Carrousel e o Relógio de Cronos

4 Olhos de Inverno em Tarde de Sol


O fôlego se recusava a voltar. Fiquei ali, caído no chão de ladrilhos frios, o eco do impacto ainda ressoando em meus ossos, olhando para cima. E o mundo pareceu parar de girar.


Não era um professor. Não era um zelador.


Era um garoto. Talvez um ano ou dois mais velho que eu, mas ele se erguia sobre mim com a presença sólida de um adulto. Minha primeira impressão, a de ter colidido com uma parede, não parecia mais um exagero. Ele não havia se movido um centímetro. Apenas ficou ali, impassível, como se garotos em pânico correndo se chocassem contra ele todos os dias.


Meus olhos, ainda se ajustando, percorreram sua figura de baixo para cima. Botas. Pretas, pesadas, do tipo militar, com os cadarços amarrados com uma precisão desleixada. A calça jeans era preta, surrada e rasgada nos joelhos, não de uma forma que parecesse planejada pela moda, mas como se ele realmente se ajoelhasse em superfícies ásperas com frequência. A camiseta do uniforme, branca e sem graça, estava amassada sob uma jaqueta jeans escura, gasta nos cotovelos e desfiada na barra. Cada peça de roupa parecia ter uma história, e nenhuma delas parecia feliz.


Então meu olhar subiu para o seu rosto, e foi aí que as palavras me abandonaram de vez. Ele tinha um maxilar forte, marcado, e cabelos negros e densos, de um comprimento médio que caía sobre a testa de forma desordenada, como se ele tivesse passado a mão por eles centenas de vezes. Era, objetivamente, um rosto bonito. Do tipo que pertenceria ao capitão do time de futebol ou ao cara popular que todas as garotas suspiravam. Mas essa impressão era estilhaçada por duas coisas.


A primeira era a cicatriz. Uma linha fina и esbranquiçada que começava no canto esquerdo de sua boca e subia pela bochecha em uma curva suave, terminando perto de sua orelha. Não era uma cicatriz de acne ou de um acidente de infância. Era limpa, precisa. Uma cicatriz de faca. Ela repuxava seus lábios em um lado, dando-lhe a sombra permanente de um meio-sorriso cínico, mesmo que seus lábios estivessem completamente parados.


A segunda, e mais perturbadora, eram seus olhos. Eram escuros, como os meus, mas a semelhança terminava aí. Onde os meus refletiam a luz e a confusão, os dele pareciam absorvê-la. Eram como poços, fundos e vazios de qualquer emoção que eu pudesse reconhecer. Não havia raiva pela colisão, nem surpresa, nem curiosidade. Havia apenas uma apatia calma, um vazio que parecia ter sido conquistado a duras penas. Eram olhos de um inverno rigoroso no meio de uma tarde ensolarada de Florianópolis.


Depois de um momento que pareceu durar uma eternidade, ele se moveu. Sua mão desceu em minha direção, a palma aberta. Era uma mão grande, com dedos longos e calos visíveis nas juntas. Dois pequenos brincos de argola de prata em sua orelha direita brilharam brevemente sob a luz do corredor.


Hesitei por uma fração de segundo antes de aceitar. Seus dedos se fecharam em torno do meu pulso. Sua pegada era firme e fria, e ele me puxou para cima com um único movimento fluido, sem demonstrar o menor esforço. Era como ser levantado por um guindaste. Soltei-me assim que meus pés encontraram firmeza no chão, o calor da vergonha subindo pelo meu pescoço.


— Você está bem?


Sua voz era como o resto dele: baixa, controlada, quase mecânica. Um barítono suave que não continha nenhuma inflexão de preocupação real. Era uma pergunta feita por obrigação, não por empatia.


— S-sim. Estou. Foi mal, eu... eu estava correndo. — gaguejei, ajeitando a mochila nas costas, tentando desesperadamente parecer normal, como se não estivesse fugindo de uma criatura de garras que farejava o ar.


Ele não respondeu imediatamente. Apenas me observou com aqueles olhos vazios, me avaliando. A intensidade silenciosa de seu olhar era mais desconfortável do que qualquer grito ou acusação. Parecia que ele podia ver através de mim, através da minha mentira patética.


O silêncio se esticou, tornando-se pesado. Eu não conseguia simplesmente ir embora. Algo na presença dele me prendia ao lugar. Um impulso que eu não entendi me fez falar de novo, uma necessidade súbita de dar um nome à parede que eu havia atingido.


— Qual o seu nome?


A pergunta pareceu suspender no ar entre nós. Seus olhos se estreitaram minimamente, a única mudança em sua expressão até então.


— Gabriel.


Ele disse o nome como se fosse um fato, um dado sem importância. E então, ele devolveu a pergunta, a voz ainda no mesmo tom monótono.


— E o seu?


— Matheo.


No momento em que meu nome saiu da minha boca, algo mudou. Foi sutil, quase imperceptível. Um brilho de reconhecimento em seus olhos de inverno? Um endurecimento em sua mandíbula? Talvez eu tenha imaginado. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, mas não foi um silêncio vazio. Parecia que ele estava processando uma informação vital, conectando peças em um quebra-cabeça que eu nem sabia que existia.


Seu olhar se desviou de mim, passando por cima do meu ombro e fixando-se no corredor escuro de onde eu viera correndo. O corredor que levava ao banheiro. Ele não podia saber o que tinha acontecido lá dentro, podia? Mesmo assim, seu foco era tão intenso que eu quase me virei para ver se o monstro estava parado ali, nos observando.


Quando ele falou de novo, sua voz tinha a mesma falta de emoção, mas carregava um peso que me causou um arrepio.


— Tenha cuidado, Matheo.


E foi só isso. Ele não esperou por uma resposta. Simplesmente começou a andar, passando por mim. Mas ele não foi em direção à saída. Ele caminhou na direção oposta. Na direção do corredor escuro. Na direção do banheiro. Seus passos eram silenciosos para um cara usando botas tão pesadas, e ele se movia com um propósito calmo que era aterrorizante.


Eu fiquei ali, paralisado, observando-o se afastar. "Tenha cuidado". Não soou como um conselho casual de um colega de escola para não correr nos corredores. Soou como um aviso. Uma advertência de alguém que sabia exatamente contra o que eu deveria ter cuidado. Ele não estava repreendendo. Estava alertando.


A imagem dele virando a esquina e desaparecendo na escuridão me tirou do transe. O alarme na minha cabeça, que havia sido silenciado pela colisão, voltou a soar, mais alto do que nunca. Eu não sabia quem era Gabriel, mas uma coisa era certa: ele estava indo em direção ao perigo, e eu precisava ir para o mais longe possível dele.


Dei as costas e corri. Desta vez, não de forma cega. Corri com a imagem daqueles olhos e daquela cicatriz queimando na minha mente. Corri pelo saguão principal e atravessei as portas duplas de vidro, explodindo para a luz do sol do fim da tarde como um mergulhador voltando à superfície.


A luz doeu, mas era uma dor boa. Era real. Era segura. O ar fresco encheu meus pulmões. O pátio estava completamente deserto agora, exceto pelos carros que passavam na rua lá fora.


E, caminhando apressadamente em minha direção, vindo do portão, estava minha mãe.


— Matheo! Aí está você! Eu já estava ficando preocupada! — sua voz, carregada de um alívio genuíno, foi a coisa mais reconfortante que eu ouvi o dia todo.


Ela me alcançou e instintivamente colocou a mão na minha testa, um gesto que fazia desde que eu era pequeno.


— Você está pálido. Aconteceu alguma coisa? Está se sentindo bem?


Eu engoli em seco, o coração ainda martelando. O contraste entre a preocupação amorosa em seu rosto e a apatia fria no de Gabriel era vertiginoso. O mundo dela era feito de luz, cheiro de café e livros. O mundo que eu tinha acabado de vislumbrar era feito de sombras, cheiro de podridão e monstros em banheiros. E eu faria qualquer coisa para manter esses dois mundos separados.


— Não. Não, eu só... corri pra sair. Acho que fiquei um pouco tonto. — menti. Era a primeira de muitas mentiras que eu sentiria que precisaria contar.


Sua expressão preocupada suavizou, mas não desapareceu completamente.


— Ok, vamos pra casa. Você precisa descansar um pouco antes de irmos encontrar o Lucas. Deve ser cansaço. A prova de química deve ter sugado suas energias.


Ela passou um braço pelos meus ombros e me guiou em direção ao portão e ao nosso Gol quadrado estacionado na rua. Entrar no carro foi como entrar em uma cápsula de segurança. O cheiro familiar de carro antigo e do aromatizador de pinho que ela insistia em usar. A bagunça habitual no banco do passageiro. O calor do sol entrando pelo para-brisa. Era normal. Era meu.


Ela deu a partida, o motor protestando um pouco antes de pegar, e nós entramos no trânsito lento do fim de tarde.


— Então, como foi o seu dia? E a prova de química? A Dona Célia pegou muito pesado? — ela perguntou, mantendo os olhos na estrada, mas toda a sua atenção estava em mim.


Eu olhei pela janela, observando os prédios e as árvores passarem, flashes de cores borradas. Minha mente era um turbilhão. A criatura. A pegada. Gabriel. A cicatriz. Os olhos. O aviso.


— A prova foi difícil. — comecei, escolhendo as palavras com cuidado, construindo a minha fortaleza de omissões. — As letras estavam meio que dançando na página de novo. E a Dona Célia não veio hoje. A gente teve um professor substituto.


— Ah, é mesmo? E ele era legal? Às vezes os substitutos são mais tranquilos. — ela comentou, otimista, exatamente como eu previ que faria.


— Ele era... ok. Meio sério. — respondi. "Sério" era um eufemismo tão grande para descrever o Senhor Brunner que quase me fez rir. Ele era um poço de escuridão sorridente. E o outro, Gabriel... ele era um vácuo. Um tipo diferente de escuridão.


— E as outras aulas? Conversou com o Lucas? Fez algum outro amigo?


Ela continuou, suas perguntas vindo de um lugar de puro amor e preocupação, tentando se conectar com o meu dia, com o meu mundo. Cada pergunta era um campo minado. Cada resposta minha, um passo cuidadoso para longe da verdade.


— As aulas foram normais. Lucas e eu combinamos tudo para a hamburgueria. — eu disse, focando no único ponto normal do meu dia. — Ainda não falei com muita gente. O pessoal já tem seus grupos.


— Você vai achar seu lugar, filho. Você sempre acha. Só precisa de um pouco de tempo. — ela disse, sua mão deixando o volante por um segundo para apertar meu joelho. O gesto era para ser reconfortante, mas só me fez sentir mais culpado.


Ela estava tentando me ajudar a navegar nos problemas normais de um adolescente: provas, dislexia, fazer amigos. Como eu poderia sequer começar a explicar a ela que os problemas que eu estava enfrentando pareciam ter saído de um filme de terror? "Mãe, acho que um monstro tentou me atacar no banheiro, e então eu esbarrei em um cara com uma cicatriz assustadora que foi caçar o monstro." Ela me internaria antes que eu terminasse a frase. E talvez ela estivesse certa. Talvez eu estivesse enlouquecendo.


Mas o frio que senti na presença da criatura e a solidez do corpo de Gabriel quando bati nele eram reais demais para serem apenas imaginação.


Nós continuamos o caminho para casa em um silêncio relativamente confortável para ela, mas que para mim era ensurdecedor. Cada som do lado de fora do carro me fazia pular. A buzina de um carro, o som de um ônibus freando, o grito de crianças brincando na calçada. Cada ruído parecia um presságio. A cidade, que eu sempre vira como meu lar, agora parecia um cenário cheio de disfarces. As pessoas apressadas nas ruas poderiam ser qualquer coisa. O homem lendo jornal no ponto de ônibus poderia ter olhos de inseto. A mulher passeando com o cachorro poderia ter garras escondidas. O mundo havia se tornado um lugar de potencialidades aterrorizantes.


Chegamos ao nosso prédio e estacionamos na nossa vaga de sempre na garagem subterrânea. O caminho até o elevador, o mesmo caminho que eu fazia todos os dias, parecia diferente. A garagem parecia mais escura. Os cantos, mais profundos. Eu me vi olhando por cima do ombro, esperando ver uma pegada com garras no chão de concreto ou um par de olhos de inverno me observando das sombras.


Mas não havia nada. Apenas o zumbido das lâmpadas e o som dos passos da minha mãe ao meu lado, completamente alheia ao terror que havia se instalado em meu peito. E naquele momento, eu entendi meu novo papel. Eu era o guardião de um segredo terrível. E meu trabalho mais importante era garantir que ele nunca, jamais, tocasse o mundo seguro e normal dela.