Casamento da Morte
9 Capítulo 9
Notas iniciais
...
O gelado nevoeiro cobria o rapaz dos pés à cabeça. Nos corredores não possuíam ninguém, as janelas estavam escuras e o chão era iluminado pela fumaça branca com cheiro forte de mofo.
A borboleta lutava para continuar voando baixo indicando um caminho a frente, andou o corredor inteiro, desceu escadas e até a porta do salão principal.
O frio do assoalho incomodava os pés descalços do loiro, mas não sentia frio, pois não havia vento naquele lugar.
Assim como o interior do casarão, a cidade continuava escura da noite e iluminada no chão com a fumaça desconhecida. A borboleta guiava o caminho lentamente. Agora era as pedras da estrada que incomodavam seus pés, machucavam e se arrependeu de não ter calçado algo.
Ora pisava em pedrinhas e ora pisava na terra. Estava numa cidade desconhecida, num nevoeiro e seguindo uma borboleta. Deveria estar sonhando, se deu conta que estava, mas não quis acordar, seguiu o rumo do inseto até perceber que no chão a fumaça adquiria formatos de rostos, ossos.
Não só perto da borboleta, e sim a sua volta conseguia ver claramente a imagem de vários rostos de pessoas. À medida que ia andando parecia que ficavam cada vez mais nítidos. Até mesmo tentou tocar no rosto de um que se se desfez na fumaça.
Engoliu a seco, ainda conseguia sentir na sua boca alguns grãos de terra, tentou limpar com saliva e cuspir, mas parecia que o incomodo não passava.
Minutos depois de caminhada pareciam vultos que sumiam quando tentava olhar para eles.
Estava começando a ficar com medo e seu organismo reagia em sua bexiga com a vontade de urinar. Não queria mais ficar ali.
A borboleta pousou em seu joelho pra depois cair no chão de costas, observando-a lutar para se desvirar, Hyoga pôs o dedo para ela segurar com as patinhas e apoleirar em seu digito.
Observou mais de perto a borboleta, suas asas estavam se quebrando na ponta, e a do outro lado estava se esfarelando, de suas seis patas, estava apenas com 4. Uma de suas antenas estava pela metade.
Parecia bem maltratada, apesar de ter saído de dentro de si.
Um vulto negro semelhante a uma mão passou pela sua derrubando o inseto no chão, deu um salto com o susto, não havia mais nada perto de si, e agora observava de longe sombras de pessoas caminhando.
O que poderia ter sido aquilo? Nunca saberia. A borboleta voltou a voar baixo e continuou a segui-la.
...
A governanta da família era acostumada a acordar mais cedo que o normal para verificar se a casa estava tudo em ordem. Sua intuição fez leva-la ao quarto da jovem noiva e viu que sua cama estava vazia.
Fora sequestrada? As janelas e portas estavam trancadas. Não haveriam sequestradores. Desconfiou dos visitantes e sua suspeita se solidificou, eles não estavam nos aposentos.
Ela fez um alarde, acordou os patriarcas e criados.
A jovem Eiri sumira na véspera de seu casamento. Nenhum sinal do noivo ou de seus companheiros.
Pensando no pior das hipóteses, a casa entrou numa aglomeração de preocupação mista de raiva. Mas havia um problema, a raiva estava ofuscando o lado da preocupação deixando a família mais fervorosa ainda.
A única filha da família estava sendo corrompida pela família do noivo antes mesmo de se casar. Justamente a única filha criada desde o berço para se tornar uma lady de respeito, fugiu de casa com homens.
Mas uma coisa que percebeu era as malas dos hospedes ainda estavam nos cômodos, e supôs que eles retornariam para busca-la. Ninguém foge sem levar nada antes, e uma das carroças estavam fora do estábulo.
Eles retornariam, e quando retornassem encontrariam com as autoridades, dois dos criados foram busca-las na delegacia e retornariam em breve.
Mas esse breve demorou, e barulhos de cavalos poderiam ser ouvidos do lado de fora
Eles retornaram, não só confirmaram que levaram Eiri como voltaram com o suposto noivo desaparecido. Que desaparecido não tinha nada, ele estava sujo e desacordado.
Ao Hyoga reaparecer a fúria fora tomada pela matriarca da família de Eiri. Ela desde o início não queria entregar sua filha para o filho ilegítimo de Mitsumasa Kido, queria um que fosse legitimo e responsável. Suas primeiras impressões sobre o rapaz se confirmaram com o desserviço dele durante o casório, e em seguida ao seu sumiço. E para piorar, ver sua filha de cabelos soltos e sem espartilho na presença daqueles homens, na presença do ilustre Camus subiu o sangue na cabeça.
...
Camus cansado, fez um trato com os familiares de Eiri após uma longa e exaustiva conversa na madrugada em esperar as autoridades chegar a residência, mas que estava mais do que decidido entre eles que não haveria mais casamento. Estava notavelmente cansado e com olheiras pesadas nos olhos, não descansara uma única vez naquele dia e noite, não era feito de ferro, era humano e estava exausto.
Mesmo sendo pago para cuidar da segurança de Hyoga, não estava ali porque era um empregado e sim porque de coração se importava com aquele menino, os meninos, Isaak e Hyoga.
Caminhando até seu quarto, fez uma pausa no trajeto para respirar e apoiar suas costas na parede. Era uma decisão muito difícil para ele, saiu tudo de seu controle esta noite, agora não estava mais a sua alçada salvar aquele casamento, foi-se tudo por água abaixo.
Sua cabeça girava, primeiro a cena no casório, depois o sumiço misterioso do rapaz, e por então a aparição de um fantasma e pôr fim a confusão na residência.
Em poucas horas seu chefe, pai de seu aluno chegaria à residência e tomaria bem mais as consequências.
Em sua cabeça formulava palavras elegantes e um discurso profissional, se preparando para chegar ao quarto e escrever sua carta de demissão.
Isso significaria que nunca mais veria Hyoga.
Nunca mais o teria como seu aluno...
Nunca mais o teria em sua vida...
Doía demais essa decisão, parecia até que iriam o expulsar de vez em sua vida, pra sempre.
Não queria perder o menino, mas era inevitável.
Tudo saiu de seu controle.
Entrou no quarto cabisbaixo e deu de cara com Isaak sentado no chão, era seu costume sentar no chão, mas dessa vez estava segurando uma de suas mãos.
— Isaak!
Correu até ele e de perto viu que ele estava chorando. E não só isso, sua mão estava ferida com cortes irregulares e pingos de sangue.
Sua primeira ação foi pegar sua echarpe de seu pescoço e envolver a mão do rapaz estancando o sangue.
— Camus... Foi tudo culpa minha.— Dizia entre soluços
— Isaak...
—Se eu não tivesse dado a ideia de sairmos e beber, nada disso teria acontecido... Por minha culpa você levou toda a confusão... Por minha culpa a Senhorita Eiri foi castigada... — Sua voz estava tão anasalada que quase não conseguia falar direito.
— Isaak, por favor. Ouça-me.— pediu para que o menor olhasse para ele, mas era impossível naquela hora. Isaak sentia vergonha por Camus o ver nesse estado. Lamentou-se por não ter um lenço disponível a sua altura para limpar o rosto de seu irmão, fez com a mão. — Ouça com atenção, não foi sua culpa, nada daquilo foi sua culpa.
— é mentira Camus... Se eu não tivesse dado a ideia de beber, nada disso teria acontecido...
— Não é Isaak, você não tinha como saber que aquilo iria acontecer, foi uma fatalidade. Já passou, Hyoga está aqui conosco a salvo, ele está bem.
— Não está. Eu estraguei tudo, todo trabalho que você teve... Eu desmoronei tudo... Tudo
— Não Isaak, não se sinta assim, não carregue todo esse peso e angustia em seu coração. Eu estou aqui meu irmão.
Camus poderia estar cansado, mas faria o que fosse para proteger Isaak. Em sua hierarquia, Isaak vinha primeiro que Hyoga, antes de qualquer coisa nessa vida. Era sua criança, era seu filho, por mais que não pudesse chama-lo assim, o tratava como um. Camus nunca tratou Isaak como um aluno, diferente de Hyoga, sempre o tratava como seu filho. E não muito diferente, acabava tratando os dois como seus mais exemplares alunos.
Camus sabia que aquele pulso cortado significava dor profunda em seu peito, sabia que aquele furacão de emoções, culpa e ressentimento estavam-no fazendo se ferir como forma de punição.
Não queria pensar em perder Isaak, também não queria lembrar em perder Hyoga.
Camus nunca chorara na frente dele, e assim continuou com ele chorando por dois em seus braços.
Quantas vezes segurou-o nos braços chorando até se cansar e dormir. Se fosse possível de alguma maneira transferir toda sua dor para ele, não iria se importar. Desejou que seu desejo se realizasse.
Camus esperaria o rapaz desabar de chorar até dormir, e só depois iria dormir, não importando quantas horas faltassem para o dia amanhecer.
Por outro lado, estava tranquilo em saber que Hyoga descansava tranquilo no quarto ao lado...
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