Kyungsoo estava no seu quarto terminando o dever de matemática numa sexta-feira à noite, quando Chanyeol xingou alguém pela tela do seu Nintendo Switch, fazendo-o se desconcentrar na conta que estava fazendo. Fechou os olhos no mesmo segundo, irritando-se com o amigo que agora estava surtando em cima da sua cama como se tivesse cinco anos de idade.

“Que droga, Chanyeol! Eu estava acabando aqui!”

Chanyeol gritou, mordendo o próprio braço para abafar sua frustração. Kyungsoo revirou os olhos pra cena patética de um garoto chorão de quase 2 m de altura. Como era possível que ele fosse tão bebezão assim? Nem mesmo Kyungsoo, o rei do drama, poderia chegar próximo dos ataques que seu melhor amigo tinha quando algo de ruim acontecia dentro do jogo.

“Eu perdi, Kyungsoo! Eu perdi! Isso não tá certo, inferno, vou ter que fazer tudo de novo essa missão!” Chanyeol esbravejou, desligando o aparelho e jogando de lado na cama que estava deitado.

Era “noite dos meninos”, como sua mãe costumava dizer, porque ele e Chanyeol dormiam juntos quase toda sexta-feira. Como eram dois perdedores, não tinham nada melhor pra fazer numa sexta-feira a noite do que encher o saco um do outro. Não que Kyungsoo reclamasse, na verdade, amava passar tempo com ele. Mas verdade seja dita: eles já eram praticamente adultos. E passar tanto tempo assim com alguém que você não namora, pegava muito mal. Ainda assim, não podia negar que preferia a companhia dele do que a sua própria.

“Você precisa fazer terapia.” Kyungsoo comentou, também desistindo de terminar o dever de matemática.

Desligou o computador e se virou para encarar Chanyeol da sua cadeira gamer. Seu quarto era típico de um adolescente fã de tecnologia: inteiramente iluminado com leds, prateleiras cheias de mangás, posteres com seus jogos favoritos, e várias fotos de Luhan, Chanyeol e Kyungsoo coladas pelos murais na parede. Também tinha a bandeira do One Piece que Chanyeol o obrigou a pendurar, mas que ele até que gostava. Era como se mantesse um pedaço do seu melhor amigo consigo o tempo todo.

“Eu vou fazer terapia o dia que eu tiver um carro conversível e poder pagar por isso.”

Kyungsoo sorriu.

“Até você virar rico, seu cérebro já vai ter fritado.”

“Ah-yah, Kyungsoo!” Chanyeol reclamou, fazendo um bico maior que a cara dele.

Kyungsoo riu de verdade dessa vez. Adorava perturbar a vida dele sempre que podia.

“Sabe, a gente precisa começar a viver mais. Você não concorda?”

Chanyeol olhou pra ele, ponderando o que Kyungsoo queria dizer. Deu de ombros, voltando a se deitar na cama que claramente não tinha sido feita para um corpo daquele tamanho. Os pés dele com as meias brancas estavam pra fora, e metade do corpo ficava pendurado no chão e o outro escorado na cama. Incrivelmente, ele ainda parecia confortável daquele jeito.

“Viver como? Você tá chamando um menino ansioso de entediante? É isso mesmo que eu tô ouvindo?”

Kyungsoo revirou os olhos, passando a mão no cabelo logo depois. Fazia isso toda vez que precisava da sua personalidade dos sermões.

“Quero dizer que eu quero ir pro festival da Café Universe, e quero levar você e o Luhan comigo também.”

Chanyeol franziu o olhar, desconfiado.

“Você quer me levar pra um encontro com o Baekhyun? Sai fora! Eu não vou ficar de vela não!”

Kyungsoo de repente ficou vermelho. Se tivesse uma almofada, teria jogado na cara do seu amigo. Mas como estavam longe, tudo o que pode fazer era xingar:

“Cala a boca, Chanyeol! Não é isso, é… sim, ele me chamou, mas achei que seria legal se nós fossemos ver as bandas juntos. Quer dizer, ele vai me dar um ingresso! Isso é…”

“Isso que é amor, hein.” Chanyeol assobiou, fazendo de propósito só pra perturbar.

Kyungsoo dessa vez se levantou do lugar em direção a ele, cheio de raiva. Chanyeol começou a gritar, implorando por perdão, mas Kyungsoo puxou sua orelha mesmo assim, batendo e xingando ele de todos os nomes.

“Eu tô falando sério, idiota!” ele disse, quando o largou na cama de novo, sentando-se do lado dele.

Chanyeol riu, enquanto tentava se ajeitar direito na cama. Arrumou o cabelo com as duas mãos, e começou a massagear as orelhas fazendo uma cara de dor.

“Tá, Kyungsoo, supondo que eu vá nesse festival com você,” ele começou, enquanto se ajeitava melhor do lado do amigo, “Supondo que eu não fique de vela, e supondo que o Luhan se junte a nós ao invés de ir jogar futebol seja lá onde ele tenha que jogar; você acha mesmo que eu conseguiria interagir com quem quer que fosse, sabendo que eu sofro de… ser eu?”

Kyungsoo deu de ombros.

“Provavelmente só vai ter gente da escola lá.”

Chanyeol mexeu a cabeça, como quem queria dizer: “exatamente!”.

“Ah, Chanyeol, por favor! Olha, a gente precisa ir. Conhecendo você e o seu gosto por homens cheios de delineador, tenho certeza que vai gostar de ver algumas bandas.”

Dessa vez, era Chanyeol que estava vermelho da ponta das orelhas até as bochechas.

“Eu sou bv, Kyungsoo!” ele se justificou, desesperado.

“E eu sou virgem!” Kyungsoo rebateu.

“Mas você é virgem por opção! Eu sou, porque sou um desastre!” Chanyeol contra-argumentou, apontando o dedo para ele.

Kyungsoo suspirou, encarando-o com uma cara nada boa.

“Vamos parar, vamos” disse, como se fosse uma mãe dando sermão ao filho rabugento.

Chanyeol cruzou os braços, levantando uma sobrancelha para ele. Kyungsoo sabia que ele estava certo: Chanyeol era mesmo um pouquinho desastrado, mas o tipo que se perdia por timidez. Ainda assim, Kyungsoo sabia que ele poderia ter quem quisesse se não fosse tão tímido.

"Eu realmente não quero ir." Chanyeol sussurrou, olhando pra ele com os olhos arregalados.

"Tá bom, Chanyeol. Não vou te forçar a sair. Só queria que você fosse, porque acho que você ia gostar de um lugar desse, cheio de música que você ama."

Chanyeol cruzou os braços, se escondendo dentro do próprio moletom. Parecia incomodado, como se tivesse pisado num caco de vidro e precisasse de ajuda para poder tirar. Kyungsoo esperou até que ele se sentisse confortável o suficiente para falar sobre os seus segredos mais profundos. Ficaram alguns minutos em silêncio, e Chanyeol mexia no moletom como quisesse se distrair do fato de que precisava de um desabafo sincero sobre os próprios sentimentos.

"Eu tenho… hã… uma coisa pra te falar, Soo."

O tom de voz baixo lhe chamou a atenção, fazendo Kyungsoo olhar pra ele quando viu que Chanyeol realmente parecia muito nervoso sentado ali, tentando fingir que não estava prestes a vomitar o próprio estômago pra fora, Kyungsoo ficou sem reação. Sentiu que era algo bem mais sério do que imaginava. De repente seu coração começou a bater rápido, e piorava cada vez mais porque seu amigo estava simplesmente bancando uma de misterioso.

"Pelo amor de Deus, Chanyeol, o que é?"

Chanyeol se assustou com a sua veemência. Kyungsoo, apesar de ser um doido, quase nunca se exaltava a toa. Quer dizer, não quando o assunto era tão banal quanto o que ele iria ter que confessar naquele exato momento.

"Se eu te falar, promete que não vai ficar bravo comigo?"

Kyungsoo gemeu em frustração. Estava tão desesperado quanto seu melhor amigo com aquele mistério todo que o garoto estava fazendo. Precisava de tudo aquilo? Claro que não! Mas se não tivesse drama, não seria Park Chanyeol.

"Você sabe que sim!"

"Dessa vez é sério. Eu… meio que tenho duas coisas importantes pra te falar."

"Você está morrendo?" Kyungsoo sussurrou, esperando pelo pior.

Nisso, Chanyeol teve uma crise de riso. Começou a rir e bater com a mão na sua coxa como se estivessem quase brigando. Ele sempre fazia isso quando achava alguma coisa muito absurda ou engraçada. Kyungsoo meio que queria rir também, mas meio que queria arrancar a cabeça dele pra fora do corpo de tão ansioso que estava pra saber qual era aquele segredo que ele estava guardando tanto assim.

"Claro que não! É uma outra coisa…"

Kyungsoo dessa vez cruzou os braços, sem ter como prosseguir. Então ficou esperando, encarando Chanyeol enquanto rezava pra ele falar logo o que diabos ele tinha pra falar. Chanyeol suspirou, tirando a touca do rosto enquanto virou seu corpo para encará-lo nos olhos. Articulou algumas vezes antes de finalmente soltar a frase toda como se estivessem conversando numa ligação picotada pelo sinal ruim:

"Eu… meio que… acho que posso ser… hã, assexual."

"Ah." Kyungsoo disse, um tanto surpreso.

Saber que Chanyeol gostava de garotos e garotas foi fácil, pois eles se descobriram juntos quando ainda eram pré-adolescentes. Mas nunca tinham falado sobre outras coisas antes. Até porque, Kyungsoo evitava a todo custo falar sobre sexo. Ainda assim, se aproximou dele, colocando uma mão sobre o ombro quando sempre fazia para deixá-lo saber que estavam juntos nessa.

"Chanyeol, tá tudo bem. Está nervoso por causa disso?"

Chanyeol deu de ombros, mesmo que seu rosto mostrasse nervosismo. Ficou quieto por uns bons minutos, talvez tentando escolher quais palavras para explicar os próprios sentimentos.

"Eu me aceito como eu sou. Já fiquei ansioso antes, quando achei que ia sempre ter que fazer algo que não quero. Mas… a outra coisa é que… uh, foi por sua causa que eu me aceitei melhor." Ele disse, ficando bem vermelho pela sua confissão.

Kyungsoo de repente se lembrou de uma carta que recebeu no ano passado sobre um garoto tentando aceitar que era diferente de todos os outros que conhecia. Nunca poderia imaginar que aquele garoto era, de fato, o seu melhor amigo.

"Era você naquela carta?"

Chanyeol concordou com a cabeça.

"Resolvi te contar primeiro, de todo jeito. Luhan não sabe, mas eu não quero fazer disso uma grande coisa. Sabe, você me fez ver tudo de uma outra perspectiva. Não tenho porque ter medo de ser quem eu sou."

"Eu não sei o que dizer, Chanyeol. Mas fico feliz que confie tanto assim em mim."

"Você me ajudou muito, Kyungsoo. Claro que eu queria falar com você pessoalmente antes, mas… eu ainda tenho as minhas restrições. Eu não sei se… conseguiria…"

Kyungsoo entendeu o que ele queria dizer. Lembrou de sua carta, e do quanto ele dizia ficar nervoso toda vez que alguém insinuava querer beijá-lo, porque não tinha certeza se queria ficar com um estranho qualquer que mal conhecia. Chanyeol raramente sentia vontade de beijar pessoas, raramente sentia vontade de ir mais além também. Era ansioso pelas expectativas que tinha sobre si mesmo, que no fundo sabia ser só para agradar os outros.

"Tudo bem, Chan. Você pode tomar o seu tempo pra isso."

"É só que… você sabendo disso agora, me faz sentir melhor. Eu guardei por tanto tempo porque não tinha certeza como me sentia de verdade."

Silêncio preencheu o quarto de Do Kyungsoo naquela noite de sexta feira. Pela primeira vez em muito tempo, ele não sabia o que dizer. Por isso, apenas abriu os braços e esperou até que Chanyeol se aninhasse no seu colo como se fosse uma criancinha mimada — o que ele era —, mas Kyungsoo não se importou. Na verdade, sentia-se sortudo por ter um amigo a quem poderia chamar de irmão.

Aos 19 anos, Do Kyungsoo tinha muitas dúvidas sobre a sua própria vida. Morria de medo do futuro, do amor, dos seus próprios sonhos. Não sabia se teria forças para correr atrás de uma vida de incertezas e de possíveis fracassos intermináveis, mas se pudesse tocar naqueles poucos momentos de felicidade, então ele estaria bem. Nada era importante quando se comparava com a sua vontade de ser feliz. Era tudo o que o impulsionava a sair da cama todos os dias.



"Bom dia, boa tarde, boa noite. Esse é o podcast 'Cartas pra Você', mais uma vez trazendo o melhor do coração mais romântico do povo de Seul. Ou da Coreia também, eu sei de todos vocês!"

Baekhyun riu de Do Kyungsoo pela terceira vez naquele dia.

Estava voltando para casa no ônibus como fazia toda vez depois do expediente. Depois do último encontro que tiveram e depois da declaração gigantesca que ele enviou para o pseudônimo secreto de Baekhyun, o seu carinho por Kyungsoo tinha se multiplicado como fogos de artifício no céu de verão.

Baekhyun queria falar com ele durante todas as horas do dia. Ele pensava naqueles olhos escuros pelo menos uma vez a cada minuto, e também não conseguia esquecer a sensação do corpo dele se encaixando nos seus braços. Imaginava que beijá-lo poderia ser a melhor sensação já sentida pelo homem, mas também tinha medo de perdê-lo se forçasse algo assim.

Kyungsoo era ansioso, o que surpreendia Baekhyun todos os dias. Para alguém que tinha um podcast há anos, Baekhyun imaginava que ele fosse totalmente desinibido, mas isso estava bem longe da realidade. Apesar de ser comunicativo e ter uma ótima compreensão do próximo, do seu lado, Kyungsoo exibia a sua faceta mais tímida. O que não fazia diferença para Baekhyun, que era completamente apaixonado pelo seu jeitinho tímido de ser.

Hoje, estou um pouco nostálgico. Até porque, recebi aqui um presente muito bom que me deixou até bem animado! Pessoal, hoje teremos uma carta de amor! Ah, como é bonito poder ler uma declaração depois de tanto tempo!

Baekhyun sorriu automaticamente com a empolgação dele. No começo do podcast, Kyungsoo costumava ler bem mais cartinhas de amores entre pessoas do colégio onde estudava, mas conforme o tempo foi passando e ele foi ganhando mais ouvintes, isso explodiu. Porém, fazia um bom tempo desde que se tinham cartas de amor por ali…

Ah, essa é uma carta que recebemos aqui há quase duas semanas! Uau, que falta de atenção a minha, hein?” Kyungsoo riu, um pouco desconcertado, “Bem, vamos começar? Lá vai. ‘Olá, Do Kyungsoo Oppa. Estou escrevendo porque eu queria fazer uma coisa legal para a minha namorada já que ela é o amor da minha vida. Como somos adolescentes, no entanto, vamos ter que usar apelidos para manter a discrição, tudo bem?'. Bem, sim! Tudo ótimo, cara ouvinte, aqui nós fazemos tudo o que vocês pedem." Ele pigarreou, dando continuidade, "É um pouco surreal pra mim isso, mas eu acho que queria muito dizer a você, Marceline, que poucas vezes me senti tão fora de órbita na minha vida do que quando estamos juntas. É como se eu estivesse descendo uma montanha russa a toda velocidade, sem freio nenhum pra me segurar de não cair em seus braços. Todos os dias eu acordo pensando em você, e todos os dias eu vou até o seu armário escondida para colocar um bilhete escrito com palavras que vão te fazer sorrir. Pra dizer que eu te amo seria simplesmente demais. Acho que o que eu sinto por você é igualzinho ao ver seu filme favorito no cinema pela primeira vez. É impactante, e deixa a gente querendo muito mais. Então é aqui, diante do país inteiro, que eu te peço, Marceline. Você quer namorar comigo?'."

Silêncio preencheu o áudio do podcast por quase 30 segundos inteiros. Kyungsoo então pigarreou outra vez, voltando com a sua voz ligeiramente afetada:

"Ah, uau, isso foi lindo. De verdade, ouvinte, você com certeza ganhou o coração da sua vampirona preferida, hein?" Ele riu, mas Baekhyun não sentiu nenhum humor ali. Na verdade, ele parecia um pouco distante no tom da voz, "É legal que podemos juntar tantos casais assim, e também mais ainda quando podemos ter artistas se declarando tão bonito assim. Por favor, pessoal, podemos aplaudir?"

O efeito da ovação tomou conta do áudio enquanto Kyungsoo ria no fundo.

"Acho que isso foi um pouco demais. Pessoal, por favor, mandem mais cartas de amor. Serei o cupido de todos vocês de agora em diante. Pode ser qualquer tipo de relacionamento, de verdade, estarei lendo de tudo. Mais uma vez eu agradeço a todos por ouvir o podcast e espero que… uh, eu não ia dizer isso, porque normalmente é embaraçoso, mas eu realmente espero que todos possam dar uma chance ao amor. Sim, é isso mesmo, gente. Eu estou mandando vocês a conseguir se permitir amar. Essa é a minha mensagem pra vocês hoje: se tem alguém de quem gosta muito, diga. Grite no meio de um restaurante para todos ouvirem, e dance com ele numa loja de músicas ao som de sua banda favorita. Depois, quando estiver pronto, deixe o coração falar mais alto. Eu garanto que não vão se arrepender nem um pouquinho. Aqui foi Do Kyungsoo outra vez, e me despeço com a melhor do A.M. na noite de hoje. Bye, bye!"

Baekhyun reconheceu na mesma hora a música que ele tinha escolhido: R U Mine?, uma das mais famosas da banda e do álbum também.

De repente, Byun se sentiu péssimo. Tinha mentido pra ele sobre tudo aquilo e o conquistado com base em tudo o que Kyungsoo confiava ao seu eu ouvinte, o famoso A.M. Todas as palavras que ele tinha escrito naquela carta tão bonita não pertenciam a Baekhyun, e sim ao seu ouvinte e amigo. Era uma situação tão complicada, que ficava sem saber o que fazer. Claro, deveria contar a verdade, mas a verdade poderia destruir todo aquele sonho de estar vivendo o melhor momento da sua vida em anos.

Byun Baekhyun só queria que o mundo fosse mais gentil consigo, que tivesse uma mão a quem recorrer às vezes e que amar não fosse tão cheio de obstáculos. Quando chegou em casa, ele abriu o e-mail outra vez. Pensou com carinho sobre uma resposta, mas ponderou. Talvez fosse a hora de falar a verdade pra Do Kyungsoo, e então convidá-lo outra vez para o show como Byun Baekhyun, o verdadeiro. Ou talvez ele não devesse arriscar a sua felicidade assim, mesmo que ele não a merecesse.

Foi surpreendido, no entanto, quando o celular tocou anunciando uma ligação. Baekhyun atendeu com o coração acelerado e batendo forte. Era a primeira vez que isso acontecia.

"Alô?" Baekhyun perguntou, mesmo sabendo que era ele.

"Ahh… Baekhyun, você atendeu. Uau!" A voz eufórica de Kyungsoo fez com que um sorriso surgisse automaticamente no seu rosto, "Tô bem feliz que você tenha atendido, eu realmente… eu… senti vontade de ligar pra você agora. Estou te atrapalhando?" Ele falou tudo tão rápido que mais parecia um rapper.

Baekhyun achou graça, relaxando instantaneamente com o som da sua voz preferida no mundo todo.

"Não, Kyungsoo. Claro que não."

Ouviu ele suspirar fundo do outro lado da linha.

"Ah, é só que… eu queria dizer que vou com você no festival da Cafe Universe. Quer dizer, se você ainda tiver os ingressos, eu… queria muito ir. Junto com você. Assim, nós dois. Juntos."

Baekhyun sorriu.

"Sim, claro, vai ser demais!" Disse, por impulso, lembrando tardiamente da promessa que tinha feito para que não mentisse mais para ele.

"Você acha mesmo?" Kyungsoo gritou, empolgado, "Nossa, eu também acho! Acho que vai ser tão demais, assim, a coisa mais incrível do mundo. Uau. Eu devo estar falando muita besteira" Kyungsoo riu, tímido como Baekhyun adorava.

Sentiu-se mal justamente por isso. Ele não merecia um mentiroso. Kyungsoo era uma pessoa gentil, boa e pura de coração; se doava para os outros em nome do que acreditava ser o amor, uma demonstração do seu coração de ouro. De repente, Baekhyun sentiu demais. Queria se abrir para ele, mas era egoísta demais para arriscar vê-lo sair de sua vida assim. Agora que tinha conseguido ver um pouco daquele menino bem de pertinho, não conseguia mais ignorar o quanto gostava dele. Ainda assim, tinha dúvidas sobre quais passos tomar.

"Kyungsoo…" Baekhyun começou, tentando fazer algum sentido sobre o que se passava no seu coração.

"Sim?" Kyungsoo perguntou, ansioso.

"Ah… eu queria… é…"

"O quê? Pode me falar, seja o que for, eu faço!"

Baekhyun riu, achando graça de como ele se empolgava fácil quando estavam juntos.

"Eu na verdade tenho um probleminha com esse festival. Prometi para uma banda local que eles iriam receber um cachê para participarem desta edição, mas o meu chefe não contribuiu com o valor completo."

Kyungsoo suspirou, como quem compadecia com aquela história.

"Nossa, Baekhyun, entendo que realmente deve ser difícil pra você, mas não desista! Nós conseguiremos o valor completo para enganar o seu chefe! Fica tranquilo."

"Nós?" Baekhyun riu, "Que história é essa de nós?"

"Ah, você não achou que eu iria te deixar na mão, né? É claro que vou te ajudar! De quanto você precisa?"

Baekhyun ficou em silêncio. É claro que ele iria tentar ajudá-lo, porque Kyungsoo era esse tipo de pessoa que sentia o dever de ser útil ao próximo, mas saber que ele estaria disposto a ficar do seu lado desse jeito mexeu com o coração do loiro. Não podia pensar em alguém que se colocaria nessa posição, tão prontamente.

"Você não precisa fazer isso, Kyungsoo."

"Eu quero! Nós podemos conseguir se fizermos isso juntos, você não acha?"

Claro que ele achava que sim, mas a questão era outra. Sentia-se ainda pior por todas as mentiras que havia contado.

"Não posso pedir isso pra você. Sei que quer ajudar, mas… olha, Kyungsoo, talvez fosse melhor eu…" ele hesitou, sem coragem nenhuma de continuar com aquilo.

"Uh, eu fiz algo errado? Me desculpe. E-eu fico… é… eufórico muito fácil as vezes. E-e… você… você é, assim, nossa…" Ele arquejou, rindo logo em seguida, "Ah, Baekhyun, eu sinto muito. Mesmo."

"Não, não é nada disso. Eu só precisava te contar uma coisa antes, pessoalmente. Você pode me encontrar amanhã?"

Do outro lado da linha, Baekhyun só podia ouvir a respiração de Kyungsoo falhar. Demorou alguns segundos para que ele voltasse em si, e continuasse com a conversa:

"Absolutamente!" disse, empolgado.

Baekhyun riu.

"Tá aí, mais um advérbio." ele comentou despreocupado, sem saber que tinha cometido um erro enorme.

"O que disse?" Kyungsoo perguntou, chocado.

Foi só aí que a ficha de Baekhyun caiu. Não, não era assim que ele queria contar a verdade pra ele. Não era desse jeito que era pra ser, fazendo ele perceber que tinha agido como o A.M. com ele. Baekhyun ficou nervoso. Seu coração batia tão rápido, que ele começou a suar frio. Não sabia o que dizer, porque não tinha desculpa alguma para o que tinha acabado de dizer. E pior, seu silêncio já dizia palavras até demais.

"Baekhyun, o que… o que quer dizer?" Kyungsoo perguntou, incerto.

"Uh…" Baekhyun estava tenso, ponderando o que podia fazer naquela situação, "Você… uh, eu… falo com você depois, pode ser? É que… bem, eu preciso… atender a porta. É! Chegou alguém aqui, então eu tenho que ir. Tá? Tchau."

Baekhyun desligou o telefone, sem dar a chance para que ele dissesse alguma coisa. Assim que bloqueou o celular, ele o jogou longe. Era isso. Tinha arruinado absolutamente tudo com a pessoa que mais gostava no mundo inteiro, e a culpa era totalmente sua.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.