Castelo de Areia
19 Mil rosas roubadas
Notas iniciais
Férias na casa dos pais sempre é uma loucura, mas quero terminar de escrever essa história logo para poder trabalhar em outras (nas quais espero contar com todos vocês!). Perdoem qualquer errinho, tentei fazer o meu melhor, pois vocês merecem.
Muito obrigada aos que comentaram, ou simplesmente leram. É uma alegria imensa toda vez que clico em "atualizações" e vejo que tem um novo. :3 Vocês são os melhores leitores que alguém poderia ter! Muito obrigada por acompanharem a história e não desistirem! ♥
O pedacinho em itálico no começo trata-se do final do capítulo anterior, pois este começa no ponto onde aquele acabou. ^^
Sem mais, o capítulo.
Mil rosas roubadas
Mesmo achando que a verdade deveria ser gritada aos quatro ventos, Mu não poderia negar que o seu mestre falava fazia todo o sentido. Concordou com um discreto aceno de cabeça, e permitiu que seus olhos se perdessem no céu azul acima de suas cabeças. Foi inevitável não pensar nos lindos olhos de Shaka.
O silêncio não tardou a ser quebrado pelo lemuriano mais velho.
– Meu tempo está se esgotando, Mu.
Tão logo aquelas palavras foram proferidas, a cabeça de Mu se virou para encarar o Grande Mestre. Seus olhos verdes estavam esbugalhados, e seu coração falhou uma batida.
– M-mestre? – Foi tudo que conseguiu dizer. Por mais que as palavras de Shion não tivessem sido completamente claras, Mu sabia muito bem qual era seu significado. Mesmo para os lemurianos, cuja longevidade era maior que a dos demais humanos, Shion já vivera em demasia. Um aperto se alojou em seu peito, e as lágrimas voltaram a se acumular em seus olhos.
– Não fique triste por mim, Mu. Tive uma vida longa, e não posso negar que fui feliz. Vi Atena reencarnar duas vezes nesta Terra, e em ambas as ocasiões eu fui leal à Ela de corpo e alma. Partirei com a sensação de dever cumprido. – As palavras impulsionaram as lágrimas do ariano mais jovem a escorrerem por sua pele alva. Com a mão que não segurava a máscara, Shion limpou-as com carinho. – Mas antes, eu ainda tenho uma última tarefa.
– Qual? – Perguntou Mu, depois de fungar duas vezes, segurando o choro.
– Preciso mantê-lo a salvo, Mu. Darei uma última ordem, e preciso que ela seja cumprida custe o que custar, doa o quanto doer. – O sorriso esboçado pelo Grande Mestre foi tão triste que Mu soube, através dele, qual seria o teor das palavras seguintes. – Você precisa voltar para Jamiel imediatamente.
Mu abaixou a cabeça e permitiu que as lágrimas caíssem com vontade, abandonando o verde de seus olhos para ir de encontro ao verde da grama.
– Será chamado de traidor, Mu. Assim como Aiolos durante todos esses anos. Mas os atos mais nobres não precisam de reconhecimento para terem valor.
A vista do tibetano estava turva quando voltou a encarar seu mestre, que aguardava alguma manifestação com paciência.
– Aiolos morreu para salvar Atena... – As palavras saíam com muito custo, e os soluços ficaram impossíveis de controlar enquanto falava. Precisou respirar fundo antes de prosseguir. – Eu não... eu não quero me esconder como um covarde. Se é para... para ser um traidor, é preciso que seja por uma boa razão.
– Salvar a sua vida é uma boa razão. – Viu um sorriso amoroso se formar nos lábios de seu mestre por detrás das lágrimas que não cessavam. – Você é muito importante para mim, mas não se trata de afeição. Com a minha morte, você será o único detentor do conhecimento para reparar as armaduras sagradas, e isso será essencial para os acontecimentos futuros. Você fugirá como um rebelde, mas não será caçado pois a sua morte significaria que nenhuma armadura poderia ser consertada novamente.
Com imenso pesar, Mu murmurou que entendia.
Sabia o quão vital aquele conhecimento era, e se grandes batalhas se aproximavam, seria indispensável. Porém, não queria deixar o Santuário, não queria deixar Shaka de Virgem e todo o relacionamento pelo qual ele lutara para reconstruir.
Mas seus deveres enquanto cavaleiro deviam ser a coisa mais importante de sua vida, mesmo que não quisesse. Nascera predestinado àquela armadura, e sua missão ia além de pedir em namoro o guardião da sexta casa zodiacal. Como se isso não bastasse, era uma ordem de seu mestre, e ele não poderia descumpri-la mesmo se quisesse. Sua última ordem, seu último desejo...
– Sua ajuda será fundamental para aqueles que derrubarão o mal que aqui se instalou. – Prosseguiu Shion, ignorando o pranto do pupilo. – Seu exílio terminará no dia em que um cavaleiro transpor os perigos da travessia até sua torre e se dispor a sacrificar a própria vida por um amigo. Entendeu?
Contendo um soluço, Mu assentiu.
– Não se esqueça disso. Seu auxílio será essencial para que os cavaleiros responsáveis em colocar um fim nessa teia de mentiras tenham êxito. Por isso, você precisa ficar longe daqui, pois não terá mais a minha proteção. – Sua mão passeou ao longo das ombreiras da armadura de Áries do discípulo, a nostalgia visível em seu olhar cansado. – Você tem um coração puro e inocente, Mu, e isso será sua perdição caso permaneça neste ninho de víboras. Ou você cederá, ou te destruirão.
Enquanto o mundo desmoronava diante dos olhos de Mu, Shion passou um braço sobre seus ombros e começou a andar, obrigando o discípulo a lhe seguir.
– Enxugue as lágrimas para evitar perguntas, Mu. – Falou com carinho, mais como um pedido do que como uma ordem; mesmo assim, Mu obedeceu sem exitar. – Ainda há outra coisa que preciso que você faça, e precisaremos subir até meu templo para isso.
Movendo-se como num sonho, Mu seguiu o mestre por todo o caminho até o décimo terceiro templo.
Foi, contudo, incapaz de conter as lágrimas quando passaram pela casa de Virgem, onde Shaka meditava alheio a todo o sofrimento que corroía o coração do ariano. Quis correr e abraçá-lo, tal como fizera da primeira vez que fora enviado por Shion à Jamiel. A lembrança, porém, das consequências trazidas por aquela dia lhe acometeram, e ele teve medo da reação de Shaka quando soubesse da ordem de seu mestre.
Só então Mu se deu conta de que jamais discutira aquele assunto com Shaka. Por decisão do loiro, o assunto havia morrido, e as coisas entre eles tinham acabado se ajeitando sem um pedido formal de desculpas por parte de Mu.
Não teve muito tempo para pensar no assunto, pois logo chegava com o Grande Mestre até os aposentos que antecediam a então vazia Câmara de Atena. Lá, Shion conduziu Mu através de um estreito corredor, que terminava numa pequena porta de ébano com uma maçaneta enferrujada. Precisaram se abaixar para atravessar o umbral da porta, adentrando num pequeno quarto com uma cama, uma cômoda e uma pequena mesa sobre a qual repousavam os restos de uma refeição inacabada.
O ambiente era muito mal iluminado, uma vez que o lampião que descansava ao lado da cama estava apagado e toda a luz provinha de uma alta janela que não era maior que um livro. Assim, Mu demorou para reparar numa pequena figura encolhida aos pés da cama, que abraçava os próprios joelhos e movia o corpo para frente e para trás, num claro sinal de impaciência.
Num questionamento mudo, fixou seu olhos no Grande Mestre. Shion sentou-se na cama, e fez um sinal para que Mu o acompanhasse. Suas grandes e enrugadas mãos estenderam-se na direção do rapazinho, que engatinhou até o idoso e aninhou-se em seu colo.
– Trouxe a pessoa de quem falei para conhecer você, Kiki. – O garotinho, que não devia ter mais que cinco anos, ergueu seus enormes olhos azuis para Shion e sorriu com inocência. Mas não foi o brilho de excitação daquele doce olhar que chamou a atenção de Mu, e sim os dois pontinhos roxos que davam lugar as suas sobrancelhas.
– Mestre, esse menino...
– É um lemuriano assim como você e eu, Mu. – Shion sorriu e passou seus dedos pelos cabelos castanho avermelhados da criança. – Kiki, esse é o Mu, o cavaleiro de ouro de Áries. – Falou o mais velho dos lemurianos, repousando a mão sobre ombro do pupilo.
Os olhinhos azuis brilharam de admiração. Com um movimento enérgico, Kiki saltou para o colo de Mu, e seus pequenos dedinhos percorreram os entalhes perfeitos da armadura de Áries numa velocidade assombrosa. Apesar de toda a tristeza proveniente das revelações daquela tarde, Mu se pegou rindo dos gestos inocentes e agitados do menininho.
– Você será meu novo papai? – Perguntou Kiki com uma voz fininha e estridente, fazendo as lágrimas voltarem aos olhos do tibetano; Mu quis dizer que não, não seria o novo pai do menino, porém viu-se anuindo em concordância, incapaz de negar algo ao pequeno, que alargou ainda mais o seu sorriso infante.
Com tristeza, pensou que deveria ter aquela idade quando foi entregue à Shion. Era tão jovem que sua memória não registrara o primeiro encontro com seu mestre, que fora a única família conhecida por Mu. Perguntou-se se Shion teria gostado tanto dele num primeiro momento como havia gostado de Kiki, e concluiu que sim quando viu o olhar paternal com o qual seu mentor lhe encarava naquele instante.
– Por que está chorando? Fiz alguma coisa errada? – A expressão feliz no rosto de Kiki se desfez, e ele recolheu uma lágrima que escorreu até o queixo de Mu com a mãozinha delicada.
– Não, não fez nada errado. – Mu afagou aqueles cabelos avermelhados e curtinhos e cessou o pranto para não assustar mais o menino . – Estou feliz por conhecer você.
O sorriso do menino retornou, e ele voltou a sua missão de explorar a armadura de Áries com os dedinhos curiosos. Em poucos minutos, havia descoberto o enorme e lilás cabelo de Mu, e começou a brincar com ele extasiado.
– Kiki perdeu o pai recentemente e nunca conheceu a mãe. – Disse Shion num sussurro, aproveitando-se da distração do pequeno. – Será seu discípulo a partir de hoje. Talvez um dia ele queira se tornar cavaleiro, mas sua missão é lhe transferir tudo o que sabe sobre o conserto das armaduras sagradas.
Por longos minutos, os três remanescentes da perdida Lemúria ficaram em silêncio, desfrutando da companhia um do outro naquele que seria um momento único. Shion ordenou que Kiki fosse guardar todos os seus pertences numa bolsa de couro que estava embaixo da cama, e o pedido foi atendido com entusiasmo.
Valendo-se da ocupação do garoto saltitante, Shion voltou seus sábios olhos violeta para Mu.
– A nossa jornada juntos termina aqui, Mu de Áries. – Balbuciou o Grande Mestre, tomando as mãos do pupilo entre as suas. – Gostaria que você nunca saísse do meu lado. Sinto um amor imenso por você, e queria que não precisasse sofrer tanto com essas provações.
Fechou seus olhos por alguns instantes e respirou profundamente. Quando tornou a abri-los, Mu viu que estavam cheios de lágrimas, assim como os seus.
– Desculpe por afastá-lo de Shaka. O seu sofrimento é o meu sofrimento, Mu. Eu juro que jamais faria isso contigo se houvesse outra maneira.
O tibetano sentiu o aperto sobre suas mãos ser intensificado.
– Eu entendo as vossas ordens, mestre. – Sussurrou Mu, contendo um soluço para não alarmar Kiki, que esvaziava a primeira gaveta de sua cômoda. – Farei tudo conforme disse para que tenha orgulho de mim.
Shion livrou uma das mãos do aperto e levou-a até a face lívida do discípulo, afagando com ternura enquanto uma lágrima solitária deslizava ao longo de sua face.
– Eu já tenho orgulho de você, Mu. Tornou-se um homem de coração puro, um cavaleiro poderoso e honrado, um amigo dedicado e leal, um inimigo justo e perigoso. Nem em mil anos eu teria encontrado um discípulo tão maravilhoso.
Tomado pela emoção, Mu jogou os braços envolta do pescoço de seu mestre e chorou as mais dolorosas lágrimas de toda a sua vida. Nenhuma lágrima derramada por Shaka tivera aquele sabor até então; sua tristeza com relação ao amigo tinha um teor diferente, pois, de um jeito ou de outro, Mu sempre soubera que os erros poderiam ser remediados, as distâncias poderiam desaparecer, os problemas poderiam ser resolvidos.
Mas a morte era algo irremediável. Aquele era seu último encontro com Shion, e não haveria mais volta. Separar-se-iam para sempre, e jamais poderiam buscar conforto em seus bondosos olhos lilases ou em seus abraços calorosos.
– Muito obrigado por tudo, mestre. – Falou com o rosto afundado naquele mar de cabelos brancos como a neve.
O abraço foi desfeito pelo Grande Mestre, que sorria entre lágrimas.
– Não me chame mais de mestre, Mu. Somos companheiros de armas, dois cavaleiros de Atena que lutarão pela justiça. Até o fim.
E então, entre lágrimas silenciosas e sorrisos carinhosos, Mu deixou os aposentos privativos do Grande Mestre levando Kiki pela mão e a bolsa com seus pertences jogada no ombros. Olhou para trás uma única vez, dominado por um sentimento de perda que só sentiria novamente dentro de muitos anos.
• • •
Não soube se caminhava devagar pois queria aproveitar ao máximo seus últimos instantes no Santuário ou se o fazia apenas porque o passo miúdo e apertado do pequeno Kiki jamais acompanharia seu andar normal. Quando saiu do décimo terceiro tempo, deteve-se por um momento e permitiu que seu olhar recaísse sobre as Doze Casas.
Dispunham-se ao longo de uma íngreme encosta, de modo que a primeira casa, Áries, ficava ao sopé e a Câmara de Atena, no topo. Assim, dali era possível enxergar os doze templos dos santos dourados, o mármore branco de cada edificação sobressaindo-se diante do marrom e verde que compunham o relevo natural. A saudade do lugar encheu seu peito, e o ariano arrependeu-se se não ter contemplado em mais ocasiões a privilegiada vista que aquele lugar alto fornecia.
O sol estava prestes a ser tragado pelo horizonte enquanto os dois lemurianos seguiam seu o caminho com lentidão.
Entre a casa de Peixes e o templo do Grande Mestre, havia um imenso jardim de rosas, fruto do árduo trabalho e dedicação de Afrodite. O perfume adocicado das flores invadiu as narinas de Mu antes mesmo de alcançá-lo e seus olhos se fecharam momentaneamente. Quando tornou a abri-los, já encontravam-se em meio a uma infinidade das mais belas roseiras que existiam.
Havia uma estrutura de madeira ao longo de todo o caminho, pela qual os galhos carregados de flores e botões enroscavam-se com graça e leveza, usando-a como suporte para crescerem na direção dos céus sem restrições. As plantas estendiam-se muito acima da cabeça de qualquer homem, e quando atingiam certa altura, seus galhos se curavam ao encontro dos que estavam do outro lado, formando uma espécie de túnel natural.
O poder ao cavaleiro de Peixes conferido era capaz de fazer as rosas desabrocharem o ano inteiro, alimentadas não pelo clima ou pela estação, mas sim pela cosmo energia do pisciano. As rosas eram Afrodite, e Afrodite era as rosas.
Mas Mu, assim como os demais cavaleiros, sabia que não eram apenas os espinhos das rosas de Afrodite que feriam. As técnicas mais poderosas do cavaleiro de Peixes consistiam no uso de rosas que fruíam um veneno mortal. Era difícil, porém, acreditar nisso quando o ar era impregnado por um aroma tão doce e sua visão era preenchida por tamanha beleza.
Extasiado com o lugar, Mu permitiu que sua mão soltasse a de Kiki por breves instantes; o garotinho, que era muito esperto, aproveitou-se dessa distração para correr na direção da rosa mais próxima, estendendo a mãozinha para apanhá-la sedento de curiosidade. Antes que o ato se costumasse, o tibetano conseguiu alcançá-lo, puxando-o para trás.
– Posso pegar uma, papai? – Perguntou com sua voz sapeca e meiga, os olhinhos azuis brilhando de expectativa. Era impossível negar o que quer que fosse para uma criança cativante daquelas.
Como Mu era sensato, não se deixou levar pelo gesto inocente. Sabia muito bem do veneno das rosas e do veneno do próprio Afrodite, que dispensava um ciúme descomunal para com suas preciosas flores; se alguém ousasse roubar alguma e não morresse por seu veneno, morreria pela fúria do pisciano.
O ariano, contudo, ainda não conseguia crer que algo tão bonito fosse capaz de matar da maneira que se contava. Assim, aproximou o próprio rosto de uma rosa encarnada que despontara bem na altura de seu rosto e inspirou fundo, sentindo um doce perfume que mexeu com seus sentidos. Diziam que o simples cheiros das rosas de Peixes era capaz de tirar a consciência do mais forte os homens, mas não foi o que aconteceu com Mu.
Sentiu algo bom percorrer seu corpo, como se a felicidade se propagasse no ar. Mesmo diante de toda a tristeza por se tratarem de seus últimos instantes no Santuário, Mu foi dominado por sensações indescritivelmente agradáveis. Estendeu uma mão para a rosa e a trouxe mais para perto de seu rosto, tão perto que seu nariz tocou as pétalas suaves. Um espinho, porém, perfurou a pele macia de seu dedo, fazendo-o largar a flor e mirar o pequeno machucado, de onde brotou um sangue tão vermelho quanto as rosas.
Esperou que o veneno se propagasse em seu sangue e lhe fizesse agonizar, mas nada aconteceu, e logo o ferimento parou de sangrar. Tratavam-se de rosas comuns e não das usadas nos ataques do cavaleiro de Peixes, o que fazia um certo sentido, afinal, muitos podiam passar por aquele jardim e as consequências seriam trágicas se um curioso resolvesse fazer o mesmo que Mu.
Um sorriso iluminado moldou os lábios do lemuriano mais velho quando uma ideia fez-se em sua mente.
Ordenando que Kiki permanecesse onde estava sem tocar em nada, saiu correndo na direção da entrada dos fundos da décima segunda casa, o eco feito por sua armadura de ouro a cada passo enchendo seus ouvidos. Chamou Afrodite com a voz e com o cosmo, mas não obteve nenhuma resposta – o templo estava vazio. Mas Mu não tinha tempo para procurá-lo ou esperá-lo, então regressou ao jardim.
Ignorando o medo pela fúria do proprietário, Mu começou a colher as rosas que julgou mais belas. Suas opções de cores eram diversas, mas optou apenas pelas vermelhas e pelas brancas, e tomou cuidado para cortá-las com os cabos longos. Parou quando a trigésima flor descansava num de seus braços, sendo quinze de cada cor. Por fim, recolheu uma bonita rosa vermelha, quebrou todos os espinhos de seu caule e entregou-a para um reluzente Kiki, que agradeceu com veemência.
Rezou para não encontrar o pisciano em sua descida, e os deuses atenderam sua prece. Milo estava com Camus na casa de Aquário, mas não foi ao encontro de Mu como de costume, e o francês apenas deu a passagem solicitada pelo ariano através do cosmo. Cruzou com Shura no caminho entre a casa de Escorpião e de Capricórnio, os olhos do espanhol arregalando-se diante da visão do cavaleiro trajando sua armadura de ouro com um punhado de rosas numa mão e um garotinho na outra, mas a costumeira discrição fez com que não dissesse nada.
Sequer precisou entrar na casa da Virgem para saber que Shaka ainda estava meditando.
Rodeou a enorme estátua de Buda e ficou frente a frente com o loiro. Arregalou os olhos o máximo que conseguiu, como se o ato fosse capaz de fazê-lo enxergar com maior precisão. Como sempre, Shaka cintilava diante de seus olhos.
Cerrou os dentes com força para impedir que o choro viesse; diferente da primeira vez, agora era um homem feito, e se não fosse capaz de sequer controlar o choro, jamais seria o cavaleiro que Atena precisava que fosse. Concentrou-se apenas em seu exercício de contemplação enquanto as memórias dos momentos maravilhosos desfrutados ao lado do virginiano ao longo de sua vida dançavam diante de seus olhos sucessivamente, tão reais que parecia que estava vivendo tudo outra vez.
Queria lembrar-se de cada detalhe do indiano. As pálpebras cerradas que escondiam as mais lindas íris azuis, o nariz arrebitado, os cabelos brilhantes e sedosos que flutuavam ao redor de seu corpo durante o transe, as mãos esguias de dedos longos, o pequeno tilak vermelho entre suas sobrancelhas, os lábios quentes e viciantes, a pele macia e cheirosa.
– É um anjo? – Kiki quis saber, admirado com a visão de Shaka tanto quanto seu mestre.
A pergunta fez Mu prestar um pouco mais de atenção a cena em sua totalidade; Shaka estava sentado no estado em frente a estátua, suas pernas cruzadas na posição de lótus enquanto seu corpo levitavam alguns centímetros do chão, seus dedos enrolados pelo rosário de contas roxas fazendo a tríade e seus cabelos ondulados com a força de seu cosmo. Serenidade e poder exalavam de seu semblante de olhos fechados, olhos que Mu sabia que eram da mesma cor do sári que vestia naquele momento. Só lhe faltavam as asas.
– Sim, Kiki, é um anjo. – O meu anjo, completou em pensamento.
Não ousou se aproximar, pois sabia que Shaka não estava ali. A convivência concedera a Mu a capacidade de saber quando Shaka de Virgem apenas meditava ou quando aventurava-se numa projeção astral com um simples olhar. A diferença básica estava na força da cosmo energia que se desprendia de seu corpo, cuja intensidade era menor nas meditações e maior nas projeções astrais – na qual seus cabelos ondulavam com maior força e seu corpo flutuava acima do estrado.
Sabia que poderia chamá-la através do cosmo, e tinha certeza que ele retornaria, ainda mais depois que constatasse o desequilíbrio em que o ariano se encontrava. Porém, mais uma vez, achou-se incapaz de enfrentar a dor da separação estampada no semblante do virginiano.
Travou uma acirrada luta interna, onde parte de seu íntimo clamava por beijos e abraços de despedida enquanto a outra não queria decepcionar Shaka. Os minutos se passaram, e Kiki ficava cada vez mais agitado ao seu lado, trocando o peso do corpo de uma perna para a outra e batendo o pé impaciente no chão de mármore. Precisava tomar uma decisão rápida, afinal, logo Shaka despertaria de seu transe como de costume, e então só lhe restaria uma opção. Desejou ter a capacidade de fazer o tempo parar, para que assim pudesse fazê-lo à fim de contemplar a beleza do indiano loiro que roubara seu coração há tantos anos.
As imagens da despedida anterior vieram à tona, junto do turbilhão de sentimentos que o impediram de contar a verdade à Shaka naquela ocasião. Sentiu-se novamente com doze anos, o medo e a dor mesclando-se em seu íntimo, e tomou sua decisão.
Andou até o limite da barreira projetada pelo cosmo de Shaka e ajoelhou-se. Percebeu que tinha os olhos marejados quando fechou-os por um breve instante e uma lágrima foi cortada de cada um com o gesto e escorreu ao longo de suas bochechas. Com cuidado, tirou uma rosa vermelha do ramalhete improvisado e depositou-a no chão, e assim o fez com todas as demais, intercalando uma branca com uma vermelha, até que a rosa segurada entre os dedos pequenos de Kiki fosse a única restante.
Levantou-se e contemplou o mar de rosas roubadas de cima.
Afrodite que o desculpasse, mas a beleza das flores combinava muito mais com Shaka do que com ele. Dispusera as rosas na forma de um arco, os cabos longos não tocando por poucos centímetros a linha invisível de proteção imposta pelo cosmo de Shaka. Com um aperto no peito, soube que, desde que a ideia surgiu em sua mente, sua intenção não era entregá-las nas mãos do virginiano. Sentiu-se covarde e prometeu a si mesmo que era a última vez que fugia diante da missão de dar uma notícia desagradável para alguém.
Quando despertasse, Shaka saberia que ele estivera ali e quando chegasse a hora do jantar e Mu não aparecesse – os dois vinham jantando juntos todos os dias –, saberia que algo havia acontecido e conseguiria deduzir o ocorrido assim que sentisse que o cosmo de Mu deixara o Santuário. E Mu ainda se pouparia do desprazer de não poder contar os motivos reais que o afastavam dali; mentir ou omitir coisas para Shaka era algo que não estava acostumado a fazer, mas tinha certeza que odiaria.
Respirou fundo e e foi incapaz de conter um suspiro tão intenso que o fez estremecer por completo. Andando de costas, voltou para o lado de Kiki e estendeu-lhe uma das mãos, que foi agarrada com rapidez pelo menininho. Depois de mais três passos para trás, virou-se na direção da saída e começou a andar devagar para que as perninhas curtas e roliças de Kiki conseguissem lhe acompanhar. E assim teria partido se uma voz melódica não tivesse ecoado através do mármore que revestia a sexta casa.
– Mu? – Chamou Shaka. – O que significam essas rosas? – Sua confusão era palpável no timbre utilizado.
Todos os músculos do corpo do ariano se contraíram e sua perna deteve-se no ar, a meio caminho de um novo passo. Obrigou-a a voltar para junto a outra e teve apenas um segundo para decidir o que fazer.
– São para você. – Murmurou, na esperança de que o outro não ouvisse, mas a privação da visão tornava seus demais sentidos deveras aguçados.
– São lindas. – Observou, surpreso. – Obrigado. – Aquela simples palavra fez o aperto no peito de Mu intensificar-se numa velocidade que beirava o impossível. Era tão raro ver Shaka agradecer por alguma coisa que, se fosse enumerar todas as vezes que o fizera, sobrariam dedos de uma mão.
Os dois cavaleiros de ouro fizeram silêncio por breves instantes, que mais pareceram uma eternidade para o pequeno Kiki, que estava mais interessado em fazer qualquer coisa que não fosse ficar parado em pé sem dizer nada. Inquieto, puxou a mão de Mu uma vez ou outra, e conforme o ariano mais velho percebeu, aquilo atraiu a atenção de Shaka, que devia estar entretido com as rosas até o momento e não percebera a criança ali.
– Quem é esse garotinho, Mu? – Perguntou, intrigado. – É um novo discípulo? – Soltou, fazendo Mu arregalar os olhos com o espanto da precisão do chute de Shaka; na verdade, não devia ser um mero chute. Mu não entendia como, mas Shaka parecia sempre saber coisas que simples mortais jamais imaginariam.
O lemuriano mais velho apenas assentiu e começou a andar mais uma vez na direção da saída.
– Não vai ficar? – Ouviu a voz sonora de Shaka, cada vez mais distante, perguntar.
– Não posso. – Lágrimas voltaram a se formar em seus olhos e Mu diminuiu o passo, permitindo-se demorar uns segundos a mais no sexto templo.
– É por causa do menino? – Uma pontinha de desconfiança sobressaiu-se na pergunta do virginiano. – Se for o caso, ele pode ficar também.
A gentileza daquele gesto fez as lágrimas aumentarem e o pouco espaço das cavidades oculares de Mu não foram mais capazes de contê-las.
– Eu preciso ir, Shaka. – O esforço para que o choro não transparecesse em sua voz foi em vão.
– Você vai me explicar o que está acontecendo ou não? – O loiro soou tão autoritário que o tibetano estremeceu.
Mais uma vez, Mu cessou sua caminhada e virou o rosto na direção do indiano, sentindo as lágrimas quentes escorrerem por seu semblante triste. Viu a expressão de Shaka passar de duvidosa para compreensiva. Ele sabe, pensou, com tristeza. As flores e as lágrimas falavam mais que qualquer resposta. Shaka era muito bom em compreender as coisas, e tal habilidade não decepcionou Mu naquele momento. Pelo menos assim era poupado de proferir tais palavras por conta própria.
– Eu sinto muito, Shaka. – Proferiu tais palavras com tamanha tristeza que sentiu o olhar preocupado de Kiki pousar em seu rosto. Piscou três vezes, expulsando todas as lágrimas de seus olhos para que pudesse olhar Shaka uma última vez. Não conseguiu decifrar o sentimento exteriorizado na expressão do virginiano, mas soube que não era bom, e aquilo potencializou sua dor. – Não fui eu que fiz essa escolha.
O olhar fechado de Shaka recaiu sobre as rosas vermelhas e brancas e sob elas permaneceu. Mu ficou esperando pelo que viria a seguir, mas os lábios finos do virginiano não emitiram som algum. Não se despediu, não xingou, não questionou, não argumentou. E mais uma vez, Mu sentiu a dor do silêncio doer mais que um ferimento profundo.
– Vá. – Por fim, vendo que Mu não se movera um único centímetro, Shaka falou em seu tom habitual. – Pode ir.
Mu não foi capaz de descobrir quais eram os sentimentos por detrás daquelas palavras. Se por um lado Shaka poderia o estar expulsando de sua casa, pelo outro poderia simplesmente estar querendo dizer que ele poderia ir sem que nenhuma mágoa entre eles prevalecesse. Foi nessa segunda opção que Mu quis acreditar, incapaz de levar pensamentos ruins sobre Shaka consigo.
– Até logo. – Murmurou para o loiro que, horas atrás, pensara em pedir em namoro. Pensar nisso fez o pranto querer voltar e, ao invés de lutar contra ele, Mu apenas voltou-se mais uma vez para a saída e começou continuou o trajeto interrompido. Viu que Kiki estava relutante para andar e olhava por cima do ombro a figura de Shaka sentada no estrado, como se tentasse compreender alguma coisa. – Vamos, Kiki. – Incentivou o menino, sua voz saindo rouca pelo choro.
Sem explicação aparente, esperou que Shaka fosse atrás dele. Alguma parte dentro de si alimentou, a cada passo, a esperança de que antes que se distanciasse mais um centímetro, sentiria a mão do indiano se fechar em seu braço e lhe puxar para um beijo apaixonado.
Antes de seu pé alcançar o primeiro degrau que conduzia à quinta casa, olhou por cima da ombreira direita da armadura de Áries apenas para constatar que Shaka continuava sentado na posição de lótus, mexendo distraído no rosário de contas roxas enquanto suas pálpebras cerradas fitavam o tapete de rosas à sua frente, a expressão que Mu não sabia definir fazendo-se presente em sua face angelical.
Shaka não foi nem iria atrás de Mu. Jamais.
Notas finais
Antes que falem, sobre Kiki perguntar se era um anjo... Bom, eu imagino que esse tipo de coisa seja de conhecimento popular, ainda mais entre crianças. E aqui entra algo bem particular, que provavelmente não constará ao long da história: eu imagino que o pai do Kiki dizia para ele que a mãe se tornara um anjo.
Espero, de coração, que tenham gostado. Espera-los-ei nos comentários. ♥
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