Cartas pra Você
9 Snap Out of It
Baekhyun trabalhou durante o seu turno com a cabeça nas nuvens. Mal conseguia prestar atenção com as coisas ao seu redor, pois tudo o que ele pensava era sobre Do Kyungsoo. Eram, possivelmente, amigos a essa altura do campeonato. Trocavam e-mails e músicas sem que o próprio soubesse que quem respondia todas as suas dúvidas sobre Baekhyun, era ele mesmo. As vezes, era até mesmo engraçado a maneira que Kyungsoo tentava disfarçar com Baekhyun, mas confidenciava tudo à A.M., sem saber que estava falando com a mesma pessoa. Claro, Baekhyun se sentia mal por mentir assim para ele. Muitas vezes pensava sobre como contaria pra ele. Uma vez que as coisas saíram assim do controle sem que Baekhyun pretendesse, e quando cada vez mais, foi ficando deslumbrado de saber mais e mais sobre ele que, quando seu por si, já era tarde demais.
Ou será que era?
Baekhyun suspirou, retirando o lixo de uma clientela de adolescentes que tinha acabado de sair da cafeteria. Escondeu os pacotes de cigarro pois, se o seu chefe visse, provavelmente iria culpá-lo por não ter feito a fiscalização direito. Porém, não era como se aquele fosse apenas o seu trabalho — Onew também tinha sua parcela de culpa em relação a tudo aquilo.
“Baekhyun?”
E falando no diabo…
Baekhyun se virou, tentando disfarçar a cara de tédio. Onew revirou os olhos, pois claramente a sua capacidade de disfarce era horrível.
“Nem vem. É só você que sabe mexer naquele trambolho que Yixing chama de música.”
Baekhyun sorriu.
“É uma jukebox. E o que foi que aconteceu?”
Onew deu de ombros.
“Sei lá. Você que vai ter que dizer.”
Baekyun suspirou, já entendendo tudo. Provavelmente mexeram na seleção e ferraram com tudo. Odiava quando adolescentes vinham à cafeteria sem supervisão, porque era sempre a mesma história de bagunças, bagunças e mais trabalho para ele. No entanto, era ótimo para os negócios, então não podia reclamar tanto assim.
Se dirigiu até a bendita jukebox, e entendeu logo o que tinha acontecido: algum maldito tinha emperrado o disco de vinil de maneira errada, e agora ele estava prestes a ser riscado da existência. O pior? Era um do Arctic Monkeys.
“Pelo amor de Jesus Cristo!” Baekhyun reclamou, correndo como se fosse um bombeiro tentando impedir um incêndio.
Ele fez o possível para mover o disco com cautela, quase como se estivesse inspecionando a peça. Sentiu-se como um cientista tentando fazer um experimento dar certo a todo custo, e quando finalmente conseguiu fazer a máquina funcionar de novo, percebeu toda a tensão dos seus músculos saírem de uma vez. O que demorou poucos segundos, porque encarando do lado de fora do vidro que separava a cafeteria da rua, Baekhyun viu Kim Minseok chegar com sua banda completa.
“Ah, mais essa agora.”
Com o “Suck it and See” em mãos, Baekhyun voltou ele para dentro do pequeno armário de acesso restrito a funcionários. Suspirou, tentando em vão manter sua aparência melhor para encarar o furacão que seria lidar com a Seoul Revival. Caminhou com um sorriso forçado até onde eles escolheram se sentar, e prontamente tirou o caderninho do bolso para anotar os pedidos feito um funcionário dedicado que não era.
“Boa tarde, pessoal.” Baekhyun disse, tentando soar simpático.
Junmyeon, claro, foi o primeiro a cumprimentá-lo com um sorriso tão rosado quanto seu cabelo.
“E aí, Baek? Tudo certo?”
A voz dele era calma e animada ao mesmo tempo, o que o deixou ligeiramente menos ansioso. Bem, se um dos irmãos estava feliz, queria dizer que…
“Ah, Ha, Ha, Ha!”
Uma risada exagerada se ouviu do corredor que dava para o banheiro, que Baekhyun logo percebeu pertencer a Kim Jongdae. Junmyeon suspirou, já imaginando o que o irmão poderia estar aprontando.
”Melhor você ir ver o que tá acontecendo." disse Seulgi para ele, a baixista da banda.
Junmyeon concordou, levantando-se da mesa e se dirigindo até o banheiro.
"Até mais, Baek" disse antes de sair.
Baekhyun piscou, sem entender muita coisa.
"Então…" ele pigarreou, voltando sua atenção ao pedido, "Em que posso ajudar?"
"Nós viemos falar com o seu chefe." Minseok começou, firme como sempre, "Precisamos acertar as coisas sobre o festival."
Baekhyun arregalou os olhos.
"Y-yixing não está." Ele gaguejou, "Uh, vocês… vocês vão ter que voltar na próxima semana porque… porque… porque ele foi viajar, é isso."
Seulgi suspirou, apoiando os cotovelos na mesa com uma expressão cansada.
"Poxa, e a gente veio de tão longe pra isso. Sabe, a gente precisa ensaiar aqui algumas vezes pra ver como o som vai sair, coisas desse tipo. Mas também dá pra perceber que esse lugar nunca fica vazio."
Baekhyun concordou com um sorriso.
"Sim, bem… ensaios só serão possíveis na semana do evento. Até lá, o espaço funciona normalmente."
Minseok riu seco.
"Quer dizer que além de você ter me arrastado pra esse evento sem saber nada sobre ele, você também tá me dizendo que não vamos poder ensaiar aqui? Tá de brincadeira, Baek?"
Baekhyun sorriu amarelo.
"Minseok… vamos… vamos conversar, sim? Olha, eu te disse que é como se fosse um concurso. Se você for ensaiar, vai sair na frente dos outros competidores e o evento todo pode ser comprometido. Venham na semana do festival, ensaiem algumas horas mais cedo, e botem pra quebrar. O que mais é preciso?"
"WAH! BAEKHYUN!"
Baekhyun pulou de susto e pelo impacto do abraço que Jongdae, o caçula dos irmãos, causou em si quando correu na sua direção para lhe agarrar. Jongdae gargalhou alto pela sua reação, como se fosse a piada mais engraçada do mundo.
"Caramba, amor, quanto tempo! Que saudade de você!"
Baekhyun ficou em sete tons de vermelho pelo apelido carinhoso que ele havia usado. E, bem, também porque o sorriso fácil de Jongdae com aquele piercing no canto da boca deixava tudo muito perturbar. Ele era lindo de morrer mesmo.
"Você não sabe quem eu encontrei no banheiro." Ele riu mais uma vez, tirando um maço de cigarro do bolso, "Um fanboy desesperado. Disse que amava a banda, e a minha voz. Não aguentei, dei um beijinho nele. Foi engraçado, porque ele quase morreu."
"Por Deus, Jongdae, você precisa parar de dar em cima de todo mundo!" Seulgi o repreendeu.
Jongdae piscou para ela.
"É irresistível, gata. Todos querem uma lasquinha de mim, sou a própria Britney Spears."
"Exceto que Piece of Me foi escrito para paparazzis, e não para paixões" Junmyeon pontuou, assim que voltou para a mesa, "Bem, o garoto está bem agora. Acredito que tenha voltado para a mesa 4, lá do outro lado. E… na-na-ni-na-não, Kim Jongdae, você não vai até lá!" Junmyeon o repreendeu quando o irmão deu dois passos em direção pra onde ele mencionara.
"Aff, hyung, você é muito chato."
"Senta." Seulgi disse, revirando os olhos enquanto puxava uma cadeira pra ele.
"E então, Baekhyun? Como você vai?" Jongdae disse, sentando na cadeira da ponta.
Ele vestia… bem, nada, pois estava usando uma camiseta de arrastão preta que cobria apenas buracos da sua pele. As tatuagens nos ombros, os piercings nos mamilos, e nas orelhas, era o que distinguia Jongdae numa multidão. Ele não era uma estrela do rock, mas sim o próprio Sol. Todos orbitavam magneticamente até ele.
"B-bem." Baekhyun gaguejou.
"Solteiro?"
Baekhyun sentiu as bochechas queimarem.
"Por favor, Dae, não começa." Junmyeon repreendeu.
Jongdae sorriu, sentindo-se bem por fazê-lo ficar tímido. Era sempre assim, mesmo quando ainda ficaram juntos. Ele tinha prazer em provocar.
"Sinto falta de você, pra falar a verdade."
Baekhyun negou, mudando de assunto. Apontou para o resto da banda, tentando ignorar a insistência do irmão Kim mais novo.
"O que vão querer?"
"Eu quero um beijo seu." Jongdae piscou.
Minseok olhou feio para todos. Passou a mão pelos cabelos verde água penteados para trás com gel, fazendo com que o undercut ficasse ainda mais à mostra. Ele era o mais reservado de todos, pois sempre vestia tudo de preto cobrindo da cabeça aos pés. O que o marcava mesmo eram as maquiagens nos olhos.
"Eu não vou querer nada." Disse emburrado.
Seulgi deu de ombros.
"Quero bolo."
"E eu um chocolate quente."
Baekhyun anotou tudo, sabendo bem que precisaria lembrar Onew de não colocar canela em nada que tocasse o paladar de Kim Junmyeon. Quando foi saindo da mesa, é que ouviu uma gritaria na porta de frente. Revirou os olhos já sabendo que teria que lidar com mais um grupo de adolescentes, mas quando encarou direito, travou no lugar. Não era um grupo de adolescentes qualquer, e sim Do Kyungsoo com seus dois melhores amigos.
"Ah, merda!" Ele exclamou baixinho.
Correu para cozinha feito um bobão, e tentou se esconder nos fundos enquanto repassava os pedidos aos cozinheiros e baristas. Deus, por que as coisas pra ele nunca podiam ser normais? Era pedir muito? Agora tinha certeza que iria ter um Kim Jongdae perturbando o seu… bem, seja lá o que Kyungsoo era. O fato era que isso aconteceria se ele não tomasse cuidado.
"Hey! Onew!" Baekhyun o chamou, puxando para um canto. "Troca comigo. Vou ficar lavando louça até às 16h, e você termina os pedidos. Pode ser?"
Onew riu como se a ideia fosse ridícula.
"Eu não vou chegar perto daquele porquinho-da-índia que você chama de melhor amigo. Vá servir Kim Minseok e me deixa em paz."
"Não! Pera aí, é uma troca justa. Você odeia lavar louça."
"Odeio. Mas eu odeio ainda mais servir gente mal-educada. Lembre-se de que foi VOCÊ quem quis apresentar a banda dele aqui na cafeteria. Agora lide com isso."
Baekhyun tentou protestar novamente, mas Onew já tinha saído da cozinha para o salão com passadas duras. Era impossível negociar com ele, principalmente porque tinham uma pequena diferença de idade que implicava numa hierarquia em que ele sempre estava em desvantagem. Então ele só aceitou o seu destino, e foi pegar os pedidos de Do Kyungsoo e seus amigos na mesa 8.
Baekhyun estava vindo na sua direção com um olhar um tanto fechado. Kyungsoo sentiu o estômago se revirar em um enxame de borboletas de circo atiradoras de fogo, se é que isso existia. Em resumo, estava morrendo de ansiedade ali mesmo na mesa da cafeteira.
"Kyungsoo… fica frio, cara" Luhan sussurrou, tentando em vão lhe acalmar.
Mas assim que Baekhyun parou do seu lado, Kyungsoo se levantou num pulo, arregalando os olhos por trás das lentes redondas que o ajudavam a enxergar. Baekhyun piscou, sem entender o que estava acontecendo.
"Baekhyun!" Ele gritou, afobado.
Luhan bateu a mão na testa, envergonhado pelo desespero do seu amigo. Mal sabia ele que Baekhyun achava todo aquele entusiasmo muito fofo.
"Ah, sim. Oi, Kyungsoo." Ele disse, sorrindo timidamente para o moreno.
"E-eu vim aqui… estou a-aqui… como… como… como você, é, falou. E tals."
"Eu falei…?"
Kyungsoo mordeu a bochecha por dentro. Merda, ele estava sendo esquisito de novo. Como poderia fazer com que eles saíssem juntos se nem ao menos conseguia falar com ele como alguém normal?
"Melody's. O Melody's, lembra? O lugar que vende… vende, é, vende… música! E… e… e vinis."
"Kyungsoo, você está bem? Tá falando esquisito."
"É caxumba." Chanyeol interrompeu, "Ele tem caxumba, e afetou o cérebro todo. Um horror."
Luhan gargalhou na mesa, fazendo um high-five com Chanyeol que agora também tinha se juntado a ele na risada.
"Pelo amor de Deus! Calem a boca!" Kyungsoo exclamou, ficando em cinquenta tons de vermelho.
Baekhyun sorriu.
"Se você quer que eu vá com você até o Melody's hoje, podemos ir. Meu turno acaba às 18h. Mas primeiro eu preciso que vocês me ajudem a escolher os pedidos."
"Não vamos pedir nada." Luhan informou, escondendo um sorriso malicioso.
"É, esse bobão só queria te chamar pra..."
"Cala a boca, Chanyeol!" Luhan o interrompeu, colocando literalmente a mão em cima da boca dele.
Baekhyun ergueu as sobrancelhas, fazendo Kyungsoo desejar a morte pela vergonha que estava sentindo.
"Escuta, vem comigo rapidinho." Do disse, puxando Baekhyun pela mão com seja lá qual coragem impulsiva que o estava dominando naquele momento.
Ambos foram andando até onde a jukebox estava parada tocando "Cigarettes Daydreams", de Cage the Elephant. O estômago de Kyungsoo continuava voando sozinho em uma guerra de borboletas ansiosas, e suas mãos provavelmente estavam mais geladas que o pico do Himalaia, mas mesmo assim, ele engoliu seco e olhou para Baekhyun com um sorriso esquisito.
"Você que escolheu?" Ele indicou a jukebox com a cabeça.
Baekhyun sorriu timidamente.
"Sim. Foi eu sim."
"Ó-ótimo gosto. Como s-sempre." Kyungsoo gaguejou, puxando as cordas do seu moletom da caverna do dragão que tinha desde os 15 anos.
"Obrigado. Acho que essa aqui veio naquela sua playlist."
"Uh, sobre isso… é, isso que eu queria… é, te falar. E tals."
Baekhyun riu.
"Você fala muito engraçado quando está nervoso."
Kyungsoo riu, mas pareceu mais um choro fino. Trocou as mãos para dentro do bolso do moletom, articulando vogais desconexas sem realmente dizer nada. Era péssimo dando explicações, mas era pior quando precisava fazer isso pra alguém que gostava.
Baekhyun sorriu, segurando o seu rosto para que ele o encarasse. De repente, Kyungsoo prendeu a respiração. Meu deus ele ia lhe beijar? Não podia! Ele era BV, praticamente, como iria beijar um garoto tão incrível como ele? E se a língua fosse muito dura? E se Baekhyun pensasse que ele tivesse bafo? E se…
"Kyungsoo…" Baekhyun sussurrou, "Respira."
Então, como um bom garoto, ele obedeceu aquela ordem sem questionar. Respirou fundo e expirou, enquanto se encaravam nos olhos. Baekhyun raspou de leve os dedos pela barba inexistente de Kyungsoo, o que deixou seu corpo todo arrepiado da cabeça aos pés.
"Escuta, eu… te encontro lá, pode ser? E aí você pode tomar um tempinho pra… você sabe, se acalmar."
Kyungsoo riu novamente, claramente nervoso com a situação.
"Sim, sim. Sim. Sim, sim."
Baekhyun sorriu pra ele.
"Obrigado por vir pessoalmente me ver. Achei legal da sua parte."
"Ah!" Kyungsoo arfou, "É mesmo? Você achou? Eu posso vir todos os dias que você quiser, qualquer hora."
Baekhyun riu da sua empolgação.
"Não, você não precisa. Podemos nos encontrar depois do trabalho quando você tiver tempo."
"BAEKHYUN, EU ACEITO."
"O quê?"
"O quê?" Kyungsoo repetiu, respirando rápido.
"Eu não tô entendendo."
"Ah, e-eu… eu… uh, te vejo mais tarde? Te vejo mais tarde. Vejo você mais tarde. Certo?"
Baekhyun concordou com um sorriso tímido. Kyungsoo o imitou, mas foi o primeiro a correr dali como se fosse o próprio Flash. Não se ligou que estava deixando os amigos pra trás, porque o seu coração batia tão forte que ele apenas sentiu precisar de ar.
Quando colocou os pés no concreto da rua do lado de fora, quase vomitou. Com as mãos no joelho, ele respirou fundo pelo menos umas sete vezes pra conseguir acalmar o coração, a cabeça e o estômago. Se fosse fumante, provavelmente iria precisar de um cigarro naquele momento. Mas como era apenas um jovem rapaz de 19 anos, ele queria mesmo era uma montanha de milkshake.
"Hey! Do Kyungsoo!"
Ouviu a voz de Luhan gritando de longe, como quem ouvia a voz da própria consciência. Mas ele não se virou para encontrá-lo. Kyungsoo sentiu uma mão grande lhe puxando pra cima como quem queria afogá-lo numa poça d'água. Era Park Chanyeol, irritado como sempre, esbravejando com a voz grossa:
"Tá maluco, porra? Deixou a gente lá sozinho."
Kyungsoo olhou pra cima, com os olhos marejando para o seu amigo de 1.80 metros:
"Chanyeol, eu quero morrer."
Do seu outro lado, Luhan riu baixinho do seu drama.
"É normal ficar nervoso, faz parte do conjunto de amar. Mas você nem o beijou e já tá assim, imagina quando acontecer…" Luhan ressaltou, fazendo a cabeça de Kyungsoo explodir.
"Não fala! Não diz nada! Eu não posso pensar sobre isso!"
Kyungsoo se curvou de novo, tentando fugir da realidade o máximo possível. Estava tremendo o corpo com toda a ansiedade que possuía em todos os seus 1.70 de altura.
"Por Deus, Kyungsoo, você vai morrer!" Chanyeol exclamou, completamente assustado.
"Que isso, Chanyeol, tá doido? Olha, vamos levar ele lá pra sua casa. Daí a gente vê o que faz. Kyungsoo, para de ser doido. Vambora!"
Kyungsoo obedeceu seus amigos e seguiu junto até o metrô com cada um deles segurando seu corpo lado a lado. Pareciam estar carregando o corpo de alguém que passou a noite fora de casa bebendo até cair, mas era só uma crise adolescente. E um pouquinho de drama, nada demais.
O caminho inteiro de volta para a sociedade suburbana, Kyungsoo ficou pensando nele. Nos ombros de Baekhyun, nos olhos dele, na maneira que a risada dele era tão gostosa que até mesmo deixava Kyungsoo um pouco quente. Tudo sobre ele lhe afetava.
Kyungsoo sempre foi estupidamente romântico, daqueles de dar dó. Mas sendo assim tão sensível, também tinha medo de ter o coração partido muito facilmente por quem não lhe dava valor. Sabia muito bem qual era o seu valor naquele mundo que não o ajudava muito a ser valorizado, e por isso, não tinha medo de dar a cara a tapa.
Bem, isso antes de Byun Baekhyun aparecer na sua vida.
Enquanto tinha a cabeça recostada no ombro de Chanyeol, ele sentiu vontade de escrever para alguém. Algum amigo que tivesse a sua sensibilidade de entender o mundo como um lugar reservado para todas as pessoas, e mesmo os sonhadores como ele. Os corações românticos fazem daquela terra um lugar um pouquinho mais caloroso e sonhador.
Lembrou de A.M., claro, mas também sabia que não poderia mandar nada para ele. Talvez, se fosse apenas uma reflexão, ele não acharia ruim…
Kyungsoo suspirou, já abrindo o celular para digitar a maior mensagem que já escreveu no tempo curto que tinha. Se sentiu ridículo quando apertou "enviar", mas precisava tanto conversar com alguém que nem ao menos ligou pelo julgamento alheio. Esperou até que o metrô parou na estação que dava para a loja de CD's, e começou a rezar para quem quisesse lhe ouvir. Dali a poucos minutos teria seu primeiro encontro com Byun Baekhyun pela primeira vez.
"Você está pronto? Tem certeza que não quer ir lá pra casa?" Chanyeol perguntou baixinho.
Mas Kyungsoo dispensou com um aceno. Não precisava de nada além da sua coragem e um pouquinho de calmante. Seus amigos lhe desejaram boa sorte assim que o metrô parou, e Kyungsoo seguiu seu caminho. Era agora ou nunca, e tudo estava em suas mãos.
Quando chegou no Melody's, correu para a secção de rock alternativo. Estava nervoso e precisava urgentemente de Arctic Monkeys para se distrair. Conseguiu ouvir metade de um álbum inteiro até que sentisse um dedo cutucando o seu ombro. Kyungsoo pulou no lugar, assustado, achando que estava sendo assombrado por fantasmas à luz do dia. Mas quando se virou, achou Baekhyun ali com um sorriso divertido no rosto.
Kyungsoo tirou os fones, mais vermelho do que o pôr do sol em Jeju.
"B-baek."
"Ei, você." Baekhyun riu, "Desculpa, não sabia que se assustava tão fácil."
Kyungsoo riu baixinho, querendo morrer na frente dele.
"É…" ele gaguejou.
Ficaram se encarando por alguns segundos em um silêncio terrível de desconfortável. Era basicamente o primeiro encontro que Kyungsoo tinha na vida e já queria morrer, se matar, se atingido por um raio, salvo por uma nação alienígena de outra galáxia que veio a Terra em uma missão de paz. Porém, não tinha esse privilégio. Ele teria que fingir não ser viado pra Baekhyun não desistir dele.
"Você já veio aqui antes?" Kyungsoo perguntou, fazendo a clássica pergunta que fazem em primeiros encontros.
Baekhyun sorriu pra ele, achando graça.
"Eu já vim no passado. Desde quando comecei na Café Universe não tive muita disposição para fazer algo depois dos turnos de trabalho."
Claro, né, ele trabalhava quase todos os dias. Kyungsoo se sentiu burro como uma porta.
"Claro, faz sentido."
"Mas e você?" Baekhyun perguntou, cruzando os braços enquanto xeretava os discos de rock alternativo, "Gosta daqui?"
Kyungsoo concordou com um aceno entusiasmado.
"Adoro esse lugar. Não sei porque, me sinto mais próximo da música quando vejo tantas mídias diferentes assim. É doido pensar que hoje a gente tem um mundo musical na ponta dos dedos. As pessoas antes paravam para ouvir música pela música, e não para tocar no fundo enquanto você executa tarefas chatas."
Baekhyun o encarou com um sorriso tímido. Kyungsoo queria saber o que ele estava passando, mas não o pressionou. Era melhor que ele mesmo fosse se abrindo aos poucos.
"Você tá ouvindo o A.M."
Não era uma pergunta. Baekhyun só estava dizendo para ele que tinha notado a sua escolha peculiar.
Kyungsoo riu, lembrando-se da outra conversa que teve com seu ouvinte pela internet. A.M. agora tinha para ele vários significados.
"Digamos que pra mim ele tem um certo significado."
Baekhyun sorriu largo pra ele, aparentando estar bem feliz por saber disso. Ele foi até o seletor de música e escolheu uma para tocar. Era "Snap Out of It", uma bem requisitada na cafeteria. Baekhyun pegou o par de headphones que estavam pendurados na cabine e colocou sobre a cabeça de Kyungsoo. Agora os dois ouviam a mesma música, e os mesmos riff de guitarra alternativa.
Em todos os seus 19 anos de vida, Kyungsoo nunca tinha feito isso com alguém antes, nem mesmo com seus melhores amigos. Por isso, ficou surpreso quando Baekhyun lhe tirou para dançar enquanto puxava seu corpo para perto do dele. Ele se movia tão bem com o corpo, que Kyungsoo ficou hipnotizado. Os ombros iam para frente, e os lábios tinham um sorriso congelado que vez ou outra soltava um som de felicidade. E era tão lindo.
Kyungsoo se soltou aos poucos, mas pode aproveitar a maneira que ele o conduzia como dois meninos fãs de música alternativa dançando no meio de uma loja no crepúsculo da noite. A mão dele foi pra cintura de Kyungsoo e quando a música chegou no final, Baekhyun o girou em seus braços, abraçando por trás.
O corpo dele era minimamente mais alto que o de Kyungsoo, mas ainda assim, ele tinha os ombros bem maiores. A maneira que Kyungsoo encaixou perfeitamente no abraço dele era criminosa. Ele nunca mais iria esquecer da sensação de estar ali naquele abraço apertado.
A música mudou para a próxima do álbum mas nenhum deles se mexeu. Baekhyun tinha o queixo na curva do pescoço de Kyungsoo sem pedir permissão. As mãos deles estavam juntas, mas só Kyungsoo suava feito a bichinha desesperada que era. Estava apavorado. Se ele quisesse beijá-lo hoje, provavelmente iria morrer do coração. Por isso, ele foi se virando aos poucos com intenção de se afastar, mas Baekhyun deve ter entendido outra coisa. Porque no mesmo segundo, enfiou as mãos no bolso de trás das calças de Kyungsoo, e tinha o rosto colado no seu.
Kyungsoo arregalou os olhos por trás da lente grande. Estava mudo, porque estava morrendo de medo. Mas a música já estava mudando para "I Wanna Be Yours", o que significava dança lenta.
Estavam tão colados que Baekhyun não precisou de muito para balançar os corpos grudados enquanto dançavam juntos mais uma vez. Uma dança lenta, cheia de não dizeres. Não precisava, porque a letra já falava mais do que o necessário. Kyungsoo fechou os olhos e deitou a cabeça no ombro dele. Sentiu as mãos dele subir até suas costas, abraçando-o forte. Ficaram grudados daquele jeito até o álbum enfim acabar.
O silêncio agora era preenchido por alguns outros adolescentes fazendo arruaça, mas nenhum dos dois se mexeu daquele abraço. O coração de Kyungsoo batia tão rápido quando um liquidificador quebrado, e não havia um pingo de coragem restante para dar o próximo movimento necessário. Sabia que qualquer coisa que dissesse iria quebrar o clima, então estava esperando. Esperando. Esperando.
"Eu tô sentindo o seu coração bater." Baekhyun sussurrou pra ele, acariciando as costas com o polegar, "Está nervoso?"
Kyungsoo engoliu em seco. Sim, caramba, nervoso não era nem perto do que sentia ali. Queria gritar para o mundo inteiro que estava nos braços dançando sua banda favorita com a sua pessoa favorita. Como poderia alguém morrer de amor? Talvez agora entendia um pouco mais do que diziam os poetas que tanto estudava na escola.
"S-sim." Foi tudo o que ele conseguiu dizer.
"Eu também, Soo."
O apelido não passou despercebido. Kyungsoo dessa vez o encarou, completamente surpreso. Baekhyun ainda tinha as mãos na sua cintura, mas não conseguia mais sentir o seu coração bater.
"Você está?"
Baekhyun concordou com um aceno.
"Eu não… eu fiquei com medo. Acho que tenho um medo irracional de você não gostar tanto de mim assim."
Kyungsoo ficou surpreso.
"O quê? Eu não…" ele pigarreou, tossindo mais do que qualquer coisa, "Baekhyun…" disse, com a voz rouca, "Eu gosto muito de você. Nossa, eu, assim, se tem alguém que eu gosto… se um dia me perguntarem: 'tem alguém nesse mundo que você gosta muito?', eu diria: 'claro que sim! O Baekhyun, ele é a melhor pessoa que eu conheço'. Seria tipo isso."
Baekhyun riu da sua bobagem, achando graça de verdade.
"Eu não sabia que você também era engraçado."
"A-ah. Você… uh, me acha engraçado? Sério mesmo?"
Baekhyun sorriu, percebendo o quanto ele ficou feliz com o elogio. Ele tomou a sua mão, puxando para mais uma seção de música. Ele escolheu The Cure, um dos vinis que Kyungsoo mais amava no mundo: Kiss me, Kiss me, Kiss me. Claro, talvez fosse uma mensagem subliminar, mas Kyungsoo queria mesmo era ouvir "Just Like Heaven".
Acabaram dançando e conversando pelo resto da noite. Foi divertido, porque além de Kyungsoo ter aprendido muito sobre música, dançou com Baekhyun durante horas seguidas. Estava tão fodidamente apaixonado pela maneira que ele dançava, pela maneira que falava sobre música, pela maneira que ele sorria, pela maneira que ele o fazia rir ou quando gargalhava de suas besteiras, e todos os toques dele, todos aqueles olhares, todos os detalhes que ele deixava Kyungsoo saber que lhe chamou a atenção.
Cada vez que conhecia mais sobre Byun Baekhyun, mais Kyungsoo sentia-se girando no céu estrelado. Todas as músicas, todas as danças e todas as palavras, tudo, tudo ele queria gravar em uma fita e não dar para exibir pra ninguém no mundo. Mas por fim, gravou tudo no seu coração.
Às 22h, Kyungsoo já tinha passado da hora de voltar pra casa. Baekhyun o acompanhou até o seu portão, indo de metrô e atravessando a cidade apenas para ficar mais alguns minutos do seu lado e dá-lo segurança. Kyungsoo estava tão feliz, que lhe deu um abraço apertado quando se despediu. Baekhyun não forçou, e apenas beijou sua testa com um carinho delicado. Murmurou um "Tchau", e voltou para casa tarde da noite.
Quando chegou em casa naquela noite, Baekhyun deitou na cama encarando o teto por horas. As estrelas fluorescentes ainda estavam lá, mas parecia mesmo que todas elas estavam brilhando dentro de si. Sabia que não era possível o amor curar o vazio de si mesmo, mas era incrível como as vezes uma pessoa poderia iluminar tanto que clareava todas as suas escuridões. Sentia-se assim quando ficava perto de Kyungsoo, como se ele fosse esse céu de ano novo prestes a agitar seu peito com a mais pura alegria.
Sorriu largo quando sentiu o celular vibrar no peito, esperando que fosse ele de novo. Mas não, era apenas um e-mail de newsletter. Ia bloquear o aparelho de novo, quando percebeu: A.M. tinha recebido uma mensagem horas atrás. Baekhyun se sentou na cama, desesperado para saber o que Do Kyungsoo iria lhe confessar dessa vez…
De: Podcast Cartas pra Você (cartaspravoce@pmail.com)
Para: A.M. (a.m.r.u.m@pmail.com)
Assunto: Vou me matar
Querido AM,
Creio que morrer é melhor do que ser uma bicha. Essa é a última mensagem que vou te mandar antes de abdicar a minha vida inteira por causa da minha homosexualidade absurdamente alta.
A.M., você acredita em amor? O que acha que ele é de verdade?
Hoje eu tive uma experiência tão absurda que me fez pensar em muitas coisas. Do tipo, como deve ter se sentido a primeira pessoa no mundo que descobriu o amor? Como aconteceu o seu primeiro beijo apaixonado, e como é possível que a primeira troca de olhares no mundo não tenha sido documentada? Como foi feita a primeira declaração romântica do mundo? Será que teve a Lua como testemunha, será que as peles se tocaram até arrepiar, ou será que o amor se descobriu através de um primeiro beijo?
Será que alguém achou que estava morrendo quando teve seu primeiro beijo? Enfeitiçado? Será que é por isso que nós sempre relacionamos o amor a uma magia? E se a pessoa que descobriu o amor pela primeira vez repassou sua descoberta para outras pessoas, isso significa que nós sempre estamos aprendendo a amar?
São tantas questões, A.M, e a única coisa que eu realmente sei é que eu gosto de amar. Talvez essa seja a minha maior força e a minha maior fraqueza. Eu acredito tanto no amor que é por causa dele que eu acordo todos os dias e vou até a escola, rio com meus amigos, e fico contando o tempo para gravar um programa de podcast fazendo o meu melhor para partilhar esse amor que eu recebo.
Eu gosto de amar, entende? Eu acho que é a coisa mais extraordinária que nós, como humanidade, já descobrimos. Ser tão aberto para receber alguém com tanta completude, tanta entrega… Ah, A.M., eu invejo de quem não se sente tão completo assim pelo amor.
Eu queria poder dizer que pra mim as coisas são diferentes e que eu também me dou bem sozinho, por mim mesmo, mas isso é mentira. Eu vou sempre buscar o amor, A.M. Eu quero alguém que me diga o que comprar para limpar o chão, eu quero alguém que me indique livros, músicas, filmes, podcasts, eu quero alguém que odeie azeitona e que me dê todas elas. Eu quero alguém que me leve para uma loja de músicas e me ensine a dançar no meio da seção de rock alternativo. E o mais legal? Eu acho que pude ver um pouquinho desse amor nos olhos de alguém hoje.
Espero que um dia nós possamos nos encontrar, A.M., porque eu gostaria muito de conhecer você. Também espero que você consiga entender o que eu estou faltando e não me julgue muito por ser tão bicha.
Eu vou voltar!
Com amor, do seu amigo inegavelmente gay,
Do Kyungsoo.
Baekhyun leu aquele e-mail logo quando abriu a notificação, mas já eram quase 01:00 da manhã quando conseguiu parar de reler todas aquelas palavras que Kyungsoo tinha escrito para o seu pseudônimo secreto, A.M. Começou querendo rolar no chão de tanto rir pela piada, mas toda a reflexão que se seguiu o deixou pensativo. Em todos os seus 21 anos de existência, ninguém já tinha dito nada parecido quando se referia a sua pessoa. Achava que a atração de Kyungsoo por si era física, na maior parte, mas estava completamente enganado.
Kyungsoo era precioso. Ele tinha um dos corações mais lindos que já existiu naquele mundo, tinha certeza disso. A sua vontade era de responder àquela carta com todos os pensamentos que guardou sobre ele naquela noite também. Mas isso exigiria que Baekhyun parasse de mentir para ele em primeiro lugar. E não sabia se teria a coragem necessária para isso, mesmo que ele merecesse. Covarde como era, a única coisa que poderia fazer era mandar uma mensagem pra ele com seu nome verdadeiro:
Byun Baekhyun: Oi, Kyungsoo.
Byun Baekhyun: Sei que é tarde, mas eu queria te dizer uma coisa…
Byun Baekhyun: Eu gostei bastante de hoje e fiquei pensando se talvez você não quisesse sair de novo…
Byun Baekhyun: Dessa vez, para um show de verdade! O que acha do festival da Café Universe? Consigo um ingresso fácil pra você.
Byun Baekhyun: Enfim, eu só estava pensando alto sobre isso…
Byun Baekhyun: E obrigado por hoje, eu não vou me esquecer nunca dessa noite.
Baekhyun mordeu os lábios. Não tinha certeza se deveria ter mandado aquela última mensagem, mas queria fazê-lo entender que seus sentimentos sempre foram recíprocos. Até porque, Baekhyun foi o primeiro a deixá-lo saber sobre isso — mesmo que Kyungsoo tivesse a mínima ideia de quem era o seu admirador secreto de verdade.
Fale com o autor