Caro Hobbes
1 Hobbes, ol’ buddy… I'm sorry
Notas iniciais
"Caro Hobbes,
Antes que diga, também percebi que 'caro' ficou estranho ali em cima, mas entenda que me referir a você como 'querido' deixaria a carta engraçada, e você se dispersaria do resto dela, provavelmente zombando de mim por achar fofinho.
Eu ainda não sei bem o que colocar aqui; vou tentar pelo método mais fácil... Como vai você, amigo? Já faz algum tempo desde que nos vimos pela última vez, anos, para ser exato ― digo isso me referindo à quando brincávamos por aí, principalmente nos dias de neve, como o de hoje. Lembra de quando eu te disse que o aquecimento global acabaria com a neve do inverno? Pode ficar tranquilo, ainda não aconteceu.
Para ser justo, vou te dizer um pouco sobre como eu estou; já aviso que não é interessante!
Pois bem... Eu cresci, basicamente; se ficássemos lado a lado, eu seria da sua altura. Neste momento eu estou em período livre no colégio, o meu professor de história não veio... Sabia que eu tenho quase uma dúzia de professores agora? No ensino médio é assim, um para cada matéria. E elas são difíceis, especialmente física, mas eu estou conseguindo passar de ano... Se eu não tirar notas baixas, a mamãe vai me dar um carro! Aposto que ficou surpreso com essa, hein.
Mamãe se divorciou faz um tempo, e agora trabalha; o lado bom é que eu tenho a casa só pra mim até antes de anoitecer. E quanto ao papai... Bem... Ele deve estar fazendo algo. Não vou falar mais dele porque eu o odeio, e ele também já deixou claro que me despreza; no início eu não entendia, mas aí eu percebi que ele nunca gostou realmente de mim, por causa dos 'meus problemas'.
Como eu ia dizendo, é o meu último ano, mas o chato é que não sei o que quero fazer da vida. Eu acho muito errado a pessoa ter que decidir seu futuro tão cedo, e ter que fazer uma única coisa; Leonardo Da Vinci foi quase tudo, desde pintor até médico e matemático, porque não podemos fazer desse jeito também? E para ir pra faculdade eu tenho que fazer mais exames, conseguir apenas notas altas neles e fazer outras coisas chatas, como fingir interesse infinito por algo que eu estou escolhendo aleatoriamente pra fazer a vida inteira... Já entendeu que eu não estou a fim, não é? Mas tomara que eu consiga.
Tudo bem, já chega de enrolar, isso é deprimente!... Eu sei que você não vai ler o que eu estou escrevendo, mas eu tive que fazer assim mesmo, em segunda pessoa e tudo. Eu sinto que te devo satisfações de alguma forma, mesmo que seja apenas um amigo imaginário de infância e não um ser real, e como eu já sei desse fato, não consigo te trazer de volta; já tentei, não ficou a mesma coisa! A verdade é que eu nem me lembro da última vez em que conversamos normalmente... Me desculpa por isso também. Eu sou tão idiota!
Quando nós encontramos aquele guaxinim machucado e ele morreu, eu fiquei dias a fio com medo de te acontecer a mesma coisa, no final eu te pedi pra nunca ir a lugar algum e você me disse para eu não me preocupar... Eu sinto muito por ter te deixado ir. Na época eu não sabia que os remédios que os meus pais me davam serviam pra isso; deveríamos ter brincado mais na neve, enquanto eu ainda conseguia interagir verdadeiramente com você... Mas o que foi somente culpa minha foi ter dado a sua pelúcia para a filha do tio Max. Eu juro que não queria ter feito isso, mas eu tinha que provar para a minha mãe que não era mais criança, e eu estou em um ponto da vida em que o orgulho não permite fazer algumas coisas, como pedir o 'você de pelúcia' de volta.
Lembra que vivíamos falando mal dos adolescentes? Agora eu também sou um, infelizmente. A verdade é que eu quero a minha infância de volta, mas não vou fazer a hipocrisia de dizer que sou só eu, porque eu já percebi que, no fundo, muitos dos que cresceram querem isso...
Se você pudesse me ver, diria que estou solitário demais... Estaria certo. As pessoas aqui na escola são bastante seletivas quando se trata de amizades, e eu não me encaixo bem em nenhum grupo; não que eu queira fazer parte de um, a maioria deles é de gente imbecil, mas faz falta ter com quem falar, às vezes... Susie Derkins fala comigo, agora ela é legal, mas o namorado-grude dela não faria falta nenhuma no mundo, é o mais idiota de todos! Queria que um dia ela me visse do modo como eu a vejo e deixasse esse mané pra lá, só que eu acho que ela riria de mim se descobrisse isso. Paciência.
Então... Acho que é isso, Hobbes. Eu sinto muito a sua falta, do seu jeito cheio de atitudes e do modo de pensar independente; acredite quando eu digo que você era mais esperto do que muita gente um dia vai ser. Queria continuar tendo o que escrever aqui, mas as minhas ideias estão acabando... Sendo que também é bastante difícil fazer isso, chega a ser doloroso me despedir. Pensei por alguns segundos em parar simplesmente, mas acho que você merece uma conclusão decente minha; se fosse o contrário, você faria o mesmo... E o primeiro sinal tocou, há trinta segundos, preciso ir para a sala assistir à próxima aula, e começar a chorar seria uma péssima ideia.
Felizmente o professor de filosofia sempre se atrasa, mas isso não muda o fato de a aula dele ser a melhor do mundo; aposto que vocês dois se dariam muito bem numa conversa... E a nossa matéria agora é sobre um cara com o mesmo nome que o seu, um tal de Thomas, acredita?
Desta vez é isso, velho amigo. Desculpe não ter sido pra sempre. Eu teria feito diferente se soubesse que acabaria assim, mas vou guardar sua lembrança como a melhor de todas.
Adeus, querido Hobbes (que se dane o lance do 'caro'),
De seu amigo,
Calvin."
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