Casamento por obrigação
26 Capítulo 26 -Flagrante
Betty alisava o braço dele, desenhando os músculos fortes com a ponta dos dedos, enquanto estavam encostados na rocha úmida do lago que ficava escondido dentro da caverna. Haviam cavalgado logo após o término das aulas na escolinha rústica e, com a eterna desculpa de patrão de levá-la para casa em segurança, Armando a havia acompanhado. Dali, no impulso do chamego, resolveram esticar o passeio a cavalo até a gruta deserta. Betty já conhecia mui bem as artimanhas de sedução do seu caubói e não iria se negar por nada neste mundo; havia sonhado com aquilo a adolescência inteira. Estar encostada naquele corpo másculo, sentada no colo dele e acariciando o seu peito, enquanto beijava a sua boca com gosto de amora.Armando não entendia como estava se deixando levar tão facilmente por aquele feitiço, mas era quase irresistível ter aquela menina-mulher em seus braços. Agiam como se fossem dois namoradinhos adolescentes escondidos dos pais. O jeito doce com que ela lhe olhava, com total admiração e entrega, era como se ele fosse o melhor e mais poderoso homem da Terra. Nenhuma das outras mulheres da rumba ou peoas da vila jamais havia lhe olhado com tanto amor e ternura verdadeira. O "Tigre de Quindío" estava totalmente envolvido e desarmado por aquela doçura caipira. À parte disso, ele sabia mui bem o quanto ela andava atraindo as atenções e os olhares cobiçosos daqueles homens da fazenda e não queria que a sua joia ficasse dando sopa por aí. Sempre a protegeria dos gaviões.
— Beatriz... já está ficando mui tarde, minha Rainha Paisa — dizia ele, interrompendo o amasso com vários beijos lentos no pescoço dela.
— Ah, Armandinho... é que está tão bom ficar aqui contigo na penumbra.
— Eu também adoro estar contigo, Betty... você sabe mui bem disso. Mas o seu pai pode ter passado na casinha dos fundos mais cedo e ficado preocupado com o seu sumiço.
— Papai sabe que eu sempre demoro revisando os cadernos na escola, caubói. Ou será que é você que não quer mais ficar perto de mim hoje? — provocou ela, fazendo um biquinho manhoso.
— Sabe mui bem que eu adoro cada segundo com você nos meus braços, menina!
— Eu também adoro. Ah, Armando... Você é tão lindo! Parece até um caubói de cinema daqueles filmes chiques que passam na Capital!
— Exagero seu, Betty — ele sorriu de canto, a vaidade de peão massageada.
— Eu sou apenas um sujeito comum da roça.
— Não é não, seu bobo! — ela o puxou pelo colarinho e o beijou com vontade na boca.
— Você é que é linda, Betty... linda por demais.
— Agora você diz isso... pois antes eu era apenas a Betty, a feia de quem todo o mundo ria nos estábulos!
Ele não a deixou terminar a queixa e tornou a beijá-la com paixão, calando as mágoas do passado.
— É melhor irmos embora de uma vez, Betty. O dever nos chama.Iam passeando de volta pela trilha como um legítimo casal de namorados.
Com toda a sua força, Armando a pegou no colo com facilidade e a colocou montada no cavalo, quando uma risada estridente e cheia de veneno cortou o silêncio da mata.
— Mas que cena mui comovente de novela! — debochou a loira Karina, saindo de trás das árvores com as mãos nos quadris.
— O que diabo você pensa que está fazendo escondida nas divisas da gruta?
— O que eu faço aqui? Eu é que devo te perguntar, Mendoza! O que você faz escondido nesta gruta com esta pirralha sonsa da filha do caseiro? — gritou Karina, adiantando-se com fúria e segurando o braço de Beatriz com força para arrancá-la de cima do animal.
— Largue o braço dela agora mesmo, Karina, ou eu vou perder a minha paciência de patrão! — Armando rosnou, o peito subindo.
— Ou o quê, Armando Mendoza?! Pensa por acaso que eu sou idiota? Que você me deu aquele gelo e me largou na escolinha para ficar de passeio romântico com essa ninfetinha? Ou será que ela não é mais tão ninfeta assim, hein? Pois um homem safado como o Mendoza não iria ficar passando as tardes só dando beijinhos em mulher nenhuma! Essa sonsa já deve ter se aberto toda para você debaixo desse feno!
O sangue dos Pinzón ferveu nas veias de Betty. Sem pensar duas vezes, ela desferiu um tapa estalado e violento na cara da professora loira. Revoltada e soltando um grito chocado, Karina avançou sobre Betty, puxando-lhe os cabelos com fúria, e as duas mulheres rolaram no chão de terra batida, no meio de unhadas e puxões.
— Calma! Parem com isso agora mesmo, pelo amor de Deus! — gritou Armando, metendo-se no meio da briga e usando os seus braços fortes para separá-las com tremenda dificuldade.
— Você viu o que esta ninfeta vagabunda fez na minha cara, Armando?! — gritou Karina, limpando o rosto, histérica.
— Eu ouvi mui bem o absurdo que você falou para ela, Karina! A Betty fez mui bem em te dar esse corretivo! Eu não tenho nada de mal com a Beatriz, ela é minha amiga de infância e exijo respeito! — esbravejou o caubói, defendendo a honra de sua amada.
Claro que o Armando estava tentando proteger a reputação de Betty perante as fofocas da fazenda, mas ao ouvi-lo repetir aquela palavra "amiga" na frente da rival, a Rainha Paisa sentiu-se profundamente ofendida no orgulho. Queria que ele tivesse a coragem de assumi-la como sua fêmea de verdade.
— Amiga? Hahaha! Conte outra, Mendoza! Eu sei mui bem que vocês dois andam de rolo escondido! E se essa sonsa ainda é virgem nesta roça, é por pura sorte! — atiçou a loira, cuspindo no chão.—
Cala a boca de uma vez, Karina! — Armando berrou, o rosto vermelho de nervosismo.
— E eu não sei se isto é sorte, Karina... — disparou Betty, com o queixo erguido e os olhos de café faiscando de audácia para pisar na rival.
— Pois fique sabendo que eu não hesitaria nem um único segundo em me entregar para o Armando se eu quisesse!Armando arregalou os olhos na mesma hora, chocado com o fogo e a ousadia daquela resposta.
— Eu sei mui bem que você não hesitaria, Beatriz! Quem é a camponesa que resistiria ao filho do patrão rico? Ainda mais uma vagabunda que veio da cidade grande cheia de gandaia! — tripudiou Karina.
Armando teve que fazer uma força descomunal nos músculos para conseguir controlar o ímpeto das duas e separá-las sem machucar nenhuma delas na trilha. Por fim, perdendo a paciência de santo, o caubói jogou a Karina em cima do ombro direito e a Betty no ombro esquerdo, caminhando com as duas como se carregasse sacos de algodão.
— Me largue agora mesmo, seu selvagem bruto! — gritava a loira, esmurrando as costas dele.— Se comporte e fique quieta, Karina, se não quiser que eu te jogue no meio do mato! — o patrão rosnou, firme.
Armando caminhou a passos largos e deixou a Karina furiosa na porta de uma casa de colonos ali perto da divisa.— Isto não vai ficar assim de jeito nenhum, Mendoza! Você vai ver só do que eu sou capaz! — jurou Karina, espumando de humilhação, prometendo vingança para todo o vilarejo.
Depois de deixar Betty sã e salva na casinha dos fundos, Armando voltou para os estábulos e trabalhou feito um condenado até a noite cair para tentar aplacar a queimação do ciúme e do nervosismo. Já estava exausto na cama do seu quarto, quando a maçaneta girou. Marcela Valência adentrou o aposento na penumbra.
— Oi, meu amor... — disse a noiva, fechando a porta.
— O que você pensa que está fazendo aqui a esta hora, Marcela? — resmungou Armando, tenso, ajeitando as cobertas.
— Nós estamos há muitos dias sem nos ver direito nesta fazenda, Armando... E eu estava morrendo de saudades do meu noivo.
— Eu ando trabalhando mui pesado na gerência do algodão, Marcela, o tempo está curto.
— Isto nunca foi desculpa para o seu vigor de homem, Mendoza — provocou ela, sentando-se na beira do colchão. — O que você acha que eu vim fazer aqui? Sabe mui bem o que eu quero.
E conversa vai, conversa vem, Armando acabou cumprindo o seu amargo “trabalho de noivo” por conta das provocações insistentes de Marcela na cama. Minutos depois, a dondoca já dormia profundamente em seus lençóis, e o peão ficou ali, de olhos bem abertos encarando o teto escuro, com o peito afogado em uma profunda amargura. Não estava nem um tiquinho satisfeito consigo mesmo. Há muito tempo que tocar o corpo de Marcela havia virado uma obrigação mecânica e sem alma.
— Imagina só quando eu estiver casado de papel passado com essa mulher... Humpf! Que inferno de destino — pensou ele, sentindo um nó na garganta.
Lá no quarto de cima, Beatriz havia visto perfeitamente quando Marcela entrou no casarão e, ao escutar os ruídos abafados de intimidade que vinham do quarto de Armando logo ao lado, ela desabou contra o travesseiro e chorou como nunca havia chorado em toda a sua vida. Sentia na pele que o homem ficava excitado com os seus beijos escondidos, mas a sua inexperiência a torturava; ela não sabia como agir na cama. Nunca havia estado com homem nenhum na vida e sentia que perderia o terreno do coração de Armando facilmente para a Marcela, para a Karina ou para qualquer outra fêmea rodada da rumba.
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No dia seguinte, o clima azedou de vez na mesa do café da manhã do casarão principal. Betty mal erguia os olhos de café para olhar na cara de Armando, mantendo uma postura rígida e gélida. Armando, desconfiando na hora de que ela havia escutado o "trabalho" da madrugada com a noiva, ficou completamente preocupado e tenso perante os pais. Assim que o Seu Roberto saiu para a lavoura, ele a puxou pelo braço perto da copa.
— Beatriz, eu preciso falar mui sério contigo agora mesmo!
— Eu não tenho absolutamente nada para falar com você, Armando! Me solte! — ela se esquivou, fria feito o sereno da serra.
— Sim, nós temos muito o que conversar e esclarecer aqui, Betty! Por que você está me tratando com essa distância toda hoje?
— Distância assim, como, Senhor Mendoza?
— Fria! Fria feito uma pedra de gelo comigo!
— De repente... de repente é porque eu sou muito criança e muito menor para estar quente para os seus caprichos, Armando — ela destilou o veneno, com um sorriso amargo.
— Você... você sabe perfeitamente que a Marcela me visitou no quarto ontem à noite, não sabe, Betty? — ele engoliu em seco, entregando os pontos.
— Eu já disse que não quero falar sobre esse tipo de nojeira.
— Betty, por favor, me escute! Eu preciso te explicar como as coisas funcionam!
— Tampouco eu estou te pedindo satisfações ou explicações da sua vida íntima, Armando! Não tenho esse direito.
— Mas eu faço questão de te dar as explicações de homem! Querendo ou não o que sinto no meu peito, a Marcela Valência é a minha noiva de contrato perante as famílias!
— É... eu sei mui bem disso. Disso todo o mundo sabe nesta fazenda.
— Mas você precisa entender que nós temos uma relação antiga de carne, há muitos anos! — Armando explicou do seu jeito rústico e desesperado, tentando aliviar a culpa. — É um costume...
— Quer dizer então que tocar o corpo dela é apenas como um alívio de macho ou, pior ainda, uma obrigação mecânica de papel assinado, Armando? É isso? — perguntou ela, semicerrando os olhos, astuta.
— É... é mais ou menos isso mesmo, Betty — admitiu ele, o olhar sincero. — Por que você acha que eu passava as madrugadas correndo atrás das outras mulheres e das peoas da vila no passado? Para me sentir livre! Para fazer o que eu bem queria com o meu corpo e fugir desse cabresto do noivado!
— Tinha as outras?... Quer dizer então que você não tem mais nenhuma daquelas mundanas da rumba nos seus braços hoje em dia? — Betty deu um passo à frente, o coração dando um salto de esperança.
— E por acaso você acha que eu ainda tenho tempo ou forças para dar conta de tanta coisa nesta fazenda, Beatriz?! — exclamou o caubói, com um tom de juramento solene, olhando bem no fundo dos olhos dela. — Você acha que com o peso dessa colheita e com as aulas da escola eu ainda teria cabeça para fazer sexo por aí com mulheres da cidade? Eu fiz com a Marcela ontem porque ela é a minha noiva oficial de sociedade e veio me procurar trancada no meu próprio quarto de madrugada, Betty... Eu juro para você que não fui atrás dela em canto nenhum! Não a procurei!
Betty olhou para a aflição nos olhos dele e o seu coração de Rainha Paisa amoleceu por completo. Um sorriso vitorioso brotou em seus lábios de porcelana. Ela deu um passo e deu-lhe um beijo rápido e carinhoso na boca ali mesmo na copa. Realmente, os boatos dos capatazes e o faro da Aura Maria não mentiam: ela não o tinha visto com nenhuma outra mulher desde que começaram os encontros escondidos, tirando aquela obrigação com a noiva. O caubói era dela.
— Sabe, Armando... um dia... um dia eu quero mui saber como é a sensação de fazer amor de verdade — sussurrou ela, provocativa, roçando os dedos no peito dele.
— Ficou maluca de vez, Beatriz?! — Armando arregalou os olhos, assustado com o fogo da moça. — Já te disse mil vezes que você é uma menina pura por dentro para pensar nessas coisas!
— Você vivia dizendo que eu era apenas uma criança para beijar também... e agora me beija com uma vontade que quase me tira o juízo nos estábulos, caubói!
— Mas beijo é mui diferente, Betty! Não confunda as coisas!
— E você não crê que eu possa ser mui inteligente e aprender rápido a ser mulher nos seus braços? — ela piscou, audaciosa.
— Não comece a me provocar com esse tipo de assunto aqui na copa, Betty! Pelo amor de Deus! — ele pediu, arfando de tesão reprimido.
— Armando... por favor...
— Por favor digo eu, Betty... se controle!
— Está bem, meu herói... — ela cedeu, dando-lhe mais um selinho demorado. — Talvis... talvez o meu corpo ainda não esteja totalmente preparado para essa febre. Mas fique sabendo de uma coisa mui séria: quando eu estiver pronta de verdade, eu não farei isso com nenhum outro homem desta terra. Eu só vou me entregar por inteiro para ser de um único homem nesta vida! — disse ela, abraçando o pescoço dele com força. — Para o meu coração, o amor é algo sagrado por demais, e eu só vou entregar a minha pureza em um ato de amor verdadeiro.
— Eu... eu não sou esse homem perfeito com quem você sonha nos seus livros, Betty — Armando murmurou, com a voz embargada de remorso e desejo, sentindo o peso daquela entrega.
— Você é esse homem, Armando! Sabe mui bem que é! Eu serei apenas deste homem, para o resto dos meus dias.
Armando a abraçou com força contra o peito, sentindo o corpo dela tremer. Ela era tão sonhadora, tão pura... Qualquer homem de bem daquela região estaria profundamente lisonjeado e orgulhoso de possuir aquela inocência e tê-la ao seu lado para sempre. E ele... ele estava preso às garras dos Valência.
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