava esperando por ele.
– Espera, espera. – Mu conseguiu, finalmente, interrompê-lo. – Quando isso aconteceu?
– Antes de eu vir aqui te contar. – Respondeu displicente, fazendo os olhos esverdeados de Mu se arregalaram.
– E por que você está aqui comigo e não lá com ele? – O ariano não compreendia.
Milo deixou uma risada escapar pelo nariz antes de falar.
– Você acha que eu larguei aquele monumento para vir aqui fofocar contigo? – Riu mais uma vez e deu um tapa na cabeça lilás de Mu, que resmungou em protesto. – Camus é muito certinho e não quis dispensar o treino de hoje como sugeri, e foi colocar a armadura para descermos para a arena. – Milo revirou os olhos. – Tudo o que eu menos quero é ficar naquele lugar cheio de gente pelas próximas horas, mas não é todo mundo que arranja um indiano safado que passa o dia inteiro dando uns amassos na cama.
Foi a vez de Mu dar um tapa na cabeça do escorpiano.
– Milo, eu já falei que Shaka não é assim. – Falou em tom reprovador.
– E eu já falei que eu não sou idiota! – Riu mais uma vez. – Quero ver você negar que estavam se pegando quando eu cheguei.
O tibetano abriu a boca para protestar, mas tudo que conseguiu fazer foi corar violentamente enquanto balbuciava algumas negativas que não convenceriam ninguém.
– Guarda suas desculpas para a próxima vez. – Disse o grego, estendendo uma mão e bagunçando os cabelos violáceos. – É melhor eu voltar. Se Camus voltar para a minha casa e não me encontrar, ele vai... – Teve a fala interrompida por uma voz apática.
– … achar que você é um irresponsável incapaz de honrar com seus horários ou compromissos. – Disparou Camus de Aquário, emergindo com passadas enérgicas de dentro da casa de Virgem.
Mu viu o rosto bronzeado de Milo ficar branco feito o mármore da estátua de Buda em que estava escorado.
– Camus, eu... – Começou Milo, mas foi interrompido novamente.
– Você tinha algo importantíssimo para fazer, e em cinco minutos já vai estar pronto. – Suas sobrancelhas ruivas estavam tão franzidas que o espaço entre elas havia sumido. – Será que você não vai amadurecer nunca, Milo?
Mu sentiu-se extremamente desconfortável no meio da discussão dos dois, que estavam ignorando solenemente a sua presença. Como se isso não bastasse, tinha a nítida impressão de que Camus sabia qual era o assunto dos dois, mas fingia não saber.
– Ninguém vai morrer por causa de uns minutinhos... – Milo balbuciou para si, mas o francês não deixou aquilo passar despercebido.
– Uns minutinhos? Milo, eu fiquei mais de meia hora esperando você. – Seu olhar fuzilou Milo com tanta intensidade que até Mu sentiu vontade de abrir uma fenda no chão e se esconder; afinal, era por sua causa que o grego havia deixado o outro esperando. – Vai agora colocar a sua armadura. – Ordenou, imperativo.
Milo revirou os olhos num claro sinal de impaciência, mas não discutiu.
– Vai descendo. Encontro com você lá. – Virou-se para Mu e um sorriso minúsculo despontou em seus lábios. – Depois conversamos melhor, Mu.
Saiu em disparada sexta casa à dentro, mas não sem antes piscar de leve para o aquariano, que fingiu não ter percebido o gesto.
– Sinto muito tê-lo feito presenciar isso. – Falou Camus com sua voz fria de costume. – Alguém precisa colocar juízo na cabeça daquele garoto.
Mu concordou com um aceno de cabeça, ainda embaraçado demais para conseguir manter um diálogo coeso.
– Mande meus cumprimentos para o Shaka. – O aquariano virou as costas e começou a descer as escadas, os cabelos ruivos perfeitamente trançados balançando ao sabor do vento.
Só algumas horas depois percebeu que esquecera de dizer para Milo o quanto estava feliz pelo acontecido. Despediu-se de Shaka com um beijo molhado depois do almoço, e torceu para que Milo tivesse com Camus a mesma sorte que ele tinha com Shaka.
• • •
Sem nenhuma armadura para consertar, Mu permaneceu na arena depois de acabar seu treino diário. Sentou-se no degrau mais elevado das arquibancadas, no exato lugar em que falara com Shaka de Virgem pela primeira vez. Sorria apaixonado enquanto fazia uma incursão por suas memórias mais antigas; agora, era capaz de entender que naquele dia os destinos deles foram traçados.
Seu olhar vago repousou nas dezenas de jovens aspirantes e cavaleiros aperfeiçoando suas habilidades de luta que em breve seriam requisitados. Olhava para todos, mas não prestava atenção em ninguém, pois seu pensamento estavam com o loiro budista que meditava no estrado da sexta casa. Lembrou de algumas palavras ditas meses atrás. Somos mais que amigos. Sempre fomos. O que eles eram, afinal? Namorados, falou sua consciência, fazendo o lemuriano sorrir.
Oficialmente, Shaka e Mu eram amigos. Amigos com benefícios mas, ainda assim, apenas amigos. Nenhum pedira o outro em namoro, não que fosse preciso; já faziam tudo o que namorados fazem. Porém, seria agradável chamá-lo de namorado. Quando Mu fosse apresentar Shaka para alguém – não que ele conhecesse muitas pessoas novas, é claro – poderia dizer “este é Shaka, o cavaleiro de ouro de Virgem, a reencarnação de Buda, o homem mais próximo dos deuses e o meu namorado”.
Olhou para os dois lados, constatando que a pessoa mais próxima estava longe o suficiente para não lhe ouvir.
– Meu namorado. – Experimentou aquelas palavras em voz alta, e gostou do som que tinham. Decidiu que, já que Shaka não o pedia em namoro, ele mesmo pediria. O simples pensamento fez o seu coração bater mais forte.
Estava tão absorto em seus pensamentos que sequer notou a aproximação do Grande Mestre até que ele se manifestasse verbalmente.
– Está vendo aquele menino de cabelos castanhos sendo treinado por Marin de Águia?
O susto fez o corpo de Mu enrijecer na hora. Enrubesceu diante da possibilidade de suas palavras terem sido ouvidas por seu mestre. O que Shion de Áries diria se soubesse que o pupilo estava mais interessado em se enamorar com o guardião da sexta casa do que em proteger a Terra do mal?
Permaneceu sentado pois percebeu que o susto deixara suas pernas tremendo. Respirou fundo duas vezes antes de responder, espantando a culpa de sua voz com o exercício.
– Estou. – Na verdade, não estava, mas não demorou para localizar os cabelos vermelhos da amazona de Águia no meio da multidão. Junto dela, um menino de não mais que dez anos com o rosto todo vermelho pelo esforço físico desferia golpes desajeitados em sua instrutora, que bloqueava todos com extrema facilidade.
– Será ele um dos responsáveis pelo fim da corrupção do Santuário. – Disse tais palavras com a maior calma do mundo, como quem fala que vai chover quando nuvens negras cobrem o céu.
Mu estreitou os olhos, e observou o garoto que tinha o destino de todos em suas mãos com maior atenção. Era baixinho e franzino, com músculos pouco definidos e mãos pequenas. Enquanto golpeava Marin, girou o corpo e Mu teve um rápido vislumbre de seus olhos amendoados carregados de uma força ímpar.
– Use a clarividência, Mu. – Sugeriu Shion.
O ariano mais jovem assentiu e esvaziou a mente, concentrando-se apenas em elevar sua cosmo energia. Poucos segundos foram necessários para que tudo a sua volta desaparecesse, exceto o objeto de sua investigação. Uma rápida espiada foi suficiente para Mu sentir a determinação que exalava da aura do garotinho. Sacudiu a cabeça, quebrando o contato, e olhou para seu mestre.
– Lutará até que não lhe restem forças. – Acrescentou, exteriorizando os pensamentos do pupilo.
– Que armadura ele vestirá? – Perguntou Mu.
– Pégasus. – A expressão intrigada de Mu diante da resposta não passou despercebida por seu mestre. – Não é a armadura que faz o cavaleiro, mas sim o cavaleiro que faz a armadura. Bronze, prata ou ouro, o que interessa é o cosmo que arde dentro de cada um.
O tibetano menou a cabeça em concordância, sorrindo.
– Levante-se, Mu. – Ordenou Shion, e Mu prontamente obedeceu, recolhendo o elmo de sua armadura que descansava ao seu lado e o colocando sobre os fios violáceos. – Precisamos conversar.
O Grande Mestre deu as costas ao pupilo e se pôs a caminhar; deduzindo que este queria conversar em particular, Mu o seguiu. Reparou que o mestre tomou o caminho oposto às Doze Casas, seguindo na direção dos alojamentos, parando na orla do bosque que os separava. Ali, longe dos olhos dos curiosos, Shion retirou sua máscara e fixou seus imensos olhos violeta no rosto bonito do discípulo.
– Não é seguro que falemos no meu templo. – Explicou, apesar de não precisar; Mu entendia muito bem como as paredes tinham ouvidos dentro do Santuário. – Chegou a hora de você saber a verdade, Mu.
Era um dia quente mas aquelas palavras fizeram um frio repentino se apossar do corpo do lemuriano mais jovem.
– Antes de tudo, você não pode falar isso para ninguém, Mu. Até que as máscaras caiam, isso será considerado alta traição. – Mu concordou com a cabeça, e o Grande Mestre diminuiu consideravelmente seu tom de voz para prosseguir falando. – Enquanto estive com você em Jamiel, meu lugar foi temporariamente assumido pelo cavaleiro de prata Arles de Altar, o meu sucessor imediato. Acontece que o nobre e gentil homem que deixei tomando conta de tudo havia mudado quando retornei. Por vezes, sentia como se ele fosse a reencarnação do mal, mas em outras exalava apenas bondade.
– Como isso é possível, mestre? – Interrompeu Mu, cuja boca estava entreaberta pelo espanto.
– Isso eu ainda não sei. O que eu sei é que, de alguma forma, Arles não é a mesma pessoa. – Suspirou, a tristeza materializando-se em cada sílaba. – Fechou-se completamente para mim. É um cavaleiro muito poderoso, e sabe as maneiras de impedir que eu use minha clarividência para investigá-lo. Fala pouco, e nunca, absolutamente nunca, tira a sua máscara.
Mu franziu o cenho, os pontinhos de sua testa se unindo, e o mestre anuiu.
– Também acho isso estranho, pois mesmo eu retiro o elmo quando estou perto dos mais íntimos. Mas ele parece não querer que ninguém veja seu rosto... entende o que estou dizendo?
Foi preciso pensar por algum tempo antes que algo coeso se formasse em sua mente. Suas palavras saíram vacilantes quando falou, a incredulidade fazendo-se notar com clareza.
– Alguém assumiu o lugar de Arles.
Feliz com a conclusão do pupilo, Shion brindou-lhe com um sorriso de aprovação.
– Presumo que seja isso, apesar de não ter certeza. Se você tivesse conhecido Arles como eu conheci anos atrás, concordaria comigo. Mas esse não é o maior dos problemas, Mu.
Por mais que se esforçasse, Mu não conseguia imaginar um problema maior que aquele. Mesmo que quisesse negar com veemência, sabia que seu mestre encontrava-se numa idade avançada, e que em breve partira do mundo dos vivos para seu descanso eterno. Assim, seria esse estranho – que o próprio Shion acabara de dizer que às vezes parecia a reencarnação do mal – o homem que assumiria o controle do Santuário e dos guerreiros mais poderosos do universo.
– Atena não está no Santuário. – Disse pura e simplesmente, fazendo Mu recuar um passo diante da informação.
– Mas eu posso sentir o cosmo Dela, mestre. – Balbuciou, estupefato. – Fraco, é verdade, pois sei que ainda é jovem, mas sinto seu cosmo envolvendo a todos em todo lugar.
– Mesmo que seu corpo físico ainda seja jovem, Atena é uma deusa. Zeus designou à Ela a missão de proteger a Terra desde os tempos mitológicos, então toda vez que reencarna, seu cosmo é sentido nos quatro cantos do planeta, independente de onde esteja fisicamente. E nós, seus guardiões, temos uma sensibilidade maior para sentir sua presença. Mas isso não significa que Ela esteja no Santuário, Mu.
A explicação fez Mu regressar aos seus dias de exílio em Jamiel, direto para seus momentos de desespero onde sentia o acalento de um cosmo cheio de amor e compaixão, que ele sabia ser de sua Deusa. De repente, deu-se conta de que sentira aquela presença com a mesma intensidade tanto entre as montanhas do Himalaia quanto na planície de Ática.
– Onde Atena está? – Perguntou o ariano mais jovem.
– Num primeiro momento, cometi o mesmo engano que você ao achar que Atena encontrava-se no Santuário. Mesmo com o Grande Mestre, Atena sempre teve pouco contato nos tempos de paz, preferindo recluir-se para orar pelas pessoas da Terra, então não insisti para vê-la logo que chegamos aqui. Porém, notei que seu cosmo não possuía a mesma intensidade que na última Guerra Santa e, acreditando que algum mal poderia ter se abatido sobre a Deusa, adentrei em sua Câmara sem pedir sua permissão, e qual não foi a minha surpresa quando me deparei com seus aposentos vazios?
Mu percebeu que as batidas de seu coração aumentavam o ritmo à medida que o relato de Shion se desenrolava. Nunca, nem em seus mais remotos pensamentos, imaginou algo daquela magnitude, e sentiu-se um cavaleiro relapso por ter se preocupado mais com um certo indiano do que com a segurança da Deusa da Sabedoria.
– Sequestraram Atena? – Perguntou tão baixo que mal ouviu a própria voz.
– Assim pensei, e fui até Star Hill para que alguma visão precognitiva iluminasse meu caminho. Porém, não foi no futuro que encontrei as respostas que precisava, mas sim no passado. – Seus lábios enrugados formaram uma linha fina, numa expressão de puro ressentimento. – Aiolos jamais tentou assassinar Atena...
– Como? – Disparou automaticamente, sem esperar Shion acabar de falar, recuando mais um passo pelo espanto.
– Isso mesmo, Mu. Arles tentou assassinar Atena, mas Aiolos interferiu. – Os olhos violetas se ergueram para o céu, como se procurasse por alguma coisa que Mu era incapaz de distinguir. – Aiolos de Sagitário não foi um traidor, mas sim um herói. Depois de ter seu plano frustado, Arles o acusou de traição e enviou Shura de Capricórnio para assassiná-lo. Eles eram melhores amigos, como você e Shaka.
Mu sentiu os cabelos de sua nuca se eriçarem quando o mestre fez aquela comparação. Quis dizer que Shaka jamais o assassinaria e que ele jamais assassinaria Shaka, mas o foco da conversa não era aquele. Sentiu algo molhado escorrendo por sua bochecha e percebeu que seus olhos estavam cheios de lágrimas. Shion não precisava dizer que Shura havia cumprido sua missão. De todo seu coração, Mu desejou que Shaka e ele jamais estivessem em lados opostos.
Apesar da certeza de que sempre lutariam juntos em prol da paz e da justiça, temeu. Shura tivera a difícil decisão de escolher entre sua lealdade enquanto cavaleiro e sua amizade com Aiolos. A alcunha de cavaleiro mais fiel à Atena que o capricorniano recebia nunca fez tanto sentido para Mu. Duvidou de sua própria lealdade para com a Deusa se ela implicasse em ferir Shaka.
– Aiolos carregava o pequeno bebê em que Atena reencarnara quando foi confrontado por Shura. – O Grande Mestre continuou explicando. – Preocupou-se mais em proteger a menina do que em vencer a luta, e isso lhe causou ferimentos mortais. Por alguma inexplicável intuição, Shura não feriu a criança. Aiolos agarrou-se à vida até o momento que conseguiu entregar o bebê e a armadura de Sagitário nas mãos de um turista japonês que jurou protegê-la.
Lágrimas silenciosas escapavam dos graúdos olhos verdes do ariano mais jovem a cada novo fato narrado. Enxugou-as com as costas da mão, sentindo o contraste do metal frio da armadura com a quentura de seu rosto.
– Então Atena...
– … está segura. – Shion completou seu pensamento, fazendo um pequeno sorriso surgir nos lábios do pupilo. – Por enquanto. Forças malignas estão por trás dessa tentativa de assassinato. Não sei precisar as intenções por trás disso, mas eu garanto que não são boas. Enquanto ninguém souber o paradeiro de Atena, estará segura. Mas em alguns anos sua identidade será revelada, e as trevas que envolvem o Santuário a alcançarão.
– Precisamos protegê-la, mestre! – Esbravejou Mu, num tom mais alto do que o que vinha sendo usado em toda aquela conversa.
Shion riu, um riso triste que fez Mu se encolher acanhado.
– Não cabe a mim ou a você escolher qual lado os cavaleiros irão tomar nas batalhas, Mu.
– Mas temo que mostrar a todos a verdade para que...
– Apenas Atena mostrará a verdade a todos. – O Grande Mestre interrompeu o ariano. – Tudo o que dissermos não passarão de palavras, teorias e achismos. É preciso uma prova concreta, e apenas Atena pode fornecê-la.
Por breves segundos, Mu colocou-se no lugar dos demais e concluiu que Shion tinha razão – apenas uma prova proveniente de Atena era confiável. Mu acreditava plenamente no antigo cavaleiro de Áries, que era mais que um pai para si, mas os demais apenas o respeitavam enquanto Grande Mestre. A confiança que Mu depositava em Shion era cega, pois sabia que o mestre era um homem justo e honrado, que colocava os interesses daqueles que amava acima dos seus próprios. Não traíra Atena em quase trezentos anos, e não seria agora que o faria.
Sentiu-se privilegiado por todo o carinho que o Grande Mestre lhe direcionava. E de repente seu exílio em Jamiel não pareceu tão horrível, e tudo fez sentido em sua mente. Desde que havia regressado ao seu posto, Shion alimentava desconfianças e estava numa busca incessante pela verdade. Quisera apenas manter o pupilo longe de toda aquela maldade, que chegara ao ponto de atentar contra a vida da Deusa.
– Por isso, Mu, ninguém pode ficar sabendo disso. – O olhar que Mu lançou ante àquelas palavras entregou suas intenções, e foi preciso que o mestre fosse bastante direto. – Nem mesmo Shaka.
– Mestre, ele pensa que Aiolos... – Mu começou, mas foi interrompido.
– Sei o que Shaka pensa sobre Aiolos, mas você precisa entender que todas essas alegações são traições até que hajam provas concretas. Ninguém viu Aiolos salvando Atena, ninguém sabe se é Arles por baixo daquela máscara, ninguém sabe onde Atena se encontra. O que eu lhe contei me foi revelado em Star Hill, e não é seguro espalhar isso por enquanto.
– Mas mestre, vossa palavra tem grande valor. Todos acreditariam no... – Foi interrompido novamente pelo mestre.
– Isso poderia gerar conflitos desnecessários e desunir os cavaleiros, Mu. Não é prudente semear discórdia num momento tão delicado. Até que Atena se revele junto com a verdade, isso é um segredo.
Mesmo achando que a verdade deveria ser gritada aos quatro ventos, Mu não poderia negar que o seu mestre falava fazia todo o sentido. Concordou com um discreto aceno de cabeça, e permitiu que seus olhos se perdessem no céu azul acima de suas cabeças. Foi inevitável não pensar nos lindos olhos de Shaka.
O silêncio não tardou a ser quebrado pelo lemuriano mais velho.
– Meu tempo está se exaurindo, Mu.
Notas finais
Antes que alguém venha me matar, eu mudei o original SIM. Essa é a minha versão de como o Mu ficou sabendo da verdade e foi para Jamiel, pois faz sentido dentro da história, já que ele não abandonaria o Shaka por vontade própria.
Além disso, não consigo ver sentido em um menino de sete anos simplesmente intuir que algo errado está acontecendo. Então, foi a maneira que eu peguei alguns fatos canônicos e adequei de acordo com a minha história. Não me xinguem por isso. u.u
Obrigada a todos que lerem! Vocês são os melhores. ♥ Espero ansiosamente pelos comentários de vocês! :**
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