Casamento Por Contrato

24 Escondendo-se da dor...


Notas iniciais
N/A: Reta final! Espero que gostem! Beijos

POV Draco

Eu sonhei.

Naquele lugar era impossível dormir, quanto mais sonhar.

Fazia alguns meses que eu estava em Azkaban, eu não consigo contar os dias porque nem ao menos posso ver a luz do sol. A prisão não era mais guarnecida por dementadores, mas aquele lugar ficou por tanto tempo sob o domínio deles que adquiriu características próprias, como frieza, um ar pesado, cheiro nauseabundo e uma escuridão interminável.

Eu morreria de frio ali na primeira semana se algo não tivesse mudado nessa história toda. Harry Potter apareceu uma semana depois da minha prisão, estava sendo supervisionado por Inomináveis, o que me deixou temeroso, mas ele parecia muito mais calmo e liberto se é que posso falar assim sobre ele.

Não entendi o que ele veio fazer ali, mas sei que tentou passar um pouco de confiança quando me disse que minha condição havia melhorado e que eu poderia dispor de alguns privilégios ali, como roupas melhores, uma limpeza do lugar e uma comida digna. E, desde então, sou bem tratado pelos guardas.

Não fui libertado e nem consegui conversar com Blaise. Sempre que o mencionava os guardas se entreolhavam ressabiados e nada diziam. Meu coração se apertava quando chegava a pensar que algo sério podia ter acontecido, mas pelo que tudo indicava, eu só conseguiria contato com alguém quando finalmente pudesse sair dali. Em doze anos.

Suspirei pesadamente e baguncei meus cabelos, eu deveria estar horrível, mais branco do que o habitual por não ter mais visto o sol. Não dormia direito há dias, porque eu sempre ouvia gritos e lamentos do restante dos presos. Convivi tempo demais do lado mal da história para me importar com as sensações horríveis que sentia ali, mas parece que as outras pessoas odiavam o que sentiam.

E então eu sonhara naquela tarde, noite ou manhã, já não tinha mais noção do tempo. Sonhei com ela, com a minha ruiva. Ela tinha lágrimas pelo rosto, mas seus olhos azuis brilhavam de uma maneira ofuscante. Quase me cegavam. Cheguei a levantar o braço e tentar tocá-la, mas não consegui me aproximar. Só consegui vislumbrar seu sorriso repleto de felicidade antes de acordar completamente.

Gina. Minha Gina. Onde será que ela estava agora? Para onde fora? Quanto tempo havia se passado? Será que sua barriga estava enorme e abrigando nosso filho? Ou ela já dera a luz? E se houvesse acontecido alguma coisa? Eu não consegui pensar em mais nada, só nas perguntas intermináveis que surgiam na minha mente a respeito da minha família.

E como se não bastasse minha mente parecia querer me enganar a todo momento. Eu podia sentir o cheio de Enzo perto de mim, ouvir sua voz me chamando, sua respiração calma de quando dormia comigo. Mas ele nunca estava ali. Nunca.

- Draco?

Eu fingi não ouvir, tentei não ouvir, mas quando associei a voz à pessoa eu me surpreendi. Ela não podia estar. Não devia estar aqui.

- Finalmente você acordou. – ouvi novamente e me obriguei a levantar e encará-la

Ela estava na cela em frente, ajoelhada ao chão e segurando fortemente as barras. Júlia estava presa. Finalmente.

- Encontraram você, foi? – sorri de lado

Eu podia perder tudo, mas jamais meu orgulho, jamais a minha felicidade ao vê-la finalmente pagando por tudo o que fizera a mim.

- Eu quis vir ver você... – ela disse com a voz distante e fraca – Não entendo porque eles não me deixam dormir com você...

- Dormir comigo? Do quê... – e então eu vi, os olhos dela estavam opacos e distantes

Júlia não estava em pela consciência, não sabia distinguir a realidade de seus sonhos, de suas vontades. A bela mulher que um dia eu apreciei, a mesma que havia acabado com a minha vida, enlouquecera.

- Como veio parar aqui? – pedi me aproximando das grades

Ela aparecera ali enquanto eu dormia, de alguma maneira sabia o que estava se passando lá fora e eu precisa saber, ter notícias. Ainda sei manipular quem eu quero.

- Uns homens me trouxeram... – ela deu de ombros – Eu disse a eles que você era meu marido, mas eles riram de mim...O que aconteceu Draco? Por que não me deixam ficar com você?

- Eles não devem ter entendido, eu vou falar com eles depois! – eu me segurei as barras com cautela, eu precisava pensar muito bem no que eu falava – Como estão as coisas, lá em casa?

- Oh! – ela pareceu levar um susto e então sorriu calmamente – Estão bem...Enzo voltou a escola, mas não me deixam me aproximar dele...não querem que eu fique com nosso filho...

Ela acreditava que era Alexia ou a Gina? Eu não estava entendendo mais nada.

- Draco? – ela me chamou baixinho, ergui meus olhos em sua direção, completamente confuso – Você já me traiu?

Eu nunca estive com você, tentei dizer, mas me controlei. Ainda precisava saber de Gina.

- Não. Nunca.

- Blaise foi lá em casa, queria fugir comigo, mas eu neguei...disse que amava você...então ele disse que havia uma mulher, uma mulher ruiva que estava grávida de você...disse que você sabia e que a amava...

Merlin, o que ela estava falando? Ela não podia ter feito algo para a Gina, podia? Não! Não! Não!

- Eu os matei...os dois... – ela disse como se não quisesse nada

Não...Minha ruiva, não...meu filho não!

- SUA VADIA! – eu me levantei furioso e me agarrei com fúria as barras – EU VOU ACABAR COM VOCÊ! VOU MATAR VOCÊ!

- Draco! – ela parecia assustada – O que você está dizendo meu amor?

- EU NÃO SOU SEU AMOR! NUNCA FUI! NUNCA ME CASEI COM VOCÊ E JAMAIS CASARIA PORQUE TE ODEIO, SEMPRE ODIEI! EU QUERO QUE VOCÊ MORRA! – cuspi para a frente querendo que a atingisse, mas a cela dela estava longe demais – SE EU SAIR DAQUI ALGUM DIA VOU MATAR VOCÊ!

- Malfoy! – um guarda apareceu, apontando a varinha para mim – Afaste-se da grade!

- NÃO ATÉ EU CONSEGUIR ACABAR COM ELA! – a raiva me subiu a cabeça, pelo menos ela escondia a dor

- Eu vou estuporá-lo! – o guarda ameaçou

Eu me afastei relutante e então a ficha caiu. Ela disse que matara a Gina. E o Blaise. Eu havia perdido o amor da minha vida. Era simples assim? Ou a dor lancinante em meu peito dizia que eu sofreria pelo resto dos meus dias com a mente naquela que eu amei, mas que tive por tão pouco tempo?

- Então me mate. Eu prefiro assim. – pedi deixando os braços caírem ao longo do corpo e as lágrimas finalmente descerem pelo meu rosto

- Ele não sabe o que está fazendo. Perdoe ele senhor... – Júlia chorava agora, ela pedia alucinada ao guarda que me ajudasse

Ela enlouquecera. Mas merecia a morte.

- Tire ela daqui, leve ela para longe de mim...eu imploro! Por favor, tire ela daqui! – eu caí de joelhos no piso frio e fiquei olhando minhas mãos

Como podia ser que eu tivesse tanto azar se sempre fugi quando precisava matar alguém? Como podia ser que eu sofresse tanto sem nunca ter feito nada de mal a alguém?

Por que, Merlin? Por que você me odeia tanto? Eu estava feliz por ter pego doze anos e depois poder voltar para a minha família, mas você a destruiu. Você acabou com ela em menos de um ano. Tudo o que eu tinha, tudo o que prezava, você tirou de mim. O que me sobrara agora?

Enzo.

Era só por ele que eu continuaria ali, só pelo meu filho. Mas e se algo acontecesse a ele também? Ele não tinha mais a Gina, nem o padrinho que o amava tanto. Ele não tinha mais ninguém? Com quem ele estaria agora? Que estava cuidando dele? Será que ele estava com fome? Frio? Onde meu filho estava?

E eu caí na inconsciência, na escuridão eterna. Desejei morrer, mas não fui atendido, então beirei a realidade e o sonho por meses a fio, a dor lancinante em meu peito não diminuía, mas não aumentava. As lembranças, os sonhos, a esperança de dias felizes que rondavam meu pensamento tentavam me deixar são, mas só conseguiam me enganar.

Quando finalmente me disseram que eu teria minha liberdade, eu implorei para ficar. Ali naquela escuridão eu não precisava viver, eu não precisava sentir ou pensar. Eu não queria pensar que eu a havia perdido para sempre.

Havia se passado dois anos, para mim parecera uma eternidade infindável de agonia. Eu não perguntei por que me libertaram, não queria saber, nem ao menos pensar em quem eu ainda era. A única coisa que percebi ao ver a luz do sol quando saí daquela prisão na ilha era que eu parecia mais um fantasma do que uma pessoa. E eu queria continuar assim.

- Malfoy!

Era o Potter, ele acenava de um barco na praia. Eu deveria seguir com ele para o continente, quase pensei em fugir, mas a imagem de meu filho surgiu em minha mente.

- Você está péssimo! – ele ressaltou quando entrei no barco – Deveria estar feliz por ter sido solto! Há muitas coisas para contar!

Harry estava muito melhor do que eu. Parecia extremamente feliz e voltara a ser o garoto de Hogwarts. O Potter perfeito! E eu só dei esse apelido a ele, porque sempre senti inveja da vida que ele tinha. Esse sentimento só havia sumido de mim quando Gina entrara em minha vida.

Mas agora eu nunca mais a veria...

Nunca mais.

- Eu acho que vou ter que te levar para um hospital! – Harry se aproximou me segurando – Você está quase morrendo...

- Quero ver meu filho! – eu o segurei fortemente – É só o que eu peço! Quero ver meu filho antes de qualquer coisa! Onde está Enzo?

- Está na casa dos pais da Gina! – ele sorriu fracamente – Vou levar você até ele!

E eu pude sorrir aliviado. Enzo estava bem e com certeza haviam cuidado bem dele. Meu pequeno deve ter sido mimado, acolhido, deve ter se sentido bem, deve ter tido alguém que o colocasse para dormir à noite. Ele ficou bem esse tempo todo.

- Júlia foi presa há meses... – eu sussurrei

- Foi! – Harry olhou o mar, parecia estar com ódio – Ela cometeu um assassinato...e quase matou minha mulher! Eu quis matá-la, mas não deixaram...quando soube que ela estava em uma cela em frente a sua pedi a transferência dela...disseram que vocês dois brigaram...

- Eu queria matá-la. – eu disse simplesmente, ele iria entender, mas então algo surgiu em minha mente – Quem é sua mulher?

Ele sorriu, calmamente. Ele realmente estava feliz.

- Pansy.

E todo mundo parecia bem. Menos eu.

Notas finais
N/A: Comentem! XD