Casamento por obrigação
31 Capítulo 31
FFinalmente, chegou o dia mui esperado de irem para a cidade grande. No meio do pátio, o sol mal havia rompido o sereno quando o capataz despontou na corrida.
— Patrãozinho! Patrãozinho, valha-me Deus... a grande produção de algodão ficou totalmente pronta e ensacada! — disse Freddy, correndo arfando, quase colocando o pulmão para fora de tanto cansaço.
— Que excelente notícia, Freddy! Eu já recebi o telegrama urgente da Fábrica Ecomoda em Bogotá dizendo que precisavam da matéria-prima com a máxima urgência para os teares. Devemos partir amanhã cedo, sem falta.
— Mas o senhor tem trabalho pesado por demais para gerenciar aqui na lavoura, Don Armando... Não acha mui melhor que eu pegue o jipe e vá com o Wilson resolver isso na Capital, não?
— Ficou maluco de vez, Freddy? Claro que não! Devemos ir os três homens juntos para dar conta do descarregamento no asfalto. Deixe o Jarbas no comando da segurança dos estábulos.
— E como vai ficar a menina Betty com as lições da escolinha rústica?
— Não, creio que ela não poderá dar o conteúdo sozinha amanhã... Olha, mais tarde eu tenho uma prosa mui séria contigo sobre isso, primeiro preciso resolver os detalhes direto com a Betty.
— Ah, entendi tudo!... — o capataz abriu um sorriso safado de canto. — Já que vamos os três marmanjos da roça para a cidade grande, vai rolar aquela festa da gandaia à noite no vilarejo, não vai, patrãozinho?
— Festa? Que diabo de festa, Freddy? Do que você está falando?
— Ora... na casa daquelas belas senhoritas da vila vizinha que...
— Eu estou indo para a Capital puramente para trabalhar e entregar o algodão, Freddy! Deixe de bobagem! — Armando cortou, sério.
— Eu sei, patrão... eu sei mui bem! Mas nós sempre aproveitamos a viagem para dar uma escapadinha e espairecer o sangue!
— Olá! Bom dia para os senhores! — a voz doce de Betty ecoou no galpão, interrompendo os capatazes.
— Olá! Bom dia, minha Bettica! — Armando sorriu largo na mesma hora, os olhos brilhando.
— Bom dia, professora Beatriz! Sempre mui bonita, vistosa e cheia de charme, a nossa bela professora! — Freddy cantarolou mui faceiro, tirando o sombrero. — Vamos lá, patrãozinho... faz tempo que não pisamos no asfalto, as moças de lá devem estar mui saudosistas da nossa fidalguia!
— Deixe esse assunto de gandaia para depois, Freddy! Vá arrumar as cordas da carroça e suma! — Armando ordenou entre dentes, vermelho de vergonha perante a moça.
— Do que os senhores estavam falando com tanto mistério aqui no pátio? — perguntou Betty, curiosa, ajeitando o saia.
— Irei à cidade amanhã cedo de madrugada levar a produção premium de algodão para a fábrica, Betty! — explicou o caubói.
— Ótimo! Perfeito! Fique sabendo que eu irei contigo no jipe de linha!
— Mas agora... agora eu realmente não sei como faremos para gerenciar os horários com a escolinha dos peões, Betty. Os alunos vão ficar desamparados.
— Não se preocupe com isso, Armando. Eu deixarei várias atividades e tarefas escritas prontas nos cadernos, podemos perfeitamente dispensá-los das carteiras amanhã à tarde.
— Ou... ou a Karina pode mui bem passar as lições e ditar o conteúdo para eles na lousa. Não me olhe com essa cara de brava, Betty... a Karina pode cuidar mui bem dos meninos por um dia, ela é uma boa professora titular quando quer.
— Se você diz... — Betty empinou o nariz de porcelana, o ciúme doentio beliscando o seu peito.
— O que foi, hã? — Armando aproximou-se mui perto, rindo baixo na penumbra da sala de aula deserta. — Acaso você está com puros ciúmes da loira colada no meu setor?
— Eu? Ojojo! Eu não tenho ciúme nenhum de você, Armando Mendoza! Quem sou eu para cobrar fidelidade de patrão?
— Tem sim, eu sei perfeitamente bem que tem fogo nesse peito! — provocou ele, dando cócegas de leve na cintura fina dela. Armando parou o movimento, segurou o queixo dela com os dedos grandes e roçou os lábios carnudos nos dela em um chamego rápido.
— Sabe mui bem que eu não gosto dessas molecagens e dessas safadezas dentro da escola, Armando! — ela o afastou com um sorriso de canto, arrumando os óculos. — Eu não sou igual àquela sua professorinha de calça apertada que se deita na sua cadeira de vime!
— Mas ave maria, você não esquece mesmo aquele erro do passado, menina! — ele resmungou, sem graça.
A loira Karina adentrou o galpão da escola de suetão nesse exato momento de intimidade, mas por mui pura sorte os dois já haviam se separado a tempo e guardavam a distância de funcionários. A professora titular passou de nariz em pé, sem dar um bom dia de fidalguia para Betty, mas a filha do caseiro pouco se importou com o bico da rival. Betty sentou-se na carteira e resolveu começar a organizar com pressa as atividades de finanças que deixaria prontas para os alunos na sua ausência.
Armando pigarreou, endireitou a postura de diretor e bateu a mão na lousa para chamar a atenção da loira.
— Karina... antes que você comece a programar a sua aula com os púberes da lavoura, quero lhe dar um aviso mui sério: amanhã nós não estaremos presentes aqui no galpão.
— Onde nós iremos, Armando? — a loira abriu um sorriso faceiro, ajeitando as cadeiras. — Vamos passear no vilarejo?
— Quero dizer... a Beatriz e eu! Só você vai dar aulas amanhã para as duas turmas. Eu vou para a cidade levar o carregamento do algodão pessoalmente para a Fábrica Ecomoda.
— O Freddy e o Wilson podem muito bem fazer esse serviço de transporte sozinhos nas carroças, Armando! — protestou a loira, batendo o pé com fúria. — Eu não gosto nem um tiquinho quando você viaja para aquela Capital! Fico mui preocupada!
— Esta decisão administrativa pertence puramente a mim e não aos seus capatriços, Karina! — o tom de Armando engrossou com a rústica autoridade de patrão. — Eu sou o único responsável legal por esta Fazenda Laços perante o meu pai e eu faço questão de entregar o algodão pessoalmente nas mãos dos diretores da fábrica.
— Sei mui bem... Você vai para o asfalto é para ficar de farra e gandaia com as mundanas da rumba, Mendoza! — acusou ela, espumando de inveja.
— Mas por acaso você está querendo dar uma de minha esposa legítima agora perante as carteiras, Karina? — Armando ironizou, os braços cruzados sobre o peito musculoso.
— Eu conheço mui bem o seu faro, Armando! O que foi que aconteceu com as nossas noites de desejo no feno? Por que você não quer mais ficar comigo de jeito nenhum, só por causa da presença dessa idiota da filha do caseiro nos fundos?!
— Cale a boca, Karina! A Beatriz não é nenhuma idiota, me meça as palavras! — o caubói rosnou, o ciúme possessivo subindo ao limite. — Eu estou te dando uma ordem legítima de diretor da escola e você tem a obrigação de cumprir como funcionária! Você vai assumir todas as aulas de reforço amanhã sozinha. Assim que terminar o conteúdo com os peões adultos, dispense todo o mundo do galpão.
— Quer dizer então... que a tal da Beatriz e eu vamos dividir as turmas de manhã?
— Não! Você não escutou o que eu disse? A Beatriz não virá dar aulas amanhã. Ela vai pegar o jipe comigo.
— Ah, que espetáculo! Faltando no dia do serviço pesado, bem no momento em que a fazenda mais precisa de braço para a contabilidade! Que molecagem! — resmungou a rival.
— Isto não é da sua conta e não é problema do seu setor, Karina! Acha por acaso que tem a capacidade e pode dar conta de comandar a sala sozinha por um dia?
— Eu sou uma excelente e mui instruída professora nesta roça, Armando! Consigo dar conta de dez turmas se eu quiser!
— Pois é o que eu espero de verdade da sua conduta. Até amanhã!
Karina virou as costas com um rebolado mui agressivo e abusado de quadris, saindo batendo a porta de madeira com força.
Armando voltou a preparar os seus planos de aula na mesa rústica. Betty também organizava os seus cadernos com uma ansiedade mui grande batendo no peito. Para conseguir a bendita autorização assinada e o dinheiro da passagem sem levantar nenhuma desconfiança com o Seu Hermes, Beatriz havia usado a cartada mais esperta de sua mente: deu a desculpa para o pai de que precisava urgentemente ir à Capital para conversar de perto com o Tio Lázaro Pinzón sobre as saúdes da família e os estudos. Ao ouvir o nome do velho economista de Bogotá, o coração do caseiro amoleceu na hora. Hermes ficou radiante, mui feliz com o respeito da filha pelas tradições e pelo sangue dos Pinzón; tanto que preparou um embrulho de queijos e doces da roça e mandou que ela levasse de presente para o idoso no asfalto.
Aproveitando a viagem de carona no jipe do algodão, Betty organizou o seu plano contábil em segredo: iria ver o tio no cortiço, encontraria as suas amigas do alojamento, visitaria a madrinha Catalina Angel e daria uma parada obrigatória na faculdade de Administração para resolver as burocracias de trancamento do semestre. O pai permitiu tudo de mui bom grado, cego pela alegria de achar que a filha estava aceitando criar raízes na Fazenda Laços.
Betty mal podia aguentar a expectativa de chegar a Bogotá. Queria também de quebra matar as saudades da Camila e conhecer as instalações da Ecomoda de que a amiga tanto falava nas cartas.
Ao saírem do galpão da escola no final da tarde, Armando levou Betty de jipe até os fundos. Ele percebeu que a moça estava mui iludida, radiante e com um brilho deslumbrante no olhar por causa da viagem.
— A que se deve esse sorriso tão lindo e esse rosto tão alegre hoje, Beatriz? — perguntou ele de rabo de olho, segurando o volante.
— O senhor deve imaginar perfeitamente o porquê, caubói! Ojojo!
— Por que você vai ter o privilégio de viajar colada comigo para a Capital? É isso?
— Imagina só! Deixe de ser um homem tão convencido e soberbo, Armando Mendoza!
— Então quer dizer que eu não serei uma boa e agradável companhia de estrada para as suas vontades, Betty? — provocou ele, pegando a mão dela.
— Eu sei mui bem que você será a melhor companhia do mundo, meu herói — ela confessou, com os olhos doces.
Betty inclinou o corpo e o abraçou forte pelo pescoço por cima do banco, e Armando sentiu uma ternura violenta esmagar o seu peito de homem feito. Segurou o rosto de porcelana dela com as duas mãos e selou os seus lábios em um beijo úmido e demorado na penumbra do jipe.
— Sabe mui bem que nós vamos viajar acompanhados pelo Freddy e pelo Wilson na cabine amanhã, não sabe, Betty? — he murmurou contra a boca dela. — Logo, nada de chamegos ou momentos quentes como esse durante todo o trajeto da estrada de terra. Temos que manter o recato perante os funcionários.
— Eu sei mui bem das regras, caubói... Mas creio perfeitamente que nós podemos dar umas boas escapadinhas escondidos assim que chegarmos no hotel do asfalto. Eu tenho muita coisa importante para resolver na cidade... Por acaso você vai me deixar andando sozinha por lá?
— Nunca! Jamais! — Armando fixou o olhar possessivo nela, apertando a cintura dela. — Eu vou cuidar e vigiar cada passo seu, Betty. Você está sob a minha responsabilidade.
Ao colocar os pés dentro da habitação dos fundos, Betty nem sequer quis saber de comer as arepas do jantar. Foi direto para o quarto arrumar a sua bagagem. O que ela possuía era apenas uma mochila simples de lona, o estrito suficiente para passar os dias. Não iria levar muitas mudas de roupas longas, levou apenas os vestidos mais bonitos e finos da Capital para impressionar o caubói, e uma peça mui fresquinha de chita para quando voltasse para o calor da roça.
-Creio que é suficiente. Quero estar linda para andar de braço dado com meu caubói sem ninguém nos atrapalhar!
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