Casamento da Morte
8 Capítulo 8
Notas iniciais
...
Isaak, Hyoga e Eiri em seus devidos quartos. Camus continuava no salão principal resolvendo problemas entre adultos revoltados, mas mesmo uma distância considerada do salão para os aposentos que os adolescentes estavam, conseguiam ouvir tudo claramente.
Eiri chorava, estava trancada em seu quarto, foi castigada com um tapa no rosto deferido pela sua desobediência, o segundo naquela noite. Uma dama não deveria sair de casa à noite na presença de homens vestida do jeito que estava. Mesmo com os pedidos de Camus e Isaak, ela fora puxada pelos braços até o quarto onde apanhou mais vezes como uma pecadora condenada.
Isaak estava no quarto de Camus sentado no chão apoiado na porta, tremia-se de raiva, de injustiça, de mágoa enquanto ouvia do outro cômodo os gritos de Eiri e os dizeres de que ela era uma devassa, que era uma desonra, que estava corrompida. Nada tinha acontecido com ela, a moça era bem mais corajosa que ele.
Não era justo... Nada daquilo era justo.
O rapaz se culpava por tudo que acontecia, por ter dado a ideia de beber com o noivo, de não consegui protege-lo, de permitir Eiri sair do casarão e por estar ouvindo o choro da moça a três quartos de distância e estragar o casamento do melhor amigo
O fardo de carregar tanta coisa era imenso que golpeava sua perna, parede, cabeça.
Não queria que nada disso tivesse acontecido. Uma angústia assombrou seus pensamentos, dera trabalho para Camus o dia inteiro, odiava ser um saco pesado de problemas, mas dessa vez não conseguiu. E agora seu irmão estava carregando o peso dele ter sido o causador do problema de Hyoga e Eiri.
Pela primeira vez em sua vida, desejou nunca ter nascido, e quem sabe assim nunca mais traria problemas para Camus. Não seria mais um peso morto para ele.
Tinha esses pensamentos enquanto se distraia com seu canivete, retraindo e guardando a lâmina repetidas vezes.
Hyoga ainda estava desacordado quando foi carregado para dentro da mansão. Camus o passara para as costas de Isaak leva-lo para o quarto enquanto ele controlava a fúria dos parentes da Eiri.
Foi rápido, ele mandou Isaak fazer e fez rápido. Já Eiri e Camus ficara, e agora conseguia ouvir alto e claro o que estava acontecendo com a moça.
Colocou Hyoga na cama e retirou o casaco de Camus e suas botas, ele ainda fedia e estava sujo de terra. Puxou a coberta para cobrir o rapaz que dormia.
Mas ele não estava dormindo.
Ele estava semiconsciente quando ouvia os parentes da Eiri chamando-o de má influência, de covarde. Ele ainda estava acordado quando recebia chuvas de críticas pelo que aconteceu e não foi sua culpa. Ele estava acordado quando ouviu que a jovem nunca se casaria com alguém tão irresponsável como ele.
Ele ouviu quando falaram que tinha que ser o filho bastardo de Mitsumasa Kido.
Ele estava o tempo todo acordado de olhos fechados, e agora abriram lotados de lágrimas.
A família de Eiri sabia bem onde machuca-lo. Desde o início eles não queriam que sua filha se casasse com o filho bastardo. sempre carregará na vida de ser um peso para os outros por ter nascido de um relacionamento fora do casamento de seu pai.
Seu pai, o mesmo homem que carrega o título de ser seu progenitor, também carrega o fardo nas costas de tê-lo como um filho.
Falaram para si que ele nem sabia da existência dele até o acidente de barco que findou na morte de sua mãe.
Hyoga nunca teria liberdade em sua vida de escolher as coisas que queria, nem mesmo com quem se casar. Nenhum de seus outros irmãos teve que passar por isso, com ele teve que ser marcado, tudo ensaiado no devido lugar.
Sabia que esse casamento armado era para manda-lo para longe numa desculpa de fazer parceria com a família da moça e mesmo assim fingir que ele nunca existiu na família.
Seria um bom plano para seu pai, se ele não estragasse tudo.
Levantou-se ficando ainda na cama. Sua cabeça ainda doía de enxaqueca e sentia uma dor aguda no peito como se algo afiado estivesse enfiado ali.
Lembrou-se da única pessoa que tratara bem naquela noite. Não era Camus, ele era apenas um professor e agora estava sofrendo as consequências de sua irresponsabilidade.
Não era Isaak, nem passou por sua cabeça lembrar de seu amigo.
Era Éris... Queria ficar com ela... Queria voltar para ela...
Nesse momento uma dor no peito pulsou como se fosse explodir, Hyoga foi para frente como se fosse vomitar, mas nada saiu.
De novo, nada, de novo, nada... Até que sentia uma irritação no estomago e na garganta. Algo coçando, queria tossir, queria vomitar, mas não saia nada.
Não conseguia respirar e tossir ao mesmo tempo, sentiu seu rosto formigar. Até que saiu da cama e debruçou-se no chão. A coceira aumentava e sentia subir o esôfago até a boca.
Enquanto tossia, lágrimas caiam, saia de sua boca terra e poeira, até enfim sair aquilo que o incomodava, uma mariposa com as asas carcomidas que se jogou no chão.
Não só a borboleta, reparou que tinha traças, besouros e uma pequena lacraia fugindo.
Limpou a saliva da boca com repulsa, nojo, ainda sentia grãos de terra em sua língua. Como aqueles animais estavam dentro dele? Mas logo observou que mesmo com a asa quebrada ela continuava tentando voar, mesmo que baixinho.
Ela voava e caia, mas suas asas ainda continuavam a bater. Até que ela voou um pouco mais alto alcançando a maçaneta da porta e pousou lá.
O rapaz levantou-se da cama descalço sem se importar com o frio do chão e caminhou até a porta, observou mais de perto a mariposa que tinha um padrão de olhos em suas asas, lembrou-se da enciclopédia que lia em casa e memorizou o nome da borboleta, sim, era uma borboleta olho de coruja, e não uma mariposa como achou de primeira.
Viu a maçaneta através do inseto e lembrou-se de Éris. A borboleta caiu e ficou no chão tentando sair da porta através da fresta embaixo e não conseguindo.
Seria um pedido para sair do quarto?
O rapaz loiro abriu a maçaneta e tudo a sua volta estava envolto de neblina fria. A borboleta voou em direção a neblina, caminhou até ela sumindo.
...
..
.
Fale com o autor