Castelo de Areia

7 Mudança de estações


Notas iniciais
Antes de mais nada, MUITO obrigada à Hino Rei Chan e TiaCaina pelas recomendações lindas! Obrigada também aos que comentaram, aos que favoritaram, e aos leitores fantasmas! Vocês são demais, sério.
Esse capítulo fecha um arco da história, e ficou maior do que eu imaginava. Vamos lá?

Mudança de estações

Os cabelos loiros de Shaka espalhavam-se pelo peito e pela barriga de Mu, muito lisos e com um agradável cheiro de sândalo, enquanto a cabeça repousava sobre suas costelas. O ariano quis estender uma das mãos, que estavam embaixo de sua cabeça lhe servindo de apoio, e tocá-los, mas deteve-se. Fazia um certo tempo que tal vontade o assolava com frequência, mas restringia o gesto às situações que pediam um afago, ou quando implicava com seu comprimento.

Sentia-se fascinado ao observar os cabelos do virginiano, e sabia que suas provocações provinham da admiração e da pontinha de inveja que sentia daqueles fios amarelos. Sua mente pôs-se a trabalhar depressa, pensando numa desculpa para senti-los entre seus dedos. Shaka não era um rapaz muito caloroso, sendo raro provocar algum contato físico. Nunca, porém, negava um aperto de mão, um toque em seu rosto ou um afago em seus cabelos. Era bastante receptivo, mas isso não fazia Mu ter a coragem suficiente para tocar seus cabelos como desejava. De um modo inexplicável, os considerava imaculados.

Hipnotizado, ergueu levemente a cabeça, apoiando-se em uma das mãos.

– O que foi, Mu? – Shaka reparou em sua repentina movimentação, virando seu rosto para o de Mu, que tinha a insinuação de um sorriso nos lábios rosados.

O tibetano olhou para baixo, ainda encantado com toda aquela cabeleira que se espalhava por seu abdômen. Desejou que não fosse noite e que o sol brilhasse sobre eles, sua luz fazendo aquelas madeixas brilharem mais que o próprio. Mas a lua e as estrelas já eram suficientes. Encheu o peito de ar, encorajando-se, e levou a mão livre até a testa de Shaka, afastando a franja farta e deixando tilak vermelho à mostra. Tão macio, pensou.

– Estou pensando... em deixar meus cabelos crescerem também. – Conforme as palavras eram proferidas, seus dedos percorreram todo o comprimento daquela cortina dourada, da raiz até as pontas. Sentiu o amigo estremecer com o toque, segurando a respiração, e o coração do ariano bateu um tantinho mais rápido. Quando os últimos centímetros de cabelo escorreram por seus dedos, teve vontade de repetir o movimento, mas sabia que seria inadequado.

– Finalmente resolveu me ouvir? Qual o motivo dessa repentina mudança de opinião? – O loiro tinha um sorriso divertido quando virou seu rosto para o céu, voltando a encarar as estrelas.

Mu permitiu-se ficar naquela posição por mais alguns instantes, observando a luz da lua incidir nos fios cintilantes. Por mais que deixasse seus cabelos crescerem, nunca seriam como os de Shaka, cujo brilho dourado era o mesmo das armaduras de ouro.

– Ficou bom em você, então quero te imitar. – O que seria impossível, emendou mentalmente.

– Acho que lhe cairá muito bem. Quem me dera ter cabelos como os seus... – Comentou, passando os dedos entrelaçados com o rosário pelo próprio couro cabeludo.

Mu achou graça daquele comentário vir da pessoa com os cabelos mais deslumbrantes que ele já vira. Pessoas de todos os lugares de mundo viviam ali no Santuário, mas ninguém conseguia ter um cabelo que se comparasse com o de Shaka. As madeixas violetas de Mu chamavam bastante atenção também, mas mais pela excentricidade do que pela beleza. Nem em mil anos cabelos lilases resplandeceriam como o sol.

Estavam deitados na clareira em que Shaka recebera a armadura de Virgem desde o pôr-do-sol. Eram raras aquelas ocasiões, pois convencer o virginiano a mudar qualquer coisa em seus hábitos era mais difícil do que atravessar das Doze Casas na marra. Tinha uma rotina rigorosa, com hora para meditar, para comer, para realizar projeções astrais, para se banhar, para tomar chá e até para ver Mu – atualmente, entre as oito e onze da manhã.

Àquela altura, o céu já estava muito estrelado, e a lua crescente brilhava alta, um pequeno sorriso rasgado no firmamento. Mu voltou a deitar a cabeça no chão, a grama alta fazendo cócegas atrás de suas orelhas. A cabeça de Shaka estava lhe causando certo desconforto no tórax, mas não reclamou, pois fora difícil convencê-lo a deitar-se daquele jeito.

Depois de mais um tempo em silêncio, uma dúvida antiga voltou à mente de Mu.

– Shaka?

– Sim?

– Posso... perguntar uma coisa? – Tinha um leve tom exitante na voz.

– Sabe que pode me perguntar qualquer coisa.

A voz de Shaka soou tão gentil que, por um momento, Mu tentou inventar qualquer outra pergunta, com medo que a que desejava fazer acabasse com toda aquela amabilidade. Seu cérebro não colaborou, e seu desespero por falar algo fez com que perdesse o controle sobre o que saía de seus lábios.

– Por que você me ignorou por todo aquele tempo quando nos conhecemos?

Instintivamente, voltou a erguer a cabeça e se apoiar em um dos braços. Sabia que Shaka perdera a confiança em alguém antes de conhecê-lo, mas nunca achou que aquilo fosse motivo para ignorar completamente tudo e todos ao seu redor. Procurou por alguma sinal de descontentamento no semblante de Shaka, mas este expressava apenas a calma corriqueira. Sentiu-se um pouco aliviado, mas seu coração pareceu parar de bater por um instante quando os lábios do loiro formaram uma linha fina antes de proferir uma resposta.

– Por dois motivos, basicamente. – Era impressão ou Shaka parecia desconfortável? Uma voz em sua cabeça repreendeu o ariano pela ousadia. – Em primeiro lugar, eu não falava o grego muito bem, apesar de entender. Por isso, as nossas primeiras conversas foram em tibetano. Fiquei muito contente quando o vi falando naquela língua, já que seu grego era impecável, e eu imaginei que seu contato com sua língua nativa tinha sido mínimo.

– Mas você podia pelo menos ter demonstrado alguma coisa! Ficava inexpressivo durante todo o tempo que eu passava ao seu lado... – Uma certa mágoa era perceptível na voz de Mu, que encarava o rosto do indiano sem discrição. Já eram amigos há anos, e se não pudesse falar do que sentia com Shaka, não sabia com quem o faria.

– Aí entra outro motivo. Você está ciente de tudo o que aconteceu envolvendo Aiolos de Sagitário?

Mu assentiu, arregalando os olhos esmeraldinos.

– Quando fui trazido até aqui pelo Grande Mestre, não havia um cavaleiro de Virgem para me treinar. Então, Aiolos foi meu mestre. Treinou Aiolia e a mim durante algum tempo, apesar de nossos treinamentos terem sido diferentes, pois assim como os seus, meus poderes estão na mente, e não no corpo. Aiolos era um bom instrutor, em todos os aspectos. Um cavaleiro justo, um amigo legal, um guerreiro poderoso. Era impossível não gostar dele, Mu. Mas então, ele tentou matar Atena, e fugiu com a armadura sagrada. Traiu o Grande Mestre, traiu a Deusa, traiu o Santuário. – Fez uma longa pausa. – Traiu a mim. – Concluiu, cheio de rancor.

Quando o virginiano parou de falar, Mu percebeu que tinha prendido a respiração o tempo todo.

– Eu... sinto muito. – Ofegou, soltando o ar de seus pulmões. – Não fazia ideia.

– Sei disso, então não o culpo por ter se chateado com meu silêncio. – Voltou a falar em seu habitual tom impassível. – Achei que nunca mais fosse confiar em ninguém. Mas você apareceu... e tive que rever os meus conceitos.

Abriu um largo sorriso, virando seu rosto na direção de Mu, que sorriu de volta.

Jamais imaginou que o silêncio de Shaka tivesse qualquer relação com a traição de Aiolos, e se arrependeu por todas as vezes que discutiu sobre o assunto com o amigo. Tentou buscar na memória algum indício de que aquele assunto o afetava, mas o indiano era muito bom em não deixar transparecer o que sentia.

Por mais que quisesse, era impossível se chatear com Shaka. Aqueles anos tinham feito com que se acostumasse com ele e todas as manias inerentes à sua personalidade, e tinha certeza que nunca conseguiria ficar bravo com o amigo. Não conseguia imaginar algo que afetasse o laço de amizade que existia entre eles.

Voltou a deitar, sentindo-se um pouco mais leve. As estrelas brilhavam cada vez mais fortes, e ele pode identificar várias constelações a olho nu. Achou que seus olhos o enganavam, mas Spica, a principal estrela de Virgo, parecia a mais ofuscante naquela noite.

Sentiu o peso sair de suas costelas, um misto de alívio e decepção invadindo-o. Virou os olhos verdes para Shaka, que assumiu a posição de lótus e não tinha mais o sorriso no rosto. Uma ruga havia se formado em sua testa, e os lábios estavam crispados. Mu acompanhou o gesto do amigo, pronto para pedir desculpas pela pergunta que acabara de fazer.

– Shaka, eu...

O indiano ergueu uma das mãos, um sinal para que Mu parasse de falar.

– Eu aceitei vir aqui hoje por uma razão especial, Mu. – Os olhos do ariano se desviaram para as mãos de Shaka, que desenrolavam distraidamente uma parte do rosário, apenas para voltar a enrolá-la. Parecia agitado, tal como depois da projeção astral que levou a armadura a reconhecê-lo. – Tem algo que eu quero lhe contar. Eu deveria ter contato há algum tempo, mas só agora acredito que você esteja pronto para ouvir.

Como de costume, Shaka parou de falar e ficou encarando o semblante de Mu com suas pálpebras celadas. Normalmente, o ariano o incitava a continuar falando, mas ficou tão perdido num mar de pensamentos que se esqueceu de fazê-lo. Concluiu que deveria ser algo ruim, do contrário, Shaka já teria contado. Afinal, quem precisava estar pronto para ouvir uma coisa boa?

Virgem umedeceu os lábios, ainda remexendo no rosário, desviando a atenção do lemuriano. Se continuasse com aqueles movimentos, reparou, as contas ia se desprender. Sua voz assumiu o tom metódico que sempre era usada em suas explicações.

– Você deve saber que “buda” – fez o sinal de aspas com os dedos – não se refere exclusivamente a Siddhartha Gautaman, o fundador do budismo. É um termo usado para se referir as pessoas que despertam para a verdadeira natureza e que atingem o nirvana, um estado de paz onde não há ignorância, inveja, ódio, orgulho ou nenhum outro sentimento ruim. É o fim do ciclo samsárico, o estado máximo de liberação que alguém pode atingir. É isso que eu busco, que todos no budismo buscam. É a razão da minha meditação: conhecer as Quatro Nobre Verdades, adquirir a perfeita sabedoria, escapar da roda do karma e interromper o processo de contínuos renascimentos.

A expressão de receio de Mu deu lugar a uma de confusão. Por que ele exitara em lhe ensinar como funcionava sua religião? Mu esperava algo realmente sério, não uma lição religiosa. Suspirou, aliviado.

– Estou muito longe de atingir isso. – Prosseguiu. – Muito. Eu sei, eu sinto. Mas... Deuses, como eu digo isso sem parecer louco? – O loiro jogou a cabeça para trás e deixou o ar lhe escapar com força pelos lábios abertos. Mu tentava entender onde ele queria chegar, mas nada parecia fazer sentido. – De alguma forma que ainda não compreendo, sou a reencarnação de Buda. Do Buda, e não de um Buda. – Disparou de uma só vez, sem mais delongas.

Dito isso, mordeu o lábio inferior com força, aguardando alguma reação de Mu, que ainda processava suas palavras vagarosamente.

– Certo... – Respirou fundo, procurando algo para falar, pois não conseguia olhar para o rosto ansioso por uma resposta de Shaka e ficar calado. – E como é que você sabe disso?

– Você fez a única pergunta que eu gostaria que não fizesse. – Mordeu o lábio com mais força. – Não me ache maluco, mas eu posso... ouvi-lo. Ou ouvir-me, como preferir. Durante minhas meditações. É ele que me guia, que me ensina, que me mostra os caminhos. Uma espécie de mestre.

Os pontinhos de Mu ficaram mais próximos quando uma ruga se formou em sua testa.

– E... desde quando isso... acontece? – Mediu suas palavras, exitante.

– Desde sempre. Não sei dizer exatamente quando começou, porque não me lembro. Isso sempre esteve comigo. Aprendi muito com esses ensinamentos.

– E esse contato acontece sempre? – Aos poucos, Mu buscava compreender, apesar de não conseguir imaginar como aquilo que o amigo estava falando pudesse ser possível. Se fosse qualquer outro a lhe relatar algo do gênero, ele teria imaginado ser piada. Mas Shaka de Virgem nunca fazia piadas.

– Não, infelizmente. Somente em estágios profundos da minha meditação. Mas quando acontece, é algo bem intenso, e muito revelador. Por favor, não ache que sou louco. – Riu, nervoso.

– Claro que não, Shaka! Eu seria estúpido se te achasse louco só porque não consigo compreender isso. Eu acredito em você. – Viu um sorriso iluminado se formar no rosto do virginiano e concluiu que, mesmo que o achasse louco, teria dito as mesmas palavras, apenas para ver aquele sorriso. – Mais do que em qualquer outra pessoa. – Acrescentou, segurando as mãos do indiano entre as suas.

Os ombros de Shaka relaxaram, e ele deitou na relva, largando uma das mãos do tibetano e entrelaçando seus dedos nos da outra. Mu percebeu que ele já não estava mais tão agitado, e que fora sua vez de tirar um peso das costas.

– Apenas o Grande Mestre sabe disso.

Eu não podia esperar menos dele, sendo quem é, falara Shion naquela mesma clareira, anos atrás.

– E agora, você. Eu queria que soubesse primeiro que qualquer outro. Mas isso é tudo, por enquanto. Espero que você entenda que há coisas que ainda não estão na hora de serem reveladas.

O cavaleiro de Áries assentiu, um sentimento bom de ser especial invadindo-lhe, e deitou-se ao lado de Shaka, as mãos dadas e os braços se encostando suavemente. Ouviu-o respirando com delicadeza ao seu lado, o peito subindo e descendo vagarosamente enquanto seus olhos fechados buscavam o mistério das estrelas. Parecia aliviado. Mu imaginou quantas vezes ele teria querido lhe contar aquilo mas exitara; deveria ser difícil guardar algo assim.

Aquela revelação explicava muitas coisas, de uma certa maneira. Tentou fazer uma lista mental de todas as coisas em Shaka que o surpreendiam, tanto por sua idade quanto por não ter um mestre que o instruísse. Mantinha os olhos fechados desde muito cedo para aumentar seu poder. Conseguia enxergar com o cosmo. Ocultava um imenso poder de luta com aparente facilidade. Realizava projeções astrais no mais alto nível durante suas meditações. Isso sem falar em todas as suas reflexões profundas, que ele tratava com grande naturalidade.

Mas Mu ainda sentia que sabia tão pouco sobre o amigo... Contara-lhe tudo a seu respeito assim que se conheceram, tudo o que sua memória conseguira lembrar. Porém, Virgem apenas ouvia, e pouco falava de si. E quando o fazia, era sempre de forma misteriosa, sempre com alguma coisa que não era dita no momento, que ficava para depois. O ariano o conhecia melhor que ninguém e, em alguns momentos, tinham a sensação de que era totais estranhos. Seria paciente. Era a única coisa a se fazer quando se tratava de Shaka de Virgem.

• • •

A faixa vermelha que Mu trazia amarrada em sua cintura ondulava com o vento que soprava forte contra seu corpo à medida que subia correndo os degraus das Doze Casas. Há pouco um guarda aparecera na casa de Áries com um pedido do Grande Mestre para que o discípulo fosse ao seu encontro no décimo terceiro templo. Raras eram as vezes que Shion o convocava, e uma ansiedade em saber do que se tratava se apoderou de Mu de tal forma que largou a armadura de Perseu que consertava para atender ao chamado do mestre.

Enquanto subia, tratou de enfaixar o pulso no lugar onde acabara de sangrar para dar nova vida à armadura, sem parar de correr nem por um segundo. A primeira casa onde encontrou um guardião foi na de Virgem; todas as outras estavam vazias, seus ocupantes provavelmente treinando na arena – com exceção do desaparecido cavaleiro de Gêmeos.

Sem sair da posição de lótus no estrado, o cosmo de Shaka permitiu que Mu passasse. Não ousava interromper a meditação do amigo, pois sabia o quão caro lhe era tal treinamento. Além do mais, a chance de seu espírito estar vagando por algum lugar distante era grande. Porém, o ariano se deteve por um momento diante da figura imaculada à sua frente. Se não o conhecesse e alguém lhe dissesse que se tratava de um anjo, Mu teria acreditado.

Paz e tranquilidade exalavam de seu semblante puro, e um simples vislumbre de seu ser era capaz de aquecer o coração do mais frio dos homens. Os cabelos dourados emolduravam a pele de alabastro com harmonia, as pequenas e delicadas mãos entrelaçavam-se sob seu colo, apenas os polegares se tocando de modo a formar um triângulo com os demais dedos, o roxo das contas do rosário que ele nunca largava circundando ambos os antebraços.

Enquanto passava ao seu lado e dirigia-se para a saída, Mu chegou a conclusão de que se ele tivesse crescido como os demais garotos, sua imagem não seria tão celestial. Os traços da adolescência ainda não era visíveis em seu rosto, e o ariano conclui que, no final das contas, aquilo era uma benção. Seria uma pena quando aquele ar pueril o abandonasse. Enquanto subia correndo para a casa de Libra, fez uma nota mental para nunca mais provocar o amigo por conta da procrastinação de seu crescimento.

Encontrou Milo ouvindo os ensinamentos de seu mestre na casa de Escorpião, e Afrodite cuidando do jardim de rosas venenosas que separava sua casa da sala do Grande Mestre, mas apenas os cumprimentou, e nenhum fez menção de puxar conversa quando ele disse que estava ali para atender uma convocação daquele que comandava o Santuário.

Shion o aguardava no alto de seu trono, a máscara repousando sobre o colo. Mu perdeu-se na imensidão violeta dos olhos de seu mestre, buscando um pouco do conforto de seus dias de treinamento em Jamiel. Os cabelos brancos caiam sobre a pesada túnica, tão grandes quanto os de Shaka, porém ondulados. Sua expressão era plácida e régia.

– Mestre. – O atual cavaleiro de Áries ajoelhou-se diante do antigo.

– Levante-se, Mu. – O rapaz prontamente obedeceu. – Chamei-o aqui pois você tem uma tarefa a cumprir. Encare-a como parte de seu treinamento. Não espero que entenda sua razão nesse momento, apenas peço que a aceite de bom grado, pois assim será mais fácil superá-la. Tudo o que eu quero é te proteger, portanto não sinta raiva de mim por lhe dar tal ordem.

– E qual seria a vossa ordem, Mestre? – Abaixou a cabeça, sem mais conseguir olhar nos olhos de Shion, num gesto típico de submissão.

– Você partirá para Jamiel com o amanhecer. Levará apenas a armadura de Áries consigo. Não será uma estada longa como a de seu treinamento. É algo temporário, uma forma de mantê-lo seguro até que eu encontre certas... respostas. Mas você não terá a minha companhia desta vez. – Fez uma pausa, que pareceu durar uma eternidade. – Você mesmo será sua única companhia durante este tempo. – Emendou, pro caso do pupilo não ter compreendido.

As palavras doeram como um soco no estômago. Mu sentiu o ar lhe faltar nos pulmões, o gosto da bílis subindo até sua garganta, e seus olhos, outrora semicerrados, estavam arregalados de espanto. Sentiu como se o dom da fala o tivesse abandonado. Ele queria contestar, ponderar e argumentar, mas ele não podia contrariar seu mestre. Desobedecê-lo faria dele um rebelde, um traidor.

– Terá que aprender a enfrentar a solidão, Mu. Sei que estou pedindo demais, mas você precisa ser forte. Os cavaleiros não se fazem apenas de força física e controle do cosmo, como você bem sabe.

O Grande Mestre levantou-se de seu trono, desceu os degraus que o separavam do jovem de cabelos lilases e abaixou-se ao seu lado. Mu encarava o joelho dobrado em reverência, desejando que aquilo fosse um sonho e que não tardasse a acordar. Mas não acordou.

Shion usou uma das mãos para obrigar o tibetano a lhe encarar.

– Você é o filho que eu jamais tive, Mu. – Falou quando a experiência violeta encontrou a inocência verde. – Quero mantê-lo a salvo.

O lemuriano mais jovem conseguiu organizar suas palavras numa frase sussurrada.

– Mas mestre, o Santuário é...

– Tenho minhas dúvidas quanto à segurança do Santuário. – Interrompeu o pupilo, já sabendo o que falaria. – E é por isso que preciso que você se afaste.

As palavras proferidas por Shion pareciam cada vez mais distantes. A mente de Mu passou a divagar por entre as paredes cinzas do pagode de Jamiel, pelos seus livros muito velhos, pelo pequeno quarto onde dormira por anos, pela janela do andar mais alto, onde costumava se debruçar para observar as pessoas do vilarejo distante andando de um lado para o outro. Não era um lugar com muito o que fazer, e seria insuportável sem a companhia de seu mestre.

– Acho que será a hora de você usar toda a paciência que aprendeu a ter nesses anos de convivência com Shaka.

A menção do nome do virginiano fez uma sensação de vertigem se apoderar de Mu. Não poderia abandoná-lo, não poderia passar os dias sem sua companhia.

– Será que Shaka poderia... – Começou, mas o mestre o interrompeu, antevendo seus pensamentos novamente.

– Não, Mu. Estou lhe enviando à Jamiel como seu mentor, não como Grande Mestre. Não abusarei de minha autoridade para fazer isso. – Seu tom deixava claro que seria irredutível. – Mu, eu entendo a sua dor em deixá-lo para trás. – Um riso triste escapou de seus lábios enrugados pelo tempo. – Acho que viver longe dos que lhe são caros é o destino dos cavaleiros de Áries.

Mu franziu o cenho, os pontinhos em sua testa se unindo.

– Como assim, mestre?

Shion suspirou, e Mu viu, pela primeira vez em todos aqueles anos, uma tristeza profunda estampada no semblante inabalável do Grande Mestre do Santuário.

– Os deveres para com Atena afastaram de mim a pessoa que mais queria ao meu lado.

A boca do pequeno lemuriano se abriu de espanto, e ele a cobriu com uma das mãos.

– Essa pessoa... ela... – Não conseguiu completar a frase, as palavras saindo abafadas por entre seus dedos.

– Não, Mu, ele não morreu. – Mais uma vez, Shion sabia o que o discípulo queria dizer. –Mas estamos separados há mais de duzentos anos. Garanto que você não ficará tanto tempo assim longe de Shaka. – Acrescentou, diante da cara de espanto do pupilo.

Mu quis perguntar mais sobre essa tal pessoa, mas julgou indelicado mexer na ferida de seu mestre. Se o que ele dizia fosse verdade – e em se tratando de Shion de Áries, sabia que era verdade –, o tibetano não conseguia ao menos imaginar a dimensão daquela solidão. Duzentos anos longe de Shaka seriam piores que a morte, concluiu. Balançou a cabeça e abaixou o olhar, numa busca de esquecer o pesar do Grande Mestre.

– Quando... saberei a hora de voltar? – Mudou o assunto, medindo cada palavra, o medo de desagradar o mestre dominando-o. Não podia demonstrar que estava descontente com sua ordem.

– Eu o informarei. – Antes de se colocar em pé, o lemuriano mais velho abraçou o mais novo com carinho. – Cuide-se, Mu de Áries.

Depois de desfeito o abraço, Mu fez uma última reverência dobrando o tronco e saiu da sala sem encarar o olhar púrpura de Shion, evitando que o mestre visse seus olhos marejados. Não conseguiu dar mais que dez passos sem que uma lágrima involuntária deslizasse por sua bochecha, indo parar salgada no canto de sua boca.

E depois que a primeira escapou, foi impossível controlar as seguintes.

Desceu as escadas correndo, não mais por ansiedade, mas por angústia. Alguns soluços escaparam de seus lábios ofegantes, chamando atenção daqueles que encontrou pelo caminho. Não soube dizer quem eram, pois estava alheio a tudo o acontecia ao seu redor. Ouviu seu nome ser chamado uma vez ou outra, mas, em sua cabeça, era a solidão de Jamiel atraindo-o para sua armadilha. Só parou de correr quando entrou na sexta casa.

O vislumbre da figura serena de Shaka fez as lágrimas rolarem com mais vontade, por mais que lutasse contra elas. Correu para o amigo, mas a barreira cósmica projetada para proteger seu corpo fez com que Mu fosse jogado com força para trás, batendo as costas numa das pilastras que sustentavam o teto do templo.

Chamou-o pelo nome, mesmo sabendo ser inútil. O virginiano estava longe dali, concentrado na busca de suas verdades, viajando por terras longínquas, alheio a tudo que acontecia ao redor de seu corpo. Sua voz foi ficando cada vez fraca, até se transformar num murmúrio. Permaneceu no chão, sem forças para levantar, e entre gemidos e soluços, chamou pelo amigo até que as lágrimas pareceram secar. Fechou os olhos, e tentou concentrar seu cosmo vacilante; quando finalmente o conseguiu, chamou por Shaka mentalmente, num apelo mudo, seu cosmo buscando o dele, seu coração clamando pelo dele.

Nada. As lágrimas voltaram a escorrer das pálpebras fechadas com força. Apertou os braços em torno de seu corpo, numa vã busca de conforto.

– Mu? – Chamou uma voz suave. – Mu, o que aconteceu?

Seus olhos se abriram lentamente, o vermelho tingindo a parte branca que circundava as íris verdes. O cavaleiro de Virgem estava em pé a sua frente, o rosto tenso de preocupação. Era apenas um borrão para Mu, as lágrimas encobrindo sua visão como uma névoa. Viu o indiano se ajoelhar em sua frente, e sentiu duas mãos quentes emoldurarem seu rosto, mãos que suas lágrimas logo se puderam a umedecer.

Delicadamente, Shaka ergueu o rosto de Mu, de uma forma que seus olhares teriam se cruzado, se não fosse o pequeno detalhe de que o loiro não abria os olhos. Ainda assim, Mu sentia que ele o fitava, aquela estranha sensação que tinha toda vez que encarava as pálpebras fechadas do amigo.

– Mu, o que houve? Por que está chorando? – Limpou com os polegares as lágrimas que não paravam de cair.

O gesto carinhoso fez Mu soluçar mais alto. Não podia deixar Shaka, não podia passar os dias longe dele. O que seu mestre lhe pedira era doloroso demais. Odiou Jamiel, odiou Shion, odiou Atena, odiou o Santuário. Jogou os braços envolta do pescoço do amigo, e afundou seu rosto naquele mar dourado que lhe caía sobre os ombros.

Inspirou fundo, sentindo o cheiro de sândalo lhe preencher até a alma. Os braços de Shaka lhe envolveram a cintura num abraço caloroso, puxando-o para junto de si. O indiano sentou-se no chão e puxou Mu para seu colo, fazendo-o deitar a cabeça na curva de seu pescoço. Embalou-o em seus braços, murmurando palavras de conforto, uma de suas mãos passeando pelos curtos cabelos lilases do lemuriano enquanto a outra o segurava contra seu corpo.

Aos poucos, Mu deixou-se envolver pelo calor de Shaka, embriagado com sensação provocada pelos arrepios que percorriam seu corpo conforme aqueles dedos longos escorregavam por seu couro cabeludo. Buscou concentrar-se apenas no que sentia naquele momento, prometendo para si mesmo que jamais esqueceria aquele contato. As lágrimas cessaram, e um sorriso bobo formou-se em sua face. Por alguns segundos, esqueceu de tudo que tinha acontecido.

Apenas por alguns segundos.

– Quer conversar sobre o que aconteceu, Mu? – A voz terna de Shaka trouxe um mar de tristezas. Se o virginiano soubesse o motivo de seu pranto... Negou com a cabeça. Não queria falar sobre aquilo, não naquele instante. Imaginou que Virgem se abalaria tanto quanto ele com a notícia, e não queria entristecê-lo. Não podia entristecê-lo.

Longos minutos se passaram sem que saíssem daquela posição. Shaka continuou com o afago sútil, arrancando leves suspiros do ariano. A dor imensa que se instalara em seu coração teimava em incomodar, e vez ou outra fazia com que mais lágrimas se formassem em seus olhos. Seu peito era tomado por uma saudade doída, que parecia aumentar e deixar seu coração prestes a explodir. Shaka estava tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante... Aquele abraço era uma cruel forma de se despedir, de dizer adeus. Uma briga, isso sim tornaria as coisas mais fáceis...

– Mu... – Shaka o chamou, trazendo a mão que o acariciava até sua bochecha, as contas roxas de seu rosário resvalando na pele alva de Mu quando o obrigou a lhe encarar – O que quer te tenha acontecido, vai se resolver. E se não se resolver, eu vou estar sempre aqui por você. – Afastou as mechas do rebelde cabelo lilás que caiam sobre aqueles profundos olhos verdes, um sorriso sincero se formando em seu semblante preocupado.

Os lábios do loiro tocaram a testa de Mu num beijo casto, exatamente no lugar entre os dois pontinhos púrpura que substituíam suas sobrancelhas. O lemuriano sentiu a pele queimar no lugar em que os lábios encostaram, e riu, sendo invadido por uma vontade de retribuir o gesto carinhoso.

Sentou-se ereto, suas mãos buscando pelas laterais do rosto de Shaka, que arqueou uma sobrancelha, surpreso. O fato de ser mais alto fazia com que, naquela posição, os lábios de Mu ficassem na altura da testa de Shaka. Procurou pelo tilak vermelho que adornava a testa do indiano, mas a franja comprida o encobria, e acabou depositando um beijo no lugar onde imaginou que ele estaria, seus lábios roçando em fios de cabelo macios como a mais pura das sedas. O sorriso de Shaka aumentou, fazendo o coração do ariano bater mais rápido.

Deslizou as mãos até a nuca do indiano em busca de mais contato com os cabelos que tanto prezava. Enroscou seus dedos nos fios longos, da maneira que desejava há tempos mas que nunca tinha coragem de fazer. Não poderia perder aquela chance, pois não sabia quanto tempo se passaria até que tivesse outra. Seus olhos buscaram memorizar cada canto do rosto de Shaka, cada traço, cada detalhe, cada linha. Teve certeza que, caso nunca mais o visse, jamais esqueceria aquelas feições.

– Shaka... – Murmurou, a voz ainda embargada pelo choro. – Abra os olhos. – Pediu com meiguice. – Por favor. – Suplicou, desejando vê-los uma única vez mais do que qualquer coisa no mundo.

Os lábios de Shaka de crisparam, e ele pareceu magoado.

– Por favor... Só por um segundo. – Afastou a franja loira do virginiano, que ocultava parte de suas pálpebras, e beijou cada uma delas, sentindo um leve ondular sob seus lábios. – Por favor... – Rogou mais uma vez, seu hálito quente em contato com a pele descoberta da testa de Shaka.

– Sinto muito. – Desculpou-se Shaka, acariciando uma das maçãs do rosto de Mu com o o dorso dos dedos. Triste, entendeu que aquilo independia da vontade do indiano.

Usou a mão que continuava mergulhada nos cabelos de Shaka para aproximar o rosto do cavaleiro do seu. Encostou seus lábios novamente na testa do loiro, agora sentindo sua pele, não seus cabelos. Estava entorpecido pelo perfume agradável que ele exalava, seus sentidos e sua razão o abandonando à medida que os segundos se arrastavam. Sem pensar, sentiu seus lábios deslizando pelo comprimento do nariz arrebitado de Shaka, para acabar por desferir um beijo estalado bem na ponta deste, provocando uma risada contida no loirinho.

Quis sentir aquele riso sob seus lábios. Ergueu-lhe o queixo com delicadeza, fazendo com que os narizes se encostassem. Ignorou a comichão estranha propagando-se a partir de seu ventre, fechou os olhos, e permitiu que sua boca se acomodasse sobre a do cavaleiro de Virgem. O riso de Shaka se desmanchou embaixo dos lábios de Mu, e seu corpo ficou rígido. Durante longos segundos, nenhum dos dois se moveu, e suas respirações ficaram presas na metade do caminho.

Mu nunca tinha beijado ninguém antes. Não sabia o que deveria fazer a seguir; seu impulso foi se afastar, mas sentiu o corpo de Shaka relaxar ao mesmo tempo que abria delicadamente os lábios, permitindo que deslizassem sobre os do ariano. Aquele gesto trouxe consigo um gosto viciante de canela, e Mu foi impelido a provar mais daquele sabor.

Repetiu o gesto do indiano, afundando as duas mãos naquele emaranhado de fios loiros. Inclinou sua cabeça para o lado, permitindo-se sentir a maciez daqueles lábios quentes com maior profundidade. Shaka segurou com força os cabelos violáceos, puxando o rosto de Mu para junto do seu, ávido por mais contato, ditando seu próprio ritmo ao ato. A ansiedade fez com que os dentes dos garotos se chocassem, mas o atrito não os fez parar. Continuaram a experimentar os lábios um do outro com uma inexperiente suavidade, explorando uma imensidão de novos sentimentos e sensações.

O beijo seguiu tímido e contido, carregado com a inocência dos que desconhecem a luxúria. Mu sentiu seu coração disparar, e sua mente nublada estava impedindo que tivesse consciência de suas ações. Desejou poder repetir aquele beijo todos os dias, e então se deu conta de que aquilo seria impossível. Procurou a boca de Shaka uma última vez antes de desfazer o contato dos lábios. Sua testa tocou a do virginiano, as respirações ofegantes se misturando. Semicerrou os olhos, notando que os lábios finos do amigo estavam levemente avermelhados, se curvando para cima num gracioso sorriso de satisfação. Desejou prová-los de novo.

Mas não podia.

Iriam se separar, e aquilo só fazia fortalecer os laços que já tinham, além de criar outros tantos. Teve consciência que seus atos só tornariam as coisas mais difíceis. Vasculhou seu cérebro atrás de um motivo que justificasse sua atitude, mas não conseguia pensar.

– Mu... – O indicador de Shaka contornou seu lábio inferior, num apelo para que continuassem com aquela carícia, e por pouco Áries não sucumbiu.

Mas seus pensamentos clareavam cada vez mais, permitindo que o lemuriano percebesse o quão inapropriado era aquilo em que tinham acabado de fazer. Shaka não sabia, mas ele sabia e precisava parar antes que tudo piorasse. Abriu a boca duas vezes, numa tentativa muda de contar para Shaka o motivo de seu choro, mas não conseguiu. As palavras ficaram presas em suas garganta. Falar das ordens de Shion em voz alta faria com que se tornassem reais, e Mu não queria encarar a realidade.

Jamais conseguiria. Por mais que quisesse, por mais que tentasse, por mais que precisasse, não seria capaz de dizer a terrível verdade que assolava seu coração. Não queria ver aquele sorriso se desmanchar, não queria ver a tristeza em seu rosto, não queria que lágrimas rolassem através de suas pálpebras fechadas. As mãos começaram a tremer, e sentiu uma pequena gota de suor escorrendo por sua testa. Pousou sua mão no rosto de Shaka, gravando em brasa a imagem linda do dono de seu primeiro beijo. Era daquele jeito que se lembraria dele em seu exílio.

Levantou-se com dificuldade, como se seu corpo agora pesasse o dobro. As mãos de Shaka relutaram em soltá-lo, mas por fim cedeu. O ariano enxugou uma lágrima casmurra com as costas da mão e deu dois passos para trás. Viu uma expressão de confusão tomar conta do indiano, e tratou de se lembrar de como ele estava alguns segundos atrás, naquela imagem escolhida para representá-lo.

– Shaka, eu... – Não conseguiria. Shaka teria que perdoá-lo, pois todas as palavras desapareciam ao olhar para o rosto angelical do cavaleiro de Virgem. – O Grande Mestre pediu que eu fizesse algo... Eu não devia ter parado aqui, nem te incomodado. Desculpa por ter invadido sua casa desse jeito. Eu estou bem. Sério. – Mentiu, sentindo-se a pior das pessoas.

Observou Shaka se levantar e passar a mão nervosamente pelos cabelos. Andou na direção de Mu e entrelaçou seus dedos com os dele. O lemuriano foi obrigado a cerrar os dentes com tanta força que sua cabeça começou a doer, do contrário, mais lágrimas teriam jorrados de seus olhos.

– Espero você amanhã de manhã. – Deu um beijo estalado no rosto de Mu, perto demais da boca, fazendo um calor intenso tomar conta das bochechas dos dois cavaleiros. – Para você me contar o que está te entristecendo.

Com muito esforço, Mu sorriu e assentiu. Sentiu-se péssimo por não falar nada. Nunca vira Shaka tão entregue, tão caloroso, tão próximo. Procurou se lembrar de alguma vez que o amigo dissera que o esperaria no dia seguinte, mas não foi bem sucedido em sua busca, já que tal memória não existia. Era a primeira vez que o indiano demonstrava ansiar por sua companhia, e ele não estaria ali.

As ocasiões em que Shaka havia lhe oferecido um pouco de afeto eram escassas. Naquele fim de tarde, Mu havia recebido mais carinho do que em todos aqueles anos. Deitado em sua cama, lembrou-se das mãos do indiano contornando seu rosto, do toque gentil em seus cabelos, do calor de seu abraço, da doçura de suas palavras, da textura macia de sua pele alva... e da suavidade de seus lábios. Principalmente da suavidade de seus lábios.

Por Atena, o que ele tinha feito? Shaka estava apenas o consolando, procurando ajudar. Era seu amigo, quase um irmão. Devia ter se contentado com o beijo que recebeu na testa. Escolhera o pior momento para despertar aqueles sentimentos no amigo e em si próprio. Teria que abandoná-lo. Ficou imaginando a figura do melhor amigo em posição de lótus no átrio da sexta casa o esperando a manhã inteira, e mais lágrimas foram derramadas.

Porém, de uma forma que ainda era incapaz de compreender, aquele beijo não parecia errado; pelo contrário, parecia terrivelmente certo. Partir sem dizer adeus, isso errado, mas mesmo com essa consciência, foi incapaz de procurar o virginiano para fazê-lo. Era um dor grande demais, uma dor para a qual nenhum treinamento o havia preparado.

Sua boca ainda tinha gosto de canela quando teletransportou-se para Jamiel naquela noite, o medo de encarar a realidade o impedindo de permanecer ali até a alvorada.

Notas finais
Não me matem, por favor! As coisas tinham que ser desse jeito para fazer sentido nos capítulos seguintes. Esse capítulo foi tenso, escrever um primeiro beijo nessa idade sempre o é. Espero que tenham gostado. *O*
Esclarecimentos:
01. Para mim, faz sentido o Mu não saber disso de reencarnação de Buda, afinal, não é uma coisa que se saia comentando na mesa do jantar, ainda mais quando criança.
02. Todas as coisas relativas ao budismo são oriundas da Wikipedia, já que eu não manjo nada da religião.
03. Como Shaka chegou antes do Mu no Santuário, ainda pegou o Aiolos vivo e teve contato com ele. Sei que isso é meio aleatório, e eu nem planejava conduzir as coisas desse jeito, mas foi uma ideia que surgiu sem mais nem menos e que se encaixou não só com fato dele não ter falado com o Mu no começo como com coisas que acontecerão mais para frente, então...
04. Provavelmente alguém vai pensar ou dizer "que precoces eles são!", mas doze/treze anos não é precoce para mim. E não foi um amasso, foi um beijinho bem simples. Então deixa meus guris serem viados em paz! -Q
Até o próximo!