I can’t explain, but I wanna try

There’s this image of you and I

And it goes dancing by in the morning

And in the night time



No outro dia de manhã quando Baekhyun acordou cedo para o trabalho, ele não havia tido tempo de checar o celular. Apenas levantou da cama direto pro chuveiro, se vestiu, e correu para o ponto de ônibus que ficava um tanto perto de sua casa. Ele estava, por coincidência, levando o guarda-chuva amarelo de volta a Café Universe, já que o dono dele tinha feito questão de esquecê-lo por ser extremamente destrambelhado. Mas não negaria que justamente esse jeitinho tão peculiar era um dos charmes mais marcantes de Do Kyungsoo.

Ontem o dia fora esquisito. Ele não estava esperando que Do Kyungsoo fosse aparecer na cafeteria, e, justamente, aparecer para lhe perguntar sobre o que Byun estava se esforçando tanto para ignorar. Não pensou que seria possível que o rapaz fosse perguntar diretamente sobre a sua carta. Até porque, Baekhyun pensava que seria impossível uma coisa dessas acontecer. Quer dizer, como Do Kyungsoo julgava que aquilo fosse moralmente correto? Explanar a situação assim para um completo estranho? Tudo bem que ele não havia usado nomes, e que o estranho não era tão estranho assim, mas ainda assim…

A verdade é que Baekhyun estava com um pouco de medo. Em parte, porque a pessoa quem admirava também parecia ser tão perdida quanto ele quando o assunto era lidar com sentimentos, então tinha medo de que Kyungsoo nunca fosse lhe responder aquela carta. Com isso, percebeu tarde demais que ele queria sim uma resposta para as suas lamúrias. Talvez ele não merecesse, ou talvez Kyungsoo julgasse como se aquilo fosse uma tarefa árdua por estar tão ligado assim com a situação. Mas ainda assim, Baekhyun queria a sua resposta.

Por isso que quando entrou no ônibus naquela manhã, Baekhyun respirou fundo, pensando se deveria ou não checar a caixa de mensagens do seu e-mail. Tinha medo de se decepcionar ao abrir o aplicativo e perceber que ela poderia estar completamente vazia. Mas também tinha um pouco de ansiedade pela antecipação de devorar todas as palavras que Kyungsoo havia escrito especialmente para si.

Era um jogo cruel aquele da antecipação. Poderia fazer qualquer um pirado, e já estava fazendo efeitos a mente não tão lúcida assim de Baekhyun. Ele então resolveu esperar. Iria abrir o celular na hora do almoço e lidaria com aquilo quando tivesse a cabeça com os pensamentos em ordem. Não iria querer interpretar qualquer coisa errada, e muito menos, querer ser visto surtando por conta daquela carta. Mesmo que internamente ele estivesse completamente surtado.

Então quando chegou na Café Universe naquela manhã, Baekhyun foi diretamente até a sala dos funcionários. Deveria colocar o avental e deixar a mochila no armário para que ninguém roubasse nada. Depois que trancou todos os pertences lá dentro, acabou percebendo Jinki ali. Ele estava com o habitual cabelo laranja, parecendo um garotinho, com o boné verde combinando. Era um rapaz mais velho que ele, mas Baekhyun o tratava como um jovem por sua personalidade espirituosa.

Jinki, ao ver Baekhyun ali parado olhando para ele feito um boboca, sorri e tira o cigarro do bolso, acendendo para fumá-lo antes do turno da cafeteria começar.

"Chegou cedo hoje. Mijou na cama, Baek?"

Baekhyun torceu os lábios, não vendo graça alguma em tais comentários.

"Estava um pouco ansioso. Yixing ainda quer organizar aquele festival, e estou pensando em como vou convencer Minseok a tocar em uma festa adolescente."

"Ai." Jinki baforou o cigarro com uma careta, "Que dor. Boa sorte para lidar com baixinho gladiador."

Baekhyun riu baixinho. O apelido do guitarrista havia se popularizado na cena indie depois de Minseok e Jongin brigarem fisicamente em um dos festivais independentes de Seul, e acabar separando a antiga banda indie da qual os dois faziam parte: a No Rest for the Weirdos. Nem precisava dizer que o nome era bem sugestivo.

"Obrigado. Vou precisar mesmo de sorte." Baekhyun foi até o seu armário, abrindo-o e puxando de lá o seu avental.

Jinki ainda fumava e mexia no celular, já que faltavam alguns minutos para que a cafeteria fosse de fato aberta. Baekhyun pensou em fazer o mesmo, mas ainda tinha o problema de que pensar em abrir as notificações sem a tão esperada resposta de Kyungsoo o deixava nervoso. Por isso, resolveu ir até o salão principal para ajeitar algumas coisas.

Pelo cheiro de desinfetante no ar, o salão provavelmente tinha acabado de ser limpo pelo garoto novo, Taeyong-alguma-coisa. Baekhyun tinha uma péssima memória, mas lembrava do garoto sendo um pouco insistente para cima de si. Por isso entrou no salão um pouco na defensiva, tentando passar despercebido enquanto caminhava até a jukebox do lugar.

Baekhyun sorriu quando viu que estava sozinho. Finalmente, pensou. Olhou para a playlist que havia preparado notando que a seleção havia poucas faixas fora do lugar. Era um pouco chato a situação, porque Baekhyun se orgulhava de ser o DJ da Café Universe, e quase todos os dias, ele preparava minuciosamente a playlist do lugar. Daquela vez, acabou escolhendo uma música mais popular que estava tocando bastante nas rádios por aí: Little League, de Conan Gray.

Quando a música começou a tocar, seu humor mudou no mesmo instante. Havia escolhido trabalhar em uma cafeteria tão alternativa quando a Café Universe, justamente porque de alguma forma ele ficava cercado de música o dia inteiro. Isso era bom, porque Baekhyun tinha um carinho maior pela música. Para ele, as canções eram como poemas para os ouvidos, e adrenalina para o coração. Fazia-lhe tão bem quanto um copo de chá bem quente.

Baekhyun terminou de arrumar uma parte da playlist do dia e voltou para a cozinha, esquecendo-se completamente das outras coisas que tomavam a sua mente. Passou o dia atendendo, anotando pedidos, tentando não se queimar com o café quente, e se esquivando das investidas do garoto novo que mais parecia como o seu irmão mais novo. Quer dizer… ele deveria entender que Baekhyun nunca daria bola para alguém que ainda estivesse no ensino fundamental?

Com todos os esforços necessários, Baekhyun prometeu a si mesmo para não esquecer de tentar lidar com essa situação depois. Já que lá perto das três horas da tarde, o dia de Baekhyun pareceu virar de ponta cabeça. Yixing havia lhe lembrado sobre o festival que ele deveria organizar, e Baekhyun passou praticamente o resto do todo ligando para agentes e organizando bandas independentes para o line-up do Rock Universe (pois é, Yixing era péssimo com nomes).

Quando Baekhyun finalmente chegou no final da lista, ele deveria começar a criar coragem para contatar Kim Minseok. Respirou fundo, e digitou o número de contato da Seoul Revival. Já estava ficando bem escuro, quase na hora de voltar para casa, e Byun não estava lá muito seguro de que aquela conversa seria tão rápida. Por isso que quando Kang Seulgi disse “Alô?” do outro lado da linha, Baekhyun quase teve um infarte:

“Seulgi? Graças a Deus! Aah, cara, como você está?”

Silêncio se fez presente no outro lado da linha, por cerca de quinze segundos.

“Quem é que tá falando?” Seulgi perguntou, com uma voz de poucos amigos.

“Uh… É Byun Baekhyun. Sou da Café Universe, sabe? O lugar que vocês costumam tocar?”

Novamente um silêncio se fez presente na linha como se Baekhyun estivesse falando no telemarketing do espaço. Teve de esperar mais alguns segundos até que Seulgi voltasse a falar:

“Cara… eu tô dormindo agora. Vou passar o telefone pro Jun, e você fala com ele.”

Baekhyun arregalou os olhos, surpreso pela sinceridade.

“Ah… ok...” Disse ele, receoso.

Não teve que esperar muito para que o guitarrista da banda tomasse o lugar do outro lado da linha.

“Baek? É você, cara?” A voz gentil de Junmyeon era como bálsamo para os seus ouvidos; ele sempre fora o mais fácil de lidar.

“Sim. Estou entrando em contato pra saber se vocês irão participar do Rock Universe esse ano? Já temos sete bandas confirmadas.”

“A Five Odd Bears… eles vão tocar?”

“Uh… sobre isso...”

“Escuta, Baek, você sabe que vai ser difícil tocar nesse festival se o Jongin estiver aí. As coisas… não terminaram muito bem entre ele e o Minseok.”

Sim, Baekhyun sabia disso. Assim como o resto do país, já que os dois foram parar no noticiário por conta de uma briga daquelas. Mas, por sua inocência, Baekhyun não achou que seria assim tão difícil contatar as duas bandas para o mesmo festival se por um acaso Minseok se distraísse com outra pessoa. Talvez Sehun pudesse lhe ajudar no dia, ou algo assim. Ele ainda estava tentando pensar numa maneira de fazer toda aquela confusão dar certo.

Baekhyun então partiu para a sua tentativa número um: implorar.

“Yixing insistiu para que vocês viessem, ele gosta muito de vocês!”

“Cara, não é assim tão fácil. Jongin é um traíra e o Minseok é um maluco. Ele fica totalmente diferente quando está com raiva.”

Byun suspirou, já pensando sobre a tentativa número dois: suborno.

“Além do cachê, Yixing disse que poderíamos dar para a atração principal o quanto das tortinhas de maçã que vocês quisessem. E você sabe o quão boa são as tortinhas do Jinki. Ele é um mestre entre as tortinhas de maçã de Seul!”

“Eu quero tortinha de maçã…” Baekhyun ouviu Seulgi dizer, como se tivesse despertado de seu estado dorminhoco.

Junmyeon riu, achando graça.

“Depois compramos algumas, bebê, eu prometo.” Ele respirou do outro lado da linha, “Olha, vou ver o que eu posso fazer. Mas seria muito legal se o Jongin fosse o primeiro a se apresentar ou algo assim. Minseok não pode ver a cara dele, Baek. Você sabe que ele iria surtar.”

Sim, Baekhyun sabia. Mas também sabia que se esse festival falhasse, Yixing iria lhe matar. Ele tinha que ter todas aquelas bandas confirmadas ou o seu emprego também entraria em jogo.

“Obrigado, Jun. Mesmo.”

“Não me agradeça ainda, eu não confirmei a nossa presença no festival. Você é quem vai ter que falar com o Minseok dessa loucura, eu vou falar com os outros dois, já que a Seulgi já está seduzida pelas tortinhas de maçã.”

Baekhyun riu, ouvindo Kang reclamar do outro lado da linha.

“Ok. Obrigado mesmo assim.”

“Humpf. Até mais.” Junmyeon disse, antes de desligar.

Baekhyun suspirou, já sentindo suas energias saírem do próprio corpo. Como iria convencer a Kim Minseok tocar no festival do seu ex-namorado? Não sabia. Os irmãos Kim eram unidos, e Baekhyun sabia que seria difícil para Junmyeon convencer não só o próprio Minseok, como Jongdae também. Pelo menos, Seulgi fazia o equilíbrio entre os rapazes para ouvir o seu estômago acima de qualquer briga. Era realmente a pior situação que Baekhyun poderia estar envolvido, e ele só não estaria surtando em cinco maneiras diferentes, porque ainda tinha alguma esperança de que as coisas dariam certo.

Olhando para o relógio na parede do escritório da Café Universe, Baekhyun podia ver que já estava quase na hora de Kyungsoo soltar o episódio do podcast do dia. Seu estômago se embrulhou de nervosismo, ao mesmo tempo que You Only Live Once de The Strokes começou a sair pelas caixas de som da cafeteria. Mas foi apenas quando Julian Casablancas disse “(Oh, não, não) não saia/ Eu não consigo ver o brilho do sol/ Eu estarei te esperando, amor/ Porque eu estou cheio disso/ Sente-me/ Cale-me/ Vou me acalmar/ E vou me dar bem com você”, que Baekhyun criou coragem dentro de si.

Tirou seu celular do bolso, e abriu a caixa de emails desesperadamente. Quando viu o que queria ver, sua mão foi diretamente até a boca. Estava chocado, porque a carta havia chegado. E mais do que isso: ela era enorme. Talvez a maior que Baekhyun já tinha recebido em toda a sua vida.

De: Podcast Cartas pra Você (cartaspravoce@pmail.com)

Para: A. M. (a.m.r.u.m@pmail.com)

Assunto: Sem assunto (resposta)

Querido A.M.,

Eu tenho que te confessar que sou um grandessíssimo hipócrita. Por quê? Porque eu sou demasiadamente péssimo escrevendo Cartas, o que significa que talvez essa carta também vá conter uma qualidade bem duvidosa.

Não sei por onde começar a agradecer você por gostar tanto assim do meu trabalho. O podcast é uma parte muito especial da minha vida, e dividir com vocês ouvintes é uma alegria demasiadamente muito grande para mim. O que também significa que me é uma responsabilidade demasiadamente enorme em fazê-lo; com a sua carta, pude perceber melhor isso.

Já quero te tranquilizar falando que não irei ler a sua carta no programa. Na verdade, acho que isso seria difícil para nós dois. Não que eu não tenha gostado dela, na verdade, gostei demasiadamente! Porém, como eu disse, nunca fiz isso antes… quer dizer, nunca ninguém me escreveu algo daquele jeito antes.

Um amigo me aconselhou a te responder com sinceridade, então é o que eu vou fazer agora… espero que você não me julgue demasiadamente por isso… Bem, vamos lá!

Em primeiro lugar, eu queria dizer que acho justo compartilhar uma coisa com você também, já que me disse algumas coisas bem difíceis (eu imagino). Bom, A.M., o meu segredinho é que há três coisas que eu penso todas as noites antes de dormir. A primeira é se eu vou ou não ter que acordar cedo no dia seguinte e ir para a escola. A segunda é se eu estou usando meias nos pés para que nenhuma alma penada venha me assombrar no meio da noite. E a terceira é sobre o meu papel nesse mundo; ou mais especificamente, sobre o que eu faço no podcast.

Às vezes eu paro e penso na quantidade de pessoas que eu atinjo das quais eu não sei absolutamente nada sobre (a vida delas, por exemplo). Não sei por qual pronome ela gosta de ser chamada, não sei quais são as suas coisas favoritas, nem mesmo sei qual é o dia do seu aniversário. A única coisa que eu sei dos meus ouvintes é que eles me ouvem. E isso é um tanto mágico, né?

Eu me vejo às vezes como um astronauta olhando do espaço, em que a Terra são vocês, o que consequentemente também é a única coisa que me motiva a voltar para casa. Também acabo indo além às vezes... pensando e imaginando que se há algum tipo de tecnologia ultra mega master lá fora, em que aliens possam acessar o nosso sinal de Internet e espionar absolutamente TUDO o que a gente posta na internet, e então o que aconteceria A.M.? Aliens saberiam que o presidente da Coreia do Sul foi acusado de corrupção há alguns meses, ou que os seres humanos estão cada vez mais se matando por conta do dinheiro. Eles poderiam ter uma visão exata da humanidade em um nível de abstração que nenhum de nós, meros mortais, iria conseguir entender. Isso significaria, a grosso modo, que pode ter pessoas de outro planeta me ouvindo em seus canais receptores de sons, e tentando traduzir o que eu falo no meu podcast todos os dias, às 18h da tarde. Ou mais importante: tentando entender PORQUÊ eu faço o que eu faço....

E é sobre exatamente isso! Eu também gostaria de um dia poder chegar nessa conclusão! Mas hoje em dia, quando eu olho para tudo o que eu fiz, acabo enxergando essa imensidão de momentos que eu gastei com o Cartas pra Você como algum tipo de aprendizado; sobre algo que eu ainda não descobri o que é.

E aí esses dias eu cheguei num brainstorm de conclusão de que as coisas que a gente faz na Terra, só são válidas porque existem pessoas que vão compartilhar com você essas raras frações de momentos na linha do Tempo, que é a sua vida. O que também significa, que eu só estou aqui escrevendo essa Carta por sua causa. O que significa que, agora, nesse exato momento, você também está lendo essa carta por minha causa. Nós dois estamos marcados na linha do tempo um do outro, pelo resto de nossas vidas.

E isso é muita, muita coisa.

Tudo isso foi só pra dizer, A.M., que eu valorizo você. E valorizo os seus sentimentos. E que por mais que eu esteja completamente obcecado para saber quem você é de verdade, assim como você disse para mim na sua carta, eu respeitarei esse seu momento de privacidade. Eu respeito que você queira manter uma certa distância, por mais difícil que seja. Por mais que eu queira muitíssimo poder te conhecer melhor.

Termino essa carta para lhe dizer que agradeço muito a você pelas suas palavras. A sua Carta me deixou completamente fora de mim, eu me senti muito bem com ela, e normalmente quando sinto muitas emoções ao mesmo tempo fico demasiadamente eufórico. Por isso demorei um pouco para te responder, e espero que isso não venha a lhe chatear.

Espero também que o podcast continue sendo o seu refúgio, porque eu não me importo de ser essa pessoa para você. Eu espero que a minha voz consiga fazer o que eu não posso fazer nesse momento, segurando a sua mão, e te dizendo que tudo vai ficar bem. Porque, eventualmente, eu sei que fica. Tudo fica bem, sim. Eu prometo que fica!

Seu,

Do Kyungsoo.



Kyungsoo roeu todas as unhas que tinha disponível no seu estoque de mãos, e poderia roer ainda mais, se não estivesse na casa de Park Chanyeol enfurnado de trabalhos recém-feitos para entrega na escola no dia seguinte. Tinha o trabalho de linguagens, que, no caso, ele teria até um pouco mais de vantagem por ser acostumado a escrever em blogs. Mas tinha também o trabalho de matemática, e física, e ciência dos solos, e geografia política, e história, e, ok, o de história ainda era para o mês que vem, mas isso não significava que ele estava menos ansioso por isso!

Deitado no tapete do chão do quarto de Chanyeol, que curiosamente tinha o formato do escudo do capitão américa, Kyungsoo estava se segurando para não sair correndo e gritar pelo bairro inteiro. Apesar de o motivo ser outro: já estava falando há algumas horas sobre como a carta que havia mandado para o seu ouvinte poderia facilmente ser substituída pelo seu futuro TCC. Kyungsoo nunca colocara tanta energia para responder alguém antes, quanto colocou para responder à carta de A.M.

"Você mandou a resposta?" Luhan perguntou, enquanto digitava no computador de Chanyeol sem nem ao menos olhar para o lado.

Kyungsoo achava aquilo assustador. A maneira como Luhan tinha vários modos, como um robô daqueles que compravam no Wallmart. Luhan poderia virar o melhor atleta da cidade quando jogava no campo, se tornava o melhor estudante exemplar quando precisava se concentrar, e o filho prodígio quando estava na casa dos pais, na China. Era bizarro, mas era fenomenal. Kyungsoo o invejava por isso.

"Sim." respondeu sua pergunta, roendo ainda mais as unhas sangrentas.

"E o que ele te respondeu?"

"Ele… ele não me disse nada ainda.”

Chanyeol, que estava deitado na cama lendo o primeiro volume de Tokyo Ghoul, um mangá que Kyungsoo tinha uma certa agonia de ler, riu baixinho como se estivesse ouvindo uma piada.

“Você espantou o cara, Kyungsoo? Caramba…”

Kyungsoo respirou fundo, pensando sobre isso. Ele era prolixo. E um tanto… entusiasmado. Tá, Kyungsoo era bem maluquinho mesmo. Mas quando escreveu a carta pensando em ser sincero, acabou sendo… talvez um tanto sincero demais. Talvez escrever sobre todas as coisas que já passaram pela sua cabeça não tivesse sido a melhor opção. Byun Baekhyun havia falado sobre escrever com sinceridade, e não com seus brainstorms de pensamentos. O que o seu ouvinte iria achar daquelas palavras? Elas eram, de longe, nada reconfortantes. Pior: ele não falou direito sobre o assunto mais complicado da outra carta, que era A.M. ter se declarado para si. Isso Kyungsoo não conseguia ao menos pensar sobre.

“Kyungsoo… Qual é o exemplo da voz passiva sintética?” Luhan perguntou da cadeira do computador, provavelmente se referindo ao trabalho de linguagens.

Kyungsoo fez um esforço mental para se lembrar do exemplo que havia assinalado, porque já tinha se desconcentrado sobre os trabalhos que devia fazer. Ele estava esperando mesmo era por um milagre, naquela altura.

“Vendem-se casas.” Disse, enquanto voltava o olhar para Chanyeol, “O que você quer dizer com espantar? Eu fui sincero! Ser sincero não é fundamental para um relacionamento?”

“Relacionamento?” Chanyeol gargalhou, “Relacionamento? Cara! Você só pode estar maluco.”

“Eu quis dizer entre ouvinte e… seja lá o que eu sou. Eu devo ser sincero com eles, não acha? Pois, então, foi o que eu fiz.” Kyungsoo se levantou do tapete, checando o relógio para ver as horas.

Eram 19h45, o que significava que o ônibus já deveria estar chegando. Se pegasse agora, talvez poderia passar na Café Universe para comprar algum daqueles cookies de caramelo. Não que isso fosse uma desculpa para ver o bonitão do Baekhyun, não. Isso, ele nunca iria admitir.

“Enfim, pessoal, estou indo nessa.”

“Como assim?” Luhan dessa vez se desgrudou do computador, encarando-lha como se pudesse atirar raios pelos olhos. “Você vai terminar o trabalho com a gente! Senta essa bunda aí, Do Kyungsoo.”

Chanyeol concordou, como se ele mesmo tivesse feito muita coisa. Kyungsoo ficou enfezado, porque Luhan sempre facilitava para ele nessas horas. O que era esquisito, já que os dois viviam brigando. Mas não seria ele que ia tentar começar a entender os seus melhores amigos.

“Não tem muita coisa mais para fazer, tem?”

“Claro que tem!” Luhan apontou para a pilha de livros de geografia “Esqueceu que ficamos de dividir os trabalhos? Você ainda não fez a revisão do trabalho que o Chanyeol fez.”

“Hey! Porque eu tenho que ser revisado?”

Luhan corou, sendo pego pela culatra. Kyungsoo riu, finalmente entendendo porque ele não deixava Chanyeol fazer absolutamente nada. Santo perfeccionista!

“Eu faço, ok, eu faço.” Kyungsoo disse, tirando o celular do bolso para abrir o documento compartilhado, já que Luhan estava com o computador.

Seus olhos arregalaram quando ele percebeu a notificação da caixa de email ali, indicando que ele finalmente havia lhe respondido.

“Meu deus do céu…” Kyungsoo soltou as palavras, involuntariamente.

“Caramba, Kyung, você está branco cara.”

“Ele respondeu, caras, ele respondeu!” Disse, balançando o celular para cima.

Kyungsoo sentiu um pé atingir a sua mão no mesmo momento em que apontou o celular para Luhan. O aparelho voou pelo outro lado do quarto, indo parar debaixo do armário de roupas de Chanyeol.

“Puta merda, Chanyeol!” Kyungsoo gritou, engatinhando até o armário como se estivesse numa trincheira.

“Foi mal, foi mal! Eu fiquei nervoso também, pô! Você deixa todo mundo agitado aqui.”

Kyungsoo recuperou o celular, percebendo que a tela infelizmente rachara. Então ele tinha ali apenas metade de uma tela, em que ele conseguia ler poucas palavras do email que A.M. havia mandado.

“Puta merda, Chanyeol!” Dessa vez o grito veio com frustração, da mais profunda.

Quão azarado ele podia ser? Aquele era o email da sua vida, e agora o seu celular estava rachado.

“Meu Deus…” Luhan riu baixinho, achando graça da situação.

“Saia, Lu, eu preciso ler o que ele mandou, eu preciso!”

“Está maluco? Temos que terminar o trabalho. Mais tarde você vê isso aí. Você ainda tem que revisar o trabalho do Chanyeol, e eu preciso terminar o de linguagens.”

Kyungsoo queria gritar. Como aquilo poderia estar acontecendo? Só podia ser alguma punição divina. Seria porque ele fez um tweet criticando o novo álbum dos Strokes na semana passada? Seria porque ele era ateu? Ou será que Deus só castigava mesmo os gays? Kyungsoo não sabia. Ele só queria saber o que A.M. havia lhe dito, ou sua mente poderia explodir naquele exato instante.

“Luhan… você vai torturar ele, cara. Ele está prestes a passar mal.”

“Então você que empreste o celular pra ele, já que foi você que quebrou.”

Kyungsoo olhou para Chanyeol, sorrindo em antecipação. Chanyeol revirou os olhos, quando saiu da cama e caminhou até a escrivaninha que Luhan estava. Puxou o celular da tomada em que estava carregando, e deu para Kyungsoo fazer o login do seu email; o que o moreno fez, quase desesperado, errando a senha umas três vezes.

Quando na quarta tentativa as coisas deram certo, Kyungsoo finalmente abriu a caixa de entrada. O email estava lá esperando por ele como o sapatinho de cristal da Cinderela. Talvez aquela era uma péssima comparação, mas era assim que se sentia.

De: A.M. (a.m.r.u.m@pmail.com)

Para: Podcast Cartas pra Você (cartaspravoce@pmail.com)

Assunto: Sem assunto (resposta)

Ao senhor Demasiadamente,

Meu caro Kyungsoo... qual problema você tem com o uso de advérbios?

Seu,

A.M.



Kyungsoo sorriu. Não sabia porque, mas estava sorrindo. De tudo o que ele havia escrito, era só isso que A.M. havia entendido? Seu uso de advérbios? Chegava a ser engraçado. Hilário, até. Por que de todas as respostas, essa era definitivamente a que Kyungsoo menos esperava. E talvez fosse por isso que havia gostado tanto dela assim.

“E aí, Kyung, o que foi o que ele disse?” Chanyeol perguntou, de alguma forma, brotando do seu lado com os olhos arregalados morrendo de curiosidade.

Kyungsoo mostrou o email para ele, com um sorriso no rosto.

“Ele disse que eu uso advérbios demais."

Chanyeol olhou pra Luhan em confusão.

"O que é advérbio?" Ele gesticulou sem som, mesmo que Kyungsoo pudesse ver a boca dele se mexer e entender tudinho.

Luhan deu de ombros, encarando o computador. Estava concentrado demais com o trabalho de linguagens para dar atenção às loucuras de Kyungsoo.

"Ele é tão esquisito quanto você, vocês dois se merecem." Chanyeol disse, voltando a sentar na cama com o seu mangá favorito.

Kyungsoo continuou encarando a tela, com um sorrisinho adornando o rosto. Ele era engraçado, o tanto quanto era profundo. Se apaixonar para Kyungsoo sempre havia sido uma tarefa muito fácil, devido sua impulsividade para lidar com a vida. Ele não diria que estava apaixonado pelas palavras do seu ouvinte, mas havia ficado, no mínimo, encantado com elas. Por isso pensou em responder aquele e-mail apenas quando tivesse certeza do que poderia responder.

Foi bem mais tarde naquele noite, quando Kyungsoo chegou em casa, tomou banho, e vestiu o seu pijama de Star Wars, que ele se colocou a pensar sobre a resposta. Tinha muitas ideias sobre como poderia fazer aquilo funcionar: ele poderia pedir ajuda para o bonitão da cafeteria, o que seria uma ótima ideia, já que ele era lindo, e pessoas bonitas normalmente sabiam lidar com cantadas. Ele poderia… ser sincero… e acabar por estragar tudo, já que comparar o email dele com o sapatinho da Cinderela poderia soar infantil. E horrível, meu Deus, que horrível!

Kyungsoo poderia também dar uma de espertão, e procurar uma lista de advérbios para ele. Talvez os melhores advérbios dentre todas as línguas. Poderia mandar curiosidades sobre advérbios, ou poderia… mandar uma música. Será que ele poderia fazer isso? Ele iria gostar? Talvez sim! Já que essa é uma marca registrada do seu podcast. Além de que… pelo email que o tal A.M. havia mandado, Kyungsoo tinha cerca de 95% de certeza de que ele era um grande fã de Arctic Monkeys, assim como ele. E se esse fosse o caso, seria realmente a coisa mais incrível que já havia acontecido consigo.

Quando escolheu a playlist, Kyungsoo pegou a que usava para escolher as músicas de abertura do podcast. Mudou algumas posições, e colocou mais um monte do seu álbum favorito, para causar uma boa impressão. Quando escreveu o email, tinha um sorriso grande no rosto

De: Podcast Cartas pra Você (cartaspravoce@pmail.com)

Para: A. M. (a.m.r.u.m@pmail.com)

Assunto: Sem assunto (resposta)



Ao senhor Norma Culta Padrão,

Tá brincando comigo? Advérbios são TUDO.

Se você está me julgando por eu demasiadamente usar advérbios, talvez você devesse ouvir algumas músicas para relaxar. Ou… eu escrevi isso aqui só para ter uma desculpa pra te mandar uma das minhas playlists, que a maioria dos meus ouvintes não sabem que existe! Considere-se, meu querido A.M., um membro VIP do Cartas pra Você!

Seu podcaster favorito,

Kyungsoo.

P.s.: Você deveria saber que é bem feio julgar a escrita dos outros, viu? Estou de olho em você!

Aqui está uma playlist para você: Cartas pra Você (podcast)



De: A. M. (a.m.r.u.m@pmail.com)

Para: Podcast Cartas pra Você (cartaspravoce@pmail.com)

Assunto: Sem assunto (resposta)

Ao Sr. Ofendido,

Eu não estava julgando você…

Okay, talvez um pouco… mas você não me deixou outra escolha. Quer dizer… olha o quanto de demasiadamente você já me disse em dois emails… foram 9. 9!!! Isso sim é demasiadamente insuportável.

A.M.

De: Podcast Cartas pra Você (cartaspravoce@pmail.com)

Para: A. M. (a.m.r.u.m@pmail.com)

Assunto: Sem assunto (resposta)

Ao Sr. Reticências,

Se eu uso muitos advérbios, você também usa muitas reticências.

Demasiadamente,

Do Kyungsoo



De: A. M. (a.m.r.u.m@pmail.com)

Para: Podcast Cartas pra Você (cartaspravoce@pmail.com)

Assunto: Sem assunto (resposta)

Okay, você venceu.

E obrigado pela playlist, Do Kyungsoo. Ela é realmente muito boa, além de (prepare-se para o advérbio) ela ridiculamente conter todas as minhas músicas favoritas do Arctic Monkeys!

De um ouvinte culpado,

A.M.



De: Podcast Cartas pra Você (cartaspravoce@pmail.com)

Para: A. M. (a.m.r.u.m@pmail.com)

Assunto: Sem assunto (resposta)

Aceito as suas desculpas implícitas.

Fico contente que goste dessa playlist, apesar de eu já ter suspeitado da sua paixão pela minha banda favorita pelo seu email. Há! Que coisa!

Se você me disser que o seu álbum favorito é o Suck It And See, juro que te peço em casamento! Brincadeira, brincadeira (ok, nem tão brincadeira assim…)

Seu Alex Turner,

Do Kyungsoo

Kyungsoo de repente se sentiu esquisito. Talvez não devesse estar brincando assim com um completo estranho, mas a sua bendita impulsividade o fazia agir de um modo tão esquisito que ele mal podia se conter. Desligou o notebook em que estava conversando com A.M., colocando-o de lado, e voltando para a cama, ainda um pouco agitado por toda aquela troca de email.

Se conseguisse dormir aquela noite seria um luxo.