Casamento por obrigação
32 Capítulo 30
A viagem durou cerca de 7 horas, mais que o habitual. A vontade de Betty era de aconchegar Armando em seu colo, enquanto o enchia de beijinhos. Mas aguentou firme por conta de Wilson e Freddy. Somente quando cochilaram que foi ousada,encostou a cabela no braço dele.
-Betty, estamos acompanhados.
-Xiu! Freddy está dormindo e Wilson se concentrando no volante para não dormir.
-Você é muito levadinha.
-Já disse que você me deixa assim. -beijo- Não estou fazendo nada demais, só estou me aconchegando em seus braços para dormir melhor.
Betty amaciou os braços dele, como se fosse um travesseiro, esticou a camisa como uma fronha e suspirou, enquanto tornava a deitar-se. Armando balançou a cabeça e por fim, também adormeceu.
E assim foi, o restante da viagem até a capital.
— Arre! Chegamos! — exclamou Wilson, puxando o freio de mão com força.
-Até que enfim! Você é mais lento que eu! -disse Freddy
-Esta parte é cheia de buracos!
-Buracos, sei. Quase bateu nos caminhões, você viu patrãozinho?
-Sim. Até acordei.
Beatriz despertou sonolenta e espreguiçou-se. Os dois nem perceberam que o patrão estava abraçado à mulher.
Todos foram tomar um café reforçado em uma padaria conhecida e daí seguiram para Ecomoda.
Beatriz não podia acreditar. Havia passado várias vezes em frente aquele prédio e nunca poderia imaginar que tivesse alguma ligação com a “Laços”.
-Tudo patrimônio dos Mendoza! -pensou. -E Valência!
-O que desejam aqui? -perguntou o porteiro
-Isto é modo de falar?
-Meu jovem, perdão, desculpe-me, mas se não sabe com quem está falando? Este é Armando Mendoza, doutor para você, um dos donos deste local!
— Desculpe, mas não o conheço. Não está na lista de executivos da semana.
— Pois ligue imediatamente para a secretaria da Dona Camila Mendoza ou procure pelo Seu Gutiérrez! Eles vão te informar quem manda aqui!
-Mas não podem descarregar aqui!
-Comunique-se com eles!
— Pois comunique-se com eles de uma vez! — ordenou Freddy.
Sem acreditar muito, o porteiro fez a ligação. Não demorou dois minutos para a ordem descer. Camila ficou radiante ao saber que o irmão havia chegado de Quindío, e mais ainda por estar acompanhado de Beatriz, de quem guardava imensa saudade. Rapidamente, ordenou que o pátio de carga fosse liberado para que Wilson e Freddy fizessem o descarregamento da matéria-prima de algodão.
— Irmão! — Camila correu para abraçar Armando no saguão.
— Olá, Mário! — Armando cumprimentou o amigo com um forte aperto de mão.
— A que devo a honra, arriero? Quase nunca você deixa o cheiro do mato para pisar no asfalto da Ecomoda! — provocou Mário Calderón, rindo.
— Você sabe muito bem que eu precisava trazer pessoalmente essa saca de algodão hoje.
Os dois riram, relembrando as velhas parcerias.
Logo, ordenou ao porteiro que providenciasse junto a Wilson e Freddy o descarregamento da matéria-prima.
-E muito mais que por mim, embora ame a fazenda, estaria trabalhando aqui.
-E porque não vem?
-Meu pai não deixaria. Ainda mais não tenho a formação necessária para ser executivo.
-Isto se resolve.
-E o que seria dos empregados se não estou lá? Eu que implantei a escolinha com dona Inês. Eles dependem de mim.
-Na verdade. Você está acostumado a ser um caubói.
Armando riu
-O que foi?
-Beatriz me chama assim.
-Ui! E ela?
-Veio comigo, digo conosco.
-Então, vocês dois
-O que quer dizer? Está com Camila neste momento.
-Devem estar fofocando. Também quero saber das novidades. Ainda continua noivo de Marce?
-Sabe que não posso me livrar disso.
-E Betty?
-O que quer dizer?
-Sabe o que quero dizer! É uma flor pronta a ser desabrochada. Vai deixar que outro tenha este gosto?
-Sabe que não gosto que fale dela nesses termos. É uma menina ainda!
Balançou a cabeça.
-Não entendo como não percebe as coisas.
Não demorou muito para Camila e Betty se juntarem a eles. Camila pediu que a cantina da empresa preparasse a saca de café que Armando orgulhosamente havia trazido. A fazenda só preparava para exportação. Camila aproveitou para fazer para todos os funcionários. Por sorte, Daniel não estava estes dias ou diria que era desperdício. Depois de colocarem tudo em dia, referente à fazenda e à empresa, Betty e Camila foram almoçar juntas, pois depois iriam fazer compras e os homens foram para outro lado.
-Posso perceber que está acontecendo algo. -disse Mário
-O que diz?
-Os olhares entre vocês. Conte-me, finalmente resolveu dar uma chance para a ex-feia?
-Não sei do que está falando.
-Ah sabe sim! O conheço muito bem.
-Seu safado! Rato de cana!
-Caiu nos encantos da menina?
Armando desiste de esconder e resolve contar que ele e Betty estão de namorico, beijos, abraços, mas que nada além disso.
-Quer dizer que Armando Mendoza, o don juan da fazenda, o sonho das donzelas está preservando a pura mocinha?
-Não é nada disso. Antes disso, somos amigos e não posso prejudicá-la. Prometi que sempre iria protegê-la.
-Esta menina como diz está louca para ser mulher em seus braços! Está apaixonada, não vê?
-Mais um motivo para não me aproveitar da inocência de Betty. Já sou um homem vivido, Calderón.
-Isto sei. Lembro de tudo que aprontamos.
-Não posso macular a pureza de Betty por mais que queira, ela merece um homem melhor que eu. Alguém que a ame, que possa se casar.
-E se ela quer você?
-Sabe que tenho que me casar com Marcela!
-Nem você acredita nisso. E quem está falando em casamento?
-Jamais macularia a pureza de Betty se não fosse para me casar. Ela é sonhadora e se está tão apaixonada por mim, mais um motivo para resistir.
-Se é assim, então por que não fala a real para ela? Não pensa que pode estar incentivando-a ainda mais?
-Eu sei, mas de certa forma gosto de beijá-la. Gosto como me olha, como se me admirasse. E tem muitos caras na fazenda de olho nela, tenho medo que se magoe comigo e se entregue a algum desses, só para me atingir.
-Então, não a quer, mas não quer que ninguém a queira!
-Não é isso! Quero protegê-la. Estes caras só querem que... o que queremos com as outras.
-Eu não. Sou um homem sério agora.
-Agora sim, mas eu não estou para isso. Tenho medo que algum abuse de Betty. Eu posso protegê-la.
-Ou impedir que se interesse por alguém mais. Você é egoísta.
-Não sou egoísta. Se um homem se interessar sinceramente por ela, um cavalheiro.
-Deixaria-a para ele?
-Se ver que é um rapaz de bem, alguém que vai cuidar dela, que não quer só... Que pode casar com ela, por que não deixaria? Não posso atrapalhar a vida de Betty com esta paixão que tem por mim.
-Cuidado, pois o que deseja pode acontecer.
-Pois quero mais que aconteça! Que Betty possa encontrar um homem gentil, amável, que a tarte bem e que queira algo sério para ser feliz. E para isso precisa se manter.
-Você que sabe!
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Enquanto isso, Camila e Betty foram às compras. Por insistência, Camila comprou várias roupas para a amiga, inclusive camisolas sensuais. Gostou de saber que ela e seu irmão estavam de encontrinhos, mas não podia acreditar que não haviam passado de beijinhos. Seu irmão nunca abusou de moças, tampouco resistiu a nenhuma delas.
-Estas são as armas da sedução. Não creio que vai ter forças para resistir.
-De repente, ele não me quer. Não sente desejo por mim.
-Isto você tem que ver para comprovar.
-Não sei não.
-Vai por mim. Você está linda e sensual. Ele não tem por onde fugir.
-Por que faz isso?
-Sempre desejei tê-la como cunhada.
-E este sempre foi meu maior sonho.
As duas riram.
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Armando pensava no que Mário havia lhe dito, quando Betty bateu à porta. Estava linda em um elegante vestido de veludo acima do joelho. Era bem agarrado ao corpo, o que deixava ver as formas.
-O que faz aqui, Betty?
-Puxa, isto é jeito de me receber?
-Não é isso. Desculpe, mas sabe que não estamos sozinhos.
-Hum. Pouco se importa com que os dois pensam.
-Eles sabem que sou noivo de Marcela.
-Quando é para andar com Karina e outras isto pouco importa.
-Betty, não é isso! — a abraça.- Preocupo-me com você e sua reputação.
-Hum, não gosto que brigue comigo.
-Prometo não brigar. -beijos.
-Está tão bonita.
-Quis experimentar uma roupa que sua irmã insistiu me presentear.
-Cami tem muito bom gosto!
-Então, gostou?
-Muito. -beijo.
Ainda estavam abraçados quando ouviram que a porta se abria. Por pouco se afastaram e Freddy adentrou o quarto
-O que faz aqui, Freddy?
-Vim convidá-lo, perdão, mas desculpe-me, Betty, mas vim convidar Seu Armando. Wilson está que não aguenta de ansiedade, não vê a hora...
-Do quê, Freddy?
-Não creio que será preciso que diga ainda mais na frente de senhoritas. Mas como o senhor está de pijama, estando tão cedo?
-Acostumado à fazenda e a dormir cedo.
-Não é assim que costumamos fazer na cidade!
-Agora é assim.
-Mas como? O senhor prometeu que quando voltássemos iríamos repetir.
-Olha, Freddy, se quiser vai com Wilson, eu irei me deitar. Tome aqui algumas notas!
Armando colocou Freddy para fora. Betty era esperta e lógico que havia percebido do que se tratava.
— O que você está fazendo, Betty? — perguntou ele, com a voz falhando.
— Só um abraço, meu caubói. Eu te amo tanto.
— Betty... o que você sabe sobre o amor? — murmurou ele, segurando-a pelos ombros, lutando contra o próprio corpo.
Ela não respondeu com palavras. Acariciou o rosto másculo dele e o beijou com ternura. Armando retribuiu o toque. O beijo rústico foi tornando-se mais intenso, urgente e faminto, a ponto de os dois caírem na cama do hotel, um sobre o outro, misturando o calor da pele.
— Quero ser sua! — arfou ela contra os lábios dele. — Me toma agora, Armando!
Mas, apesar da excitação brutal que sentia, Armando reagiu no último segundo. A imagem do Seu Hermes e a promessa de protegê-la pesaram como chumbo. Ele a afastou para o lado com esforço, respirando fundo.
— Você não sabe o que diz, Beatriz! Isto aqui não tem volta!
— Não quero que tenha volta! Quero ser sua, que me tome como mulher!
— Isto não é brincadeira de criança, Betty! É uma menina pura ainda, e eu sou um homem vivido, um depravado que não vale nada!
— O homem que eu amo é você, Armando!
— Melhor que vá embora agora mesmo — ordenou ele, levantando-se da cama com a testa suada. — O Freddy ou mais alguém pode entrar por essa porta de uma vez.
— Eu não me importo com eles!
— Mas eu me importo com a sua honra!
Armando a pegou firme pelo braço para colocá-la para fora do quarto e encerrar aquela tentação. Mas Betty, num último ato de rebeldia, puxou o pescoço dele, colou seus lábios e mordeu o lábio inferior dele com força, deixando o gosto do sangue e do desejo marcado ali. Resistindo com todas as suas forças, ele abriu a porta e a colocou para fora.
A campainha da rejeição ecoou no corredor. Mas aquela mordida foi o suficiente para despertar em Armando a fera sexual que ele tanto tentava adormecer. Ele passou a mão pelo lábio ferido, andando de um lado para o outro no quarto, com o corpo queimando.
— Você não pode fazer isso comigo, Betty!... Maldita seja! — rosnou para o vazio.
Minutos depois, bateram à porta novamente com batidas pesadas.
— Já disse que não, Betty! Vá para o seu quarto! — gritou ele, furioso.
— Betty? Ave maria, somos nós, Seu Armando! — a voz de Freddy ecoou do corredor.
Armando abriu a porta bruscamente, bufando.
— O que os dois querem aqui de novo? Não foram embora ainda? Já não dei dinheiro suficiente para vocês gastarem com as moças?
— Não vai adiantar dinheiro nenhum, Don Armando... — explicou Freddy, ajeitando o chapéu com o rosto sem graça. — A dona Zuleika só vai nos deixar entrar na casa de luxo se o senhor nos acompanhar!
— É verdade, patrãozinho! — completou Wilson, esfregando as mãos. — Ela só atende os clientes especiais da fazenda e os amigos do senhor. Sem o Mendoza junto, nós dois não passamos da portaria!
— Vocês não sabem se virar na Capital sem mim, bando de chucros? — resmungou Armando.
— É que o Don Armando agora virou um homem sério e fiel à dona Marcela! — provocou Freddy, rindo com o companheiro. — Não quer mais saber de outras mulheres. O lobo de Quindío virou gatinho.
— É verdade? Até a Karina e as moças da rumba estão reclamando da sua falta! — atiçou Wilson.
— Não digam bobagens! Não é nada disso! — rebateu Armando, sentindo o orgulho de macho ser cutucado.
— Ah, é sim! O patrão até trouxe a menina Betty, que tem como irmãzinha, para garantir que não vai saltar a cerca na cidade grande! Ele está amarrado!
— Vocês estão muito enganados! Eu não sou amarrado por ninguém! — esbravejou Armando, o sangue fervendo pela provocação e pelo desejo acumulado que Betty havia deixado em seu corpo.
— Pois as meninas de Bogotá devem estar com muitas saudades do Tigre... — cantarolou Freddy.
Diante dos argumentos e precisando urgentemente apagar o fogo que Beatriz havia acendido em suas veias, Armando pegou a jaqueta de couro e os seguiu pelo corredor do hotel.
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A casa de rumba de Dona Zuleika era o reduto mais luxuoso da madrugada de Bogotá. O som da música e o cheiro de fumo e aguardiente preenchiam o ar. Assim que a porta da área VIP se abriu, as mulheres elegantes do local abriram sorrisos.
— Armando! Que saudade! — exclamou a madame Zuleika, vindo recebê-lo com um abraço perfumado. — Hoje mesmo eu estava falando com as meninas que o senhor andava sumido de Filandia, que não vinha aqui faz tempo. Olha só quem chegou, meninas!
— O Tigre! — gritaram duas moças ricas, correndo para o lado dele.
— Ai, Tigre, estávamos com saudades dos seus modos selvagens!
— Pois aqui estou. E trouxe meus amigos Freddy e Wilson comigo — disse Armando, jogando algumas notas altas sobre a mesa.
— Vai ter meninas e bebida para todos! — celebrou Zuleika.
— Não, Zuleika... hoje eu quero apenas uma boa garrafa de aguardiente da forte. Quero beber até esquecer — pediu Armando, sentando-se no sofá de couro.
— Mas como? Prefere beber a uma boa companhia feminina, Mendoza? Você nunca foi disso!
— Algumas vezes é melhor manter a cabeça fria. Meninas, não levem a mal — disse ele, acendendo um charuto.
— O que houve com ele? Está apaixonado? — cochichou uma das moças para Freddy.
— Ele vai se casar por obrigação e está treinando para ser santo! — caçoou Freddy, virando o seu copo.
Armando ignorou a piada e virou o primeiro copo de bebida de uma vez, sentindo o álcool queimar a garganta. O tempo foi passando, papo vai, papo vem, e o herdeiro da Fazenda Laços já estava com os sentidos completamente alterados pela embriaguez. Com tantas mulheres ao seu redor, ele viu se aproximar uma bela morena de cabelos longos e pretos. Ela caminhou de forma coquete e sentou-se diretamente no colo dele.
A moça não devia ter mais que vinte anos. Tinha traços que pareciam de uma menina inocente, ou pelo menos era assim que a mente bêbada de Armando a enxergava. Tão jovem por fora, mas já tão levada e provocativa por dentro. Ela passou os braços pelo pescoço dele e começou a beijá-lo na boca, instigante.
Armando, que àquelas alturas já estava embriagado e consumido por um dia inteiro de celibato forçado, segurando a ferro e fogo o seu desejo por Betty, viu naquela jovem a chance que precisava para descarregar todo o seu ímpeto reprimido. Sem pensar no amanhã, ele a carregou no colo com força, deixando os capatazes rindo no salão, e a levou direto para os quartos dos fundos. Após se proteger, investiu contra ela de forma selvagem, tentando apagar o fantasma daquela menina que o enfeitiçou do seu peito.
No quarto do hotel, Betty chorava. Havia ido de camisola até o quarto de Armando. Descobriu que o homem não estava e não duvidou que havia saído de farra com seus amigos.
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