Carrousel e o Relógio de Cronos
3 O Frio por Baixo da Porta
O sinal que anunciava o fim das aulas soou como uma libertação, e a escola respondeu com a urgência de prisioneiros em fuga. Em segundos, os corredores se encheram com o estrondo de carteiras sendo arrastadas, zíperes de mochilas sendo fechados e o trovão de centenas de tênis correndo para a liberdade. Eu me movi com a maré humana, meu cérebro ainda latejando, sentindo-me mais arrastado do que andando por vontade própria.
As últimas aulas haviam sido uma tortura em câmera lenta. Depois da prova de química, eu tinha passado por duas aulas de história e uma de português, mas poderia muito bem ter estado em outro planeta. Minha mente se recusava a focar. Cada vez que eu tentava me concentrar nas datas da Revolução Francesa ou na sintaxe de uma oração subordinada, a imagem do Senhor Brunner se sobrepunha ao texto. Aquele sorriso esticado. Aqueles olhos de inseto. A sensação de frio que parecia emanar dele como o calor de um forno.
A prova tinha sido um desastre. Eu gostava de química, de verdade. Havia uma lógica na forma como os elementos se combinavam e reagiam, uma ordem no caos do universo que, de alguma forma, me acalmava. Eu tinha estudado, sabia a diferença entre uma ligação iônica e uma covalente. Mas, naquela sala, sob aquele olhar, o conhecimento simplesmente evaporou. As letras na folha da prova iniciaram sua dança zombeteira habitual, transformando "Cloreto de Sódio" em "Corleto de Sádio". Os números das massas atômicas se embaralharam, e a sensação constante de estar sendo observado, dissecado, transformou meu cérebro em uma pasta inútil. Eu preenchi o que pude, mas sabia que tinha entregue uma folha de respostas que parecia mais um pedido de socorro criptografado do que um exame.
A multidão começou a se dissipar quando chegamos ao pátio principal. Lucas caminhava ao meu lado, vibrando com a energia do fim do dia.
— Cara, que dia. Aquele professor novo, Brunner, né? Que cara estranho. Ele ficou andando pela sala o tempo todo, parecia uma coruja procurando um rato. Mas pelo menos ele não foi tão carrasco quanto a Dona Célia teria sido. — ele comentou, ajeitando a mochila no ombro.
— É. Estranho. — foi tudo o que consegui dizer. A palavra parecia pequena demais para descrevê-lo.
— Enfim, te vejo na hamburgueria? Meu pai já deve estar chegando. Ele me mata se eu me atrasar. — disse Lucas, já se afastando em direção ao portão principal. — Tenta não ser abduzido por alienígenas até lá!
— Vou fazer o possível. — retruquei, forçando um meio sorriso.
Observei enquanto ele se misturava aos últimos alunos que saíam, sua figura energética desaparecendo na luz dourada do fim da tarde. O pátio se esvaziou rapidamente. O barulho foi substituído por um silêncio crescente, pontuado apenas pelo farfalhar das folhas secas empurradas pelo vento. Como de costume, minha mãe se atrasaria um pouco para me buscar. Eu normalmente esperava em um dos bancos do pátio, mas hoje, a ideia de ficar sentado ao ar livre, exposto, me causava um desconforto inexplicável.
Além disso, minha bexiga protestava depois de horas de ansiedade. Decidi ir ao banheiro.
O caminho de volta para dentro do prédio da escola foi a primeira indicação de que algo estava fora do lugar. O silêncio não era pacífico; era pesado, expectante. Meus passos ecoavam nos corredores de ladrilho de uma forma que não faziam quando estavam cheios de gente. Era um som solitário e alto, como se eu estivesse anunciando minha presença para qualquer coisa que pudesse estar escutando. As portas das salas de aula estavam todas abertas, revelando fileiras de carteiras vazias e lousas com garranchos de giz semi-apagados. As sombras, alongadas pelo sol poente que entrava pelas janelas do corredor, pareciam tentáculos escuros se esticando pelo chão.
Cada pequeno som era amplificado. O zumbido das lâmpadas fluorescentes que ainda não haviam sido desligadas. O gotejar de uma torneira em algum lugar distante. O rangido de um armário de metal se acomodando. Um arrepio percorreu minha espinha, e não era por causa do vento que entrava por uma janela quebrada no fim do corredor. Era o mesmo alarme interno de antes, o mesmo aviso silencioso de que eu não estava sozinho. Tentei me convencer de que era paranoia. A escola vazia sempre era meio sinistra. Mas o sentimento era mais profundo, mais primal.
O banheiro masculino ficava no final do corredor do térreo, em uma área mais escura que não recebia muita luz natural. A porta estava entreaberta. Empurrei-a e entrei. O cheiro familiar de desinfetante barato e mofo me atingiu. As luzes, como sempre, estavam piscando erraticamente, lançando o pequeno cômodo em uma dança de luz e sombra. Havia cinco cabines alinhadas contra a parede do fundo e uma fileira de pias e espelhos manchados na parede oposta. Estava completamente vazio.
Escolhi a última cabine, a que ficava mais no canto. Um velho hábito. Era a que oferecia mais privacidade, e a sua posição tornava impossível para alguém que entrasse no banheiro saber se ela estava ocupada apenas olhando por baixo da porta. Entrei, tranquei o ferrolho enferrujado e me aliviei. O som pareceu profanamente alto no silêncio do lugar.
Foi quando terminei, que ouvi a porta principal do banheiro se abrir.
Meu corpo inteiro congelou. Cada músculo se contraiu. Prendi a respiração, o coração subitamente martelando na minha garganta como um tambor de guerra. Eu não tinha ouvido passos no corredor. Nenhuma voz. A porta simplesmente se abriu e se fechou com um clique suave.
Esperei pelo som de passos vindo em direção às cabines, o som da descarga de um mictório, o barulho de uma torneira se abrindo.
Nada.
Apenas um silêncio profundo, mais pesado do que antes. Um silêncio que parecia ter peso e textura. A luz fluorescente acima da minha cabine escolheu aquele exato momento para piscar e morrer, mergulhando meu pequeno cubículo em uma penumbra quase total. Eu conseguia ver apenas o contorno fraco da porta através das frestas.
Então, ouvi o som.
Não eram passos. Era um som arrastado, úmido. Um thump... shhhh... thump... shhhh... como se algo pesado com uma textura áspera estivesse sendo arrastado pelo chão de ladrilhos. E junto com o som, veio outro. Um cheiro. O cheiro de desinfetante foi subjugado por algo mais forte, mais primitivo. Cheirava a pelo molhado de cachorro, terra úmida de cemitério e algo metálico e rançoso como sangue velho.
Um pânico gelado subiu pela minha espinha. Minha respiração ficou presa nos pulmões, queimando, mas eu não ousava soltá-la. Eu estava completamente imóvel, encolhido no canto da cabine escura, tentando me fundir com as paredes de azulejo frio. Quem quer que fosse, ou o que quer que fosse, estava se movendo lentamente pelo banheiro.
Então veio o som de algo fungando. Um som gutural, profundo, animalístico. Estava farejando o ar. Thump... shhhh... O som parou bem no meio do banheiro, a alguns metros da minha cabine. O silêncio voltou, mas agora estava carregado de uma tensão que era quase física. Eu podia sentir. A presença do outro lado daquela porta fina de metal era maligna, faminta. Eu podia ouvir minha própria pulsação nos meus ouvidos, um ritmo frenético que eu tinha certeza de que ecoaria pelo banheiro inteiro.
Minutos se passaram, ou talvez apenas segundos. O tempo se desfez, se esticou como um elástico prestes a arrebentar. Eu podia visualizar a criatura lá fora. Não sabia como era, mas minha imaginação corria solta, pintando imagens de garras, presas e olhos brilhando na penumbra. Estava me caçando. Estava esperando. Sabia que eu estava ali.
De repente, um som cortou a tensão, vindo de fora do banheiro.
— ...só mais essa sala e podemos ir embora, Valdir. Não esquece de trancar o portão dos fundos.
Era uma voz masculina, distante, abafada, vindo do corredor. A voz de um zelador, talvez. Um som normal. Um som humano.
Dentro do banheiro, a reação foi imediata.
Ouvi um rosnado baixo, um som de pura frustração e fúria que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem. O som arrastado recomeçou, mais rápido desta vez, movendo-se em direção à saída. A porta do banheiro se abriu com um rangido e bateu com força, o som ecoando como um tiro no corredor silencioso.
E então, silêncio.
Eu não me movi. Fiquei ali, agachado na escuridão, meu corpo tremendo incontrolavelmente. Contei até sessenta, devagar. Depois de novo. Eu ainda podia sentir o eco daquela presença, a mancha fria que ela deixou no ar. E o cheiro... o cheiro ainda estava lá, uma prova nauseante de que eu não tinha imaginado nada.
Com as mãos trêmulas, destranquei o ferrolho. O clique pareceu um trovão. Empurrei a porta da cabine lentamente. O resto do banheiro ainda era iluminado pela luz piscante da outra lâmpada. Não havia ninguém. Mas no chão de ladrilhos, perto da pia, havia uma pequena poça de água suja que não estava ali antes. E no meio dela, uma marca. Não era uma pegada humana. Era grande demais, com três garras longas e grossas impressas na sujeira. Parecia a pegada de um pássaro monstruoso.
Um calafrio violento me sacudiu. Eu não pensei. Apenas agi. Corri para a pia, abrindo a torneira com força e lavando as mãos com uma urgência desesperada, como se pudesse lavar o medo da minha pele. O rosto que me encarou no espelho manchado era de um estranho. Pálido como um fantasma, olhos arregalados de terror.
Eu tinha que sair dali. Agora.
Saí do banheiro em alta velocidade, praticamente correndo. O corredor, que antes parecia sinistro, agora parecia um campo de caça aberto. Eu não olhei para os lados, apenas para a frente, em direção à luz do sol no final do corredor que marcava a saída para o pátio. Meu coração ainda estava disparado, um pássaro frenético preso na minha caixa torácica. O som dos meus próprios tênis no chão soava como uma perseguição.
"Calma, Matheo. Calma. Você está seguro. Foi embora," eu repetia para mim mesmo em minha mente, mas a mentira não se sustentava. O que quer que fosse aquilo, agora sabia sobre mim.
Eu estava a apenas um corredor da saída. Precisava virar uma última esquina para chegar ao saguão principal que dava para o pátio. Minha mãe já devia estar lá fora, esperando em seu carro seguro e normal, em nosso mundo seguro e normal.
Não diminui a velocidade. Fiz a curva fechada, o corpo inclinado, a mochila balançando nas minhas costas, a mente focada apenas em uma coisa: sair.
E colidi com uma parede sólida.
Ou, pelo menos, foi o que pareceu. O impacto me jogou para trás, tirando todo o meu fôlego. Eu caí no chão com um baque surdo, a mochila amortecendo parte da queda. Minha cabeça girou por um segundo, pontos de luz dançando na minha visão.
A minha frente, bloqueando o caminho, estava a figura em quem eu havia batido. Uma parede de alguém.
Ofegante, esfreguei a cabeça e levantei o olhar. E meu fôlego sumiu de vez.
Fale com o autor