Cartas para Sakura

4 Lágrimas silenciosas


Querida Sakura Haruno,

Pela primeira vez em alguns dias eu gargalhei. Não foi uma risada tímida, nem um sorriso amarelo, foi uma gargalhada, alta e sincera. Obrigado por proporcionar esse momento, realmente a minha tarde foi bem mais alegre com a chegada de sua carta. Bom, para esclarecer as coisas, não pretendo me suicidar. Percebo, agora, que talvez as minhas cartas anteriores parecessem algo como uma despedida. Pode ficar despreocupada, eu estou fazendo tratamento com uma psicanalista e foi ela, inclusive, quem me incentivou a começar a escrever.

Não para você, claro, nem eu a conhecia até encontrar seu endereço. Penso que ela gostaria, e até mesmo incentivou, a escrita de um diário, mas achei que ficaria maluco se escrevesse apenas para mim. Estou ficando melhor, obrigado pela preocupação. De qualquer maneira, não me importo com os limites de nossa comunicação, acho que não há exatamente um parâmetro aqui para nos estabelecermos. Penso, então, que podemos começar a pensar nos limites que nos incomodam.

Também tenho 21 anos, mas acho que o mais novo na história aqui sou eu, faço apenas no meio do ano. O seu nome tem a ver com a primavera? Percebi que botões de flor de cerejeira começaram a desabrochar, anunciando que o inverno está chegando ao fim. Acho um pouco poético se o seu nome tiver qualquer relação com a estação.

Não sei se entendi muito bem a ideia de você estar noiva. Você agora tem um anel bonito e que talvez não seja tão bonito? Bom, não vejo como esse pode ser realmente um problema, fora o fato de que talvez você esteja apenas tentando aceitar o anel porque não consegue aceitar a ideia em si. Nunca ouvi o caso de alguém que ficou noiva sem querer. Talvez seu companheiro ainda esteja esperando uma resposta e nada foi efetivamente estabelecido. Converse com ele, talvez seja a melhor maneira de resolver isso.

Parabéns pela bolsa de estudos. Acho que você parece mais feliz ao contar essa parte, porque sua escrita não parece tão corrida e sugere que você não escreveu com a pressa de terminar o assunto imediatamente, pelo menos eu suponho. Que bolsa seria essa? Acho que seria legal escrever mais sobre o assunto. Sinta-se à vontade.

Penso como você, talvez a sensação de vazio seja apenas a lembrança de quem minha mãe era. Gostava realmente dela e está sendo difícil lidar com esse aspecto da minha vida agora. Mudar parece o correto, mas não sei até que ponto eu conseguiria fugir disso tudo, talvez ela me acompanhe em todo prato de batatas assadas ou talvez não. Não acho que ela seja um fantasma efetivamente, não acredito nisso, porém acredito que ela só deixará de fazer sua presença quando eu superar minimamente a tragédia que foi sua morte.

Sobre o meu irmão, eu não sei se ainda estou preparado para escrever uma carta, para respondê-lo. Parece estranho, mas me sinto mais confortável escrevendo para você que para ele, éramos muito próximos e de repente, ele se afastou e matou nossa família. Não entendo a motivação e acredito que não conseguirei respondê-lo enquanto não tiver certeza que saberei a resposta e ela não me machucará. Acho que, às vezes, precisamos de um pouco de proteção mesmo.

Acho que essa carta ficou um pouco mais longa que as demais, espero que minha escrita não esteja cansando a sua vista. Espero que consiga resolver os seus assuntos e que aproveite a sua bolsa de estudos. Muito obrigada pela gargalhada, não a esquecerei tão cedo. Gostaria de proporcionar o mesmo, mas não sou um excelente piadista e, sinceramente, não sei se conseguiria fazer qualquer coisa que arrancasse um sorriso seu, afinal, parece estar enfrentando problemas não-mesquinhos com seu carro novo (e o noivado).

P.S. Não me importo que seu problema seja ter um carro novo, espero apenas que ele não seja de uma cor azul piscina, porque isso, sim, seria brega.

Ternamente,

Sasuke Uchiha.

Sakura se pegou rindo da última linha. Encarou o papel em suas mãos uma vez mais e releu, releu e releu. Talvez tenha ficado horas com a carta em suas mãos e sentiu a necessidade de escrever imediatamente para Sasuke. Teria que, de fato, enfrentar o noivado, mas sabia que podia deixar esse assunto um pouco para mais tarde.

Hoje, com o dia livre depois de tanto estudar ano passado e dedicar sua vida apenas para esse aspecto, pensou que seria bom ter um dia somente para si. Pensou em quais compromissos teria e chegou à conclusão de que todos eram perfeitamente adiáveis. Olhou a geladeira e notou que realmente poderia adiar a ida ao mercado, poderia ter o dia apenas para si.

Dessa maneira, respirou fundo e começou a escrever sua próxima carta:

Querido Sasuke Uchiha,

Eu também sorri com sua última carta, não diria que gargalhei, mas sorri, uma risada sincera. Na realidade, não me recordo da última vez que ri tanto que a barriga chegou a doer, entende? Essa sensação que fica, um pouco desesperadora, mas reconfortante. Sinto um pouco de falta de gargalhar, e de me sentir bem.

Veja bem, sou perfeitamente aceitável, sei disso. Mas sair sem maquiagem sempre foi uma dificuldade, especialmente quando se tem a minha mãe. Assim, quando eu fiquei noiva, estava sem maquiagem e meu noivo, Shikamaru, nem notou! Parece um problema banal (porque talvez o seja), mas acho que eu gostaria de ficar noiva de uma pessoa que soubesse a diferença, para dizer o mínimo, sinto-me negligenciada quando isso acontece… Seria um mimo de minha parte? Talvez a conversa seja realmente o caminho exato a se seguir aqui.

A minha bolsa de estudos é para Medicina em uma cidade vizinha. Apliquei a documentação e já entreguei tudo, é o meu verdadeiro sonho estudar para ser médica. Acredito que isso venha de minha infância e a morte de minha avó, não sei exatamente, mas sei que desde o dia em que a vi partir, tenho a necessidade de estudar sobre corações. Não no sentido poético da coisa, essencialmente é a estrutura do coração que desejo pesquisar. Estou empolgada, é uma bolsa bem difícil de se conseguir.

Acho que tomou a decisão certa sobre as cartas de seu irmão. Por que não tenta parar de recebê-las? Uma fornada de biscoitos pode ser bem atrativa para alguns carteiros, ao menos para o meu, uma vez que nunca mais recebi cartas indesejadas. Tente conversar com ele, parar de receber as cartas talvez seja uma solução mais efetiva. Além disso, fico feliz que não pense em se suicidar e que esteja melhorando, é reconfortante saber que está recebendo ajuda.

Sobre os limites, acho-os essenciais. Gostaria, assim, que você nunca fale sobre cenouras comigo. Detesto-as por completo e acho que seria de muita indelicadeza escrever uma carta para falar exclusivamente delas.

Atenciosamente,

Sakura Haruno.

Lacrou a carta e pensou em enviá-la imediatamente, e percebeu que talvez estivesse vivendo em prol daquela comunicação. Não sabia se aquela era uma situação adequada de alguma maneira, seria invasivo enviar cartas tão rapidamente para uma pessoa? Talvez estivesse prestes a passar um limite que ainda não foi estabelecido, mas que era de péssimo tato.

Ponderou um pouco sobre a possibilidade de ser inoportuna, pois não queria incomodar Sasuke Uchiha. Não sabia muito bem o que pensar, mas sabia que precisava entregar a carta quase que imediatamente, era quase uma necessidade não muito natural, mas que ocorria com naturalidade. Sakura balançou a cabeça, não fazia sentido nada daquilo, certamente não fazia sentido.

Ainda assim, não queria continuar a andar em círculos em busca de uma resposta. Saiu com o carro e entregou a carta pela tarde, o correio estava lotado e ela esperava, realmente esperava, que sua carta fosse entregue o quanto antes. De repente, viu-se quase que com a necessidade de estender o assunto mais um pouco e queria muito pegar a carta de volta, complementar e conversar um pouco mais.

Sakura percebeu que Sasuke Uchiha estava sendo o seu único amigo no momento, foi o único para quem ela contou do anel pálido. Ainda que não falasse, nem mesmo para ele, que o anel estava escondido, contar para ele sobre sua infelicidade com o noivado já era algo suficiente. Sentia-se um pouco mais leve e até mesmo um pouco mais corajosa… Esses eram os efeitos de uma amizade? Por que não sentia o mesmo com Ino?

Talvez fosse a novidade, já era amiga de Ino há tanto tempo que simplesmente se tornou comum falar com ela sobre essas coisas. Além disso, ela também era uma grande amiga de Shikamaru e nada conhecida por guardar segredos. Adorava Ino, Sakura tinha que admitir, mas se pudesse mudar qualquer coisa na amiga seria aquele fato: a fofoca indevida.

Pensou que Sasuke realmente era sua melhor opção, uma vez que se tratava de um desconhecido quase conhecido. Não sabia nada sobre ele, mas gostava de falar com ele, isso era o importante aqui. Percebeu que era mais fácil falar com Sasuke porque ele era o mais próximo que ela tinha de um diário, poderia falar sobre qualquer coisa sem ser completamente julgada, visto que ele tampouco a conhecia. Sorriu com aquela ideia, um diário no fim das contas, teria que comentar sobre isso em sua próxima carta.

Suspirou, pensava em Sasuke porque sabia que não podia pensar em Shikamaru, porque pensar em seu namorado trazia certa infelicidade. Não queria ser noiva, não estava completamente pronta, talvez nem medianamente pronta. Ficou mais infeliz por pensar que Shikamaru nem mesmo a consultou antes de entregar o anel, e por consulta ela queria dizer que não houve qualquer pedido.

Não era uma garota que sonhava com pedidos megarromânticos de casamento, daqueles que as pessoas declaram seu amor em locais públicos com microfones e holofotes. Não, não pensava realmente que gostaria daquilo. No entanto, gostaria que houvesse uma pergunta, uma maldita pergunta.

Tentou lembrar da conversa dos dois no último almoço, captar qualquer coisa que indicasse uma pergunta… Nada. Recebeu um anel e nenhum parabéns pela bolsa de estudos. Mordeu os lábios de maneira ansiosa, ela gostaria realmente de um parabéns. Ela teria seu parabéns.

Engatou o carro e foi até a casa de Shikamaru. Não era uma cena romântica em que a mocinha encara uma tempestade para declarar seu amor para o amado, mas foi mais ou menos isso que ocorreu. Além do mais, Sakura ainda se molhou no caminho até a porta de Shikamaru, porque esqueceu o guarda-chuva e teve que ficar esperando na chuva. Quando ele atendeu a porta, sentiu uma raiva súbita.

- Eu quero parabéns. — Foi a única coisa que declarou.

- Pelo quê? — O namorado arregalou os olhos, surpreso com a presença de Sakura, encharcada, ali.

- Pela bolsa de estudos. — Foi firme em sua resposta e viu o cenho franzido de Shikamaru.

- Ora, parabéns. — Parou por um momento. — Quer entrar?

Sakura assentiu e entrou quando ele permitiu sua passagem. Tentou se secar e ele trouxe uma toalha.

- Por que isso de repente? — Perguntou ele serenamente.

- Você não parecia favorável com a minha ida. — Respondeu com sinceridade. Esse seria o seu caminho.

- Não sou. — Foi incisivo no tom. — Mas se você acha que consegue dar conta de um noivado e uma faculdade, eu apoio você.

Ela o observou.

- Por que estamos noivos? — Perguntou, com um pouco de cautela, percebeu.

- Somos perfeitos um para o outro, só eu te conheço bem o suficiente e só você me conhece. — Shikamaru pegou em sua mão delicadamente. — Cinco anos, lembra?

Mais uma vez, assentiu e não disse nada. Apenas ficou ali, pensando sobre a possibilidade de realmente se casar, de realmente ser perfeita para outra pessoa. Sorriu com a possibilidade, era uma sensação gostosa, realmente. Contudo, ainda parecia uma ideia um pouco esquisita que ela fosse feita para alguém… Nos últimos cinco anos ela era uma pessoa perfeita em todos os sentidos para alguém?

Quando se deitou na mesma cama de Shikamaru e mesmo quando fizeram sexo, Sakura não estava realmente presente. Sua mente estava longe, tentando entender como ela poderia ser perfeita para alguém em cinco anos, como era possível que eles pudessem ser a pessoa certa um para o outro em tão pouco tempo?

- Eu nem sei do que você gosta no café da manhã. — Sakura sussurrou, esperando compreender de alguma maneira se aquele era um assunto realmente importante.

- O que disse? — Ouviu a voz de Shikamaru sonolenta.

- Nada… — Respondeu e virou-se na cama.

Não queria realmente pensar em Shikamaru naquele momento, não queria pensar em nada. De repente, queria apenas chorar por algumas horas, sem ser incomodada por ninguém. Esperou que ele ficasse em completo silêncio para então permitir que algumas lágrimas escorressem, torcendo para que secassem até o amanhecer, de modo que não teria que se explicar.


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