Cartas Para Antônio Ferreira
43 Capítulo 43
Notas iniciais
Por Laura
O dia passou arrastado e sem muitas novidades tentei disfarçar o meu desanimo o máximo que pude para não entristecer a Melissa que estava se empenhando em me agradar, a pequena de nada tinha culpa dos últimos acontecimentos e não precisava se aborrecer com eles junto comigo. Quando chegou a hora do jantar o Edgar ainda não havia voltado e apesar de saber que isso era porque ele estava fazendo o possível para podermos viajar no dia seguinte eu senti certa decepção por não ter ele em casa. Quando a Lurdes entrou no quarto questionando se poderia servir o jantar me reclinei sob a desculpa de que iria esperar o Edgar, não estava com fome e como tinha comido muito pouco no almoço tinha certeza que ela iria reclamar, o Edgar deve ter pedido que ela ficasse de olho em mim, eu entendia a sua preocupação mas não podia evitar a fome simplesmente não estava presente.
– Tem certeza dona Laura ele pode demorar a chegar.
– Não se preocupe Lurdes se ele demorar muito eu desço e como qualquer coisa... Por hora só a Melissa irá comer.
– Eu queria esperar o papai também.
– Oh meu anjo não sabemos que hora ele volta, se ele não chegar muito tarde descemos as duas para fazer companhia para ele enquanto ele ceia tudo bem assim? Ela balança a cabeça aceitando a proposta e então desce da cama para acompanhar a Lurdes, assim que as duas deixam o quarto o Antônio também reclama de fome e um sorriso brota nos meus lábios quando me levanto da cama para ir pega-lo no berço, hoje todos pareciam se esforçar pra não me deixar só o Edgar ficaria satisfeito com isso. Assim que coloco o Antônio de volta ao berço depois de longos minutos com ele mamando e depois de te-lo mimado um pouco fazendo-o dormir no meu colo percebo a Melissa parada timidamente no umbral da porta descalça e vestindo sua camisolinha.
– Tudo bem meu anjo?
– Eu não consigo dormir tia Laura.
– Quer que eu lhe conte uma historinha?
Ela balança a cabeça afirmativamente porém continua parada a porta esperando por uma reação da minha parte.
– Entra meu amor deita aqui comigo depois da história voltamos para o seu quarto tudo bem assim?
Ajeito o travesseiro na cabeceira da cama me sentando logo em seguida e chamo a Melissa para se juntar a mim... Na metade da história ela já estava ressonando com a cabecinha no meu colo, fiquei algum tempo alisando os seus cabelos negros ela parecia tão confortável ali que eu cheguei a me perguntar se algum dia a sua mãe havia feito gesto parecido com ela, consequentemente me veio lembranças da minha infância, foram poucas as vezes que a minha mãe sentou junto comigo para pentear o meu cabelo ou simplesmente para afaga-los, mas as poucas vezes que o fez eu pude sentir o seu amor por mim no seu gesto.
Quando despertos dos meus devaneios ergo a minha cabeça percebo o Edgar parado a porta nos encarando, parecia encantado com o que via.
– Faz tempo que ela dormiu?
– Alguns minutinhos, faz tempo que o senhor está aí nos espiando?
O seu sorriso aumenta e apesar do seu visível cansaço ele não deixou o seu espírito brincalhão se abater. Ele se livra do palitó e se senta na beirada da cama para me dar um beijo rápido.
– Eu não estava espiando vocês é que estavam lindas demais fiquei hipnotizado.
– Bobo sempre tão atencioso, até nas palavras... Você parece cansado.
– E estou corri de um lado para o outro da cidade pra tentar resolver tudo o que tinha que resolver pra viagem.
– E conseguiu?
– Quase tudo.
– Nos podemos adiar a viagem por um ou dois dias meu amor não tem problema.
– As coisas que não pude resolver hoje não são de extrema importância meu amor, podem ser resolvidas quando voltarmos.
– Tem certeza?
– Tenho, nós viajaremos amanhã tudo certo com as malas?
– Sim elas ja estão prontas.
– Perfeito e agora o mais importante, como foi o seu dia?
– Hummm podemos pular essa parte? Está bem deixa eu ver... Não fiquei sozinha um único minuto, a Melissa foi um amor comigo muito atenciosa, o Antônio se comportou direitinho e foi isso, não me senti nos meus melhores dias, mas pelo menos não fiquei aos prantos pelos cantos me manti firme e forte.
– Não precisa se fazer de forte meu amor, se sentir vontade de chorar chore não tente reprimir os seus sentimentos, você é um ser humano e não uma máquina.
– Eu não quero passar a imagem de mulher sofrida para ninguém muito menos para as crianças.
– Tudo bem então é um direito seu, mas não quero que se sinta assim na minha presença promete? Não se esconda de mim Laura, antes de ser seu marido sou seu amigo seu companheiro.
As palavras do Edgar me comove e começo a piscar para reprimir as lágrimas e só me dou conta do meu gesto quando sinto a mão do Esgar enlevando o meu queixo e encarando os meus olhos.
– Obrigada Edgar, obrigada por ser esse marido tão maravilhoso.
– Você que me faz querer ser assim Laura é por você que eu tento ser um homem melhor todos os dias. Ele me da um beijo em cada olho umedecido e depois se levanta da cama tomando a Melissa nos braços.
– Deixa-me levar essa princesinha para a cama dela eu não demoro... o que a Lurdes fez hoje para o jantar? Não consegui comer na rua, acha que consigo beliscar alguma coisa?
– Pra falar a verdade eu não sei, mas leva a Melissa para o quarto dela que eu desço pra ver.
– Você não sabe? Laura você não jantou?
– Não eu não estava com fome Edgar, disse a Lurdes que esperaria por você.
– Sabe que essa sua história não é muito convincente não sabe? A Lurdes pode ter caído nesse seu papinho não eu te conheço senhora Vieira...
Seu olhar tem um pouco de censura, mas não deixa de ser terno, protetor e não consigo retrucar, ele esta certo de qualquer forma me limito apenas a coçar o pescoço um tanto desconfortável por ter sido pega.
– Viu como estou certo? Te vejo lá em baixo.
Ele da alguns passos para trás e inclina a cabeça para me pousar outro beijo e depois deixa o quarto, não tem nem como ficar zangada com esse homem... pego penhoar e visto por cima da camisola e deixo também o quarto em direção a cozinha, fico por um tempo distraída esquentando o jantar e só me dou conta de que estou sendo observada com atenção quando me viro para levar a louça para a sala de jantar.
– Ai que susto Edgar.
– Desculpa não foi a minha intenção... quer que eu te ajude em algo?
– Sim, por favor, ajeita isso aqui lá na mesa que eu já levo os pratos.
Quando me junto ao Edgar ele já esta sentado a mesa no lugar de costume com o olhar um pouco perdido...
– Um doce pelos seus pensamentos...
– Doce? Antigamente você me oferecia beijos por eles.
– Como queira senhor meu marido.
Deposito nossos pratos na mesa e me inclino levemente para juntar os nossos lábios num beijo rápido e em seguida tomo o meu lugar junto a ele na mesa.
– Não coloquei muito por causa do horário, mas se ainda tiver fome... Aponto para o nossos pratos, que ele só pareceu notar agora e percebo uma ligeira inclinação nos seus lábios como se ele estivesse para me falar algo mais ele parece se arrepender e não diz nada e começa a comer.
– O que foi?
– Nada.
– Edgar você ia falar alguma coisa que eu sei...
– Nada é que é a primeira vez que a Lurdes faz carnes com batatas...
– Eu pedi que ela fizesse, fiz mal?
– Não de maneira nenhuma, mas me reporta a algumas lembranças.
O olhar que ele me lança diz muito mais do que a suas palavras e eu coro, desviando o olhar logo em seguida para encarar a toalha de linho.
– Edgar...
– Eu sinto a sua falta meu amor... os pensamentos vieram antes que eu pudesse refrea-los.
– Eu também sinto a sua falta Edgar, mas no momento...
– Eu sei. – Desculpa.
– Hei, Laura não precisa...
Ele levanta do seu lugar e toma a minha mão para eu me levantar também e me envolve num abraço.
– Não se desculpe meu amor, não precisa... Eu entendo vai fazer dois meses que você deu a luz, ainda esta tendo que lidar com tudo isso que esta acontecendo com os seus pais eu seria um carrasco se não visse isso.
– Nessa nossa viajem para a fazenda eu prometo...
Antes de eu terminar a frase ele me interrompe colocando o indicador nos meus lábios para depois segurar o meu rosto em suas mãos.
– Não me prometa nada Laura, eu não estou te cobrando nada... isso acontece com todo o casal após terem filho, eu não compreendia muito bem, mas uma conversa que tive com a minha mãe serviu para abrir meus olhos e ver o que eu não estava enxergando... Eu te amo Laura o meu desejo não mudou, mas não sou como muitos homens que não enxergam nada alem de si mesmo... Saberei ser paciente e respeitarei o seu tempo.
– Você não sabe como me conforta ouvir isso Edgar... Eu deito a cabeça em seu peito enquanto ele aperta um pouco mais o abraço e me da um beijo no alto da cabeça.
– Vem vamos terminar logo com esse jantar e descansar um pouco porque a viagem não é tão curta assim... e anda tenho que lhe falar de um encontro inesperado que tive hoje.
– Encontro inesperado com quem?
– Com o Albertinho e adivinhe aonde...
– Eu não faço a menor ideia.
– No Correio da Republica, o Guerra esta criando uma pagina dedicado aos esportes e as noticias que envolvem esse mundo e o Albertinho é o responsável pela coluna.
– Esta brincando? Nunca soube que o Albertinho gostasse de escrever.
– Mas ele não escreve é responsável por trazer a informação, ir atrás da matéria mais quem vai escrever vai ser o Jonas.
– O Jonas esta escrevendo agora?
– Sim foi promovido... esta que não se aguenta de tanta felicidade, acha que logo vai conseguir juntar algum dinheiro e tentará pedir a Alice em casamento.
– Nossa mais quanta novidade...
– E tem mais o Albertinho vai vir aqui amanha para se despedir e disse que tem algo para te contar, pela cara dele não parece ser algo ruim.
– Tem certeza Edgar? Ele não pareceu abatido?
– Olha meu amor, ele não estava com o sorriso maroto de costume, também não fez piada em nenhum momento de nossa conversa, mas não posso dizer que o achei triste.
– O que será que ele tem a me dizer?
– Não faço ideia, tentei arrancar alguma coisa dele mas não consegui o jeito é espera-lo amanhã e descobrir.
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