Castelo de Areia
9 O frio do silêncio
Notas iniciais
Um obrigada especial à Perséfone, que me ajudou com o título. :*
O frio do silêncio
O cavaleiro de Áries tinha seus princípios, que o fizeram negar a ajuda pretendida por Milo. Seu coração ficara partido ao ver outro no lugar que fora seu, mas teria que enfrentar as consequências de seus atos impensados. Queria acreditar que Shaka não notara sua presença na arena devido à concentração na luta, mas uma parte sua sabia que o amigo era muito eficiente em perceber o cosmo dos outros. Lutava contra a ideia de que tinha sido ignorado pelo indiano. Por maior que fosse sua vontade de estar perto do loiro, não ia tramar na surdina para acabar com a amizade que ele compartilhava com Camus. Se ele conquistara a confiança de Shaka uma vez, poderia conquistar uma segunda.
Milo ficou inconformado. Em sua cabeça, mil maneiras de manter os dois santos dourados afastados haviam se formado, e ele ansiava em colocá-las em prática. Suas ideias, porém, não eram carregadas de maldade, mas sim de um desespero desconcertante. Diferente de Mu, que não tinha plena certeza sobre seus sentimentos românticos para com Shaka, o escorpiano era convicto de sua paixão por Camus, e estava disposto a fazer de tudo para conquistar seu coração gelado.
Nada do que Mu disse conseguiu convencê-lo de que Shaka não era uma real ameaça, provavelmente porque nem mesmo Mu acreditava nisso. Sabia melhor que qualquer um o quanto a companhia de Shaka era agradável e envolvente. É viciante, pensou, mas preferiu não dizer nada que aumentasse o desespero do outro.
Quando desistiu de convencer Milo de que aquela não era uma forma honrosa de agir, já passava da metade da tarde e não poderia ir ver Shaka, que deveria estar absorto em sua meditação àquela hora.
– Por favor, Mu! Já que não vai me ajudar pelo menos vai logo falar com ele. Quanto mais cedo vocês voltarem a ser como antes, mais cedo Camus estará livre... – Pediu o escorpiano todo manhoso.
– Pela enésima vez, Milo, tenha calma! Acabei de chegar, não sei como Shaka irá me receber e não vou forçar as coisas! – O medo o estava corroendo, mas teve vergonha de admitir isso em voz alta. – Quantas vezes tenho que repetir isso? – Milo estava prestes a conseguir realizar a tarefa quase impossível de tirar Mu do sério.
– Demorar para procurá-lo só vai fazer a mágoa dele aumentar, seu coió.
– Vou respeitar o espaço dele... – Suspirou, pensando em quantas vezes tinha repetido aquela frase nas últimas horas. Teimoso como uma mula.
– Igual respeitou quando saiu o beijando? – Suas palavras eram puro veneno, mas Mu sabia que não tinham a intenção de magoá-lo ou ofendê-lo. Milo era boa pessoa, no final das contas.
Cansado do esforço inútil de colocar juízo na cabeça de Milo, o lemuriano se levantou e começou a deixar as ruínas. Estava travando uma luta interna grande demais, dividido entre sua dignidade e seu desejo de ter Shaka de volta, e cada palavra de Milo o deixava mais propenso a ajudá-lo. Percebeu que seria mais fácil ser convencido de ajudar do que convencer o outro a desistir daquelas ideias, e resolveu ir embora antes que cedesse. Com um sorriso malicioso, Milo lhe gritou uma última verdade.
– Você ainda vai me procurar, Áries! Verá os dois andando juntos por aí, alheios a você, e então você vai jogar esse falso moralismo fora e vai me ajudar! Eu tenho certeza.
O medo de que tais palavras se confirmassem impediu Mu de dar qualquer resposta.
• • •
Mal dormiu à noite.
Precisava digerir todas as novas informações que aquele dia trouxera. Nas poucas vezes que conseguiu pegar no sono, acordou logo em seguida com a sensação de que estava caindo, cada vez mais fundo, e não tinha ninguém para salvá-lo.
Manchas negras tingiam a pele alva abaixo de seus olhos pela manhã. Olhou-se no espelho do quarto, deparando-se com uma aparência horrível. Não comera nem se banhara no dia anterior, e chorara por tanto tempo que sua cara estava inchada. Refrescou-se na casa de banho e tratou de colocar uma roupa limpa. Pingou algumas gotas de essência de lavanda nos pulsos e pescoço, e escovou os cabelos lilases até seu couro cabeludo começar a arder. Pessoas normais achariam que estava bem, mas Shaka perceberia seu abatimento. Ele sempre percebia tudo.
Ainda era cedo demais quando terminou de se aprontar, mas não conseguiu esperar para ver Shaka. Os antigos costumes diziam que deveria esperar até as oito horas, mas tudo indicava que as coisas haviam mudado por ali.
O percurso até a sexta casa nunca pareceu tão longo para Mu.
O único que ainda dormia era Máscara de Morte de Câncer, totalmente alheio aos hábitos matutinos dos demais cavaleiros. Mu conversou brevemente com Aldebaran na casa de Touro e com Aiolia na casa de Leão – que não comentou nada sobre o incidente com Shaka, apesar das insinuações de Mu. Reparou, com um aperto no coração, que o castanho natural dos cabelos do leonino estava despontando na raiz à medida que os fios cresciam.
A simples visão da casa de Virgem quando deixou a quinta casa fez Mu ter vontade de rolar escadaria abaixo até voltar para a casa de Áries. Não estava pronto para encarar Shaka. O tratamento dispensado para Aiolia na manhã anterior fez o estômago de Mu se revirar; se Shaka o tratara daquela maneira apenas por alguma provocação durante uma luta, o ariano não queria nem pensar no que ouviria. Se as coisas ficassem feias, pelo menos ele fora abençoado com a habilidade de teletransportar-se.
Com passos arrastados, o lemuriano chegou na entrada do templo. Respirou fundo, a saudade perfazendo-se através do cheiro de cravo dos incensos que invadiu seus pulmões, e adentrou o átrio onde passara tantas manhãs que jamais esqueceria ao lado de Shaka – além de um fim de tarde que queria apagar da memória, assim como a cena com a qual se deparou.
Shaka estava deitado no chão, ao lado da grande estátua de Buda, vestindo um sári violeta e passando os dedos pelo rosário de contas que lhe envolvia o pescoço, sua cabeça apoiada numa grande almofada de seda e seus longos e brilhantes cabelos se espalhando pelo piso de mármore branco. Estava deslumbrante, mas foi um lampejo carmim que chamou a atenção do ariano. Ao lado do virginiano, Camus de Aquário sentava-se com as costas apoiadas na estátua, um perna esticada e a outra flexionada, servindo de apoio para um velho livro que segurava. Seus olhos flamejantes estava cravados nas páginas, e seus lábios se moviam à medida que lia que o texto.
– ...é bem verdade que a velhice nos proporciona repouso, livrando-nos de todas as paixões. – Tinha uma voz firme e apática, coroada com um sotaque que Mu não conhecia e que achou incrivelmente sensual. – Quando os desejos diminuem, a asserção de Sófocles revela toda a sua justeza. É como se nos libertássemos de inúmeros e enfurecidos senhores. No que diz respeito aos desgostos...
Interrompeu a leitura quando uma das mãos de Shaka se ergueu espalmada, num sinal para que se detivesse.
– Parece que temos companhia, Camus. – Mu ouviu Shaka murmurar, enquanto um sorriso malicioso moldava seus lábios finos.
O sangue bombava com força por cada veia e artéria de seu corpo. Sentiu as bochechas corarem com violência, enquanto uma fina camada de suor se formava em sua testa. Teve vontade de sair correndo dali. Poderia dizer que estava indo ver o Grande Mestre. Mas não enganaria Shaka.
– Junte-se a nós, Mu. – Conforme Shaka falava, as mudanças em sua voz ficavam mais evidentes. Tornara-se mais grave, com um quê arrogância que antes não existia, mas ainda era tão melodiosa quanto o tibetano se lembrava. O loiro sentou-se com as pernas esticadas e ajeitou alguns fios rebeldes de seu cabelo. – Chá? – Ofereceu.
Mu só então reparou numa bandeja com um bule e xícaras de porcelana pela metade ao lado de Shaka. Conseguiu distinguir o cheiro de canela misturando-se com o aroma de cravo, e quase pode sentir o gosto em sua boca. Não o gosto do chá que partilhara com Shaka por tantas e tantas vezes, mas o gosto daqueles lábios macios. Sacudiu a cabeça para livrar-se da memória.
– Obrigado, mas não. – Conseguiu dizer, incapaz de tirar os olhos da figura impassível de Camus. Sentiu uma imensa vontade de usar sua telecinesia para mandar aquele ruivo para longe, mas achou que seria indelicado demais.
– Sente-se. – Shaka indicou o lugar ao seu lado numa ordem, não num pedido. Mu obedeceu, e o outro cheiro que lhe remetia à Shaka tomou conta de seus sentidos: sândalo. Semicerrou os olhos, permitindo-se um segundo de deleite. – Seu cabelo cresceu... – Shaka segurou uma mecha lilás, permitindo que escorregasse por seus dedos, obrigando Mu a conter um suspiro. – Finalmente.
A tensão que pairava no ar era tão densa que tirava as forças de Mu. Seus olhos procuraram Camus, que levara sua xícara de chá aos lábios, sorvendo com lentidão. Parecia alheio à presença de Mu, alheio a tensão, alheio ao medo do ariano, alheio à arrogância do virginiano.
– Acredito que você ainda não conheça o cavaleiro de Aquário, Mu. – Disse Shaka, virando o rosto de pálpebras fechadas na direção do aquariano. – Esse é Camus.
Encabulado, Mu estendeu a mão para o cavaleiro, que fitou-a por alguns instantes, como se ponderasse de deveria apertá-la ou não. Acabou sacudindo a mão do ariano apático. São frias como o gelo, pensou Mu.
– Prazer. Sou o Mu. – Falou durante o aperto. – De Áries. – Completou assim que as mãos se soltaram. Sentiu-se idiota.
– Eu sei. – Desfez o aperto. – Ouvi falar de você.
Um frio percorreu a espinha de Mu, emudecendo-o. Era óbvio que Shaka tinha falado a seu respeito, mas sentiu-se incomodado com o que o indiano poderia ter contado. Já era bastante constrangedor Milo saber daquilo; tudo o que não precisava era que um completo estranho soubesse também.
– Mas então, Mu, – Shaka quebrou o silêncio – como foi a sua viagem?
O virginiano pegou sua xícara da bandeja e levou-a ao nariz, inspirando o perfume do chá. Virou o rosto na direção de Mu, que notou um sorriso atrevido por trás da xícara. Estava o desafiando. Conhecia Mu bem o suficiente para saber que tinha diversas coisas para lhe falar, mas que não o faria na frente de um desconhecido.
– Foi... – Os olhos de Mu procuraram o francês, inexpressivo e indiferente. Não conseguia encarar os olhos fechados de Shaka. – Longa.
– Divertiu-se? – O sorriso do loiro se alargou, mas desfez-se quando encostou os lábios na xícara.
A mente de Mu anuviou-se. O que Shaka estava fazendo? O que significava aquela conversa? Esperava uma recepção mais... emocionante. No sentido ruim, mas, ainda assim, emocionante. Porém, nenhum sinal da mágoa que Milo mencionara podia ser detectado. Falava com Mu como se fossem estranhos tendo uma conversa informal. Nada de raiva, de tristeza, de ódio, de indignação, de revolta. Tudo o que sentia emanar de Shaka era arrogância e ousadia. E a presença incômoda de Camus só o fazia sentir-se desconfortável e constrangido, como se a indiferença do aquariano o estivesse acusando de seus erros.
Não aguentou. Seus sentimentos estavam em ebulição, e ele não se submeteria àquela tortura psicológica. Quando Shaka virara tão maldoso? O menino doce e gentil de antes jamais deixaria alguém tão desconfortável e sem graça, e nem pareceria se divertir ao fazer isso. O lemuriano percebeu que estava ofegante quando levantou.
– Eu... tenho que ir. – Deu uma última olhada nos dois cavaleiros à sua frente, constatando mais indiferença da parte de Camus e mais atrevimento da parte de Shaka.
Quando estava quase atravessando o umbral rumo à saída, ouviu a voz de Shaka cantarolar uma frase carregada de troça.
– Foi bom rever você, Mu... de Áries.
• • •
A sensação de que estava caindo num buraco sem fim acompanhou Mu pelos dias seguintes. Repassara todo seu encontro com Shaka e Camus milhares de vezes, atrás de algo que fizesse com que se sentir melhor. Tudo em vão. Cada vez que os diálogos, gestos e sorrisos passavam por sua mente, sentia-se pior que na vez anterior.
Precisava, mais que tudo, conversar com Shaka, mas o indiano não parecia querer conversar com ele. Devia-lhe um pedido de desculpas, uma explicação. Mas cada vez que pensava em enfrentar aquele novo sorriso atrevido, seu estômago revirava e ele tinha vontade de correr até que suas pernas não aguentassem mais.
Ainda assim, passou a ir até a casa de Virgem durante a tarde todos os dias, na vã esperança de pegar Shaka longe de sua meditação e abordá-lo, mas o virginiano era muito rígido com seus horários. Pela manhã, Mu não se atreveria a ir procurá-lo, pois sabia que Camus estaria com ele tal como da primeira vez, e pior do que enfrentar a ausência de espírito de Shaka durante sua meditação era enfrentar a presença desconfortável do aquariano a desfrutar da companhia do indiano.
Era, porém, impossível não cruzar com os dois pelo Santuário. E o pensamento de que deveria ser ele no lugar de Camus doía como uma punhalada. Mu começou a sair cada vez menos da casa de Áries, mas nem isso adiantava, já que todos os dias era obrigado a vê-los pedir passagem para ir até a arena e depois retornar. Sempre que saía para treinar, tinha que colocar sua máscara de companheiro prestativo e simpático, fingindo que nada daquilo era com ele. Fingindo que não ligava para o fato de ter sido substituído.
O único que percebeu que Mu estava arrasado foi Milo.
– Agora você me entende? – O escorpiano ia dizendo enquanto caminhavam lado a lado até a arena.
– Mas Milo, são situações diferentes. Shaka está me torturando. – Choramingou Mu enquanto amarrava o cabelo com uma fita carmim e recolocava o elmo. – Não me dá nenhuma chance de conversar a sós com ele... Nas poucas vezes que o vi sozinho, estava meditando, aí você sabe como é. E eu não vou falar na frente do Camus! – Cada vez estava mais fácil falar de seus sentimentos com o escorpiano.
Milo riu.
– Mu, Mu... se você quiser, posso descolar um tempinho a sós com Shaka para você. Mas uma mão lava a outra.
– Nem pensar. Não vou tramar pra afastar os dois, já disse. – Vira e mexe, voltavam naquela discussão.
– Você que sabe. Shaka está tentando te punir, então você nunca vai pegar ele desprevenido. Já saquei qual é a dele. Ele sabia que você ia querer conversar, que você precisaria conversar, e está adiando isso pra te fazer pirar!
Mu abaixou os olhos, encarando os pés revestidos pela armadura de Áries.
– Isso não combina com ele, Milo. – Os sons da arena começaram a encher seus ouvidos conforme se aproximavam. – Você pode falar que ele mudou, que está diferente, mas o Shaka que eu conheci não...
Mu parou de falar, surpreso pelo puxão que o grego acabara de dar em seu braço.
– Mas o que... – Não precisou concluir a pergunta, pois seu olhar acompanhou o de Milo e o que viu dispensava qualquer resposta. Parados poucos metros à frente deles, estavam Camus e Shaka, sentados no nível mais baixo da arquibancada. Aos olhos de Mu, conversavam como sempre, mas Milo deu outro puxão em seu braço. Encarou o amigo, que apenas mexeu os lábios formando a palavra “discussão”.
– Deixa de ser teimoso, Shaka. – Camus falou, impaciente. Mu concentrou-se para ouvir apenas a conversa dos dois, ignorando todas as outras vozes ao seu redor.
– Não na frente de todo mundo. – O tom do indiano era seco.
– Que mal há nisso? Você não vai ser menos homem... – Pelo canto do olho, Mu viu a mão de Camus ir na direção dos cabelos loiros de Shaka, que projetavam-se por debaixo do elmo de sua armadura.
Milo estava com os olhos arregalados e a boca entreaberta. Mu fez um sinal para que ele fosse mais discreto.
– Já disse que não. – Shaka afastou a mão de Camus. – Por que você é tão insistente?
– Por que você é tão casmurro? – O francês revirou os olhos. – Nem estão olhando pra nós, Shaka. Ninguém vai reparar.
– Camus... – Advertiu Shaka.
– É sua última chance. Você sabe que eu tenho razão, mas está se fazendo de difícil pra não pegar mal.
Shaka riu, segurando o elmo pelas laterais para removê-lo. Vários fios loiros saíram do lugar, deixando o indiano com um ar desleixado. Começou a arrumá-los com uma mão, mas Camus o impediu. Ao seu lado, Mu sentiu Milo prender a respiração, e percebeu que também o fazia. Viram os dedos de Camus afundarem nos cabelos de Shaka, ajeitando-os com delicadeza.
– Faça alguma coisa, Mu! – Falou Milo, entre os dentes.
– O que? – Rebateu o ariano, sentindo a força deixar seu corpo.
– Use a telecinesia! Grite! Finja um infarto! Comece a me bater! – Camus continuava ajeitando os cabelos de Shaka, colocando os fios bagunçados atrás das orelhas, seu rosto cada vez mais próximo do cavaleiro de Virgem. – Mu, eles vão se beijar!
O lemuriano não se sentia no direito de intervir nem atrapalhar. Talvez se as coisas entre eles não estivessem daquele jeito... Mas sua intimidade com Shaka havia se perdido. Deveria respeitar a escolha do amigo. Prezava, acima de tudo, por sua felicidade. Mu tinha princípios. Coisa que, conforme constatou na sequência, Milo não tinha.
O grego avançou na direção dos dois, pisando forte, os punhos cerrados com força, e Mu soube que ele ia fazer uma cena. E tudo que eles não precisavam era de um escândalo. Milo desataria a falar tudo o que sentia para Camus... e, de quebra, ia acabar falando de Mu, e deixando as coisas piores do que estavam.
Sem tempo para pensar, agarrou Milo pelos ombros, puxando-o para trás.
– Você ficou louco? O que está pensando em fazer?
O escorpiano virou o rosto para Áries, fuzilando-o com os olhos azuis.
– Não posso ver isso, Mu. Não pos... – As palavras morreram quando voltou seu rosto se voltou para os dois cavaleiros.
Shaka estava sentado de costas para Camus, que usava os dedos para pentear as melenas douradas para trás, recolhendo-as entre suas mãos, para então separá-las em três grandes mechas. Começou a trançar os fios desde a raiz, puxando com força para que ficasse firme.
– Por Atena, era disso que eles estavam falando! – Admirou-se Milo, soltando um suspiro de alívio.
A mesma sensação de alívio preencheu Mu, mas não relaxou. Os dois não tinham se beijado, mas aquela cena ainda o deixava nauseado. As mãos de Camus deslizavam por aqueles cabelos longos, trançando com uma graciosa lentidão. Mu sabia que ele poderia ter feito aquilo mais rápido. Desejou estar no lugar do aquariano, sentindo aquela maciez áurea contra sua pele. Lembrou-se de uma noite estrelada em que escorregara seus dedos por aquele manto de ouro, arrancando um suspiro de Shaka.
Seu estômago revirou. Será que ele também suspirara com o toque de Camus?
– Mu? – Milo lhe cutucou. – Que cara é essa?
Esperou até que a trança estivesse terminada para responder.
– Você não acha que isso foi... íntimo demais? – Sussurrou, amargurado.
– Prefiro isso do que ver eles se beijando... – Milo deu de ombros. – Vem. Vamos cumprimentá-los.
Seria impossível convencer Milo a não ir, então Mu apenas o acompanhou. Shaka e Camus já haviam se colocado em pé, a trança caindo sobre o ombro direito do indiano e só então o lemuriano reparou que os cabelos flamejantes de Camus também estavam trançados.
– … não vai ficar esvoaçando de um lado para outro durante as lutas. Tenho certeza que vai ajudar. – Dizia o aquariano, seus dedos tocando a própria trança. – Assim que terminarmos, você a desfaz.
– Bom dia, cavaleiros. – Shaka notou a aproximação dos dois primeiro, assustando o francês com seu tom de voz elevado.
Mu viu um sorriso travesso se formar nos lábios do Escorpião.
– Shaka, você se parece mais com uma boneca a cada dia! – Aproximou-se do virginiano, e tocou a trança com a ponta de seus dedos. – O próximo passo vai ser cobrir esse rostinho de moça com uma máscara? – Caçoou, o ciúme pela situação presenciada tirando parte de sua sanidade.
Os olhos de Mu e Camus arregalaram-se; todos já conheciam os comentários maldosos de Milo distribuía, mas ninguém mexia com Shaka de Virgem e saía ileso. O ariano lembrou-se do episódio com Aiolia, e temeu pelo escorpiano. Estava pronto para intervir com sua telecinesia quando o indiano riu.
– Ora, Milo, você é o que menos tem moral para falar essas coisas de mim. – Sua entonação era toda arrogância.
– Eu não tenho essa aparência de menina! – Retrucou. Na realidade, Shaka não tinha aparência de menina. Os cabelos sempre lhe deram um ar celestial, acentuado pela delicadeza de suas feições. Mas isso não lhe conferia o menor ar feminino, pelo contrário. Os anos fizeram seu rosto adquirir traços fortes e másculos, completados com uma postura imponente, capaz de impor respeito em qualquer ser. Mu suspeitava que Milo estava falando daquele jeito apenas para, de alguma forma, desmoralizar o rapaz deslumbrante de quem sentia ciúmes.
– Pelo menos eu não me comporto como uma menina, Escorpião. – As palavras, carregadas de maldade, haviam sido meticulosamente escolhidas para atingir o íntimo de Milo. E o objetivo fora alcançado.
Mu viu a cor deixar a pele bronzeada do grego. A frase parecia ter um significado mais profundo do que uma simples provocação, de uma forma que nem Camus nem Mu compreendiam. Por alguns segundos, os dois loiros se encararam, a cólera dos olhos azuis de um desafiando as indiferentes pálpebras cerradas do outro.
O contato foi quebrado com o elmo sendo recolocado na cabeça de Shaka, forçando sua franja para baixo. Fez um discreto sinal de cabeça para que Camus o acompanhasse para longe dali, deixando o grego e o tibetano para trás. Ficaram ali por longos e intermináveis minutos, observando a luta que se iniciava entre os cavaleiros de Virgem e Aquário.
– Eu o odeio. – Milo falou baixinho quando Shaka desferiu um soco no queixo de Camus, fazendo-o se desequilibrar e cair. Mu ficou em silêncio, sem saber se o novo amigo odiava o antigo por ciúmes, pela discussão ou por causa da surra que estava dando no francês. – Por tudo. – Completou, respondendo as dúvidas mudas do ariano.
• • •
Maio chegou, e com ele, o aniversário de Aldebaran. Era sabido que o taurino gostava de comemorações no dia seu nascimento, e naquele ano não foi diferente; um dia antes, convocou todos os santos de ouro para um jantar em sua casa, sob a ameaça de uma condução coercitiva caso não comparecessem. E vindo do enorme cavaleiro de Touro, uma condução coercitiva não poderia significar algo bom. Um pouco a contragosto, Mu deixou a tranquilidade de sua casa para confraternizar com o único vizinho, com um estado de ânimo totalmente impróprio para celebrações.
Foi o primeiro a chegar. Acabou ajudando o taurino a arrumar pratos e travessas em cima de uma pesada mesa de carvalho improvisada no saguão da segunda casa. Logo mais cavaleiros foram chegando mas, ainda assim, apenas Mu estava sendo prestativo com o aniversariante.
Shaka e Camus foram os últimos a chegar. Juntos, conforme reparou o ariano. Os cabelos ricamente escovados do virginiano destacavam-se no azul marinho do sári que vestia enquanto movia-se de forma hipnótica. Os olhos verdes de Mu se perderam naquela visão celeste, até que a voz lasciva de Milo falou perto demais de sua orelha.
– Limpe a baba antes que todos percebam, Áries.
Mu tinha raiva de como o grego era infeliz em seus comentários. Quem os ouvisse, acharia que Mu era um obcecado perseguidor de Shaka, enquanto era Milo que estava enlouquecendo por dentro cada vez que via Camus. Invejou a forma que o escorpiano escondia o que sentia, e fez uma nota mental de ser mais discreto em público.
Todos sentaram-se envolta da enorme mesa para comer e conversar, mas Mu só tinha olhos para Shaka. Por Atena, o que estava acontecendo com ele? Tentava se concentrar na conversa, mas só o que conseguia era observar cada movimento esguio do loiro, que mal tocara na comida e que parecia encarar a todos com reprovação por trás de suas pálpebras fechadas. A distração do lemuriano impediu-o de precisar em que ponto a conversa começou a tomar rumos promíscuos, incentivada pelos goles das bebidas contrabandeadas para a ocasião.
– A única coisa que se salva aqui – falou Afrodite em sua voz manipuladora – são as opções. Pra onde quer que você olhe... – Passou seus olhos por todos na mesa, arrancando várias reclamações dos presentes.
– Longe de mim, Afrodite! – Retrucou Aiolia.
– Ah, não façam essas caras não. – Riu o sueco cheio de desprezo. – Não admito toda essa falsidade na minha frente. Pelo menos o Milo foi homem o suficiente para assumir, não é? – Deu uma piscadela para o escorpiano, que bufou ao lado de Mu.
Era de conhecimento geral que o cavaleiro de Escorpião saía com rapazes desde muito cedo, conforme o próprio Milo contou para Mu. Seu jeito conquistador rendia muitas companhias. Mesmo com todo o seu encanto secreto por Camus, Milo não abandonara seus casinhos esporádicos, e Mu não aceitava a desculpa do amigo de que saía com outras pessoas apenas para ver se provocava algum ciúme no aquariano. Achava aquilo errado, e não entendia como ele conseguia beijar bocas que não fossem a do seu amado.
– Algumas pessoas gostam de manter suas opções em aberto. – Intrometeu-se Shura de Capricórnio.
– Se o Milo quiser manter alguma coisa em aberto, pode passar na minha casa mais tarde. – Falou Máscara de Morte num tom jocoso, arrancando gargalhadas de todos os presentes. Até Shaka riu, de um modo discreto, mas riu.
Mas Mu reparou que Camus estava sério, e seu semblante se fechara mais do que o normal desde que as piadas com relação a libertinagem do escorpiano haviam começado. Queria avisar Milo daquilo, mas estavam no meio de muita gente.
Para desviar a atenção de si, Milo resolveu mexer com Shaka. Justo com Shaka.
– Vocês falam de mim, mas se esquecem que o mestre da sedução aqui é o Shaka.
Nenhum músculo do rosto do virginiano se moveu com a provocação.
– Como assim? – Indagou Aldebaran.
– Ora, você se esqueceu de onde ele veio? Ouvi dizer que na Índia eles ensinam as crianças a ler com o Kama Sutra...
Algumas risadas tímidas foram ouvidas, mas todos estavam com medo da reação do reservado cavaleiro de Virgem. Do lado oposto da mesa, Shaka apoiou os cotovelos no móvel, cruzou os dedos embaixo do queixo e virou seus olhos fechados para Milo, um sorriso maldoso se formando em seus lábios.
– Os costumes do lugar onde nascemos não definem quem somos. Você é o maior exemplo disso, Milo. Nasceu no berço da civilização ocidental, na terra do conhecimento e da filosofia e é desinteressado, rústico e só fala besteiras. – Suspirou, impaciente. – Envergonha todos os grandes nomes dessa terra.
Os olhares passeavam de Shaka para Milo e de Milo para Shaka, esperando pelo passo seguinte. Ninguém ousou rir ou falar qualquer coisa. O rumo daquela conversa seria definido pela resposta do grego, que não resistiu e provou mais uma vez o outro loiro, deixando o tom de brincadeira de lado e passando a desafiá-lo.
– Você sabe que não me engana com esse papo, Virgem. Sei coisas sobre você que deixariam todos nessa mesa de cabelos em pé. – Mu gelou com aquele comentário, rezando para que aquelas provocações parassem antes que Milo desse com a língua nos dentes.
– Digo o mesmo para você, Escorpião. Quer arriscar e ver quem surpreende mais? – A voz melodiosa e doce que usou não condizia com a acidez de suas palavras.
Milo se levantou, apoiando as duas mãos na mesma, e olhando com raiva para Shaka. Ao seu lado, Mu estava paralisado de medo. Se o escorpiano abrisse a boca, ele também ficaria em maus lençóis. Por sorte, Aldebaran se levantou e passou um enorme braço pelos ombros de Milo, forçando-o a sentar novamente.
– Não quero saber de discussões hoje.
Ninguém quis discutir com o brasileiro. O clima pesado demorou para se dissipar, mesmo diante das incansáveis tentativas de Afrodite e Shura para engatar algum assunto. Por diversas vezes, Mu repassou a discussão de Milo e Shaka em sua cabeça, pensando se alguém teria desconfiado de qualquer coisa. Temeu que sua expressão o tivesse entregado, mas logo concluiu que, se alguém tivesse reparado alguma coisa, o álcool teria falado mais alto e não o teriam poupado das gozações.
A noite toda, apenas algumas palavras tinham saído da boca do cavaleiro de Áries; passou a maior parte do tempo numa luta interna contra sua vontade desesperada de pedir que Shaka falasse consigo. O loiro não olhara na sua direção uma única vez, como se ele não estivesse presente, e Mu tinha vontade de confrontá-lo ali, na frente de todos. Mas sabia que aquilo era errado e que, se o fizesse, só pioraria as coisas com o indiano. Ainda se houvesse uma maneira de falar com ele sem que ninguém percebesse...
E então uma das frases de Milo retumbou em sua cabeça. Você se esqueceu de onde ele veio? Mu tinha esquecido. Ao constatar aquele fato e repreender-se por sua falta de atenção, deixou sua emoção e um copo de uma bebida amarga falarem mais alto, e logo ele se viu interrompendo o papo descontraído de todos para dirigir-se a Shaka naquele idioma que só os dois ali conheciam.
– Por que você está me ignorando desse jeito, Shaka? Você não me dá uma chance de falar com você, mesmo sabendo que eu preciso disso. – Falou mais alto do que pretendia, a mágoa elencada em cada sílaba.
As conversas cessaram imediatamente, e rugas intrigadas se formaram na testa de todos os dourados. Apenas Shaka continuava inabalável sobre o pedestal onde havia se colocado. Um dos cantos de sua boca se curvou num sorriso de desdém.
– Não temos nada para conversar. – Respondeu pausadamente em tibetano. Por mais frias que suas palavras tivessem sido, alegraram o lemuriano; pela segunda vez, aquela língua pouco conhecida fora capaz de quebrar um longo silêncio do indiano.
Estavam frente à frente, mas um abismo se abria entre eles, o perto se tornando mais longe que qualquer distância.
– Nada? – Questionou o ariano, ignorando qualquer vestígio de alegria em seu interior. – O que aconteceu conosco, Shaka? Eu tenho mil coisas para lhe falar, mas você não me dá...
O indiano erguera uma das mãos, num gesto para que Mu parasse de falar. Obedeceu, esperando ansioso por uma explicação.
– Não quero ouvir nada de você, Mu. – Mesmo em tibetano, sua altivez marcava cada palavra. – E você está deixando todos aqui intrigados. Pare de fazer cena.
Os olhos de Mu se esbugalharam quando percebeu que todos estavam olhando-os boquiabertos, inclusive Milo e Camus. Abaixou a cabeça, tímido. Sentiu-se como uma criança tola que levava uma bronca de um adulto. Para onde sua sanidade havia ido naquele momento?
– Eu pergunto. – Falou Máscara da Morte. – Que diabos foi isso?
– Mu tinha algo para me falar. – Shaka disse o óbvio, fazendo vários pares de olhos se revirarem de impaciência.
– Vocês perceberam que estavam falando uma língua estranha, certo? – Perguntou um Aldebaran confuso.
– Mas é claro. – Respondeu o loiro. – É tibetano. – Falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
– E por que vocês precisavam usá-lo? – Foi a vez de um indignado Milo questionar.
– Para que vocês não entendessem, é claro. – Shaka explicava tudo como se fossem crianças a lhe indagar coisas impertinentes. Mu, por sua vez, ainda tinha a cabeça baixa, sem acreditar no que acabara de fazer.
– E o que é que vocês estavam falando? – Continuou Milo.
– Acredito que se Mu quisesse que todos ficassem sabendo, teria falado em grego.
E deu o assunto por encerrado.
Ninguém ousou fazer mais questionamentos sobre o assunto; para Shaka, porque ele não responderia, e para Mu, porque a vergonha pelo momento de impulso estava estampada em sua face. Poucos minutos depois, Shaka anunciou que voltaria a seu templo para mediar antes de dormir, e Camus o acompanhou com a desculpa fajuta de não querer fazer todo o caminho sozinho mais tarde.
O ânimo do ariano – que já não era dos maiores – diminuiu consideravelmente depois da saída dos dois. Estava chateado por tudo que vinha acontecendo entre Shaka e ele, e cada vez mais sentia a tristeza lhe corroer. Como se isso não bastasse, ainda tinha que lidar com a situação incomoda que criara na frente dos companheiros e com a frieza com que fora tratado em razão dela, como se ser ignorado pela pessoa que mais prezava no mundo já não fosse o bastante.
Despediu-se com a voz fraca, e nenhum cavaleiro fez objeções à sua partida. Recebeu alguns olhares de pena, e teve certeza de que, mesmo sem terem entendido uma palavra daquela rápida conversa, os cavaleiros tinham uma vaga ideia de seu teor.
Sentiu uma mão se fechar em seu braço quando descia as escadarias cabisbaixo.
– O que você tem na cabeça, Áries? – Disparou Milo.
Milo acompanhou Mu em seu trajeto. Não conseguiu erguer a cabeça e encarar o olhar acusador do grego.
– Não estava aguentando ser ignorado. Eu... – Sua voz falhou. – Milo, o que eu fiz? – Colocou uma mão no rosto, desesperado.
– Você simplesmente desafiou o cara mais arrogante que eu conheço na frente de todos nós! Sem dúvida, ele detestou isso.
– E agora? – Perguntou baixinho, ainda sem conseguir encarar o amigo.
– Sinceramente? Não faço ideia. Shaka é indecifrável. Só sei que o seu tom foi muito... agressivo, Mu. Não sei o que vocês falaram, mas boa coisa não foi. Parecia uma briga.
Aquela palavra fez o corpo do tibetano se contrair. Briga? Shaka e ele nunca haviam brigado antes. Em todos os anos de convivência, sempre tiveram uma amizade pacífica, sem nenhuma briga ou desentendimento. Era a prova irrefutável de que as coisas entre eles haviam mudado.
– Devo me desculpar?
– Não acho que vá adiantar... Se ele não quer saber das suas desculpas por outras coisas, por que acha que vai se importar com essas?
Tinha razão. E mais, seria impossível pedir desculpas para alguém que se recusava a ouvir.
– Acho que me descontrolei. Pensei... que ele fosse aceitar falar comigo. Você sabe, como da primeira vez.
– Ele não estava com o coração cheio de mágoa e com o orgulho ferido da primeira vez. – Disse Milo no exato momento em que se alcançaram na porta dos fundos da primeira casa.
Não aguentando mais ter que pensar em seu ato de desespero, mudou o rumo da conversa, se forçando a colocar um sorriso nos lábios para despistar Milo de sua tristeza.
– Você reparou que só Camus não riu das piadas sobre você? – Milo assentiu, com um brilho doentio no olhar. – Não sei você, mas acho que isso é ciúme, viu.
E Milo desatou a falar sobre Camus, ignorando completamente o espetáculo protagonizado pelo ariano. Num geral, Mu já estava de saco cheio de tanto ouvir falar em Camus de Aquário e em como ele era maravilhoso – afinal, era ele quem estava roubando seu lugar –, mas naquela noite, cada frase soava como música para seus ouvidos. Qualquer coisa capaz de desvirtuar seu pensamento de Shaka e sua indiferença era bem vinda.
Notas finais
Ficou MUITO maior do que eu queria, mas não deu para dividir. Prometo que foi o último desse tamanho.
Esclarecimento:
01. O livro que Camus estava lendo é "A República", de Platão.
Espero que tenham gostado. ^^ Até o próximo! :*
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