O cheiro da hamburgueria me atingiu assim que entramos: uma mistura gloriosa e inegavelmente terrena de carne na chapa, cebola caramelizada e óleo quente. Para mim, era o cheiro de uma noite especial. Para Lucas, que vinha logo atrás de mim, devia ser uma forma branda de tortura.


As luzes de neon nas paredes pintavam o ambiente com traços de rosa e azul, refletindo nos tampos de fórmica vermelha das mesas e nos assentos de vinil prateado. Das caixas de som penduradas nos cantos, uma música do Skank tocava num volume animado, mas não tão alto que impedisse a conversa. Era barulhento, vibrante e cheio de vida. Um santuário de normalidade adolescente.


E, por um momento, quase funcionou.


— Viu só? Eu disse que aqui era legal! — minha mãe declarou, os olhos brilhando com a empolgação de uma criança, enquanto uma garçonete de uniforme xadrez nos guiava até um dos melhores lugares, um booth de canto que dava uma visão de todo o restaurante.


Lucas correu na minha frente para pegar o assento que ficava de frente para a porta, uma jogada estratégica que ele sempre fazia. Ele se sentou e fez uma careta dramática.


— Cara, o cheiro de bacon é intenso. É uma conspiração contra os vegetarianos. — ele resmungou, embora houvesse um brilho divertido em seus olhos.


Eu me sentei ao lado da minha mãe, sentindo o assento macio ceder sob o meu peso. Tentei forçar um sorriso, um que parecesse genuíno.


— Foi mal. Esqueci que aqui era basicamente um templo da carne. A gente podia ter ido em outro lugar.


— De jeito nenhum! É o seu aniversário. Eu sobrevivo. — ele disse, pegando o cardápio laminado. Seus olhos passaram rapidamente por cima das opções de hambúrguer e focaram em uma pequena seção no canto inferior. — Uuh, eles têm anéis de cebola e batata rústica. E tem um sanduíche vegetariano. Estou salvo.


Minha mãe riu, o som se misturando com a música e as conversas ao nosso redor.


— Calma, rapazes. Primeiro a entrada. Pedi para reservarem para nós aquela porção de batata frita com queijo que todo mundo fala. Sem bacon! Pensei em você, Lucas.


Lucas abriu um sorriso largo. — Tia Ju, a senhora é a melhor!


Seu sorriso se alargou ainda mais, cheio de um orgulho que a fazia parecer mais jovem.


— Digamos que a minha chefe na livraria tem uma irmã que é gerente aqui. E quando eu comentei que era seu aniversário amanhã, bem... uma coisa levou à outra. Elas me deram uma pequena "promoção de aniversário". Acho que gostam do meu trabalho.


A pontada familiar de culpa e gratidão me atingiu. Ela sempre fazia isso. Movia o mundo, usava suas conexões, trabalhava até tarde, tudo para me dar esses momentos de felicidade normal. Eu me senti um idiota por estar ali, com o estômago revirado pela ansiedade, incapaz de simplesmente aproveitar o presente que ela estava me dando.


— Mãe, isso é... demais. Obrigado.


— Não precisa agradecer. Só precisa comer. Você está muito magro. — ela disse, apertando meu braço por cima da mesa.


A garçonete chegou para anotar nossos pedidos de bebida. Minha mãe pediu uma limonada, Lucas pediu uma Coca-Cola com extra de gelo, e eu pedi apenas uma água. Não estava com vontade de nada doce. Precisava de algo limpo, simples.


Enquanto esperávamos, Lucas começou a me bombardear com sua habitual torrente de informações sobre seu último desafio nos videogames. Eu tentava acompanhar, acenando nos momentos certos, mas meus olhos não conseguiam ficar parados. Eles varriam o restaurante, analisando os outros clientes. Uma família com duas crianças pequenas. Um casal de namorados em um primeiro encontro. Um grupo de caras mais velhos assistindo a um jogo de futebol na TV de tubo pendurada sobre o bar.


Tudo normal. Ninguém com olhos de inseto. Ninguém com uma cicatriz de faca no rosto. Ninguém que parecesse estar farejando o ar.


E, no entanto, a sensação de estar sendo observado não passava. Era como uma coceira na nuca que eu não conseguia alcançar.


As batatas fritas chegaram, uma montanha dourada coberta por uma camada generosa de queijo derretido. O cheiro era divino. Lucas atacou a porção com um entusiasmo que eu não via desde que ele ganhou seu Nintendo 64. Minha mãe comeu com um prazer mais contido. Eu peguei uma batata, o queijo se esticando em um fio longo e convidativo. Mas quando a levei à boca, o sabor parecia distante. Era como comer papelão. Meu paladar estava desligado, substituído por um zumbido constante de alerta.


— Você está bem mesmo, querido? — minha mãe perguntou, sua voz suave cortando o barulho. Ela havia notado. Ela sempre notava. — Você mal tocou na comida.


— Estou. Só... distraído, eu acho. A prova de química acabou comigo. — usei a mesma desculpa. Era minha única desculpa.


Lucas, de boca cheia, me defendeu.


— Deixa ele, tia Ju. O cara tá no modo pensativo. É o charme sombrio dele. — ele disse, enfiando mais três batatas na boca de uma vez. — Além do mais, significa que sobra mais pra mim.


Observei os movimentos de Lucas. Seus pés, debaixo da mesa, não paravam quietos, batendo um ritmo ansioso no chão. Ele parecia quase... agitado. Seus olhos, embora focados na comida, registravam cada movimento ao nosso redor de uma forma que ia além da simples curiosidade. E quando uma garçonete derrubou uma bandeja com um estrondo no outro lado do restaurante, o corpo de Lucas se enrijeceu por uma fração de segundo, os ombros tensos, a mão parando no meio do caminho para a boca. Era uma reação de prontidão, quase instintiva, que ele disfarçou rapidamente com uma tosse, olhando ao redor com uma urgência que pareceu estranha.


Provavelmente eu estava apenas projetando minha própria paranoia nele. Vendo perigo onde não havia nada.


Nossos pedidos chegaram. Um hambúrguer para minha mãe e para mim, e um sanduíche de pão integral recheado de legumes grelhados e queijo para Lucas, que ele atacou com o mesmo fervor das batatas. Comi devagar, mordida por mordida, forçando a comida a descer. A conversa fluiu ao meu redor. Minha mãe contou sobre um cliente engraçado na livraria. Lucas descreveu em detalhes gráficos como ele planejava passar todo o fim de semana jogando videogame. Era tudo tão normal, tão perfeito. E era isso que me aterrorizava. Parecia a calmaria antes da tempestade.


E então, o pior aconteceu. A garçonete se aproximou da nossa mesa, seguida por dois de seus colegas, e eles traziam um pequeno bolo com uma única vela acesa.


— Surpresa! — minha mãe cantou, batendo palmas.


Meu coração afundou. Atenção. A última coisa que eu queria.


Eles começaram a cantar "Parabéns pra Você". O restaurante inteiro parecia se virar em nossa direção. Pessoas de outras mesas sorriam e se juntavam ao coro. Eu podia sentir o sangue subindo para o meu rosto, o calor da vergonha misturado com um pânico gelado. Eu queria me enfiar debaixo da mesa. Eu queria desaparecer.


Eu fechei os olhos, assoprei a vela e fiz um desejo. Um desejo desesperado e infantil: por favor, que este dia acabe e amanhã seja normal.


Quando abri os olhos, em meio aos aplausos e sorrisos, a porta do restaurante se abriu. O pequeno sino preso acima dela soou, um toque agudo que cortou o barulho como um bisturi.


E ele entrou.


O mundo desacelerou. A música do Skank pareceu se distorcer, transformando-se em um zumbido grave. As conversas ao meu redor se tornaram um murmúrio indistinto, como o som de insetos em uma noite de verão. Todo o meu foco, toda a minha consciência, foi sugado para a figura parada na porta.


Senhor Brunner.


Ele não usava o terno de linho da escola. Estava com uma calça cáqui e uma camisa polo azul-clara. Roupas casuais que, de alguma forma, o tornavam ainda mais sinistro. Parecia um predador usando a pele de um pai de família suburbano. Ele parou por um momento, varrendo o restaurante com aquele seu olhar de inseto. E então seus olhos encontraram os meus.


E ele sorriu.


Aquele sorriso branco, largo e perfeito. O sorriso que não alcançava seus olhos. O sorriso que dizia que ele sabia exatamente onde eu estava, quem eu era, e que o jogo havia acabado.


Minha respiração ficou presa no peito. Meu corpo ficou gelado. O gosto na minha boca não era de bolo de chocolate ou de batata frita. Era de cinzas.


— Olha só, que coincidência! — minha mãe disse, a voz cheia de uma surpresa inocente. — Não é o seu professor substituto?


Lucas, ao meu lado, ficou subitamente quieto. Seus pés pararam de se mover. Pelo canto do olho, vi que sua mão, que antes segurava um anel de cebola, estava agora fechada em punho ao lado do prato. Seus ombros estavam tensos de novo, mas desta vez, a tensão não se dissipou. Todo o seu corpo estava rígido, como uma mola prestes a se soltar.


Brunner ergueu a mão em um aceno lento e deliberado em minha direção, um gesto que era ao mesmo tempo um cumprimento e uma sentença. E então, ele começou a caminhar. Não para o bar, não para uma mesa vazia, mas em um caminho reto e inexorável.


Em direção a nós.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.