Cartas pra Você

7 I Want It All


And then suddenly it hit me it's a year ago

Since I drank miniature whiskey and we shared your coke

Ain't it just like you to kiss me and then hit the road

Leave me listening to the stones

2000 light years from home



Quando Baekhyun abriu o email na manhã seguinte, seu coração parecia prestes a explodir. Cada vez que Do Kyungsoo mandava mensagens, algo dentro dele iluminava como fogos do ano novo. Era uma sensação nova essa, algo que Baekhyun nunca tinha experimentado antes — nem mesmo com Sehun. Não tinha muitos amigos além das pessoas com quem interagia no trabalho, ou mesmo seus ex-amigos da escola. Então também não tinha esse hábito de trocar mensagens desde muito jovem. Mas com Do Kyungsoo, tudo era diferente.

Ele tinha certeza que deveria ter lido o último email umas vinte vezes. Talvez até mais. A frase do "pedir em casamento" rodou a sua mente por horas seguidas, e ele se sentia um tanto ridículo por conta daquilo, mas também sabia que Kyungsoo não tinha falado tão a sério. Ou pelos menos, achava que não. Será que tinha? Céus… aquela dúvida iria lhe corroer até que criasse coragem para respondê-lo outra vez.

Baekhyun suspirou enquanto olhava o relógio no pulso, checando as horas para não se atrasar. Estava a caminho da cafeteria, novamente esperando o ônibus enquanto segurava o guarda-chuva amarelo dele em suas mãos. Um guarda-chuva, aliás, que Baekhyun achava muito peculiar. Não eram muitas pessoas que usavam guarda-chuva coloridos por aí, e a sua curiosidade sempre lhe matava para fazer perguntas sobre ele. E ter que ser discreto na presença dele também o matava aos poucos, já que Kyungsoo não sabia que Baekhyun e A.M. eram a mesma pessoa. Uma pequena confusão que apenas Byun Baekhyun seria capaz de fazer.

Ele abriu o celular, e acabou por dar play no último episódio do podcast Cartas Pra Você que foi ao ar no dia anterior. A música de abertura dessa vez era I Want it All, de Arctic Monkeys. Não passou despercebido que a faixa era do álbum A.M., e Baekhyun acabou se perguntando se aquilo era proposital.

"Olá a todos. Meu nome é Do Kyungsoo, e você está ouvindo mais um episódio do Cartas pra Você."

Kyungsoo fez uma pausa de alguns segundos antes de prosseguir, o que Byun achou estranho. Ele não costumava fazer pausas tão longas assim no programa.

"Hum… hoje eu resolvi fazer algo que eu nunca tive coragem de fazer antes, que é gravar um programa sem roteiro nenhum. Pois é. Estou aqui praticamente me sentindo nu diante do microfone, como aquelas cenas de filmes em que as pessoas têm fobia de discursar em público. Hahaha, estão vendo só? Esse é o meu verdadeiro eu! E se você não adivinhou até agora, pode começar a adivinhar que o tema da carta de hoje tem a ver com isso. É… hoje vamos ler a carta de um anônimo, que vou chamar de… uh… Alex." Baekhyun sentiu o coração se apertar de nervoso. Alex, de Alex Turner? Será que ele estava fazendo conexões com as mensagens de ontem?

O ônibus acabou chegando, e Baekhyun subiu os degraus enquanto tentava prestar atenção nas coisas que fazia. Passou o cartão e escolheu um lugar perto da janela para poder observar as coisas lá fora enquanto escutava Kyungsoo falando em seus ouvidos.

"Querido Do Kyungsoo, sou um ouvinte assíduo do Cartas pra Você e gostaria, em primeiro lugar, te parabenizar pelo seu trabalho. Eu sou completamente apaixonado pelas músicas que você escolhe para cada programa, principalmente porque adoro Arctic Monkeys também." Kyungsoo riu de leve, "Entenderam porque o chamei de Alex, certo? Parece mesmo que esse podcast uniu todos os fãs de Arctic que habitam na Terra. Mas eu não estou reclamando, não estou reclamando. Longe disso! Se você for fã de Arctic Monkeys também, deixe um comentário para mim no Tumblr que eu vou adorar ler! Mas… seguimos."

Baekhyun sorriu. Ele realmente parecia ter reunido todos os fãs daquela banda, assim como o próprio Baekhyun que tinha um email da banda que usava para fazer suas playlists pela internet. E agora, já estava gostando tanto da banda que ela praticamente não saía de nenhuma playlist da Café Universe, e muito menos dos seus ouvidos. Foi amor à primeira escuta, se fosse falar.

"Eu estou escrevendo para você hoje, Do Kyungsoo, porque eu estou com um problema que me sufoca a cada dia que passa. E eu acho que talvez você possa entender isso, ou talvez não, mas eu sinto que apenas por estar aqui desabafando com você, as coisas podem acabar se organizando na minha cabeça. Isso faz sentido?" Kyungsoo hesitou antes de falar, "Se faz sentido pra você, é o que importa, certo? Quer dizer, nós nem sempre teremos a resposta para tudo aqui. Eu provavelmente só vou fazer o que eu sempre faço: te escutar, e te ouvir de verdade. E aí, tentar arrumar uma solução para que você não se sinta tão sozinho. Então, já de início, eu posso te garantir que você não está sozinho nessa!"

Baekhyun sentiu como se aquelas palavras refletissem o que ele havia dito para si no dia anterior. Cada vez mais, pensava sobre aquelas palavras. Sobre a certeza que Kyungsoo tinha sobre ele mesmo, e sobre como ele fazia com que as pessoas tirassem força onde nem elas mesmas seriam capazes de explicar. Ele era bom no que fazia e provavelmente não tinha a mínima ideia disso.

"Uh… continuando. Eu vim aqui hoje porque estou me sentindo um pouco esquisito. Quer dizer, eu sinto que vivo uma vida dupla a todo momento, você sabe como é? Eu sinto que estou mentindo para todos, todas as vezes que eu respiro. Isso é patético, sério. E eu sei disso. Eu não deveria me sentir tão ruim por ser quem sou, principalmente porque não é algo que eu possa mudar. O que eu estou tentando dizer é que… eu sou gay. Quer dizer... eu não sei direito o quê eu sou ainda, mas eu sei que me sinto diferente dos outros garotos com quem eu interajo na escola. O problema é que, bem, meus pais me matariam se descobrissem que eu sou diferente do que eles esperam que eu seja. Isso faz sentido? Eu nem ao menos sei se estou fazendo sentido aqui.” Kyungsoo gaguejou um pouco, e parecia bem nervoso, pelo que Baekhyun pode perceber. “Ahh… eu... entendo sim. Eu te entendo completamente, na verdade. Já devo ter mencionado isso antes, mas eu me descobri com 12 ou 13 anos. E aí, acabei ficando um pouco confuso também, com a diferença que sempre tive amigos como eu. Então, eu acho que isso ajudou muito para que eu me aceitasse. Agora… a coisa é que: eu também não me assumi, Alex. Meus pais não fazem ideia de quem eu sou de verdade, por mais que eu tenha plena certeza de quem eu sou, e quem eu quero me tornar.”

Baekhyun ficou surpreso com a fala dele. Dizer isso na internet era corajoso, principalmente porque ele estava se arriscando ali, abrindo a possibilidade para que alguém adquirisse aquela informação com má intenção. Mas não é como se Kyungsoo fosse uma pessoa medrosa, Baekhyun se lembrou. Se ele fosse medroso, provavelmente não faria metade das coisas que fez quando o encontrou pela primeira vez.

A lembrança fez com que Baekhyun sorrisse. Era ridículo que estivesse sentindo tanta falta assim de vê-lo? Talvez fosse. Mas não conseguia ao menos resistir ao jeito dele de ser, porque era justamente pela sua essência que Baekhyun havia se apaixonado.

"Então eu acho que o conselho que eu tenho pra você hoje, Alex, é que seria legal se você compartilhasse as suas preocupações. É uma coisa que eu sempre falo: tristeza compartilhada é tristeza pela metade; alegria compartilhada é alegria em dobro. Bem, na verdade não é algo que eu fale, eu meio que ouvi por aí e agora uso isso quando estou tentando aconselhar alguém, mas você entendeu, certo? Se tiver alguém com quem compartilhar as suas preocupações, pode ter certeza que essa confusão interior vai melhorar um pouco. E, aliás, espero que apenas por estar compartilhando aqui no podcast, possa de alguma forma fazer você se sentir menos só. Lembre-se que a sua vida é importante, então não faça nada de precipitado. Peça ajuda se precisar, converse com seus amigos, mas não faça nada que te coloque em risco, ok? Estaremos todos aqui torcendo por você!"

Baekhyun não estava esperando por isso, mas aquelas palavras estavam fazendo um furacão dentro do seu peito. Talvez se tivesse ouvido algo assim enquanto ainda era um adolescente de 12 ou 13 anos, ele não teria carregado tantos traumas até a sua "vida adulta", mesmo que tivesse apenas 19 anos.

Era difícil se sentir só. Era difícil, porque a sociedade parecia ter muitas expectativas sobre coisas que ele não poderia controlar. Ele não passou no vestibular, e muito menos estava estudando para isso. Não sabia se queria de fato cursar uma faculdade ou se aquilo era mais uma regra do sistema que estava seguindo para se encaixar. Baekhyun não conhecia seus próprios sonhos, porque nunca teve a oportunidade de sonhar.

Ele ganhava dinheiro. Era isso que fazia, dia e noite, noite e dia. E mesmo ganhando dinheiro, não se sentia nem perto de alcançar a felicidade. Era como se ele vivesse diariamente no piloto automático, apenas correndo uma maratona sem saber direito onde era a linha de chegada. Imaginava se um dia ele fosse sequer conhecê-la.

"Bom, por hoje foi isso. Se você tiver alguma carta para ler aqui, pode me mandar no email do podcast ou pela caixa de mensagens do Tumblr. Esse podcast era inicialmente um projeto para pessoas apaixonadas, mas agora estamos lendo de tudo aqui." Kyungsoo riu baixinho, o que fez Baekhyun sorrir com ele também, "E para todos os fãs de Arctic Monkeys por aí, eu só quero dizer que… o álbum A.M. é realmente um dos melhores. Hahaha. Isso foi um pouco tolo, mas eu espero que alguém pegue a mensagem. Tchau tchau."

Baekhyun ficou boquiaberto com aquela última frase. Ele esperava que alguém pegasse a mensagem, e esse alguém era ele? Deveria ser ele, certo? Não podia acreditar!

Ele desceu do ônibus quase que tropeçando por estar tão afetado com o que ouvira. Com toda certeza, Kyungsoo deveria estar falando dele. Quer dizer, com quantas pessoas ele deveria falar conversar sobre Arctic Monkeys? Baekhyun parou para pensar, chegando a conclusão que talvez fosse infantil se achar tão exclusivo assim. Ele deveria ter muitos amigos iguais a ele, pessoas as quais ele poderia dividir interesses em comum. Ele tinha amigos, ao contrário de Baekhyun que sempre fora bem reservado.

Baekhyun resolveu deixar todos os seus pensamentos mirabolantes de lado, e seguiu até a Cafe Universe do outro lado da rua. Ficou um pouco surpreso quando viu Minseok do lado de fora, todo arrumado com seus cabelos verdes e jaqueta de couro. Ele era bonito, Baekhyun tinha que confessar. Estava digitando no celular enquanto chupava um pirulito de cereja, algo que ele fazia com muita frequência.

Baekhyun parou do lado dele, sem dizer nada. Não tinha moral para lhe perturbar, porque o rapaz já tinha a fama de ser bem agressivo. Os dois tinham uma amizade um tanto esquisita, porque se davam bem mas em um nível interpessoal. Era como se Baekhyun fosse professor e ele o seu aluno, já que se viam com frequência mas não o suficiente para formar uma amizade duradoura.

Minseok olhou pra ele com os olhos cinzentos. Eram lentes, claro, mas não deixava de ficar bonito nele. Ele tirou o pirulito da boca, antes de lhe dizer:

"Por que você quer me foder, Byun?"

Baekhyun arregalou os olhos, surpreso. Ele estava mesmo bem irritado com a situação.

"O quê?" Baekhyun perguntou, fingindo desentendimento.

"Corta essa!" Ele voltou com o doce na boca, e Baekhyun pode sentir o cheiro doce da cereja no seu hálito de tão perto que estavam, "Você encheu o saco dos meus irmãos por causa desse festival. O que quer comigo? Eu já disse que não tocaria perto dele de novo."

Baekhyun suspirou. Dramas adolescentes… quando foi que ele virou um especialista nisso?

"Escuta… eu juro que se você me ajudar, faço o que você quiser! Preciso muito agradar o meu chefe, Minseok. Ele é fissurado pela banda de vocês, e o público gosta bastante da banda do–"

"Não precisa dizer o nome dele." Minseok desviou o olhar, pela primeira vez, mostrando fragilidade.

Baekhyun pode ver que havia mais da história que não tinha sido contada. Por trás de toda aquela raiva, deveria ter muita chateação.

"Sinto muito." Baekhyun disse, sendo sincero. "Mas eu prometo que vocês vão se divertir nesse festival. E ainda tem o prêmio em dinheiro."

Minseok olhou para ele surpreso.

"Prêmio?"

"Bem, sim. São 200 mil wons, é uma boa grana, certo?"

"Por que não disse nada sobre o prêmio antes?"

Baekhyun de repente ficou nervoso. Não disse nada, porque era uma mentira deslavada. Porém, poderia fazer essa chantagem para o seu chefe explicando a situação. Tinha certeza que Yixing iria se compadecer e ajudá-lo diante daqueles termos.

"Era um segredo. O prêmio seria surpresa."

Minseok o mediu, encarando-o profundamente.

"Certo. Certo, se tiver essa coisa de prêmio aí, então estamos dentro. Caso o contrário, pode esquecer."

Baekhyun sorriu largo. Finalmente! Finalmente havia dado certo! Não poderia acreditar na sua sorte.

"Vou marcar vocês na lista então." Ele disse, não conseguindo disfarçar a animação na própria voz.

"Tá, tá, tanto faz. Mas fique avisado Byun: é o prêmio ou nada. Não vou tocar ao lado de um traidor só pra salvar a sua pele."

"Não se preocupe com isso!" Ele assegurou.

Até porque, quem deveria estar preocupado era ele mesmo. Pois era Baekhyun que iria convencer Zhang Yixing a colocar um prêmio naquele festival.



Kyungsoo estava batendo a caneta contra a carteira enquanto fazia a última questão da prova de matemática. Era algo sobre álgebra, coisa que ele odiava, mas que deveria passar a levar a sério se quisesse uma vaga decente na faculdade de Jornalismo.

Ele suspirou olhando para o relógio na parede percebendo que faltavam menos de três minutos. Kyungsoo fechou os olhos, e respirou três vezes antes de continuar o último exercício. Não iria pensar no tempo agora, não poderia entrar em desespero. Deveria seguir com o exercício até o final do tempo ou poderia acabar se ferrando por conta daquilo. A agitação começou a bater, e na sua mente o relógio rodava em uma velocidade maior do que a do tempo real. Era sempre assim com ele: o tempo rodava, e o seu coração disparava. Manter-se no encalço do relógio sempre foi uma tarefa difícil para ele, algo árduo de se fazer.

Deu por continuidade, e quando o lápis girou no último número por escrito, Kyungsoo soltou um grande suspiro de alívio. Olhou para o relógio, percebendo faltar agora apenas alguns segundos para a prova acabar. Estava ali, nas suas mãos, o resultado mais importante do semestre. Se tivesse errado seria o seu fim, e por consequência, o fim da sua carreira também. Kyungsoo fez a última checagem de todos os valores bem a tempo do professor dizer: “O tempo acabou”.

Ele largou o lápis na carteira como se tivesse acabado de fazer uma operação. Respirou fundo umas três vezes, antes de sua prova ser recolhida para nunca vê-la. Ah, o doce momento de quase morte que era não ter mais certeza de nada do que havia escrito ali. As coisas faziam sentido enquanto ele poderia contar com o apoio da prova, mas agora que estava a mercê de seus pensamentos, nada fazia sentido mais. Tudo o que ele queria era ir para casa.

Todos os alunos foram dispensados para o intervalo, e Kyungsoo seguiu diretamente para o banheiro. Correu um pouco no caminho porque sabia que se esperasse demais, as cabines iam lotar. E ele não poderia deixar de ler os e-mails do seu ouvinte nem por um segundo sequer!

Kyungsoo correu até o banheiro, socando a porta da cabine e se atrapalhando com a trava por conta dos dedos desesperados. Sentou em cima da tampa da privada encarando a porta rabiscada de coisas bestas, como “Lu Han é o maior viado”, ou “Kim Taeyeon tem peitos pequenos”. Héteros… como descrevê-los? Kyungsoo odiava a maioria deles. Revirou os olhos, desejando que tivesse consigo alguma caneta para rabiscar o nome do seu amigo dali.

Pegou o celular do boldo do moletom cinza, e abrir o aplicativo de e-mails logo em seguida. Tinham alguns e-mails para o podcast, mas não precisou rolar tanto a tela para ver o último e-mail de A.M. ali.



De: A.M. (a.m.r.u.m@pmail.com)

Para: Podcast Cartas pra Você (cartaspravoce@pmail.com)

Assunto: Sem assunto (resposta)



Eu ouvi a sua playlist, e posso dizer que ela realmente é muito boa. E que, infelizmente, Suck And It See não é de longe o meu álbum favorito do Arctic Monkeys. Sou fã do Favourite Worst Nightmare, assim como as outras pessoas sensatas! Há! Agora sou eu quem está brincando! hahahaha

A.M.



Kyungsoo ficou chocado. Não achou que a sua brincadeira ia funcionar, mas ficou feliz que sim! Estava até mesmo pensando em mudar a próxima abertura do podcast para uma música do álbum favorito de A.M. Talvez isso faria dele uma pessoa muito desesperada? Bem, ele era um pouco assim mesmo. A coisa era que Kyungsoo era viciado em mistérios, e estava gostando de poder deixar pistas para ele no seu podcast. Era a forma que tinha para lhe agradecer por o encorajá-lo com a coisa mais preciosa da sua vida.

Era verdade que Kyungsoo tinha feito o Cartas pra Você por ser um cara romântico, mas naquela altura do campeonato, estava apenas se contentando em ser o guia de quem precisasse. Seja pela sua voz ser confortável, ou até mesmo um pequeno presente deixado para um ouvinte, ele se esforçava para dar todo o seu coração ali. Então era gratificante saber que ele também não estava sozinho.

Ele sorriu enquanto digitava a sua resposta para A.M.



De: Podcast Cartas pra Você (cartaspravoce@pmail.com)

Para: A.M. (a.m.r.u.m@pmail.com)

Assunto: Sem assunto (resposta)



Você pode se gabar por ser um fã antigo, A.M., mas o seu e-mail diz o contrário! E agora? Vai me julgar tanto assim por gostar do Suck it And See? Ah, que maldade! Fãs mais velhos são feitos para ajudar os mais novos, não?

Mas de qualquer forma, eu espero que o seu dia tenha sido demasiadamente bom. Eu acabei de sair da prova mais terrível da minha vida e estou escondido no banheiro mandando mensagens para você. Pode-se dizer que sou demasiadamente ansioso? Sim! Mas é que você me deixa mais animado como nunca.

Deve ter reparado que no episódio passado, acabei deixando uma dica para você. E, bom, se não reparou, estou falando agora! hahahaha Eu julguei que o A.M. era o seu álbum favorito por conta do e-mail, então agora que eu sei que não é, na próxima vez coloco outra música para você. Ou quem sabe não coloco logo uma do meu álbum favorito? Assim posso te convencer a dar uma chance para ele! hahahaha brincadeira, brincadeira

Bom, eu tenho que voltar para a aula ou vão acabar dando falta de mim. Espero conseguir te responder hoje a tarde, depois que eu voltar da cafeteria! Estarei esperando pelo seu e-mail.

Seu,

Do Kyungsoo



Foi por volta das quatro horas da tarde que Kyungsoo apareceu na Cafe Universe para terminar de editar o episódio do podcast que havia gravado na noite anterior. Assim que passou pela porta, sentiu o cheiro de café forte no ar. O estômago roncou, o fazendo perceber que provavelmente não tinha comido nada até aquela hora. Ah, maldita memória rasa! Era horrível para alguém como ele se lembrar das coisas com frequência, vivia perdendo e esquecendo objetos por aí.

Kyungsoo apertou o passo quando entrou para dentro da cafeteria. O lugar estava um tanto vazio para aquela hora do dia, então foi fácil para ele escolher a melhor mesa do salão. Quando se sentou um pouco perto da jukebox, reconheceu que a música que estava tocando na playlist era bem familiar: Fluorescent Adolescent, de Arctic Monkeys. Kyungsoo sorriu no mesmo segundo, porque sabia que aquela música era do álbum favorito dele, o seu misterioso A.M.

Segurou a vontade de mandar um e-mail para comentar aquilo sobre ele, porque sabia que seria muito aleatório — até para alguém como ele. Então ele apenas se sentou na mesa com a sua mochila pesada, e aproveitou a canção.

Concentrado enquanto tirava o seu equipamento da mochila, ele não percebeu a presença de um dos garçons da cafeteria do seu lado. O rapaz teve de pigarrear um pouco mais alto para que Kyungsoo olhasse para cima, e deixasse a mochila de lado. Ele se assustou, e quando voltou o olhar para o garçom ficou surpreso. Era Baekhyun ali, segurando uma caderneta com toda a sua força.

"B-baekhyun?" Ele disse, involuntariamente.

Não era para o nome dele soar como uma pergunta, mas Kyungsoo já tinha se esquecido um pouco do impacto que Baekhyun tinha sobre si. Ele era mesmo o garoto mais lindo que já tinha visto, mas não era só isso. Ele também era simpático, e cheirava como baunilha. Bem, a baunilha deveria ser da cozinha, mas ainda assim. Kyungsoo gostava muito dela.

"Você quer fazer um pedido?" Baekhyun lhe perguntou, encarando a sua alma.

Kyungsoo quase desmaiou por trás dos óculos grandes. Ele continuava lindo de morrer, com aqueles cabelos loiros descoloridos e os ombros largos apertados no uniforme da cafeteria. Por que mesmo que ele tinha que ser tão bonito assim? O deixava muito atormentado. O estômago esfriava toda vez que estava perto assim dele, e o suor parecia não ter fim. De repente Kyungsoo se perguntou se era possível passar mal de paixão.

"E-e-eu…" Kyungsoo gaguejou, sentindo-se um idiota, "Hum… eu…" E, como se fosse um insight, ele se lembrou: "Uh… na verdade, vim buscar o meu guarda-chuva amarelo que eu realmente, realmente espero que esteja aqui."

Baekhyun ficou surpreso pela sua resposta. Bem, Kyungsoo tinha uma péssima memória, mas algumas delas vinham coladas umas nas outras. Como a sensação de formigamento que ele sentiu no outro dia enquanto olhava pra ele, sendo a mesma que sentia agora, o fez lembrar da outra vez que esteve aqui. E que estava chovendo. E que chuva significava sair de guarda-chuva, o que o fez lembrar que sua mãe gritou consigo por tê-lo perdido outra vez.

"Ele está." Byun respondeu, "Mas… eu preciso pegar no meu armário."

Kyungsoo concordou com um aceno, fechando o zíper da mochila. Estava tão feliz por não ter que comprar outro guarda-chuva que nem ao menos podia se controlar.

"Ok, vamos lá."

"Uh… você não pode entrar lá. É só para funcionários."

"Aaah, caramba." Kyungsoo riu de nervoso, "Eu realmente não pensei sobre isso."

Baekhyun sorriu para ele. Sorriu mesmo, com todos aqueles traços que formavam um desenho bonito no rosto. O seu coração começou a bater mais rápido, e ele tentava se concentrar para não se passar de bobo na frente dele outra vez.

"Eu vou pegar o seu guarda-chuva, e aí anoto o seu pedido. Tudo bem?"

Kyungsoo acenou rapidamente, parecendo uma criança animada. Baekhyun guardou um sorriso, como se quisesse poupá-lo de suas risadas. Fofo, ele pensou, é a primeira vez que alguém tem tanta consideração comigo. Mas no mesmo momento, ele se repreendeu. Não era de fato a primeira vez que alguém tinha consideração consigo, mas era a primeira vez que essa pessoa era um cara gostoso como Baekhyun.

Ele se sentou na cadeira para esperá-lo, encarando a mochila sem pensar direito. Se Do Kyungsoo, o podcaster, pudesse assumir as suas funções executivas agora, iria dizer que ele deveria agir. Mas na vida real, tomar atitude por alguém tão bonito era muito intimidante, então descartou a ideia. O jeito seria arrumar uma maneira de conversar mais com ele, mas como?

A música da jukebox, de repente mudou para uma música que Kyungsoo lembrava ser do Black Kids, “I’m Not Gonna Teach Your Boyfriend How to Dance With You”, o que ele achou engraçado. Não há como ensinar alguém a dançar, e muito menos a paquerar alguém. Era isso que o Universo estava tentando lhe dizer? Que ele teria que se virar nessa?

“Bem, valeu!” Kyungsoo bufou, dessa vez tirando o notebook e o headphone da mochila.

Abriu o computador, e logo começou a ajeitar as coisas para o episódio que deveria estar pronto daqui a duas horas! Estava atrasado de novo, como sempre, mas sabia que o seu cérebro só funcionava quando deixava as coisas para última hora. Com muito esforço, tentou se concentrar para que mais de quarenta minutos de áudio de transformasse em menos de vinte. Já estava começando a colocar o headphone na cabeça, quando viu Baekhyun voltando com o seu guarda-chuva nas mãos.

Ele caminhava até Kyungsoo um pouco rápido, como se não pudesse realmente estar fazendo tal coisa. Talvez fosse proibido? Kyungsoo não imaginava porquê. O Achados e Perdidos deveria funcionar todos os dias da semana, certo?

“Está aqui.” Baekhyun lhe estendeu o objeto, que foi tomado das suas mãos com hesitação por parte de Kyungsoo.

“Obrigado. Sério, muito obrigado por ter cuidado dele.”

Baekhyun arregalou os olhos.

“A-ah… n-não foi nada.”

Kyungsoo sorriu largo para ele, involuntariamente.

“É você que ajeita as playlists daqui, né? Vi você colocando música aquele outro dia.”

Baekhyun apenas lhe encarou, com uma cara assustada. Meu Deus, será que ele estava sendo um maluco stalker de novo? A sua curiosidade sempre foi a sua ruína.

“Ah. Sim, sou eu sim.” Ele parecia cauteloso, então Kyungsoo ficou com vergonha.

Deveria estar parecendo um maluco mesmo.

“Tem um bom gosto.” Comentou, deixando de lado as suas perguntas.

“O-obrigado.” Byun pigarreou, “Você vai fazer algum pedido?”

“Uh… sim, você poderia me ver um café? Com bastante creme. E açúcar!”

Baekhyun riu baixinho, anotando na caderneta.

“Algo mais?”

“Na verdade…” Kyungsoo tomou coragem. Era agora ou nunca, e ele tinha escolhida o agora: “Queria saber se você pode me passar a sua playlist? É para um projeto.”

“A minha… playlist?”

Agora ele parecia mais do que surpreso, e talvez fosse porque Kyungsoo ultrapassara as convenções sociais de novo.

“Eu juro que não estou te perseguindo nem nada, eu só te acho alguém de muito bom gosto. E, bem, queria te agradecer também por ter cuidado do meu guarda-chuva! Você não sabe o quanto mamãe poderia ter gritado comigo se soubesse que eu havia perdido. De novo.”

Baekhyun riu dele, sem reservas. Kyungsoo dessa vez se sentiu bobo, mas gostou de ser a pessoa que estava fazendo ele rir. Era uma sensação em tanto ser a causa da felicidade de alguém.

“Talvez você devesse amarrar os seus pertences na mochila. Isso pode ajudar com que os perca com menos frequência.”

“Uau, boa ideia Byun Baekhyun!” Por que nunca havia pensado em algo assim antes?

Baekhyun sorriu, mas apontou a caneta novamente para ele:

“Mais alguma coisa?”

“Quando o seu turno termina?” Kyungsoo perguntou, aproveitando a brecha que ele imaginou ter se aberto ali. Imaginou, e agora estava testando para ver se acertara.

Baekhyun de repente ficou intimidado. Desviou o olhar para a caderneta, e lambeu os lábios. Essa era expressão dele quando estava envergonhado? Por que se fosse, Kyungsoo tinha amado saber que estava afetando ele desse jeito.

“Termina depois das 18h.”

“Vou sair daqui por volta das 18h, também. Posso… esperar você? Pelas playlists…” Ele disse, mesmo sabendo que estava mentindo terrivelmente.

Baekhyun pareceu perceber, porque ele riu novamente, e concordou sem dizer nada. Riscou algo na caderneta, e arrancou o papel do pedido de Kyungsoo.

“Já volto com o seu pedido.” Disse, antes de sair andado de volta para a cozinha.

Kyungsoo sorriu tão largo que era como se tivesse ganhado alguma coisa. E tinha mesmo, pensando bem. Tinha ganhado a confiança dele, ou pelo menos algum interesse mútuo. Só esperava que dali pra frente fosse também ganhar a coragem para chamá-lo pra sair.

“Um dia,” ele disse baixinho, enquanto observava Baekhyun se afastar, “Um dia isso ainda vai acontecer!”