Cartas para Sakura
3 Um solitário
Sakura leu e releu a carta inúmeras vezes naquela manhã. Sabia que era loucura e que não necessariamente havia um problema ali, na realidade, Sasuke parecia muito bem centrado em suas ideias, saudável, nada que indicasse suicídio. A ideia de que ele era um completo maluco ainda não desaparecia da mente de Sakura com naturalidade, ela precisava se forçar a pensar que ao menos ele se preocupou em perguntar sua idade e que parecia realmente preocupado com a possibilidade de não ser adequado conversar com a garota.
Demonstrava que ele era maior de idade, o que foi um alívio para Sakura, porque até aquele momento, não pensara nele como uma criança. Na mente dela, e não que fantasiasse sobre Sasuke Uchiha, ele era adulto também, um adulto transtornado por um acontecimento certamente infeliz. Ainda assim, se ele fosse uma criança, Sakura estaria com problemas. Pegou, então, a primeira caneta que viu e começou a escrever sua resposta:
Querido Sasuke Uchiha,
Fico muito contente que tenha perguntado por minha idade, acredito que sua preocupação seja normal, porque, veja bem, não é normal que duas pessoas comecem a se comunicar dessa maneira. Não estou reclamando, é claro, fiquei muito contente com sua resposta, e espero que esteja bem, ao menos, na medida do possível.
Em primeiro lugar, compreendo completamente o que é pensar que sua mãe ainda esteja com você. Bom, ao menos quase que completamente... Quando minha avó partiu para o outro mundo, sempre sentia sua presença quando fazia bifes acebolados e salada de tomates. Era quase como se fosse ela a cozinhar esse prato, mesmo que eu soubesse ser impossível. Claro que pode ser um processo mais difícil para você, afinal, mora ainda na mesma casa, talvez se mudar seja realmente a solução, mas isso depende unicamente de você. Não sei realmente como posso ser de ajuda nessa situação, visto que nunca passei por nada parecido.
No entanto, quando ainda estava no colégio, tive que participar de uma atividade em que escrevíamos cartas para alguns presos de nossa cidade. O meu correspondente nunca me respondeu, mas lembro que alguns colegas de sala ficaram realmente tocados com as falas de seus correspondentes. Assim, penso eu, e sendo completamente enxerida em sua vida pessoal, que talvez responder uma das cartas de seu irmão não lhe faça mal algum. Certamente, faça isso apenas se estiver confortável, caso contrário, manter uma pilha de cartas acumuladas talvez não seja a solução... Não seria melhor apenas se livrar das cartas? Por que mantê-las se não pretende responder de qualquer maneira? Talvez eu tenha ultrapassado um limite aqui, não sei.
De qualquer maneira, espero que continue a corresponder. Aliás, eu tenho, atualmente, 21 anos de idade, prestes a fazer 22, na primavera...
Sakura encarou a carta bem na sua frente, não sabia como terminá-la. Na realidade, não fazia ideia do que deveria dizer para Sasuke Uchiha, afinal, o que em sã consciência seria ideal a se dizer? “Meus pais estão vivos e bem, querem me dar um carro, pois a minha vida é perfeita e agora tenho uma bolsa para o curso de medicina... Ah, e se não comentei, tenho o namorado perfeito.”? Mordeu a caneta e pensou no que escrever sobre si mesma. Bufou. Escrever essa parte da carta era exatamente como voltar para a quinta série e ter que apresentar seus gostos pessoais para o resto da turma. Sakura nunca sabia o que falar sobre si mesma, aprendeu com o tempo, mas agora ela se imaginava com cinco anos novamente.
Tamborilou os dedos no balcão da cozinha e encarou seu suco de laranja. Poderia dizer que adorava suco de laranja no café da manhã, mas apenas um copo, pois dois a deixavam enjoada... Ridículo. Quem diz uma coisa dessas? Quem pensa em falar uma coisa dessas? A questão mais interessante da vida de Sakura era gostar de suco de laranja?
Bem, não era verdade, pensou a garota, havia muita coisa em sua vida que era realmente positiva, mas achou que seria de péssimo tato contar isso para Sasuke Uchiha quando ele enfrentava os próprios fantasmas. Pensou se havia algo de ruim o suficiente para contar sobre sua vida, mas então imaginou se não pareceria com uma competição. Também não seria indelicado parecer que pouco se importava com a vida pessoal dele?
Pensou um pouco mais, absorta por completo naquela resposta. Chegou a conclusão que precisava encontrar um problema em sua vida para relatar, mas não poderia ser um problema puramente narcisista e não poderia ser banal o suficiente, ou então Sakura pareceria apenas debochada. O fato de se preocupar tanto com a opinião de Sasuke Uchiha era porque, talvez, ela não gostaria de parecer mais maluca do que já era por responder a carta de um estranho. Aliás, seria indelicado perguntar se ele pretendia se matar?
Sakura pensou se não poderia apenas fingir que não se importava muito com essa questão e queria saber apenas para evitar problemas. Não eram íntimos o suficiente (aliás, não eram íntimos em nível algum) para que ela perguntasse algo tão sério como aquilo. Por outro lado, ela realmente estava preocupada com a saúde mental dele, queria se certificar que as cartas continuariam a chegar. Dessa forma, concluiu que escreveria um P.S. em sua carta, perguntando sobre suas intenções de suicídio.
É óbvio que o P.S. só poderia vir quando ela terminasse a carta, ou seja, depois de sua apresentação. Não conseguia pensar em um problema que não fosse banal. Ok, talvez essa carta tenha que esperar um pouco mais para ser escrita, pensou Sakura com uma tristeza um tanto quanto incomum. Olhou para o relógio e percebeu que estava atrasadíssima para o almoço com Shikamaru, e ela não poderia se dar ao luxo de deixar aquele assunto simplesmente inacabado.
Levantou-se e se arrumou depressa, não se preocupou com maquiagem naquele dia e gostou muito do que viu no espelho. Na realidade, gostou mais assim do que o costume, mesmo com suas olheiras aparecendo de maneira tão gritante. Ou talvez fosse a influência que sua mãe exercia sobre ela ainda. Deu de ombros e correu para o carro, torcendo para que todos os semáforos estivessem verdes e que ela pudesse chegar no horário estipulado.
Atrasou cerca de cinco minutos e sorriu com a ideia de que realmente o tempo estava a seu favor hoje. Shikamaru estava à espera, olhando o cardápio com grande cautela, ela o observou com atenção antes de se sentar.
— Olá, querida... Está melhor hoje? – Perguntou ele, tocando em sua mão com delicadeza. O rosto franzido de Sakura não deixava dúvidas. – Sua mãe estava preocupada conosco. Disse que você parecia angustiada ontem.
Sakura concordou.
— Ah, sim... Não estava realmente muito bem. Acho que... Acho que foi algo que comi. – Mentiu, não sabia muito bem porquê, mas mentiu. Shikamaru não teria como ler seus pensamentos, mas certamente notaria a mentira se ela não fosse muito bem elaborada. – Mas hoje já estou um pouco melhor.
— Não sei... Você parece cansada. Por acaso você dormiu? Consigo ver suas olheiras pela maquiagem. – Shikamaru a observava com atenção e parecia desconfiado de alguma coisa, quase como se nada estivesse certo. Sakura não sabia muito bem como sair daquela situação.
— Fiquei preocupada com sua opinião. – Respondeu imediatamente e ao ver que ele parecia confuso, esclareceu: — Sobre minha bolsa de estudos.
Shikamaru soltou a mão de Sakura e suspirou.
— Temia que falasse sobre isso hoje... Bem, não estou muito contente com a ideia da sua mudança, essa é a verdade. – Esclareceu. – E a verdade é porque não quero que minha noiva esteja longe.
Sakura arregalou os olhos, Shikamaru sorriu um pouco com aquela visão, um sorriso genioso e travesso. O problema é que Sakura não sabia muito bem o que responder e apenas arfou, um pouco de desespero naquele momento.
— Noiva? – Sentiu a voz um tom mais alto do que gostaria. Shikamaru apenas a encarou em silêncio.
— Não posso responder por nada oficialmente, mas bem... – E puxou um pequeno anel de seu próprio bolso, um solitário em prata e uma pedra azul pálida. Sakura observava o anel e percebia que ele brilhava em todo canto, não importando para onde ela direcionasse os olhos. Engoliu em seco. – Era de minha bisavó. Espero que goste.
Sakura ficou em absoluto silêncio por dois minutos inteiros, deixou que ele colocasse o anel e tentou se acostumar com a ideia de estar noiva aos 21 anos. Sua mãe sabia daquela história? Por isso ela e Shikamaru conversavam tanto ultimamente? Não sabia o que pensar, na realidade, não imaginou que pudesse pensar muita coisa diante daquela situação.
Observava o anel com certa relutância, não queria parecer fútil e dizer que não gostou tanto assim. Na realidade, queria apenas que naquele dia os dois falassem sobre sua partida, sem maiores problemas. Quando seria esse casamento se ela não estaria aqui no próximo ano para planejar qualquer coisa? Não dava azar ficar mais de um ano noiva?
Shikamaru percebeu que Sakura estava um pouco angustiada e ofereceu uma limonada, mas achava que uma água de coco poderia ajudar mais no seu problema atual. Ela o observava tomar aquelas decisões, fazer os pedidos e algo, algo no fundo de sua mente a incomodava. Que era aquilo agora? Shikamaru sempre tomou aquelas decisões, sempre cuidou dela com carinho e muito cuidado, e ela sempre, sempre, gostou disso. Agora, no entanto, não parecia gostar muito e ficou ainda mais enjoada com essa possibilidade, estava sendo ingrata com os esforços de Shikamaru.
Deixou que ele a conduzisse até o carro, garantindo que estava perfeitamente bem para dirigir, que seu mal-estar era apenas momentâneo, mas que não acreditava, nem por um segundo, que desmaiaria ao volante. Certamente, dirigiu com mais cautela, mas percebeu que sua angústia deixava de existir quando se concentrava na carta que deveria escrever, afinal, era a fuga perfeita para aquele dia tão esquisito.
Quando chegou em casa, pegou sua caneta novamente e voltou a tamborilar os dedos, pensando no que poderia escrever. Contudo, a pequena pedra azul pálida naquele anel retirava toda a sua concentração, ela não sabia como relatar um problema para Sasuke Uchiha quando um anel muito lindo habitava seu dedo, esperando por uma resposta também. Pôde perceber que a perna não parava de balançar, em ansiedade, até o momento em que se cansou de olhar para aquele anel e o escondeu no bolso da calça. Respirou um pouco aliviada, pensando que agora conseguiria escrever.
Não conseguiu. Não sabia o que dizer sobre si mesma. Leu a carta mais uma vez, procurando por qualquer inspiração. Bufou.
Levantou-se, percebeu pelo horário que a carta só poderia ser entregue no dia seguinte. Pensou, então, que um bom banho quente e uma boa noite de sono ajudariam a garota a receber a inspiração ideal que precisava. Talvez a resposta estivesse no mundo dos sonhos, no fim das contas.
Mas Sakura não poderia estar mais enganada. Não conseguia dormir, pensava no anel e na carta, e na carta e no anel. Os dois objetos perseguindo sua mente de tal forma que ela mal podia acreditar que já eram duas da madrugada! Por fim, levantou-se, cansada de não conseguir dormir de maneira alguma e finalizou a carta. Poderia escrever qualquer coisa, Sasuke Uchiha não a conhecia, de qualquer modo.
De qualquer maneira, espero que continue a corresponder. Aliás, eu tenho, atualmente, 21 anos de idade, prestes a fazer 22, na primavera. Estou muito contente com isso, pois meus pais desejam me dar um carro pela bolsa de estudos que recebi recentemente. Não acho que preciso de um carro ou de um anel. Definitivamente não preciso de um anel, e nem o quero. Ou talvez queira.
Sinto muito, essa parte do anel pode parecer confusa, mas é porque eu talvez tenha ficado noiva. E eu não sei se fui eu quem tomei essa decisão. O anel é muito bonito, realmente, mas não acho que seja bonito o suficiente. Lamento se meu problema parece fútil, eu tentei escrever o dia inteiro sobre algo que fosse minimamente adequado para essa situação, espero não parecer insensível, meu problema é muito mínimo. Bom, acho que é isso, sou maior de idade, não se preocupe.
P.S. Você pensa em se suicidar? Pergunto isso, ultrapassando um pouco os limites de nossa comunicação, pois imagino que você não esteja muito bem com sua situação. Escrevo isso com delicadeza, porque realmente fiquei preocupada. Aliás, não parei de pensar que não receberia uma resposta e não pararei de pensar em sua próxima carta até que ela chegue.
Atenciosamente,
Sakura Haruno.
Sorriu para a própria carta. Estava ridícula, era mesquinha e muito insensível, mas estava sendo sincera. Esperava que Sasuke Uchiha percebesse sua sinceridade. Colocou em um envelope e esperou até que pudesse levar aos correios, no primeiro horário.
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