Castelo de Areia
8 Nunca te imaginei assim
Notas iniciais
Desculpem a demora, fiquei completamente travada. Não betado, apenas reescrito.
O título é um trecho de "Tudo Mudar", do Charlie Brown Jr., uma música que sempre me vem à cabeça quando penso nas cenas deste capítulo.
Também foi um capítulo difícil, principalmente a primeira parte. Ficou muito maior do que eu esperava (de novo). Boa leitura!
Nunca te imaginei assim
Os dias passaram como semanas, as semanas como meses, os meses como anos. O sorriso sincero nos lábios rubros do cavaleiro de Virgem era a primeira e a última imagem que vinha à cabeça de Mu todos os dias, e era de onde retirava forças para levantar da cama e suportar mais um dia de solidão.
Acima de tudo, era um cavaleiro de Atena, e deveria ser forte. Precisava estar preparado para as batalhas que ainda travaria, e não podia deixar que a tristeza de seu coração o consumisse. Mas permitia, vez ou outra, que algumas lágrimas escapassem entre um soco e outro, entre um teletransporte e outro, entre um golpe e outro. Pensar que estava ali para seu próprio bem não mitigava a saudade que sentia ou a culpa por estar em segurança enquanto Shaka não estava.
O primeiro mês foi o pior. Mal saiu da cama, e chorou até dormir todas as noites. Com o tempo, o pranto diminuíra, mas não a tristeza. Vivia para o dia que reencontraria Shaka.
Precisava pedir desculpas por ter partido sem dizer adeus. Precisava de seu perdão. Se a despedida deles tivesse sido diferente, talvez seu sofrimento fosse menor. Ou talvez não. Por mais que tentasse negar para si mesmo, tinha consciência do quanto aquele último encontro enchera seu ser de alegria. Queria esquecer o que tinha acontecido, queria esquecer de como ambos estavam entregues naquele momento, queria esquecer todas aquelas sensações novas, mas não conseguia. Era atormentado a cada minuto por aquela que era, ao mesmo tempo, sua melhor e pior lembrança de Shaka de Virgem.
Os livros já pouco lhe interessavam, e raros eram os cavaleiros que conseguia alcançar o pagode de Jamiel em busca do conserto para suas armaduras sagradas. Sendo seus pensamentos sua única companhia, Mu perdia-se neles a maior parte do tempo, buscando respostas dentro si. Respostas que lhe fizessem entender melhor o que se passava em seu interior e que lhe ajudassem a superar aquela solidão – algo muito mais egoísta que as Quatro Nobres Verdades buscadas por Shaka, é claro. Todo tipo de pensamento passou por sua mente, dos mais racionais aos mais absurdos, mas algumas coisas conseguiu perceber através deles.
Soube que seu subconsciente desejava provar os lábios de Shaka há tempos; não fora um impulso do momento, motivado pelo contato repentino somado à tristeza. Queria acreditar que a culpa era dos hormônios que a adolescência trazia, mas sabia que se tratava de algo mais profundo, algo que ele não sabia ao certo o que era nem como surgira.
Compreendeu também que Shaka e ele eram jovens, e que a intimidade criada desde muito cedo causava confusão em seus sentimentos, e que ficar longe do indiano só fazia parecer cada vez mais que o desejava de uma forma mais intensa do que a que sempre tivera. Só poderia ter certeza de qualquer coisa quando voltasse a encontrá-lo. Mas precisa dele, de um jeito ou de outro, e isso era indiscutível.
Várias eram as conclusões que tirava daquele último dia, e se aquele beijo jamais tivesse acontecido, a saudade seria o único sentimento que lhe acometeria. Não conseguia esquecer que havia sido correspondido de uma forma tão intensa, e uma tênue esperança alojara-se no fundo de seu coração, dizendo-lhe que o que sentia era recíproco.
Porém, percebeu que, independe de quais eram as vontades mais profundas de sua alma, não deveria tê-las exteriorizado naquele momento. A expressão esperançosa de Shaka sobre a manhã seguinte voltava ao seu pensamento a todo instante, mesmo sem ter se esforçado para memorizá-la. Imaginava-o sentado no estrado do templo de Virgem, plácido como um anjo, aguardando seu companheiro com um bule de chá e duas xícaras de porcelana.
Sonhava com seu rosto de decepção ao ser abandonado sem nenhuma explicação quase todas as noites, o que era um deleite e um martírio para Mu, a alegria por vê-lo, ainda que em sonhos, fundido-se com a culpa e com a saudade. Eram tão reais que quase podia sentir o cheiro de sândalo que emanava de suas melenas loiras, e sempre acordava com o som da própria voz chamando por Shaka com desespero.
Cada vez a solidão fazia sua mente divagar mais longe, suas conclusões mudando a cada instante, seus sentimentos oscilando e vacilando de um modo que quase beirava a loucura.
Uma conclusão, porém, serviu para mantê-lo lúcido e motivá-lo a seguir em frente: ele jamais estaria sozinho. Mesmo que seu corpo estivesse isolado num lugar remoto da Terra, seu espírito estava na primeira casa do zodíaco, vigiando o templo de Áries como o guardião de Atena que era. Seu coração estava junto de seu mestre Shion e de seu melhor amigo Shaka, as duas pessoas que mais lhe eram caras no mundo. E sua vida estava com Atena, a deusa que o protegia dia após dia, acolhendo-o em seu cosmo poderoso nas horas mais difíceis.
Cerca de dois anos haviam se passado, e Mu estava debruçado na pequena janela direcionada para o vilarejo próximo, observando seus habitantes transitarem de um lado para o outro, alheios a toda a dor e sofrimento para além daquele pequeno universo que conheciam. Passava muito tempo os observando, perdido em pensamentos, imaginando o que Shaka diria se estivesse consigo e conversando com ele, mesmo que não pudesse ser ouvido.
Como em tantas outras vezes, seu olhar recaiu sobre a frágil ponte que estendia-se no abismo onde muitos já haviam perecido atrás do conserto de suas armaduras, o único caminho de acesso à sua torre. Ouvia as vozes dos cavaleiros mortos o chamando na calada da noite, a hora em que a solidão era maior, convidando-o para acabar com sua dor de uma vez por todas. Mentiria se alegasse que jamais pensou em permitir que o sono eterno da morte o envolvesse em seus braços gelados. Foi por Shaka que nunca atendeu a esses chamados, por mais tentadores que parecessem.
Uma voz conhecida cortou o silêncio sepulcral em que seus dias vinham se resumindo, arrancando o ariano de seus devaneios suicidas e fazendo seu coração disparar.
– Acredito que você possa retornar ao Santuário, Mu.
Virou-se com veemência, deparando-se com a figura idosa de seu mestre, em pé no meio do cômodo, a pesada túnica de seu cargo ondulando com o vento gelado das montanhas que entrava pela janela aberta. Os cabelos brancos brilhavam com a luz da manhã, tal como seus olhos violáceos, carregados de bondade e sabedoria. Trazia o elmo numa das mãos e a máscara na outra, mas isso não o impediu de envolver o corpo de Mu com um abraço quando o pupilo jogou seu corpo contra o do Grande Mestre.
– Mestre, vossa presença foi a maior alegria que tive nesses anos. – Euforia e emoção eram palpáveis na voz do ariano mais jovem.
Shion se afastou alguns passos, à fim de dar uma boa olhada no discípulo. Mu crescera mais alguns centímetros e ficara mais forte. Mas o que chamava atenção eram seus cabelos; o tom de lavanda era o mesmo, mas ele os deixara crescer, numa espécie de tributo à Shaka, que sempre pedira que o fizesse. Já caíam dois palmos abaixo de seus ombros, muito lisos e brilhantes, presos com uma tira de couro vermelha.
– Também me alegro em ver você, Mu. – O lemuriano mais velho suspirou, e Mu pode ver o cansaço de uma vida de quase três séculos pesando sobre seus ombros. – Posso estar cometendo um erro terrível ao levá-lo de volta antes de ter minhas dúvidas sanadas, mas eu sinto a tristeza de seu cosmo mesmo com todas as milhas que nos separam.
– Vossa excelência ainda não acha o Santuário seguro? – Perguntou num sussurro, sua mente voltando-se para Shaka enquanto fazia uma prece ligeira em prol de sua segurança.
– Não, Mu. Mas, no final das contas, acredito que nenhum lugar o é. – Sorriu com tristeza, despenteando os cabelos violáceos do tibetano. Mu reparou com satisfação que já estava quase da mesma altura de seu mentor. – Você poderá voltar. Enquanto eu estiver lá, garantirei que nenhum mal lhe aconteça.
E eu não deixarei que nenhum mal aconteça à Shaka, pensou automaticamente.
Mu meneou a cabeça em concordância, sem conseguir conter um sorriso teimoso que curvava seus lábios para cima. Tinha mil perguntas para fazer ao mestre, mas todas dissiparam-se no ar com a ideia de que finalmente iria rever o melhor amigo.
– Quando será da vossa vontade que eu parta, mestre? – Ao acabar de falar, teve que morder o lábio inferior com força para não gritar de alegria.
– Agora mesmo, a menos que não queira. – Um riso passeou pelos lábios enrugados do Grande Mestre. – Vá buscar sua armadura. – Completou, vendo que a expressão do discípulo deixava clara sua ânsia pelo retorno.
A ordem foi cumprida imediatamente, e em poucos segundos, a caixa de Pandora contendo a armadura de ouro de Áries estava presa por suas tiras às costas de Mu. Esperava por aquela ordem desde que retornara à Jamiel. Não queria passar mais um único segundo ali.
– Antes de irmos, Mu, gostaria de lhe pedir algo. – Shion falou, dirigindo-se à janela e permitindo que seu olhar se perdesse na paisagem. – Tenha cuidado. Uma sombra nefasta se propaga a partir do Santuário, e você não pode deixar que ela o envolva. A bondade do seu coração é a sua maior virtude, e você deve cultivá-la custe o que custar.
Um arrepio percorreu a espinha de Mu, quase como o sinal de um mau agouro. Sentiu a mão do Grande Mestre fechar-se em seu ombro
– Mas deixe que os mais velhos se preocupem com isso no momento. – As palavras de Shion eram reconfortantes. – Aproveite os últimos instantes de calmaria antes da grande tempestade do seu tempo.
Os olhos grandes e brilhantes de Mu encaram o mestre cheios de dúvidas, mas o sorriso de Shion deixou claro que ainda não era hora de falar. Era sabido que aqueles que ocupavam o cargo de Grande Mestre desenvolviam grande predisposição à precognição, que lhes era útil para antever os principais eventos ao seu redor, o que fazia aquelas palavras serem verdadeiras de uma forma desconcertante.
O violeta encontrou o verdes antes que os dois arianos desaparecessem do pagode sem portas ou escadas e reaparecessem nas proximidades do Santuário de Atena.
Mu estava de volta e, inconscientemente, deixou as preocupações sobre batalhas futuras adormecerem na solidão de Jamiel.
• • •
Correu escadas acima rumo à casa de Virgem, sem ao menos tirar a caixa de Pandora das costas. Dezenas de possíveis diálogos se formavam em sua cabeça conforme ia atravessando as quatro casas que os separavam, dos mais emocionados aos cheios de raiva. Um frio instalou-se na região de seu baixo ventre quando seus olhos verdes fitaram as enormes estátuas de Buda que enfeitavam a entrada da sexta casa. A angústia finalmente acabaria. Poderia se explicar com o amigo, desculpar-se por seus erros e tudo voltaria a ser como antes.
O estrado de mármore estava vazio. Estranhou. Shaka sempre estava ali, ainda mais naquela hora... Esperava-o meditando como sempre, envolto num sári colorido, com o rosário enrolado pelo antebraço e os cabelos esvoaçando com seu poder. Chamou-o pelo nome várias vezes, até que ouviu passos vindos da escadaria que dava acesso ao patamar superior. Sentiu suas bochechas esquentarem, e todas as falas ensaiadas foram esquecidas.
Mas não foi Shaka que apareceu em sua frente.
– O senhor Shaka saiu para treinar. Posso ajudar em algo? – Perguntou uma jovem serva de cabelos e olhos de ônix, segurando uma vassoura de palha nas mãos.
Mu sacudiu a cabeça, confuso. Sem dúvida era nova por ali, caso contrário saberia que Shaka de Virgem nunca saía para treinar.
– Sabe onde posso encontrá-lo?
– Na arena, provavelmente. Se não o encontrar, ele volta aqui pra almoçar e passa o resto do dia aí meditando. – Indicou o estrado com a cabeça.
Murmurou um agradecimento e refez o caminho lentamente. Nenhum cavaleiro se encontrava nas casas de Leão, Câncer, Gêmeos e Touro, então não Mu não pode perguntar por Shaka a ninguém mais confiável. Resolveu ir até a arena, apenas para certificar-se de que aquela informação estava incorreta, apenas por desencargo de consciência.
Demorou alguns segundos para processar o que seus olhos viram quando se aproximou do local de treinamentos.
Num primeiro momento, pensou que eram apenas dois cavaleiros vestindo suas armaduras de ouro e desferindo socos e chutes um contra o outro. Mas então um brilho mais dourado que o dos trajes chamou sua atenção. Eram cabelos. Longos e lisos cabelos loiros, que caíam até a cintura do jovem alto que acabara de acertar um soco no adversário de cabelos vermelhos e curtos.
Shaka de Virgem e Aiolia de Leão.
O susto foi tão grande que Mu parou, estático, e ficou observando os dois digladiarem-se com violência. Constatou que Shaka havia crescido e estava tão alto quanto o cavaleiro de Leão, porém tinha o corpo delgado e movia-se com elegância. Não o vi crescer, pensou com remorso. Todas as brincadeiras de outrora vieram em sua mente junto da ideia de que jamais tornaria a fazê-las. Parecia, inclusive, mais alto que o ariano. E os doces traços da infância já não eram detectados em seu semblante, dando lugar a feições mais maduras e temíveis.
Aiolia era mais agressivo e afoito, enquanto Shaka era calculista e eficiente. O ruivo falso desferia muito mais golpes, mas o loiro bloqueava todos, e quando atacava o rival, era preciso, sem sequer abrir os olhos fechados. Os cabelos áureos seguiam seus movimentos com uma suavidade celestial, como se um anjo dos céus tivesse caído para combater com um dos santos dourados de Atena.
Mas o anjo mostrou ter a fúria de um demônio.
– Você beijava o traidor do seu irmão com essa boca suja, Leão? – Mu ouviu Shaka dizer, sua voz mais grossa do que ele se lembrava, com uma petulância que nunca o vira usar antes. Uma cosmo energia poderosa começou a emanar de seu corpo esguio, com tamanha força que jogou Aiolia alguns metros para trás. Limpou um filete de sangue que escorria pelo seu queixo.
– Ficou ofendido? – Riu-se o leonino, satisfeito com a provocação que Mu não conseguira ouvir. – Que espécie de cavaleiro você pensa que é para falar assim comigo? – Emendou, aproximando-se com o cosmo, muito mais agressivo que o do virginiano, elevando-se.
– Uma espécie melhor que a sua. Você deveria se ajoelhar e beijar o chão onde piso. – Sua voz era soberba e orgulhosa. O leonino era da mesma altura que Shaka, mas este lhe olhava de cima, o nariz empinado e o peito estufado, sua altivez fazendo o falso ruivo se encolher e parecer menor diante de sua postura, que era diferente de todas as que Mu se recordava. – Não passa de um traidor, e só está esperando uma chance para tentar assassinar Atena ou fugir com a armadura de Leão. Ou quem sabe os dois, como seu irmão. – Foi a vez de Shaka rir de desprezo.
Traiu a mim, ouviu a voz infantil de Shaka em sua cabeça. Mostrara-se rancoroso pela traição de Aiolos naquela ocasião, o que era perfeitamente compreensível. Mu, porém, não entendeu o motivo de todo aquele descaso direcionado à Aiolia, que não devia ter mais que oito anos quando os eventos envolvendo o irmão se sucederam. Não tinha culpa alguma, mesmo que muitos ali achassem que tivesse.
Os nós dos dedos de Aiolia estavam vermelhos, tamanha era força usada para manter os punhos cerrados. Seu cosmo aumentou exponencialmente, sobrepujando o de Shaka, e Mu apenas conseguiu ver um borrão avançando na direção do loiro.
– Relâmpago de Plasma! – Esbravejou o leonino furioso, desferindo seu poderoso golpe na velocidade da luz contra o cavaleiro de Virgem.
Todos os presentes prenderam o ar.
Quando as luzes do ataque se dissiparam, Shaka de Virgem estava intacto, murmurando um mantra budista, e Aiolia de Leão estava caído no chão com o rosto ensaguentado. O cosmo de Shaka agira como um escudo, tal como quando realizava suas projeções astrais, e repelira o golpe do grego como um espelho.
– Você é um tolo, Aiolia. O seu maior golpe é facilmente subjugado pelo meu poder. Não é digno da armadura que veste. – Falava com tanto entojo que Mu sentiu-se mal pelo cavaleiro de Leão. Aquele não era o Shaka que se recordava. Algo estava errado, terrivelmente errado, e Mu precisou beliscar a pele lívida de um dos braços para certificar-se de que não estava preso em mais um pesadelo.
Aiolia conseguiu se levantar, e desferiu seu golpe novamente contra o cavaleiro de Virgem, mas o resultado anterior repetiu-se. Apesar dos ferimentos, conseguiu ficar de pé mais uma vez, seus olhos brilhando de ódio.
– Aiolia, você é patético. Não vê que está passando vergonha na frente de seus companheiros de armas? – Indicou a plateia de curiosos ao redor com o braço envolto pelo rosário púrpura. – Acabarei com essa humilhação de uma vez por todas.
Suas pernas se juntaram com graça ao mesmo tempo que suas mãos se ergueram na altura do peito, afastadas, com as palmas levemente voltadas para si. Seu cosmo começou a se concentrar entre as mãos, numa esfera de luz e poder, que brilhava tanto ao ponto de ofuscar as feições do virginiano. As rajadas de energia que o envolviam faziam seus cabelos, que até então ondulavam ao redor de seu corpo, agitaram-se para todos os lados, subindo na altura de seu pescoço, sua franja elevando-se até revelar o tilak vermelho de sua testa. Seus lábios entreabertos emitiam um mantra usado em meditações, que fazia seu poder crescer assustadoramente.
– Shaka! – Gritou Mu, numa vã tentativa de chamar a atenção do loiro para si. Aquela loucura não podia continuar, alguém tinha que intervir. O ariano olhou ao redor, e viu o medo estampado nos rostos de todos os cavaleiros e aprendizes presentes.
Pela primeira vez na vida, Mu temeu Shaka. Sabia que o virginiano era detentor de um poder imenso, mas não conseguia vê-lo usando para ferir alguém. Piscou com força, buscando varrer a cena amedrontadora de seu campo de visão. Quando tornou a olhar o amigo, a imagem de uma flor de lótus fechava-se sobre seu corpo, naquilo que Mu sabia tratar-se de uma ilusão provocada pelo poder utilizado no golpe. As pétalas da flor começaram a se abrir lentamente, e ninguém precisou lhe dizer que, quando esta se abrisse por completo, seu ataque seria concluído. Segurou as alças da caixa de Pandora com força e avançou alguns passos. Faria o que nenhum outro tinha coragem de fazer. Precisava intervir, ou poderia ser o fim do guardião da quinta casa.
– Rendição... – começou o cavaleiro de Virgem, numa voz tênue de gelar a alma, suas mãos mudando de posição para formar um semicírculo. Shaka, porém, interrompeu o golpe abruptamente. A energia concentrada entre suas mãos recuou, seu cosmo retrocedeu, os cabelos caíram envolta de seu corpo e a flor de lótus dissipou-se.
– Vamos sair daqui. Você não quer e nem precisa fazer isso. – Disse uma voz fria e inexpressiva. Mu interrompeu seu trajeto na direção do indiano, uma ruga formando-se em sua testa. Um rapaz que ele nunca havia visto antes estava parado ao lado de Shaka, trajando a armadura de ouro de Aquário, com a mão pousada sobre o ombro de Virgem.
Diferente de Aiolia, aquele cavaleiro tinha cabelos vermelhos naturais, que caiam em suas costas cortados em várias camadas. Os olhos tinham a mesma cor e brilhavam como as chamas de uma fogueira. Era pouca coisa mais baixo que Shaka, mas seus braços eram fortes, com músculos definidos, e seus ombros eram mais largos. Colocou uma de suas mãos no meio das costas do virginiano, conduzindo-o discretamente para fora da arena enquanto murmurava coisas que só Shaka poderia ouvir.
Mu ficou observando os dois cavaleiros até não conseguir mais vê-los. Estava atônito. Shaka não tinha notado sua presença. Saíra acompanhado de outra pessoa, como teria feito com Mu nos dias passados. O mundo começou a girar diante da ideia de ter sido trocado, de ter perdido o seu melhor amigo. Arrependeu-se mais um milhão de vezes por ter partido sem se despedir depois de tê-lo beijado.
Os presentes puseram-se a ajudar Aiolia, que afirmava veementemente estar bem, apesar de mal conseguir se colocar em pé. Assim, ninguém percebeu quando Milo de Escorpião se aproximou e sussurrou junto ao ouvido de Mu.
– O que você achou dos dois mais novos cavaleiros inseparáveis do Santuário, Mu? – O lemuriano virou-se para encará-lo.
Milo tornara-se um rapaz muito bonito. Sua pele era bronzeada como a de todo bom grego, com bonitos olhos azuis e cabelos loiros. Era impossível não compará-los aos de Shaka; os do escorpiano eram mais curtos, cacheados e sem aquele brilho deslumbrante. Eram simplesmente loiros, e não tecidos com fios de ouro pelas mãos da deusa Afrodite. Mas não era beleza que chamava atenção em Milo, e sim seu jeito envolvente e lascivo.
– Eu não tenho nada a ver com isso. – Mu desejou que o sorriso maroto que o deixava desconfortável desaparecesse dos lábios do escorpiano.
– Meu caro Mu, você tem mais a ver com isso do que imagina... – Milo passou um dos braços cobertos pela armadura de Escorpião sobre os ombros de Mu, e o conduziu para longe da algazarra de lutas que voltava a se formar ao redor deles. – Algumas coisas mudaram por aqui enquanto você esteve fora... Aposto que vai precisar que alguém o atualize.
Mu revirou os olhos e riu.
– E esse alguém seria você?
– Mas é claro! – Milo gargalhou. – Ninguém aqui tem tantos interesses em comum quanto nós.
O ariano crispou os lábios, intrigado. Tentou se livrar do braço de Milo, mas este não permitiu, envolvendo-o com mais força e guiando-o na direção das ruínas detrás dos alojamentos.
– Vamos para minha casa... – Começou Mu, pensando no conforto de um sofá e algumas almofadas, mas foi interrompido.
– Francamente, Áries, você não raciocina? Absolutamente todos os cavaleiros vão passar pelo sua casa quando forem almoçar... E quando forem regressar aos treinos. Ali não teríamos a menor privacidade para conversar.
Pararam no que parecia ter sido uma parede em tempos remotos. Milo sentou e fez sinal para que Mu o seguisse, dando leves batidinhas no lugar vazio ao seu lado. Nem por um segundo o sorriso traquinas abandonava seu semblante.
– E então, qual a sua primeira pergunta?
Queria perguntar sobre Shaka. Nada mais lhe importava. Estava tão diferente, tão mudado, tão crescido. Mas obrigou-se a controlar sua curiosidade diante de Milo, e tentou parecer despreocupado.
– Vejamos... Todas as armaduras de ouro já estão com seus novos herdeiros?
Milo riu com gosto.
– Acho que não é isso que você quer saber primeiro. – Seus olhos se estreitaram e ele abaixou a voz. – Vamos, Mu, pergunte logo o que está o corroendo. Eu vi o jeito que você observou o pequeno incidente que tivemos hoje na arena...
Os olhos de Mu se arregalaram, e suas bochechas ruborizaram. A cena que presenciara o deixara tão espantado que não se preocupou em esconder suas emoções. Será que apenas Milo havia reparado?
– Por que Shaka e Aiolia estavam quase se matando? – Disse, na tentativa de desvirtuar a atenção de Milo de seu comportamento de minutos atrás.
– Shaka não gosta de Aiolia, Aiolia não gosta de Shaka e eles passaram a resolver suas diferenças na arena. – Explicou com um tom displicente. – Mas eu sei que não é essa a sua preocupação. – Piscou um dos olhos azuis para o ariano.
Milo não era o tipo que deixava os assuntos de seu interesse esfriarem.
– Não sei do que você está falando, Milo... – Não ia falar. Nunca fora muito íntimo do escorpiano; treinavam juntos algumas vezes, riam de alguma piada, mas só. Shaka sempre fora seu amigo, seu confidente, seu ouvinte. Era com Shaka que Mu deveria estar conversando naquele momento. Estava tudo errado.
– Não se faça de desentendido. Vai, não precisa ter vergonha, Áries.
– Não tem nada que eu queira saber, eu...
– Já disse, sua reação lá na arena te entregou, Mu. – Milo se atravessou na fala do ariano. – Mas não se preocupe, acho que ninguém mais percebeu. Vê-lo foi um colírio para meus olhos, eu estava aguardando seu retorno. Seremos muito úteis um para o outro.
O lemuriano esfregou os dois pontos roxos em sua testa, num claro sinal de desconforto. Nunca dera intimidade para Milo estar agindo daquela maneira. Mas suas palavras despertavam curiosidade no ariano, pois sabia que, de alguma maneira, o grego estava falando de Shaka.
– Pensar demais vai fazer seu cérebro queimar! – O escorpiano deu um leve soco no braço de Mu.
– Estou... tentando pensar em quais interesses temos em comum... e como poderíamos ser úteis um ao outro.
A cabeça de Milo foi jogada para trás com a força da gargalhada que passou por sua garganta.
– Nunca vai descobrir isso sozinho. Você vai precisar fazer as perguntas certas. – Mu brindou-o com silêncio, e Milo revirou os olhos, impaciente. – Olha... vou te dar um empurrãozinho, certo? Aquele ruivo deslumbrante que estava com o seu loiro é Camus, o cavaleiro de Aquário, que regressou de um longo treinamento na Sibéria cerca de um ano atrás.
O seu loiro. Aquelas palavras ressoaram na cabeça de Mu, como se Milo as estivesse repetindo. O seu loiro, o seu loiro, o seu loiro. Sua expressão era séria, mas sorria por dentro. O fato de alguém ver Shaka daquele jeito... Não, ele não era sua propriedade. Não fora no passado, e não era agora que o seria. O seu loiro, o seu loiro. Era assim que era vistos pelos demais cavaleiro?
– Isso não foi muito... esclarecedor. – Conseguiu dizer, finalmente.
– O que seria esclarecedor? – Provocou o grego.
Mu compreendeu o jogo de Milo. Estava louco para falar, mas queria algo em troca. Uma confissão, concluiu. Precisava ser forte e, mais do que nunca, não deixar que as emoções o dominassem.
– Certo... o que Shaka fazia com o cavaleiro de Aquário?
As palavras de Mu deleitaram Milo, que pareceu saboreá-las antes de formular uma resposta.
– Acredito, Mu, e apenas acredito, que ele fazia o mesmo que vocês costumavam fazer algum tempo atrás.
O sangue do ariano gelou. Sentiu um arrepio percorrer sua espinha e uma sensação de vertigem dominar-lhe. Vários momentos chegaram em seu pensamento ao mesmo tempo, envolvendo carícias, abraços e intimidades entre Shaka e ele, que convergiram para um final de tarde regado com lágrimas, afagos e um beijo.
– Oh, eram coisas tão terríveis assim? – A risada que Milo deu foi mais discreta que as outras. – Você está branco!
Áries não respondeu.
Nunca teve que dividir Shaka com ninguém. Toda a atenção do indiano era voltada ao ariano, que jamais fora invadido por tal sentimento de abandono. Você o abandonou primeiro, disse a voz da sua consciência. Mais uma vez, doeu pensar que era com Shaka que deveria estar conversando, não com Milo, e amaldiçoou Camus, o cavaleiro de ouro de Aquário.
– Vamos falar sério, já dei muitas risadas às suas custas hoje. – O sorriso se desfez nos lábios de Milo. – Camus nasceu na França, mas cresceu aqui no Santuário, como muitos cavaleiros. Um pouco antes de você e Shaka chegarem, quando tínhamos nove anos, ele teve que ir para a Sibéria concluir seu treinamento e, como eu disse, voltou um ano atrás. – Fez uma pausa. – Éramos grandes amigos. Fomos criados como irmãos, de uma forma tão ou mais intensa que você e Shaka.
– Então por que ele estava com Shaka e não com você? – Disparou Mu, ressentido.
– Camus sempre foi muito... frio. O que é um pouco irônico, já que ele é o cavaleiro de gelo. – Deu um sorriso triste, que preocupou Mu. – Aparentemente, tudo o que vivemos na nossa infância não significou muito para ele. Corri ao seu encontro quando voltou, mas estava distante, falou que eu era muito emotivo, e que as emoções atrapalhavam os cavaleiros. Os outros dizem que o frio da Sibéria congelou seu coração, mas eu o conhecia melhor que todos, e sei que tudo isso é fachada. Ele tem sentimentos, mas resolver escondê-los.
Mágoa dominava a voz de Milo, fazendo com que Mu sentisse pena do companheiro. O escorpiano tinha o riso fácil, era descontraído e brincalhão. O ariano desejou com todas as forças que ele voltasse às piadas maliciosas, pois vê-lo naquele estado de melancolia não estava ajudando a melhorar seu próprio ânimo.
– Quis se afastar de mim – continuou Milo –, e usou Shaka para isso. Eu deduzo que ficou sabendo da amizade de vocês, de seu sumiço e de como Virgem ficou abalado com isso...
– Abalado? – O coração de Mu falhou uma batida.
– Bem, digamos que sim. O jeito Shaka de se abalar. Insistiu para que o Grande Mestre lhe dissesse onde você estava, o que foi inútil. Depois, ficou coisa de uns seis meses sem sair da casa de Virgem, sem falar com ninguém. E quando voltou para o mundo, estava mais arrogante, prepotente e cheio de si que o normal. Aí Camus voltou da Sibéria, e os dois começaram a se falar. Como, exatamente, eu não sei, só sei que de repente...
As palavras do escorpiano pareciam cada vez mais distantes. Sem saber, Milo havia falado o que Mu mais quisera ouvir em todo aquele tempo: que Shaka sentira sua falta. Sabia que seus laços eram fortes, mas alguma coisa lhe dizia que nada era capaz de abalar o guardião da sexta casa. Mais uma vez, sentiu-se a pior das pessoas por não ter se despedido do amigo. Mordeu o lábio com força, como se a dor física fosse capaz de apaziguar a dor interna.
– Mu? Está me ouvindo? – Quis saber Milo, percebendo o olhar vago de Mu, que apenas assentiu com a cabeça, apesar de não ter prestado atenção nas últimas frases do grego. – E logo Camus estava passando pela minha casa para ir até Virgem todos os dias. Quase não nos falávamos mais. Quando ele voltou, achei que retomaríamos nossa amizade de onde paramos, mas ele preferiu o metido e arrogante Shaka ao invés de mim. E Shaka só estava assim por causa do que você fez para ele, Mu.
O lemuriano colocou um fio de cabelo lavanda, que teimava em escapar do rabo de cavalo baixo, atrás da orelha.
– Eu tive que ir, Milo... Foram ordens do meu mestre... – Soou tímido.
– E as ordens de seu mestre também eram para não se despedir de Shaka depois de beijá-lo? – Despejou Milo, repreendendo-o.
A mão de Mu cobriu sua boca, que se abriu em espanto. Ele ouvira direito? Milo realmente tinha acabado de falar do que acontecera na casa de Virgem na noite de sua partida? Shaka não teria... não podia... Aquilo era algo pessoal, algo deles, algo íntimo.
– Eu vi. Você passou chorando pela casa de Escorpião e meu mestre pediu que eu fosse ver o que estava acontecendo. Sempre soube esconder muito bem o meu cosmo, Mu. – Estufou o peito, orgulhoso. – Vi você chorando nos braços dele, vi vocês naquela melação toda, até que... – Engoliu em seco. – Até que você o beijou. E no dia seguinte, tudo o que comentavam era que o cavaleiro e a armadura de Áries haviam sumido. Shaka passou pela minha casa atormentado quando foi falar com o Grande Mestre pela primeira vez.
Doía muito mais ouvir aquilo da boca de outra pessoa do que em seus pensamentos. Por muitas vezes, pensou que tudo poderia se tratar de um delírio provocado por seu estado de tristeza e quis acreditar naquela mentira. Realmente quis. Mas as palavras de Milo o condenavam e tornavam tudo real. Pequenas lágrimas brotaram de seus olhos esmeralda.
– Eu não consegui, Milo... Não tive coragem de falar para ele, e não pude descumprir as ordens de meu mestre. Arrependo-me disso todos os dias...
– Mu, não se fica aos beijos com uma pessoa num dia e some no outro! Você magoou Shaka, e não é preciso de muito para perceber isso. Não sei como ele irá lhe receber. Só sei que, se você não tivesse feito essa idiotice, ele não teria tirado Camus de mim.
As palavras do grego eram carregadas de dor e amargura.
– Se alguém aqui merece ser rejeitado, esse alguém é você, que deu motivos para Shaka não querer olhar para sua cara. Só que eu também estou pagando por esse seu erro, Mu. Sempre tratei Camus da melhor maneira possível, fiz tudo por ele, amei-o de todo o meu coração, e olha como fui retribuído. Ainda não compreendo porque ele tem me tratado assim, mas eu vou fazer isso mudar. E eu preciso de você para fazer isso, Mu. – A última frase foi uma súplica.
– O que você precisa que eu faça? – Preocupado com o estado emocional de Milo, Mu ignorou toda a culpa jogada em si e optou por não discutir seus motivos ou opiniões.
– Quero que faça com que sua amizade com Shaka volte a ser como antes! – Revirou os olhos, como se Mu estivesse perguntando o óbvio. – Já disse que não sei como ele vai te receber depois de tudo, mas eu não esperaria sorrisos e abraços. Só você pode fazer isso, Mu, só você tem esse efeito sobre Shaka.
Desespero transbordava de cada poro do corpo de Milo. Sua pose brincalhona e descontraída o abandonara, substituída por uma angústia desesperadora. Mu o entendia, e desejou desesperadamente não compreender. Compreendia pois aquele mesmo desespero começava a germinar em seu âmago, mesmo antes de saber como seria seu reencontro com Shaka.
– Eu o quero para mim, Mu. – Falou com apenas um fio de voz. – E sei que você quer Shaka. Da mesma forma que eu o quero, que sempre o quis. Temos que separá-los...
– Mas Milo, eles são amigos. Você acha certo conspirarmos para separar dois amigos? Não seria melhor esperarmos para ver como as coisas vão se desenrolar agora... que estou aqui? – Separar era uma palavra forte, e a ideia fazia Mu sentir-se sujo.
– Mu, – um riso zombeteiro se formou nos lábios do grego – você prefere tentar separá-los agora ou só depois que eles derem uns beijos na casa de Virgem?
Notas finais
Adoro dar esse ar de "adolescente apaixonado" ao Milo, acho que ele faz o tipo que não tem vergonha do que sente e sabe muito bem o que quer.
Alguém chegou a reparar que não houve nenhuma menção ao Camus nos capítulos anteriores (exceto no prólogo, CLARO!)?
Gosto de avacalhar com o Aiolia. UAHUSHUSHSU Algum palpite do que ele disse para deixar o Shaka tão puto? XD
Esclarecimentos:
01. Não queria deixar o Mu enfiado em Jamiel desde já, então trouxe ele adolescente para dar mais emoção! Afinal, as coisas estavam ótimas entre o Shaka e ele, precisavam de umas brigas. Não me amaldiçoem!
02. E o motivo para o Mu crescer antes era essa cena em que ele viu o Shaka; queria que Shaka crescesse na sua ausência, sem que ele visse as mudanças do amigo. Pro impacto ser maior, pro coração bater mais forte, rs.
Espero que tenham gostado. Até o próximo! :*
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