Carnaval no Mar da Capital
3 Oh, can't you see? You belong to me
Notas iniciais
Capítulo 3 — Oh, can't you see? You belong to me
O caminho até o prédio de Anna não foi muito longo, a ideia que Amanda teve de pintar nossos rostos para parecermos integrantes do Kiss não foi má, provavelmente ganhamos tempo com isso. Ao descer do carro, minha irmã seguiu pelo bloco, indo direto para o interfone. Apertou o botão que indicava o apartamento 307 e esperamos pouco tempo até que abrissem a porta. Ouvimos o 'click' que destravava a fechadura, adentramos e seguimos para as escadas, porque para Amanda, não há sentido em subir três míseros andares usando o elevador, fora que ela morre de medo.
Chegamos e entramos sem bater. A porta estava aberta. Naquela casa, entrávamos sem cerimônias, Anna e Amanda são amigas desde o fundamental. Uma frequenta a casa da outra desde muito tempo e são realmente muito próximas. Anna age de um jeito muito mais fácil que o da minha irmã. Ela sempre foi a mais enérgica, a mais sociável e extrovertida. De fato, Amanda melhorou muito, mas graças a quem? Foi Anna quem arrastou ela para aquele Carnaval onde ela estava vestida de Cindy Lauper, foi Anna quem abriu esse mundo mágico e mostrou para Amanda a essência da vida. Há boatos de que as duas dividiram a primeira vez. São boatos, mas não duvido nada.
Quando entramos, já havia algumas pessoas 'festejando'. O que se entende por festa na casa da Anna é: pessoas reunidas jogando vídeo game, rpg, card-games, cantando e dançando. Geralmente suas festas são fartas de comida e bebida, porque as pessoas levam muitos quitutes. Amanda gosta de tomar conta da cozinha e fazer o prato principal da noite, enquanto eu estou jogando com o pessoal. Normalmente é assim.
Foi em uma dessas festas que conheci meu namorado. Amigo de um amigo da Anna, que fazia o mesmo curso que eu, mas que eu nunca tinha visto na vida. Nesse dia, Amanda e Anna estavam na cozinha, só as duas, provavelmente conversando sobre algo que somente elas entendiam. Eu estava esperando o tal cara do mesmo curso que eu, porque Anna resolveu que seria legal a gente conversar, para ele se integrar com a galera. Pelo menos tínhamos algo em comum, por isso não me opus. Acontece, que depois que ele chegou, nós nos demos muito bem, tão bem que começamos a namorar no mês seguinte. Isso me fez lembrar de uma coisa.
Entramos e cumprimentamos o pessoal, Amanda foi atrás de Anna. Fui junto, para confirmar algo.
– Meu amor~ – Amanda foi chamando enquanto atravessava o corredor. Paramos na porta do quarto dela. Estava aberta, e no momento, Anna estava abastecendo a água da gaiola do seu porquinho da índia. Ela nos olhou e deu uma gargalhada, provavelmente por causa de nossas caras pintadas.
– Kiss? Quando será que vou ver vocês usando máscaras de Carnaval decentes?
– Não, Anna. Isso não vai acontecer. – Falei. – Você por acaso chamou o Júlio?
– Chamei. Mas acho que ele não sabe que você está aqui. Ele disse que você estaria por aí fazendo qualquer coisa com a Amanda. Ele parecia chateado. – Ela riu.
– Estou de consciência limpa. Hoje não é nosso aniversário, nem nada. – Todos rimos.
– J., que tal você me deixar aqui com a Anna e arrumar alguma coisa pra fazer bem ali, na sala?
Amanda me lançou aquele olhar que dizia "por favor, querido, vá embora daqui" e não pude evitar. Deixei as duas no quarto e fui para a sala jogar com as pessoas. Daquela vez não havia muitos conhecidos, só um ou dois, na verdade. Mesmo que me sentisse um pouco tímido, dei de ombros e me sentei perto das pessoas que estavam jogando Soul Calibur IV. Estava todo mundo muito entretido, e as partidas estavam interessantes. Conversei com o pessoal e entrei na fila para jogar. Ao meu lado, estava um garoto loiro. Ele passou o tempo todo calado, com a feição um pouco... enfadada. Era como se ele não quisesse estar ali.
Se Anna aparecesse naquela sala naquele momento, daria uma bronca em todo mundo, porque todo mundo não dava atenção para o mais novo amigo dela. Ela era simplesmente assim, gostava de fazer as pessoas sentirem que eram da família. Decidi conversar com ele, pelo menos tentar.
– Oi. – Falei, chegando um pouco mais perto. Ele me lançou um olhar e sorriu tímido.
– Olá.
– Mais um amigo da Anna que não conheço? – Ele deu uma risada baixa agora. Fez que sim e respondeu com um "provavelmente". – Onde vocês se conheceram?
– Estudei com ela e com Amanda. Na verdade, você sabe. Anna fez psicologia, Amanda História e eu era de Comunicação.
– Comunicação! – Me entusiasmei. – Pô, cara, que bacana. Faço Letras, Português. – Sorri. Felizmente, a conversa com ele estava ficando boa.
– Sabe, eu comecei em Letras, fazia Inglês. Transferi depois do terceiro semestre.
– Acabei de passar do terceiro.
– Legal. – A partir daí, senti que o assunto ia morrer, mas continuei insistindo.
– Mas e aí? Conhece alguém na festa?
– Ninguém. – Riu. – Saio com aquelas duas faz anos, mas nunca estive em uma dessas festas. Nunca gostei de festas. – E abaixou o tom de voz.
– Só fui gostar depois de um tempo. Essas festinhas da Anna me ajudaram muito. – Olhei em volta e vi a janela vazia. – Quer dar uma escapada pra lá? – Ele fez que sim.
Nos afastamos para a janela, que dava de frente para um ipê que ficaria muito bonito em setembro.
– Se importa se eu fumar? – Ele perguntou. Fiz que não e passamos o tempo olhando para a paisagem da quadra. Parece que os outros esqueceram minha vez de jogar, mas estava bom assim. – Sabe, achei que seria difícil sair de casa. – De repente ele disse.
– Oh... Você não é de sair muito?
– Faz um tempo que evito. – Pensei em perguntar o motivo, contudo, acho que seria rude, nem conheço o cara direito.
– Você é amigo da Amanda e sabe como ela é. – Ele fez que sim. – Ela sempre foi difícil pra algumas coisas, mesmo que ela seja esse doce que é, era difícil fazer ela se abrir com as pessoas. Um dia, isso mudou, não sei porque. Mas ela me disse uma vez que percebeu que fora da janela do quarto dela tinha um mundo lindo, e uma vida para viver. De repente ela quis celebrar isso.
– Ela chama isso de 'fazer com que os dias contem'. – ele deu uma tragada profunda, para depois deixar a fumaça sair pelos lábios. – Admiro ela por isso. Você é o irmão da Amanda, não é?
– Foi mal, nem me apresentei direito. – Cocei a nuca, meio constrangido. Ele me estendeu a mão.
– Meu nome é M. E o seu?
– J. – retribuí o aperto de mão. – Meu nome é J.
Nessa hora, ouvi a porta do apartamento bater com força. Todos pararam o que estavam fazendo para olhar quem havia chegado.
– J., está tudo bem? – Fiz que sim com a cabeça.
Júlio parecia irritado, naquela hora, soube que ele estava com ciúmes, engoli seco e pedi licença para M.
– Opa, me namorado chegou... Foi bom conversar com você. Desculpe por isso.
– Tudo bem. Podemos conversar depois. – Ele sorriu.
Caminhei até meu namorado, sorrindo.
– Olá, Júlio! – Beijei sua bochecha.
– Você disse que estaria na Amanda.
– E eu estava. Mas ela veio para a festa e vim junto, uai.
– Sim.
– O que foi? Júlio, está tudo bem?
– Está. – Ele olhou em direção à janela. – Quem é aquele?
– Ah, o M.? É amigo das meninas. Gente boa.
– É, gente boa. Cadê a Anna?
– Lá dentro com a Amanda. – Ele suspirou forte.
– Estou com sede. Preciso beber alguma coisa.
– Vai lá beber. Na mesa tem de tudo. – Ele me lançou um olhar congelante. Me empurrou de leve para o lado e foi direto para a garrafa de uísque. Para melhorar, bebeu uma dose dupla de uma vez. E provavelmente não comeu nada antes disso. Fui para perto, só para supervisionar.
– Cuidado com a bebida. – Ele fingiu que não me ouviu. – Hey! Você tá me ouvindo? Não vá beber muito, ou vou dormir na casa da Amanda.
– Pode ir com ela.
– E deixar você voltar pra casa, dirigindo bêbado? Por favor... – Me levantei e ele segurou meu pulso com força. – Você e aquele cara. Vocês não estavam conversando.
– Não começa. Não aqui. – Falei usando um tom firme, olhando para ele direto nos olhos. – Nós estamos em uma festa, na casa da Anna. Nós vamos nos divertir, não vamos arruinar a noite de todo mundo e vai ficar tudo bem. Amanhã a gente conversa. – Saí em direção ao grupo do vídeo game. Agora, eles estavam jogando Just Dance. Decidi deixar Júlio para trás e ir jogar. Não queria problemas naquele dia. Só queria adiar os problemas. Entretanto, meu namorado ciumento não pensava da mesma forma.
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